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Mundo

Queda de Assad abala jogo de forças no Oriente Médio

Novo governo sírio rejeita perseguições, mas diz que vai punir repressores

Publicado em 09/12/2024 12:49 - Jamil Chade - UOL

Divulgação Murat Sengul/Anadolu via Getty Images

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Após um pedido feito pelo governo de Vladimir Putin, o Conselho de Segurança da ONU realiza nesta segunda-feira (9) uma reunião de emergência para avaliar a situação na Síria. O ditador Bashar Al Assad teve seu regime encerrado, diante da insurgência de rebeldes.

O ex-presidente e sua família fugiram e receberam asilo político na Rússia. Mas Moscou quer deixar claro que o evento ameaça ampliar a crise regional e acusa potências ocidentais de terem aproveitado da crise na Ucrânia para forçar uma desestabilização também da posição russa na Síria, um tradicional aliado.

Para analistas, foi justamente a falta de apoio de Moscou ao regime de Assad – enquanto realizada sua ofensiva na Ucrânia – que permitiu que as tropas rebeldes avançassem sem grandes obstáculos nos últimos dias.

O encontro ocorre a portas fechadas, em Nova York, numa demonstração da tensão entre as potências. Diplomatas admitiram ao UOL que a queda de Assad e a forma pela qual alguns dos principais nomes da região celebraram abertamente ampliaram o mal-estar.

“Diante dos últimos acontecimentos na Síria, cuja profundidade e consequências para o país e toda a região ainda não foram mensuradas, a Rússia pediu consultas urgentes a portas fechadas no Conselho de Segurança das Nações Unidas”, afirmou a delegação russa.

Moscou alega que o que a crise gera é a possibilidade de que grupos extremistas islâmicos possam ampliar sua presença na Síria, com um impacto para a segurança internacional.

O governo dos EUA comemorou a queda de Assad, assim como o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Para ambos, a crise é uma derrota de Moscou.

Enquanto isso, na ONU, os apelos públicos e nos bastidores é para que o ciclo de violência não ganhe um novo capítulo.

Diplomatas e observadores da entidade na região alertam sobre o risco de que uma disputa pelo poder em Damasco e pelos espólios de Assad transformem o país numa nova Líbia, fraturada desde a queda de seu regime ditatorial. Ou que a instabilidade seja ampliada na região.

Diplomatas estrangeiros em Damasco afirmam ao UOL que, apesar da declaração das novas autoridades sírias de que iriam buscar criar um estado “democrático”, há uma percepção de existir um vácuo de poder e de uma indefinição sobre quem de fato está no controle. Em diferentes locais da capital e pelo país, os relatos são de caos e tensão.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou ainda que “após 14 anos de guerra brutal e a queda do regime ditatorial, o povo da Síria pode hoje aproveitar uma oportunidade histórica para construir um futuro estável e pacífico”.

“O futuro da Síria é uma questão que cabe aos sírios determinar, e o meu enviado especial estará a trabalhar com eles para esse fim”, disse.

“Há muito trabalho a fazer para assegurar uma transição política ordenada para instituições renovadas. Reitero o meu apelo à calma e a que se evite a violência neste momento sensível, protegendo simultaneamente os direitos de todos os sírios, sem distinção”, disse.

Ele pediu que seja respeitada a inviolabilidade das instalações e do pessoal diplomático.

Ele ainda fez um apelo a autoridades para “garantir que qualquer transição política seja inclusiva e abrangente e que responda às legítimas aspirações do povo da Síria, em toda a sua diversidade”. “A soberania, a unidade, a independência e a integridade territorial da Síria devem ser restauradas”, completou.

Negociadores do processo de diálogo no Oriente Médio ainda alertam para o risco de que Israel aproveite a situação para ampliar sua ocupação das colinas de Golã e das regiões de fronteira. A preocupação ficou mais nítida depois que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, sinalizou que iria reforçar a presença militar na região, sob a justificativa de proteger israelenses.

Novo governo sírio rejeita perseguições, mas diz que vai punir repressores

O novo governo da Síria prometeu construir um “estado livre, justo e democrático” e não perseguir cidadãos, independente da filiação que tenham. A transição, porém, alerta que vai levar os autores de anos de repressão à justiça.

A mensagem faz parte do primeiro comunicado emitido pelo novo Conselho Nacional de Transição da Síria, depois da queda do regime de Bashar al Assad.

O temor da comunidade internacional era de que os rebeldes sigam um caminho da radicalização. A liderança era classificada como um grupo terrorista por parte dos americanos.

Fontes na ONU apontam que os primeiros sinais são de “alívio”, ainda que não se possa ter certeza do destino do país neste momento. Diplomatas e observadores da entidade na região alertam sobre o risco de que uma disputa pelo poder em Damasco e pelos espólios de Assad transformem o país numa nova Líbia, fraturada desde a queda de seu regime ditatorial. Ou que a instabilidade seja ampliada na região.

Diplomatas estrangeiros em Damasco afirmam ao UOL que, apesar da declaração das novas autoridades, há uma percepção de existir um vácuo de poder e de uma indefinição sobre quem de fato está em controle. Em diferentes locais da capital e pelo país, os relatos são de caos e tensão.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou ainda que “após 14 anos de guerra brutal e a queda do regime ditatorial, o povo da Síria pode hoje aproveitar uma oportunidade histórica para construir um futuro estável e pacífico”.

“O futuro da Síria é uma questão que cabe aos sírios determinar, e o meu Enviado Especial estará a trabalhar com eles para esse fim”, disse.

“Há muito trabalho a fazer para assegurar uma transição política ordenada para instituições renovadas. Reitero o meu apelo à calma e a que se evite a violência neste momento sensível, protegendo simultaneamente os direitos de todos os sírios, sem distinção”, disse.

Ele pediu que sejam respeitadas a inviolabilidade das instalações e do pessoal diplomático.

Ele ainda fez um apelo à autoridades para “garantir que qualquer transição política seja inclusiva e abrangente e que responda às legítimas aspirações do povo da Síria, em toda a sua diversidade”. “A soberania, a unidade, a independência e a integridade territorial da Síria devem ser restauradas”, completou.

Numa declaração neste domingo, a ONU fez um apelo para que as autoridades mantenham “a ordem e as instituições”.

Negociadores do processo de diálogo no Oriente Médio ainda alertam para o risco de que Israel aproveite a situação para ampliar sua ocupação das colinas de Golã e regiões de fronteira. A preocupação ficou mais nítida depois que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, sinalizou que iria reforçar a presença militar na região, sob a justificativa de proteger israelenses.

O comunicado do governo de transição

Num comunicado, o novo governo informa aos “filhos livres da Síria” que “após longos anos de injustiça, tirania e opressão, e após grandes sacrifícios feitos pelos filhos e filhas desta querida pátria, anunciamos hoje ao grande povo sírio e ao mundo inteiro que o regime de Bashar al-Assad caiu e que ele fugiu do país, deixando para trás um legado de destruição e sofrimento”.

Segundo eles, “neste dia histórico, anunciamos que as forças da revolução e da oposição assumiram o controle dos assuntos na amada Síria e afirmamos nosso compromisso de construir um estado livre, justo e democrático no qual todos os cidadãos sejam iguais, sem discriminação”.

O grupo apresentou as seguintes promessas:

Preservar a unidade e a soberania do território sírio.

Proteger todos os cidadãos e suas propriedades, independentemente de suas afiliações.

Trabalhar para reconstruir o Estado e suas instituições com base na liberdade e na justiça.

Esforçar-se para alcançar uma reconciliação nacional abrangente e retornar os refugiados e pessoas deslocadas para suas casas com segurança e dignidade.

Responsabilizar todos aqueles que cometeram crimes contra o povo sírio, de acordo com a lei e a justiça.

“Conclamamos o povo sírio a se unir e permanecer unido nesta fase histórica e afirmamos que a nova Síria não será monopólio de ninguém, mas uma pátria para todos”, completa o Conselho Nacional de Transição.

Entenda a situação na Síria

Rebeldes anunciaram a deposição do governo de Bashar al-Assad na Síria após avançar à capital do país, Damasco. O anúncio foi feito no domingo (8) por meio de um canal de TV.

De acordo com a agência de notícias Reuters, Assad embarcou em um avião e deixou a cidade quando a ofensiva rebelde ainda estava se aproximando da capital. O voo da Syrian Airlines partiu por volta das 2h de Damasco, mas perdeu sinal pouco tempo após a decolagem. A informação foi baseada no relato de dois altos oficiais do exército sírio. Agências de notícias russas afirmaram que o presidente deposto está na Rússia, após o país oferecer asilo.

A residência presidencial, em Damasco, foi invadida e saqueada após sua fuga, em um cenário de caos e euforia na cidade, mostra a BBC. Palácio onde reside Assad teve objetos furtados e destruídos.

Os rebeldes que tomaram o poder na Síria são uma aliança heterogênea de grupos insurgentes. O principal líder dos rebeldes é Abu Mohamed al-Julani, do HTS. O grupo é uma dissidência do Al Qaeda e é considerado terrorista pela União Europeia, Turquia e Estados Unidos.


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