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Mundo

Trump reacende tensões geopolíticas e culturais nas Américas

Provocações reabrem feridas históricas e revelam estratégias de controle narrativo, enquanto China e México emergem como atores centrais em disputas globais

Publicado em 09/01/2025 10:49 - Semana On

Divulgação Foto: Alfredo Estrella/AFP

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As declarações recentes de Donald Trump sobre renomear o Golfo do México e anexar territórios como Canadá e Panamá escancararam não apenas sua estratégia de provocação, mas também tensões históricas entre os Estados Unidos e seus vizinhos. Em resposta, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, ironizou ao sugerir que os EUA fossem chamados de “América Mexicana”, destacando o papel da narrativa na geopolítica e abrindo novas discussões sobre poder, soberania e história colonial.

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A retórica de Donald Trump não é novidade, mas continua eficiente em cumprir sua função: desviar atenções, manter-se no centro do debate público e reforçar as divisões ideológicas entre seus apoiadores e críticos. O comentário sobre renomear o Golfo do México para “Golfo da América” é um exemplo cristalino. Enquanto isso, sua ameaça de “tomar” o Canadá e a Groenlândia ecoa um padrão maior de desrespeito às soberanias alheias. A presidente mexicana Claudia Sheinbaum reagiu com sarcasmo, mas sua resposta vai além da ironia. Ela resgata uma história marcada por perdas territoriais e luta pela autonomia.

Antes da Guerra Mexicano-Americana (1846-1848), vastas regiões do atual sul dos Estados Unidos, incluindo Califórnia, Texas e Arizona, eram território mexicano. Este período histórico está carregado de ressentimento. A doutrina do “Destino Manifesto”, que justificava a expansão territorial americana como um desígnio divino, custou ao México mais da metade de seu território original. O mapa do século 17 que Sheinbaum exibiu em sua resposta pública, onde parte do atual território dos EUA aparece como “América Mexicana”, é um lembrete dessa trajetória.

“O Golfo do México é assim chamado desde 1607, e isso é reconhecido internacionalmente”, afirmou Sheinbaum, em tom firme. Suas palavras destacam que, embora o México enfrente desafios internos, como a crise de segurança, o país é soberano e tem o direito de resistir à tentativa de redefinição simbólica de seu território.

Uma tática deliberada de Trump

A estratégia discursiva de Trump, marcada por declarações absurdas e aparentemente improvisadas, não é aleatória. Como aponta o cientista político norte-americano John Mearsheimer, “o poder das palavras na política internacional está em sua capacidade de mobilizar paixões e moldar agendas” (Mearsheimer, The Tragedy of Great Power Politics). Trump explora exatamente isso. Ele mistura provocações com ameaças reais, como tarifas sobre produtos mexicanos e acusações contra o governo de Sheinbaum, para negociar em uma posição de força.

Ainda assim, sua retórica também serve para desviar o foco de questões domésticas complexas, como a dependência econômica dos EUA em relação à China. A interdependência entre as duas potências dificulta qualquer escalada real, mas alimenta discursos nacionalistas. Declarações como a de Trump sobre o Golfo ou a Groenlândia criam uma cortina de fumaça útil para seus objetivos políticos imediatos.

Paralelos com o Brasil e outras democracias fragilizadas

A dinâmica de Trump lembra práticas vistas no Brasil durante o governo de Jair Bolsonaro. Assim como Trump, Bolsonaro usava a atenção pública para mascarar problemas mais profundos, como as acusações de corrupção em seu governo ou sua gestão controversa da pandemia de Covid-19.

O sociólogo Zygmunt Bauman, ao discutir a sociedade líquida, argumenta que “na ausência de estruturas sólidas, a atenção se torna a mercadoria mais preciosa” (Modernidade Líquida). Trump e Bolsonaro exploraram exatamente essa lógica, manipulando o debate público por meio de provocações aparentemente triviais, mas carregadas de significado para suas bases políticas.

Impactos e possíveis desdobramentos

As tensões entre EUA e México vão além da retórica. Qualquer medida protecionista, como tarifas, poderia prejudicar ambos os países. Em 2022, os EUA foram responsáveis por 81% das exportações mexicanas, enquanto o México é o segundo maior destino de produtos norte-americanos, segundo dados da Câmara de Comércio dos EUA. A interdependência econômica e as pressões migratórias tornam um conflito direto pouco provável, mas as palavras inflamadas ampliam fissuras sociais e culturais.

Além disso, o ressurgimento da China como uma potência global amplifica o papel da América Latina no cenário geopolítico. O México, em particular, está posicionado como um ator estratégico, dada sua proximidade aos EUA e sua relevância como alternativa à dependência de produção chinesa.

E agora?

A troca de provocações entre Sheinbaum e Trump é mais do que uma batalha retórica; é um reflexo de um mundo onde símbolos, narrativas e manipulação midiática moldam o poder. Para a América Latina, as lições da história continuam vivas, exigindo vigilância constante para resistir a tentativas de deslegitimação e reafirmar sua soberania. Na era das democracias frágeis, a capacidade de separar provocação de intenção real será essencial para evitar que palavras virem armas.

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