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Mundo

Pirataria oficial patrocinada por Trump eleva pressão no Caribe

Interceptação de petroleiros, ameaça direta de mudança de regime e reação da China expõem risco de escalada internacional

Publicado em 24/12/2025 7:52 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensificou de forma explícita a pressão política, militar e econômica sobre a Venezuela ao afirmar que Nicolás Maduro seria “sensato” se deixasse o poder, num aviso direto que se soma à interceptação de petroleiros venezuelanos e à ampliação da presença naval norte-americana na região do Caribe. As declarações foram feitas em entrevista concedida na biblioteca de sua residência em Mar-a-Lago, na Flórida, em meio a uma estratégia que Washington define como bloqueio a navios sancionados por negociar petróleo com Caracas.

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Questionado por jornalistas se o objetivo dos Estados Unidos seria forçar a saída de Maduro, Trump respondeu de forma ambígua, mas contundente: “Cabe a ele decidir o que quer fazer. Acho que seria sensato da parte dele”. Em seguida, elevou o tom ao aconselhar o líder venezuelano a “levar a sério” as ameaças norte-americanas. “Se jogar duro, será a última vez que o poderá fazer”, disse, em uma declaração que sinaliza disposição para aprofundar o confronto.

As ameaças verbais vieram acompanhadas de ações concretas. Desde 17 de dezembro, os Estados Unidos implementaram um bloqueio a petroleiros sancionados por operar com a Venezuela. Até o momento, ao menos três embarcações foram interceptadas ou barradas. Duas delas foram efetivamente apreendidas, e no último fim de semana houve a tentativa de capturar um terceiro navio. Trump afirmou que nunca houve “uma frota naval tão grande” posicionada na região com o objetivo de controlar a entrada e saída de petroleiros do país sul-americano.

O presidente norte-americano declarou ainda que os Estados Unidos poderão manter ou vender o petróleo apreendido, assim como reter as próprias embarcações. “Talvez o vendamos, talvez o mantenhamos”, disse, acrescentando que o petróleo pode ser utilizado para reabastecer as reservas estratégicas dos EUA. Em outra declaração, reforçou: “Vamos manter. Vamos ficar com os navios também”.

Entre os navios interceptados está o superpetroleiro Centuries, apreendido em águas internacionais na costa venezuelana. Segundo o governo dos Estados Unidos, a embarcação fazia parte de um esquema de evasão de sanções, operava com bandeira falsa e carregava cerca de 1,8 milhão de barris de petróleo bruto venezuelano do tipo Merey, com destino à China. Documentos indicam que o navio carregou o petróleo sob o nome falso de “Crag”. A China é atualmente a maior compradora do petróleo venezuelano, responsável por aproximadamente 4% de suas importações totais de petróleo bruto.

A reação chinesa foi imediata. O Ministério das Relações Exteriores da China classificou a interceptação como uma “grave violação do direito internacional”. Em coletiva de imprensa, o porta-voz Lin Jian afirmou que a Venezuela tem o direito soberano de desenvolver relações comerciais com outros países e que a interceptação de navios estrangeiros por Washington fere normas internacionais de navegação.

O governo venezuelano também reagiu com veemência. Caracas classificou a ação dos Estados Unidos como um “grave ato de pirataria internacional”. Em vídeo divulgado nas redes sociais, Nicolás Maduro comparou a atuação norte-americana à de corsários. “Os piratas eram grupos privados que se dedicavam aos mares do mundo para roubar. Os corsários são piratas contratados por um Estado imperial”, afirmou.

A retórica agressiva de Trump é sustentada por acusações antigas, mas nunca comprovadas judicialmente em instâncias internacionais. O presidente norte-americano voltou a afirmar que Maduro seria o líder do chamado “Cartel dos Sóis”, organização que, segundo a administração norte-americana, estaria envolvida em narcoterrorismo, tráfico de drogas, tráfico de seres humanos, assassinatos e raptos. Trump afirmou que o dinheiro obtido com a venda do petróleo venezuelano financiaria a produção de drogas. “Ele não é nosso amigo”, declarou.

Além da Venezuela, o discurso do presidente dos Estados Unidos ampliou o conflito regional ao atingir diretamente a Colômbia. Trump atacou o presidente colombiano Gustavo Petro, sugerindo, sem apresentar provas, que ele seria conivente com a produção de cocaína no país. “É melhor ele cuidar da sua bunda”, afirmou, chamando Petro de “desordeiro”. O comentário veio após o líder colombiano criticar publicamente as ações norte-americanas contra a Venezuela e a exigência de devolução de ativos de empresas petrolíferas dos EUA apreendidos no passado pelo governo venezuelano.

“Amamos o povo colombiano, mas o novo líder deles é um desordeiro. É melhor fechar as fábricas de cocaína. Há pelo menos três grandes fábricas de cocaína. Sabemos onde elas estão”, disse Trump, novamente sem apresentar evidências.

O endurecimento da política dos Estados Unidos em relação à Venezuela ocorre em um contexto histórico de sanções econômicas severas impostas desde 2017, que afetaram profundamente a capacidade de exportação de petróleo do país — principal fonte de receita externa venezuelana. De acordo com dados da OPEP, a produção de petróleo da Venezuela caiu de mais de 2 milhões de barris por dia no início da década passada para menos de 800 mil barris diários em anos recentes, impacto diretamente associado às sanções e à crise interna.

Especialistas em relações internacionais alertam que a interceptação de navios em águas internacionais representa um precedente delicado. O jurista norte-americano Stephen Vladeck, professor da Universidade do Texas, afirmou em análises anteriores sobre sanções marítimas que “a aplicação extraterritorial de sanções econômicas, quando envolve força naval, tensiona os limites do direito internacional e pode gerar reações em cadeia difíceis de controlar” (University of Texas School of Law).

Ao elevar o tom contra Maduro, ameaçar aliados regionais e confrontar diretamente a China, Trump coloca o Caribe no centro de uma disputa geopolítica de alto risco. Mais do que uma crise bilateral entre Washington e Caracas, o episódio revela uma escalada com potencial de ampliar fraturas diplomáticas globais, testar normas do direito internacional e aprofundar a instabilidade em uma região historicamente marcada por intervenções e conflitos de interesse.

Disputa entre Estados Unidos, China e Rússia

A ampliação da presença naval dos Estados Unidos no Caribe tende a tornar o ambiente estratégico ainda mais adverso para a Venezuela. Se, por anos, a atuação americana na região foi oficialmente justificada pelo combate ao narcotráfico, desde dezembro de 2025 o escopo da operação passou a incluir, de forma explícita, a interceptação de petroleiros que circulam nas proximidades da costa venezuelana.

Embora especialistas relativizem o peso da Venezuela nas rotas globais do tráfico de drogas, há consenso quanto ao papel central do petróleo para a sobrevivência econômica e política do país. Em meio a uma crise prolongada, a Venezuela concentra as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta — mais de 300 bilhões de barris. Trata-se de um ativo estratégico que influencia diretamente os cálculos da política externa dos Estados Unidos e sustenta, em grande medida, o governo de Nicolás Maduro.

Defensor declarado da indústria petrolífera, Donald Trump enxerga nessas reservas um elemento-chave de interesse geopolítico. Para Caracas, o petróleo funciona como principal moeda de troca diplomática. Ainda assim, limitar a crise venezuelana a uma disputa energética seria uma leitura simplificadora. Além de Washington, China e Rússia também buscam consolidar posições estratégicas no país.

Para Pequim, o petróleo venezuelano representa hoje cerca de 4% de suas importações totais — uma fatia ainda modesta, mas com tendência de crescimento. Analistas citados pela Reuters projetam que a China possa importar mais de 600 mil barris diários da Venezuela, volume equivalente à maior parte da produção atual do país. Esse fluxo reforça a autonomia energética chinesa em um cenário global marcado pela competição por recursos naturais.

As sanções ocidentais ao petróleo pesado venezuelano do tipo Merey acabam, paradoxalmente, ampliando a margem de manobra da China ao reduzir a concorrência. Em contrapartida, a dependência financeira de Caracas em relação a Pequim se aprofundou. Estimativas indicam que a dívida venezuelana com a China oscile entre 60 e 70 bilhões de dólares, grande parte na forma de empréstimos atrelados a fornecimento de petróleo.

Conter os EUA no próprio quintal

A relação entre Venezuela e China extrapola o setor energético. O país tornou-se um mercado relevante para tecnologia chinesa, tanto na área militar quanto em infraestrutura de telecomunicações. Em setembro, Maduro apresentou em Caracas um novo smartphone da Huawei, descrito por ele como “o melhor telefone do mundo”. Segundo o presidente venezuelano, o aparelho teria sido um presente pessoal de Xi Jinping — com a vantagem adicional, destacou, de não poder ser espionado por serviços de inteligência dos Estados Unidos.

O modelo de socialismo autoritário e nacionalista adotado em Caracas encontra afinidades com a lógica política chinesa. Ao condenar ações como a apreensão de petroleiros venezuelanos, Pequim se posiciona como aliada e, ao mesmo tempo, avança em um objetivo estratégico mais amplo: manter os Estados Unidos concentrados em sua própria zona de influência.

Há mais de uma década, sucessivos governos americanos vêm priorizando o Indo-Pacífico, região central para a disputa com a China e para a pressão crescente sobre Taiwan. Nesse contexto, crises prolongadas na Venezuela — assim como em Cuba — funcionam como distrações convenientes para Pequim.

Os interesses russos em jogo

A Rússia também busca ampliar sua influência na América Latina por meio de alianças políticas e militares, desafiando a hegemonia histórica dos Estados Unidos no continente. A aproximação entre Moscou e Caracas ganhou impulso em 2001, quando Vladimir Putin recebeu Hugo Chávez. Desde então, a Rússia se consolidou como a principal fornecedora de armamentos para a Venezuela.

Em 2019, quando o governo Maduro foi diretamente ameaçado após o então presidente do Parlamento, Juan Guaidó, se autoproclamar presidente interino com rápido reconhecimento dos EUA, Moscou reagiu. Trump enxergou naquele momento uma oportunidade para derrubar Maduro, mas a Rússia enviou dois aviões militares com soldados e equipamentos ao país.

“Moscou, de certa forma, salvou Maduro”, avaliou recentemente o cientista político Vladimir Rouvinski, da Universidade Icesi, na Colômbia. “Foi a primeira vez desde a crise dos mísseis em Cuba que os Estados Unidos se viram obrigados a negociar diretamente com a Rússia sobre uma situação na América Latina.”

No confronto atual, porém, Rouvinski não projeta uma atuação russa tão decisiva. Até agora, Moscou tem se limitado a manifestações de apoio retórico ao governo venezuelano.

O cálculo americano

Em meados de dezembro, Trump voltou a elevar o tom ao exigir, em publicação na rede Truth Social, que a Venezuela devolvesse “todo o petróleo, terras e outros bens que nos roubaram anteriormente”. A declaração remete às expropriações ocorridas durante a nacionalização da indústria petrolífera venezuelana, em 2007, quando nem todas as empresas americanas foram indenizadas. Hoje, apenas a Chevron mantém operações no país, amparada por um acordo especial.

Do ponto de vista econômico, porém, a exploração de petróleo na vizinha Guiana é significativamente mais lucrativa para empresas dos Estados Unidos. A região do Essequibo, rica em hidrocarbonetos e alvo de disputa territorial, é reivindicada pela Venezuela, o que adiciona um componente geopolítico sensível à equação. Para interesses energéticos americanos, uma eventual saída forçada de Maduro poderia atender a múltiplos objetivos.

Durante seu primeiro mandato, Trump endureceu sanções iniciadas no governo de Barack Obama e apostou no confronto direto com Caracas. Seu então conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, chegou a classificar Venezuela, Cuba e Nicarágua como o “triângulo do terror”. Bolton acabou demitido após o fracasso da estratégia de apoio a Guaidó. Ainda assim, Trump retorna ao cenário atual demonstrando disposição renovada para promover uma mudança de poder na Venezuela — agora com ainda mais insistência.

Brasil condena ataques na ONU

A escalada militar dos Estados Unidos no Caribe e o bloqueio imposto a petroleiros venezuelanos passaram a ser questionados formalmente pelo Brasil no principal fórum de segurança internacional. Em pronunciamento no Conselho de Segurança da ONU, o governo brasileiro afirmou que as ações norte-americanas configuram violações diretas da Carta das Nações Unidas e defendeu a interrupção imediata dessas medidas.

A posição do Brasil foi apresentada pelo embaixador Sérgio Danese, durante reunião do Conselho de Segurança da ONU. No discurso, Danese reafirmou o compromisso histórico do país com a defesa da Carta da Organização das Nações Unidas, do multilateralismo e da solução pacífica de controvérsias internacionais.

Segundo o diplomata, a concentração de forças militares dos Estados Unidos nas proximidades da Venezuela, somada ao bloqueio naval anunciado por Washington, ultrapassa os limites do direito internacional. “A força militar reunida e mantida pelos Estados Unidos nas proximidades da Venezuela e o bloqueio naval recentemente anunciado constituem violações da Carta das Nações Unidas. Portanto, devem cessar imediata e incondicionalmente em favor da utilização dos instrumentos políticos e jurídicos amplamente disponíveis”, afirmou Danese.

O embaixador destacou ainda que a América Latina e o Caribe possuem um compromisso histórico com a paz e a rejeição ao uso da força como instrumento de resolução de conflitos. Para o Brasil, soluções militares são incompatíveis com esse legado regional. “Soluções baseadas na força são totalmente contrárias às melhores tradições e ao firme, universal e irreversível compromisso com a paz assumido pela América Latina e pelo Caribe”, disse.

Além da crítica direta às ações dos Estados Unidos, o Brasil buscou se posicionar como possível mediador. Danese convidou Washington e Caracas a retomarem o diálogo em bases diplomáticas, sem coerção ou ameaças. Segundo ele, o governo brasileiro está disposto a colaborar ativamente para reduzir as tensões, desde que haja consentimento mútuo das partes envolvidas.

“O Brasil convida ambos os países a um diálogo genuíno, conduzido de boa-fé e sem coerção”, declarou o embaixador. Ele acrescentou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já manifestou publicamente a disposição de seu governo em atuar como facilitador, caso Estados Unidos e Venezuela concordem. Danese também afirmou que o Brasil está preparado para apoiar eventuais iniciativas do secretário-geral da ONU com o mesmo objetivo.

A manifestação brasileira ocorre em um momento de crescente tensão internacional em torno da Venezuela, marcado por interceptações de navios, ameaças explícitas de mudança de regime e reações de potências como China e Rússia. Ao levar o debate ao Conselho de Segurança, o Brasil sinaliza preocupação não apenas com a soberania venezuelana, mas com o risco de erosão das normas multilaterais que regem o uso da força no sistema internacional.

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