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Mundo
Trump ameaça o mundo ao desumanizar iranianos e ameaçar com o “fim de uma civilização”
Publicado em 07/04/2026 1:38 - Semana On
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Há momentos em que a política internacional deixa de ser apenas um jogo de interesses e passa a flertar perigosamente com a irresponsabilidade histórica — e é exatamente nesse terreno que se insere a atual escalada protagonizada por Donald Trump. Ao combinar ameaças de aniquilação, linguagem desumanizante e desprezo explícito por normas internacionais, o presidente norte-americano não apenas tensiona um dos pontos mais sensíveis do equilíbrio global, como também evidencia uma condução errática e potencialmente catastrófica da crise com o Irã.
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O que se desenha não é apenas mais um episódio de retórica beligerante, mas um encadeamento de decisões, declarações e impasses diplomáticos que fragilizam instituições multilaterais, ampliam riscos militares reais e, paradoxalmente, fortalecem o adversário que se pretende conter. Entre ultimatos, vetos no Conselho de Segurança, danos ao patrimônio histórico e uma narrativa que oscila entre ameaça e improviso, a crise expõe algo mais profundo: a transformação de uma potência global em vetor de instabilidade — um movimento que, longe de projetar força, coloca o mundo diante de uma inquietante pergunta sobre até onde pode ir a chamada “loucura trumpista” antes que seus efeitos se tornem irreversíveis.
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Em meio à escalada de tensões entre Estados Unidos e Irã, o presidente norte-americano, Donald Trump, voltou a utilizar as redes sociais para intensificar a pressão sobre Teerã, às vésperas do prazo estabelecido por Washington para um possível entendimento diplomático. O limite fixado pelo governo norte-americano se encerrava às 20h desta terça-feira (horário de Washington).
Caso não houvesse avanço nas negociações, Trump já havia sinalizado a possibilidade de atingir alvos estratégicos iranianos, como usinas de energia e pontes. Desta vez, no entanto, o tom adotado ultrapassou o padrão habitual de advertências e provocou forte reação entre diplomatas e negociadores envolvidos no impasse.
Em publicação na plataforma Truth Social, o presidente afirmou: “Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada”. Na sequência, relativizou a própria declaração, ao dizer que não desejava tal desfecho, embora o considerasse provável. Ainda assim, sugeriu a possibilidade de uma reconfiguração política no Irã, mencionando uma “mudança de regime completa e total” que abriria espaço para lideranças “mais inteligentes e menos radicalizadas”.
O discurso foi concluído com um tom ambíguo, combinando ameaça e expectativa: “Quem sabe? Descobriremos esta noite, em um dos momentos mais importantes da longa e complexa história do mundo. 47 anos de extorsão, corrupção e morte finalmente chegarão ao fim. Deus abençoe o grande povo do Irã”.
A declaração ocorre em um contexto de negociações indiretas. Intermediários paquistaneses confirmaram a troca de propostas entre representantes norte-americanos e iranianos, indicando que, apesar da retórica agressiva, canais diplomáticos permanecem ativos.
Do lado iraniano, as condições para um eventual acordo incluem garantias formais de que Estados Unidos e Israel não realizarão novos ataques, além de uma proposta controversa: a cobrança de uma taxa de US$ 2 milhões por embarcação que atravesse o Estreito de Ormuz. Segundo Teerã, os recursos seriam destinados à reconstrução do país após semanas de bombardeios.
Apesar das conversas em curso, autoridades dos EUA confirmaram que a ilha de Kharg — ponto estratégico para a exportação de petróleo iraniano — foi atingida por mísseis americanos nesta terça-feira, evidenciando a continuidade das ações militares paralelamente às negociações.
Horas depois das declarações de Trump, o governo iraniano respondeu publicamente. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Esmaeil Baghaei, utilizou as redes sociais para contestar o discurso norte-americano, defendendo a resiliência do país.
Segundo ele, “o poder da cultura, da lógica e da fé de uma nação ‘civilizada’ em sua causa justa certamente prevalecerá sobre a lógica da força bruta”. Baghaei acrescentou que o Irã mobilizará todos os seus recursos para proteger seus direitos e interesses, sinalizando disposição para resistir a pressões externas.
A tensão também se reflete nas declarações da Guarda Revolucionária, que ampliou o alcance das ameaças. Em comunicado, a força militar advertiu que, caso os Estados Unidos ultrapassem “linhas vermelhas”, a resposta iraniana poderá atingir não apenas a região, mas também interesses estratégicos mais amplos.
“Faremos com a infraestrutura dos Estados Unidos e de seus parceiros o que os privará, a eles e seus aliados, do petróleo e gás da região por muitos anos”, afirma o texto. A nota ainda questiona a capacidade de Washington de avaliar a vulnerabilidade de seus próprios ativos diante de um eventual confronto.
Sem um acordo até o momento, o cenário permanece marcado por incerteza, com sinais simultâneos de negociação e escalada militar — uma combinação que eleva o risco de um conflito de proporções mais amplas.
We have passed the stage of dialogue, and we are now in the stage of eradication.” pic.twitter.com/GutvZTsFR1
— العميد إبراهيم ذو الفقاري (@Ibrahim_alFiqar) April 7, 2026
Trump desumaniza iranianos e relativiza risco de crime de guerra
Trump também adotou uma retórica abertamente desumanizante contra iranianos e minimizou preocupações jurídicas sobre eventuais ataques a alvos civis. As declarações foram feitas durante o tradicional evento de Páscoa da Casa Branca, o Easter Egg Roll, diante de jornalistas.
Questionado sobre o risco de que ofensivas contra infraestrutura civil pudessem configurar crime de guerra, Trump descartou a possibilidade de forma direta. “Não, porque eles são animais”, afirmou, acrescentando não estar preocupado com alertas relacionados ao tema. A fala ocorre em meio a crescentes advertências internacionais sobre os limites legais de ações militares em zonas urbanas.
A declaração sucede uma série de ameaças feitas no fim de semana, quando o presidente indicou que poderia intensificar ataques caso o Irã não restabelecesse plenamente a circulação no Estreito de Ormuz dentro do prazo estipulado. Na ocasião, Trump afirmou que desencadearia “o inferno” contra o país, ampliando a pressão sobre um dos pontos mais sensíveis do comércio global de energia.
Autoridades iranianas, por sua vez, manifestaram preocupação com a possibilidade de que estruturas civis sejam deliberadamente visadas, o que, segundo avaliações divulgadas por agências estatais, poderia caracterizar violação do direito internacional humanitário.
Durante o mesmo evento, Trump também fez referência direta aos recursos energéticos iranianos, ao declarar que tomaria o petróleo do país “se pudesse”. A observação foi acompanhada de uma justificativa ambígua: segundo ele, a opinião pública norte-americana pressionaria pelo fim do conflito, limitando a adoção de medidas mais radicais.
O posicionamento do presidente revelou, novamente, oscilações no discurso sobre as negociações. Em um primeiro momento, ele indicou acreditar que o Irã estaria negociando “de boa fé”. Pouco depois, no entanto, afirmou estar “muito chateado” com Teerã e ameaçou impor custos elevados ao país, evidenciando a instabilidade na condução da estratégia diplomática.
Trump também confirmou ter rejeitado uma proposta de cessar-fogo articulada pelo Paquistão, classificando a iniciativa como insuficiente, apesar de reconhecer avanços. Do lado iraniano, a recusa seguiu lógica semelhante: autoridades defendem que qualquer acordo deve encerrar de forma definitiva o conflito, e não apenas estabelecer uma pausa temporária nas hostilidades.
Apesar das divergências, o presidente reiterou que o prazo para a reabertura do Estreito de Ormuz permanece inalterado e sinalizou disposição para prolongar a ofensiva. “Poderíamos sair agora mesmo se quiséssemos, mas eu quero terminar o trabalho”, declarou.
As falas mais recentes se somam a um histórico de declarações agressivas contra o governo iraniano. Em manifestações anteriores, Trump já havia utilizado termos ofensivos para se referir às lideranças de Teerã, reforçando um padrão retórico que, na avaliação de analistas, contribui para elevar a temperatura do conflito e reduzir o espaço para soluções diplomáticas.
Escalada verbal de Trump expõe fragilidade estratégica dos EUA
A intensificação do discurso de Donald Trump contra o Irã, marcada por ameaças de destruição em larga escala, tem sido interpretada por analistas como um indicativo de fragilidade política e estratégica, mais do que de demonstração de poder. A avaliação é do professor de Relações Internacionais Leonardo Trevisan, da ESPM, em análise ao UOL News.
Segundo o especialista, o endurecimento retórico do presidente norte-americano sugere dificuldades em conduzir as negociações em curso, especialmente diante da influência de atores regionais relevantes. Países como Turquia, Arábia Saudita e Paquistão, envolvidos direta ou indiretamente nas tratativas, estariam pressionando Washington com posições que contrariam os interesses imediatos da Casa Branca.
Nesse contexto, declarações de forte apelo simbólico — como a promessa de destruir o Irã “em uma única noite” — funcionariam menos como estratégia militar concreta e mais como reação a um cenário adverso nas mesas de negociação. Para Trevisan, esse tipo de retórica grandiloquente revela um líder sob pressão, buscando reafirmar autoridade em meio a um quadro de incertezas diplomáticas.
Do ponto de vista operacional, o analista considera improvável a execução de uma ofensiva com as características descritas por Trump. Embora reconheça a superioridade militar dos Estados Unidos, ele ressalta que uma ação dessa magnitude exigiria um nível de mobilização e planejamento muito superior ao atualmente observado no Golfo Pérsico. Avaliações informais junto a militares, segundo o professor, reforçam a percepção de inviabilidade de um ataque dessa natureza em curto prazo.
A possibilidade de escalada para um confronto nuclear também foi abordada no debate. Trevisan destacou que esse tipo de decisão está submetido a mecanismos institucionais de contenção, envolvendo múltiplas autoridades e protocolos rigorosos. O sistema, concebido para evitar decisões unilaterais, atua como barreira a ações precipitadas, reduzindo a probabilidade de uso desse tipo de armamento, mesmo em cenários de alta tensão.
Enquanto isso, a reação interna no Irã aponta para um efeito colateral relevante: o fortalecimento do regime. Medidas como a convocação de civis para formar cordões humanos em torno de instalações estratégicas ilustram um processo de mobilização nacional diante da ameaça externa.
Trevisan observa que, em contextos de pressão internacional, dinâmicas internas tendem a se reorganizar. Relatos de engajamento popular — incluindo o alistamento de jovens e a adesão momentânea de setores oposicionistas — indicam um movimento de coesão em torno da defesa nacional. A estrutura de sucessão política previamente organizada também reforça a resiliência institucional do país.
Para o analista, esse cenário contribui para consolidar o regime iraniano no curto prazo, ao transformar a crise externa em elemento de unidade interna — um efeito recorrente em situações de confronto geopolítico.
Veto de China e Rússia trava resolução da ONU sobre Ormuz
A tentativa de resposta multilateral à crise no Estreito de Ormuz esbarrou nas divisões entre as grandes potências. O Conselho de Segurança da ONU não conseguiu aprovar uma resolução voltada à garantia da navegação na região, após China e Rússia exercerem poder de veto, bloqueando uma proposta que havia reunido maioria expressiva de votos favoráveis.
O texto obteve apoio de onze países, incluindo Estados Unidos, França e Reino Unido, mas encontrou resistência decisiva entre os membros permanentes. Colômbia e Paquistão optaram pela abstenção, contribuindo para um cenário de fragmentação política em torno de uma das principais rotas energéticas do mundo.
Apresentada pelo Bahrein, que presidia o Conselho no período, a proposta buscava mobilizar os Estados-membros a coordenarem ações de caráter defensivo, consideradas proporcionais às circunstâncias, com o objetivo de assegurar a liberdade de navegação no estreito. A iniciativa refletia a crescente preocupação internacional com o impacto do bloqueio sobre o fluxo global de petróleo.
Nos bastidores, porém, o projeto passou por mudanças significativas. A versão inicial previa autorização explícita para o uso da força, o que gerou resistência imediata. Em uma tentativa de evitar vetos e ampliar o apoio, os articuladores reformularam o texto ao menos seis vezes, suavizando sua redação e retirando elementos mais contundentes.
Ainda assim, as concessões não foram suficientes para superar as divergências estruturais entre os membros permanentes do Conselho — condição indispensável para a aprovação de qualquer resolução. O impasse evidencia não apenas discordâncias pontuais, mas também a disputa geopolítica mais ampla que atravessa o conflito.
Após a votação, países do Golfo reagiram com frustração. Em nota conjunta, o Ministério das Relações Exteriores do Bahrein, falando também em nome de Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Catar, Kuwait e Jordânia, lamentou o desfecho e criticou a paralisia do órgão.
Segundo o comunicado, o Conselho falhou em cumprir seu papel diante de uma situação considerada ilegal e que demandaria చర్య imediata. Os países também destacaram que a proposta representava um passo em direção a uma solução duradoura, baseada no princípio de que nenhuma nação tem o direito de impedir o trânsito em uma via marítima de relevância internacional.
O bloqueio da resolução reforça o cenário de impasse diplomático em torno da crise, ao mesmo tempo em que limita a capacidade de resposta coordenada da comunidade internacional diante de uma disputa que já ultrapassa o âmbito regional e afeta diretamente o equilíbrio energético global.
Unesco alerta para impactos da guerra sobre patrimônio histórico iraniano
A ampliação do conflito no Oriente Médio começa a produzir efeitos que vão além do campo militar e energético, alcançando também o patrimônio cultural da região. A Unesco advertiu que ao menos quatro dos 29 sítios classificados como Patrimônio Mundial no Irã foram atingidos por ataques recentes, em meio à intensificação de bombardeios e operações com mísseis e drones.
Segundo informações repassadas por autoridades iranianas, os danos não se restringem a locais isolados. O Ministério do Patrimônio Cultural e do Turismo do país contabiliza prejuízos em pelo menos 56 museus e espaços históricos, indicando um impacto mais amplo sobre a memória material iraniana.
Entre os casos confirmados está o Palácio de Golestan, um dos mais emblemáticos complexos arquitetônicos do país. Localizado no centro histórico da capital, o conjunto — frequentemente comparado ao Palácio de Versalhes — remonta ao século XVI e combina elementos da tradição persa com influências europeias. Imagens divulgadas por veículos internacionais mostram janelas destruídas, portas danificadas e fragmentos de vitrais espalhados, consequência de explosões nas proximidades.
A avaliação técnica dos estragos, no entanto, ainda enfrenta limitações. De acordo com Krista Pikkat, diretora de Cultura e Emergências da UNESCO, há dificuldades no acesso a imagens de satélite por meio do sistema Unosat, o que restringe a verificação independente dos impactos. Até o momento, o Palácio de Golestan é o único sítio com danos confirmados por análise mais detalhada, incluindo possíveis efeitos internos provocados por ondas de choque.
A especialista também aponta indícios de impactos em áreas próximas ao Grande Bazar de Teerã, sugerindo que a extensão dos danos pode ser maior do que o atualmente documentado.
Diante do cenário, a organização reforça que a proteção de bens culturais em contextos de conflito é uma obrigação estabelecida pela Convenção de Haia de 1954, que prevê a salvaguarda de patrimônios de valor excepcional. Como medida preventiva, a Unesco informou ter compartilhado com Irã, Israel e Estados Unidos as coordenadas geográficas desses locais, na tentativa de evitar novos impactos.
A preocupação, contudo, extrapola as fronteiras iranianas. A entidade também relatou danos à chamada “Cidade Branca” de Tel Aviv, em Israel, e ao sítio arqueológico de Tiro, no Líbano — ambos igualmente reconhecidos como patrimônio mundial. Ao todo, 125 áreas classificadas pela Unesco estão situadas na zona afetada pelo conflito.
O alerta evidencia uma dimensão frequentemente secundarizada em cenários de guerra: a erosão do patrimônio cultural, cuja destruição representa não apenas perdas materiais, mas também um comprometimento duradouro da identidade histórica e simbólica das sociedades envolvidas.
E então?
Se há uma lição que emerge desse encadeamento de eventos, ela não está apenas na escalada militar em si, mas na erosão silenciosa — e progressiva — dos limites que historicamente contiveram conflitos de maior escala. Ao tensionar normas do direito internacional, relativizar possíveis crimes de guerra, esvaziar instâncias multilaterais e transformar a retórica em instrumento de pressão imprevisível, a condução da crise por Donald Trump revela um padrão que transcende o episódio específico e aponta para uma desordem mais ampla no sistema internacional. O impasse no Conselho de Segurança, a resiliência interna do Irã diante da ameaça externa e os danos já impostos ao patrimônio cultural indicam que os custos dessa estratégia não são apenas imediatos, mas estruturais — atingindo tanto a estabilidade geopolítica quanto valores civilizatórios compartilhados. No limite, a questão que permanece não é apenas se haverá ou não um desfecho militar, mas que tipo de precedentes estão sendo estabelecidos quando uma potência global passa a operar à margem dos freios institucionais que ela própria ajudou a construir — e quais serão as consequências quando outros atores decidirem fazer o mesmo .
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