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Mundo
Política externa dos EUA coloca a América do Sul em rota de colisão
Publicado em 28/03/2025 9:36 - Semana On
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A ofensiva diplomático-militar desencadeada pelos Estados Unidos na América do Sul reacendeu os fantasmas da intervenção e da instabilidade geopolítica no continente. Em um movimento coordenado e de forte impacto simbólico, a nova administração de Donald Trump iniciou uma escalada de tensões com a Venezuela ao assinar um pacto de segurança com a Guiana, ameaçar militarmente o governo de Nicolás Maduro e impor sanções severas a países que comercializem petróleo venezuelano. A tríade de ações, protagonizada pelo secretário de Estado Marco Rubio, representa uma guinada agressiva que compromete décadas de esforços diplomáticos sul-americanos em favor da paz, da soberania e da integração regional.
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A presença de Rubio na capital guianense, Georgetown, não passou despercebida. Em visita oficial, o diplomata não só firmou um acordo de cooperação em defesa com o governo local, como também verbalizou ameaças diretas à Venezuela, afirmando que “haverá consequência para agressores e aventureiros”. E completou: “Nossa Marinha é grande e pode chegar a qualquer lugar do mundo”. A fala, impregnada de retórica imperial, foi recebida com indignação por Caracas e provocou reação imediata de Maduro, que o chamou de “imbecil” e acusou os EUA de se comportarem como um império decadente que tenta impor sua vontade pela força.
Mas o pano de fundo é mais complexo e geoestratégico do que insultos entre líderes. O território de Essequibo, região rica em petróleo sob controle da Guiana, é disputado pela Venezuela há mais de um século. A disputa, historicamente mediada por fóruns internacionais, ganhou contornos explosivos em 2023, quando o governo venezuelano organizou um plebiscito polêmico e, posteriormente, anunciou a criação de uma nova província no território contestado. O gesto foi interpretado como provocativo, mas está longe de justificar a militarização da crise.
A Guiana, cuja economia foi transformada pela descoberta de reservas de petróleo nos últimos dez anos, pode se tornar, em 2025, o maior produtor mundial de petróleo per capita, superando Catar e Kuwait. Essa riqueza recém-descoberta a torna uma peça cobiçada no tabuleiro energético global. Para os EUA, manter influência sobre Georgetown significa não apenas conter a presença chinesa e russa na região, mas também controlar uma nova fronteira energética.
O pacto de defesa firmado com Washington coloca a Guiana sob uma espécie de guarda-chuva militar norte-americano — um movimento que, segundo o ex-chanceler brasileiro Celso Amorim, “rompe o princípio de solução pacífica das controvérsias e agrava o risco de uma confrontação armada nas Américas” (entrevista ao El País, dez. 2023). Amorim, enviado especial do presidente Lula para mediar a crise, tem reiterado a posição histórica do Brasil de neutralidade ativa e promoção do diálogo como única via legítima para resolver disputas territoriais.
A política de confronto ganha contornos ainda mais graves com o anúncio das tarifas unilaterais impostas por Trump. A partir de abril, qualquer país que comprar petróleo venezuelano estará sujeito a uma sobretaxa de 25% no comércio com os EUA. A medida atinge em cheio economias emergentes como China, Índia, países europeus e, especialmente, o Brasil — que recentemente retomou acordos energéticos com Caracas, inclusive reativando a compra de eletricidade para Roraima, único estado brasileiro ainda fora do Sistema Interligado Nacional.
A retaliação tarifária também mira a crescente presença da Venezuela no mercado internacional de petróleo. Em 2024, as exportações aumentaram 10,5%, alcançando o maior patamar desde 2019, com 772 mil barris diários. Sob Joe Biden, licenças especiais haviam permitido que empresas como a Chevron, Eni e Repsol retomassem operações no país e aliviassem parcialmente o cerco econômico. A reversão dessa política por Trump fecha uma janela de alívio e representa, segundo o economista venezuelano Francisco Rodríguez, “um retrocesso humanitário” (em entrevista à Bloomberg, mar. 2024), dado o impacto devastador que o isolamento econômico tem sobre a população.
Para o Brasil, as implicações são profundas. Além do potencial impacto comercial direto, o país se vê novamente na posição delicada de tentar equilibrar sua liderança regional com uma política externa baseada na não intervenção e no multilateralismo. Ao mesmo tempo, precisa proteger seus interesses energéticos e sua relação estratégica com vizinhos com os quais compartilha fronteiras e infraestrutura vital.
Há ainda uma dimensão histórica que não pode ser ignorada. Desde a Doutrina Monroe, proclamada em 1823, os Estados Unidos se consideram “guardiões” do hemisfério ocidental — uma visão que serviu de justificativa para dezenas de intervenções militares ao longo do século XX. No entanto, em pleno século XXI, essa postura anacrônica colide com os princípios democráticos e com o direito internacional.
Como alertou recentemente o filósofo e sociólogo Boaventura de Sousa Santos, “a América Latina vive sob o risco permanente de um autoritarismo externo, legitimado por uma narrativa de ‘salvação democrática’ que encobre interesses econômicos e geopolíticos profundos”.
O reposicionamento agressivo dos EUA na América do Sul deve ser entendido não como um episódio isolado, mas como parte de uma estratégia mais ampla de contenção à emergência de novas potências e à reconfiguração do poder global. Em tempos de multipolaridade, alianças baseadas em intimidação, e não em cooperação, revelam mais sobre a insegurança de quem as propõe do que sobre a ameaça que buscam enfrentar.
Mais do que nunca, a América do Sul precisa de maturidade diplomática, coragem política e uma visão humanista e soberana para impedir que o continente volte a ser palco de guerras por procuração e conflitos que jamais foram seus.
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