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Mundo
Escalada da violência e aliança com os EUA alimentam permanência de Netanyahu no poder
Publicado em 19/03/2025 10:36 - Semana On
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Na madrugada desta terça-feira (18), Israel retomou os bombardeios à Faixa de Gaza, resultando em mais de 400 mortes em menos de 24 horas, entre elas mais de 300 crianças e mulheres, segundo o Ministério da Saúde do enclave palestino. A ação, que coloca um ponto final na trégua relativa mantida nos últimos dois meses, não é apenas uma resposta militar ao Hamas, mas um movimento estratégico de Benjamin Netanyahu para blindar-se das investigações de corrupção que ameaçam seu futuro político e impulsionar um projeto de anexação territorial que vem sendo articulado há anos.
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O governo dos Estados Unidos foi previamente informado dos ataques e deu aval à decisão, fortalecendo ainda mais a aliança entre Netanyahu e Donald Trump, que vê seus interesses econômicos se alinharem ao avanço israelense sobre Gaza. Se, para o Hamas, a guerra é um fator de sobrevivência política, permitindo que o grupo se mantenha como força dominante na Palestina, para Netanyahu o prolongamento do conflito é uma questão de vida ou morte política.
A política do caos e a blindagem de Netanyahu
O professor Michel Gherman, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), enxerga nos recentes bombardeios uma tentativa clara de desviar o foco das investigações que cercam Netanyahu e seu governo. A crise conhecida como “Qatar Gate” revelou que assessores do primeiro-ministro receberam dinheiro da monarquia do Qatar, país que financia tanto o Hamas quanto as negociações pelo cessar-fogo.
“A decisão de retomar os ataques a Gaza é uma tentativa de golpe para se manter no poder”, analisa Gherman. “Os bombardeios são uma forma de silenciar as denúncias e postergar o avanço das investigações.”
A tese é reforçada pelo afastamento repentino de Ronen Bar, chefe da agência de segurança interna israelense Shin Bet, que teria resistido às pressões para interromper a apuração do caso. Paralelamente, Netanyahu conseguiu adiar um depoimento crucial que daria esta semana, diretamente relacionado às acusações de corrupção que enfrenta.
Mas o escândalo do Qatar Gate é apenas um dos pilares da guerra calculada que Netanyahu conduz. O plano de anexação de Gaza, conforme explica a professora Rashmi Singh, especialista em Oriente Médio da PUC Minas, também é um fator determinante para a escalada do conflito.
“A retomada da matança de civis em Gaza sob o pretexto de combater o terrorismo é parte de uma estratégia de ocupação ilegal e anexação de terras”, argumenta Singh. “Israel está usando a guerra como ferramenta política para seus próprios objetivos.”
Apoio dos EUA e a sombra de Trump
A guerra em Gaza também reforça um alinhamento ideológico e econômico entre Netanyahu e Donald Trump. Os Estados Unidos seguem como o principal fornecedor de armas, inteligência militar e suporte diplomático a Israel. A retomada dos ataques ocorre com o respaldo da Casa Branca, que justificou a ofensiva com uma declaração contundente: “As portas do inferno se abrirão sobre quem ataque Israel.”
Mas as portas do inferno já foram escancaradas há muito tempo, como indicam os números do conflito. Desde o início da ofensiva israelense, mais de 48.500 palestinos foram mortos, segundo dados da ONU e organizações humanitárias. No campo oposto, o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023 matou cerca de 1.100 israelenses.
Trump já manifestou abertamente seu interesse na “reconstrução” de Gaza, com projetos privados que incluem a construção de um resort de luxo sobre os escombros do território palestino. A manutenção da guerra, nesse contexto, favorece tanto os objetivos expansionistas de Netanyahu quanto os interesses financeiros e geopolíticos da administração Trump.
O preço da guerra: reféns e limpeza étnica
A retomada da ofensiva por Israel coloca em xeque a vida dos reféns israelenses que ainda estão em poder do Hamas. Os familiares dos sequestrados acompanham a escalada do conflito com crescente desespero, pois sabem que cada novo ataque reduz as chances de recuperação de seus entes queridos.
No entanto, essa parece ser uma questão secundária para Netanyahu e sua base ultraconservadora, que o sustenta no poder até que a “limpeza étnica” de Gaza seja concluída. Como aponta Rashmi Singh, o governo israelense já expulsou mais de 40 mil palestinos da Cisjordânia nos últimos meses, enquanto reforça a política de ocupação.
“Isso tudo é ilegal, uma violação do direito internacional”, destaca Singh. “Chamam de ‘realocação’, mas é uma tentativa de apagamento da identidade palestina.”
O cenário atual é de uma guerra sem horizonte de resolução. A segunda fase do cessar-fogo, que previa a libertação de prisioneiros palestinos e novos reféns israelenses, nunca foi implementada. Israel violou os termos ao bloquear a entrada de ajuda humanitária em Gaza desde 1º de março, agravando a crise humanitária na região.
Enquanto a comunidade internacional observa com cautela, o massacre avança, sustentado por interesses políticos e econômicos que ultrapassam as fronteiras do Oriente Médio. E Trump, de longe, observa a poeira da destruição assentar, projetando um futuro onde Gaza não seja mais um território palestino, mas um empreendimento de luxo sobre os destroços da guerra.
O que está em jogo não é apenas a segurança de Israel ou a sobrevivência do Hamas, mas a própria existência do povo palestino e a integridade do direito internacional, cada vez mais fragilizado diante da lógica da força e do poder.
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