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Mundo

Trump intensifica repressão a imigrantes e coloca brasileiros na mira

EUA ampliam perseguição e geram clima de medo generalizado

Publicado em 12/02/2025 10:40 - Semana On

Divulgação Casa Branca

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Desde sua volta ao poder, Donald Trump tem promovido um endurecimento sem precedentes contra imigrantes irregulares nos Estados Unidos. Sua nova abordagem vai além do controle das fronteiras, expandindo a atuação do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE) para o interior do país e permitindo remoções expressas, sem necessidade de audiência judicial. Entre os principais afetados, estão os brasileiros, uma comunidade crescente que, ao contrário de outras nacionalidades latinas, evita a travessia clandestina pelo México e chega aos EUA com vistos temporários.

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Segundo o Departamento de Segurança Interna (DHS), cerca de 230 mil brasileiros vivem sem documentação legal nos Estados Unidos. Trump mira diretamente esse grupo ao eliminar proteções anteriores e ampliar os poderes dos agentes migratórios, que agora podem deter e deportar imigrantes em locais antes considerados sensíveis, como escolas, hospitais e igrejas.

Deportações sem precedentes e expansão da repressão

As novas regras instauradas pelo governo Trump representam uma guinada radical em relação à administração Biden, que, apesar do número recorde de deportações, priorizava a expulsão de imigrantes com antecedentes criminais e limitava a remoção imediata a um raio de 160 quilômetros das fronteiras. Agora, a política de remoção acelerada pode ser aplicada em qualquer parte dos EUA, permitindo que agentes de imigração deportem imigrantes sem sequer uma audiência judicial, caso eles não consigam comprovar que vivem no país há pelo menos dois anos.

“Ainda não sabemos o impacto de longo prazo ou a longevidade destas medidas, mas há um esforço muito claro em estabelecer as bases para aumentar a capacidade de realizar deportações no interior dos EUA”, avalia Colleen Putzel, analista do Instituto de Política Migratória.

Outra mudança drástica é a eliminação de critérios que antes poderiam evitar a deportação, como a ausência de antecedentes criminais ou o fato de o imigrante ter uma família estabelecida no país. Isso gerou um clima de apreensão generalizada entre os brasileiros e outros grupos de imigrantes.

“Autodeportação”: medo leva brasileiros a voltarem por conta própria

A escalada da repressão já tem impactos visíveis. Escritórios de advocacia nos EUA relatam um aumento significativo no número de brasileiros que cogitam deixar o país voluntariamente para evitar uma detenção inesperada.

“Tenho clientes que consideram voltar para o Brasil, mesmo que tenham casos fortes na Justiça, porque não querem parar numa detenção do ICE”, afirma Karen Hoffmann, advogada especializada em imigração na Filadélfia. “Estas pessoas estabeleceram vidas e negócios aqui. Além do sofrimento humano, será uma grande perda se forem deportadas.”

Esse temor se espalha por estados onde a presença brasileira é forte, como Massachusetts e Flórida, onde comunidades inteiras vivem sob tensão diante da perspectiva de batidas migratórias.

Brasil questiona condições de deportação, mas mantém acordo de extradição

A crise migratória também tem provocado tensões diplomáticas. Após a posse de Trump, o Itamaraty pediu esclarecimentos aos EUA sobre a chegada de brasileiros deportados algemados e submetidos a tratamento degradante. O governo brasileiro classificou as condições como “inaceitáveis”, mas reafirmou que mantém o acordo de 2018, assinado na gestão de Michel Temer, que facilita a extradição de cidadãos sem permissão de permanência nos EUA.

Mesmo com esse posicionamento, a postura do Brasil contrasta com a dos EUA no tratamento a imigrantes. Enquanto os americanos fretam voos para deportações em massa, o Brasil segue um modelo mais brando, limitando a expulsão a casos pontuais e utilizando voos comerciais para transportar os imigrantes rejeitados.

O alerta da história

A política de Trump também levanta preocupações sobre o possível efeito desestabilizador da deportação em larga escala. Experiências anteriores mostram que a expulsão massiva de imigrantes sem suporte aos países de origem pode gerar um aumento da criminalidade e fortalecer redes criminosas transnacionais.

Nos anos 1990, os EUA deportaram milhares de jovens latino-americanos envolvidos em gangues, como a Mara Salvatrucha (MS-13) e a Barrio 18. Com governos locais frágeis e sem políticas de reinserção, essas organizações criminosas se fortaleceram, transformando países como El Salvador, Guatemala e Honduras em algumas das nações mais violentas do mundo.

“Essas deportações tiveram um papel central na transnacionalização das gangues, pois aumentaram as interações entre as gangues e cartéis de drogas”, explica Jonathan Hiskey, professor de Ciência Política na Universidade Vanderbilt. “Ao insistirem na mesma política truculenta, os EUA podem estar criando um novo ciclo de instabilidade, agora afetando ainda mais países, incluindo o Brasil.”

Jacques de Novion, pesquisador da Universidade de Brasília (UnB), alerta que a nova onda de deportações pode gerar efeitos semelhantes. “Estamos vendo a repetição das políticas de repressão e encarceramento em massa, que historicamente fracassaram”, analisa. “O governo Trump parece ignorar que jogar milhares de imigrantes de volta a países sem suporte pode gerar novos tipos de estruturas criminosas.”

Impacto econômico: quem vai substituir os imigrantes?

Além das questões humanitárias e de segurança, há um forte impacto econômico no horizonte. A estimativa é que 8 milhões de trabalhadores indocumentados sejam alvo das novas regras, afetando setores-chave da economia americana, como a construção civil, a agricultura e os serviços.

Empregadores temem um colapso da mão de obra, especialmente em estados como a Califórnia e a Flórida, que dependem de trabalhadores estrangeiros para sustentar suas economias. “Se realmente expulsarem todos esses imigrantes, não há trabalhadores americanos dispostos a ocupar esses postos nas mesmas condições”, alerta Mario Russell, diretor-executivo do Centro para Estudos de Migração de Nova York.

A repressão a imigrantes também pode afastar investimentos e desacelerar setores inteiros, em um momento em que os EUA enfrentam desafios econômicos, como a inflação e a necessidade de crescimento da força de trabalho.

Futuro incerto e resistência política

Diante do impacto potencial dessas políticas, organizações de direitos humanos e grupos de defesa dos imigrantes prometem resistência. Governos estaduais, especialmente em estados democratas como Nova York e Califórnia, já estudam medidas para proteger indocumentados de detenções arbitrárias.

Enquanto isso, a comunidade brasileira nos EUA se vê em um impasse: viver sob a ameaça constante de deportação ou tentar recomeçar a vida no Brasil, muitas vezes sem perspectiva de trabalho ou segurança.

A nova era de repressão de Trump ainda está em seus primeiros capítulos, mas especialistas alertam que seu desfecho pode ser desastroso, não apenas para os imigrantes, mas para os próprios Estados Unidos. Como a história já demonstrou, deportações em massa raramente resolvem problemas – e frequentemente criam novos.


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