Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Mundo

O pesadelo autoritário: o possível retorno de Donald Trump à Casa Branca

Divididos, americanos vão às urnas para decidir destino da democracia no país... e no mundo

Publicado em 04/11/2024 10:38 - Jamil Chade (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles), Bruno Lupion (DW) – Edição Semana On

Divulgação David Ramos/Getty Images

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

O principal temor da eleição presidencial dos EUA reside em como será a reação do republicano Donald Trump no caso de uma eventual derrota para a democrata Kamala Harris. Em meio à disputa acirrada, o republicano voltou a insinuar, sem provas, uma fraude eleitoral.

Clique para seguir a SEMANA ON no Instagram e no Facebook

A eleição presidencial dos Estados Unidos deste ano se configura como uma das mais polarizadas e disputadas das últimas décadas, com Kamala e Trump praticamente empatados nas intenções de voto nos principais estados-pêndulo. De acordo com pesquisa recente publicada pelo The New York Times, a diferença entre os dois é mínima nesses estados, o que promete uma disputa acirrada e decidida por margens estreitas de votos.

A campanha republicana, liderada por Trump, tem alimentado teorias da conspiração e desinformação sobre a integridade do processo eleitoral, insinuando possíveis fraudes e acusando os democratas de tentativas de manipulação dos resultados. Em suas declarações, Trump tem reforçado a narrativa de que o adversário “luta para roubar”, uma afirmação que segue sem provas, mas que é amplamente compartilhada entre seus apoiadores. Essa postura levanta uma questão crucial: qual será a reação de Trump e do Partido Republicano em caso de derrota? A expectativa é de que qualquer resultado desfavorável seja fortemente contestado, inclusive com violência.

Washington já se prepara para o cenário de incerteza pós-eleitoral, mobilizando forças de segurança em um esforço para conter eventuais manifestações de violência após o anúncio do resultado. O clima de apreensão é latente, alimentado pela onda de desinformação que marca esta eleição e pelo histórico de protestos recentes que têm dividido o país.

Entre os democratas, a esperança inicial que surgiu com a vantagem de Kamala Harris nas primeiras pesquisas deu lugar à cautela. A substituição de Joe Biden pela candidata foi celebrada inicialmente como uma decisão estratégica, que supostamente colocaria Trump em uma posição desvantajosa. No entanto, nas últimas semanas, Trump recuperou parte de seu apoio e, com isso, também subiu nas pesquisas, restabelecendo o equilíbrio na disputa. Esse cenário torna impossível fazer previsões seguras sobre o desfecho da eleição, que promete ser definida voto a voto.

A tensão que envolve o resultado eleitoral destaca o cenário incerto e a divisão profunda que permeia o eleitorado americano. Independentemente de quem vencer, o impacto político e social dessa eleição deve reverberar por muito tempo, sendo um indicativo claro dos desafios que os Estados Unidos terão pela frente em sua luta por coesão interna e pela confiança em suas instituições democráticas.

O líder americano com mais pinta de ditador está à beira de se eleger

Que países, regime, governantes ou ex-governantes torcem para que Donald Trump vença amanhã as eleições nos Estados Unidos e volte a ocupar a Casa Branca? Em entrevista recente ao canal francês TF1+, Lula disse torcer por Kamala Harris, que substituiu o presidente Joe Biden como candidata do Partido Democrata:

– Kamala Harris, ganhando as eleições, é muito mais seguro de a gente fortalecer a democracia nos Estados Unidos.

Bolsonaro e sua gangue torcem pela vitória de Trump na esperança de que ele os ajude a derrotar Lula em 2026. Em voz baixa, já se referem a Xandão, apelido do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, como Xandinho. E dão como certa a suspensão da inelegibilidade de Bolsonaro por pressão de Trump.

Finalmente ontem, em suas redes sociais, Bolsonaro declarou apoio a Trump, afirmando que a eleição ocorre “no país mais democrático do mundo” e que o americano é “o maior líder conservador da atualidade”. Repetiu os argumentos que Trump usa para convencer as pessoas a votarem nele:

– [Os Estados Unidos projetaram poder] sob a gestão de Trump. Não tivemos guerras. A paz se fez presente em todo o globo. Em nome de todos os brasileiros que amam Deus, o Estado de Israel, respeitam a família, a propriedade privada, o livre mercado e a liberdade de expressão, nossos votos de sucesso.

No Congresso americano, ainda de forma tímida, deputados aliados de Trump começaram a se movimentar para elevar a pressão sobre o Brasil em temas como liberdade de expressão e anistia para os golpistas do 8 de janeiro. Bolsonaro espera beneficiar-se da anistia que depende da aprovação do Congresso.

Ainda este mês, uma missão de deputados bolsonaristas deverá viajar a Washington caso Trump se eleja. Ali, planejam se reunir com Elon Musk, o homem mais rico do mundo e dono do X, que Trump convidou para fazer parte do seu governo. Musk é inimigo mortal do ministro Alexandre de Moraes, que tirou o X do ar.

Em todo o mundo, líderes de países democráticos torcem para que Kamala derrote Trump, enquanto líderes de países onde a democracia se enfraquece ou não existe apostam suas fichas na eleição de Trump. Um deles é Javier Milei, na Argentina. Outro, Vladimir Putin, na Rússia. Outro, Viktor Orbán, na Hungria.

A Ucrânia invadida pela Rússia é fortemente apoiada pelo governo Biden com dinheiro e armas. Com Trump eleito, deixará de ser assim. Por todos os meios ilegais disponíveis, o governo de Putin energiza a campanha de Trump. O governo de Israel estendeu a guerra no Oriente Médio no aguardo de que Trump se eleja.

A China veria com bons olhos o retorno de uma administração que fragilizaria o sistema internacional construído pelos Estados Unidos depois da 2ª Guerra Mundial. Com o aumento de tarifas sobre produtos chineses, Trump oferece vantagens indiretas a Pequim, segundo Oliver Stuenkel, professor e analista da FGV-SP.

Os Estados Unidos parecem prontos para reeleger Trump, condenado por 34 crimes graves de falsificação de registros comerciais para encobrir dinheiro; responsável por mentir para bancos sobre o valor de propriedades; e em outros processos, por mentir sobre uma mulher a quem agrediu sexualmente.

Trump pede um dia, um único dia para governar os Estados Unidos como ditador. Veremos se terá esse dia e quantos a mais.

Bíblia, censura e superpoderes a Trump: o plano da extrema direita nos EUA

“Uma segunda revolução americana.” Foi assim que um plano de poder desenhado por mais de uma centena de aliados e ex-funcionários do governo de Donald Trump passou a ser considerado.

Chamado de Projeto 2025, o documento com 920 páginas descreve ações concretas para, na prática, refundar o estado americano. A iniciativa é a concretização do esforço da extrema direita para estabelecer sua visão de governo e de sociedade. Os autores não escondem: esperam que as propostas façam parte de um eventual novo governo Trump, caso o republicano vença as eleições na próxima semana.

A ideia começou a ganhar forma em 2022, quando a entidade ultraconservadora Heritage Foundation reuniu mais de cem organizações, entre elas algumas instituições que fazem campanha contra direitos de LGBTQI+ ou contra qualquer ação para garantir direitos reprodutivos. Pelo menos uma delas ainda mantém uma estreita cooperação com o bolsonarismo, com a senadora Damares Alves e outros movimentos de extrema direita pelo mundo.

Russell Vought foi peça central na articulação. Ele se qualifica como um “nacionalista cristão” e comanda o Centro para a Renovação da América. Ele é apontado como sendo a pessoa que, nos bastidores, estaria redigindo ordens executivas, regulamentos e memorandos que estabeleceriam as bases para uma ação rápida de um futuro governo de extrema-direita.

Diante de uma lista de polêmicas, Trump tentou se distanciar do projeto e dizer que não estava envolvido. Mas pelo menos 140 dos convidados a pensar o futuro dos EUA tinham trabalhado com Trump e, no documento, sugerem uma restruturação radical do governo americano.

Nesta semana, a democrata Kamala Harris também insistiu em apontar como o projeto é uma espécie de plano de governo de Trump.

De forma detalhada, o documento traz uma longa lista para rever praticamente todos os aspectos da sociedade, incluindo imigração, aborto, liberdade de expressão e Justiça. Inconstitucionais, as propostas ainda falam na concentração de poder para o presidente e esvaziar a independência de agências estatais, inclusive aquelas que alertam para o impacto das mudanças climáticas ou o FBI.

O QUE DIZ O PROJETO

CENSURAR DISCUSSÕES CRÍTICAS NAS SALAS DE AULA

Censurar discussões acadêmicas sobre raça, gênero e opressão sistêmica, e cortar o financiamento federal para escolas com currículos que abordem estes assuntos. Pelo projeto, os pais teriam controle sobre a escola, sob a alegação de que existe uma “doutrinação política inadequada” das crianças americanas.

A pornografia seria banida, e as empresas de tecnologia que permitirem o acesso seriam fechadas.

O documento ainda traz uma lista de termos que deveriam ser banidos de leis federais, como “orientação sexual”, “igualdade de gênero”, “aborto” e “direitos reprodutivos”.

Fica ainda estabelecido o fechamento do Departamento de Educação, acusado de manter burocratas que “injetam programa anti-americana nas salas de aula”.

A BÍBLIA COMO BASE DAS FAMÍLIAS

O plano prevê adotar leis que significariam um repressão contra pessoas transgênero, ameaçando processar as escolas que protegem os direitos dos estudantes transgênero ou dizendo aos hospitais que perderiam o financiamento se prestassem cuidados médicos.

O documento sugere que o Departamento de Saúde e Serviços Humanos deve “manter uma definição de casamento e família baseada na Bíblia”.

Apoio para a infância ainda deve estar vinculado com a ideia de que pais se “comprometam a se casar”, enquanto projetos devem ter “o casamento como norma”.

Sem mencionar a fonte, o documento também insiste que “informes das ciências sociais” indicam os benefícios de crianças criadas em casas heterossexuais e “com casamentos intactos”.

“Todas as outras formas de família envolvem níveis mais altos de instabilidade (a duração média dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo é a metade da duração dos casamentos heterossexuais); estresse financeiro ou pobreza; ou resultados comportamentais, psicológicos ou educacionais piores”, afirma o plano.

“Para o bem-estar da criança, os programas devem afirmar que as crianças precisam e merecem tanto o amor e a nutrição de uma mãe quanto a diversão e a proteção de um pai”, insiste.

Para o plano, os subsídios de programas sociais “devem estar disponíveis para beneficiários baseados na fé que afirmam que o casamento não é apenas entre dois adultos quaisquer, mas entre um homem e uma mulher sem parentesco”.

LIMITAR O ACESSO AO ABORTO

Limitar o acesso ao aborto em todo o país, além de impedir o uso do já aprovado remédio mifepristona, utilizado para encerrar uma gravidez. Outra proposta é recuperar uma lei do século 19, a Lei Comstock, para proibir o envio de quaisquer medicamentos, equipamentos ou materiais de aborto através dos Correios.

Nas 920 páginas, existem mais de 200 referência ao aborto, inclusive a criação de um banco de dados sobre as gravidezes nos EUA. Para Kamala Harris, o projeto criaria um “monitoramento nacional da gravidez de cada uma das americanas”.

DEPORTAÇÕES EM MASSA

A ação do governo para realizar deportações em massa, acabar com a cidadania por nascimento, separar famílias e desmantelar o sistema de asilo.

O estabelecimento de uma mega operação militar na fronteira e o aumento do financiamento para a construção do muro na fronteira entre os EUA e o México, além do desmantelamento do atual Departamento de Segurança Interna.

Ficaria também eliminada a lei que permite vistos para estrangeiros que sejam vítimas de crimes ou de tráfico humano, além de um aumento importante das taxas administrativas para imigrantes, inviabilizando o pagamento para milhares de estrangeiros.

SUPERPODERES AO PRESIDENTE E PROIBIR FBI DE INVESTIGAR DESINFORMAÇÃO?

Aprovação de leis para retirar a autonomia de agências do estado e colocando-as sob o poder do Executivo.

O documento inclui estratégias para a implementação de políticas imediatamente após a posse presidencial em janeiro de 2025, como a criação de um banco de dados de conservadores leais para ocupar cargos no governo.

A instrumentalização do Departamento de Justiça também seria um objetivo, assim como do FBI.

“O FBI está completamente fora de controle. Para proteger a Constituição, combater o crime de forma eficaz e proteger a nação de adversários estrangeiros, a próxima administração conservadora deve começar a restaurar a reputação e a integridade doméstica do FBI e aumentar sua eficácia no enfrentamento de ameaças estrangeiras reais”, diz.

Para isso, a próxima administração conservadora deve encerrar qualquer investigação que possa minar “o interesse nacional”. O FBI também deve abandonar o trabalho de investigar a proliferação de desinformação.

USO INDEVIDO DA FORÇA CONTRA MANIFESTANTES

Aprovar leis que permitam o uso de forças policiais federais contra jornalistas e manifestantes. Pelo projeto, portanto, um presidente poderia enviar tropas contra americanos envolvidos em protestos. O presidente poderia também colocar forças armadas para reprimir marchas e manifestações.

Se existe uma tradição de proibir o envolvimento militar na aplicação da lei doméstica, existe uma exceção na Lei da Insurreição, originalmente promulgada pelo Congresso em 1792 e atualizada pela última vez em 1871.

Por essa lei, o presidente pode usar as forças armadas para “tomar as medidas que considere necessárias para suprimir, num Estado, qualquer insurreição, violência doméstica, combinação ilegal ou conspiração”. Isso é raramente usado, diante da falta de controle por parte do Congresso. Agora, o Projeto 2025 facilitaria o uso da lei em resposta a protestos.

NEGACIONISMO CLIMÁTICO

O projeto ainda fala abertamente no corte de verbas federais para pesquisa e investimento em energia renovável e pede que o próximo presidente “pare a guerra contra o petróleo e o gás natural”.

As metas de redução de carbono seriam eliminadas e todos os esforços deveriam ser direcionados ao aumento da segurança energética.

O texto ainda critica os democratas por ter “incorporado políticas radicais de clima”. “O governo Biden se juntou ou financiou parcerias internacionais dedicadas a promover os objetivos do Acordo Climático de Paris e apoiou a ideia de dar trilhões de dólares a mais em transferências de ajuda para “reparações climáticas”, criticou.

“Sua agenda anti-combustível fóssil levou a um aumento acentuado nos preços globais de energia”, atacou o plano, que ainda diz que é “falso” que mudanças climáticas causam pobreza.

NEUTRALIZAR O SENADO

Documento sugere neutralizar a função constitucional do Senado de aprovar nomes de pessoas indicadas para trabalhar no Poder Executivo. Para driblar o Legislativo, a proposta é de que o novo presidente apenas faça nomeações “interinas”, o que dispensaria uma confirmação entre senadores.

“O próximo governo pode precisar adotar uma nova abordagem para o processo de confirmações a fim de garantir uma transição adequada e rápida. da agenda do Dia Um”, afirma.Também é recomendado que o novo governo “também deve procurar remover da exigência de confirmação os cargos de nível mais baixo, mas ainda assim importantes, que atualmente exigem confirmação do Senado”.

Na prática, a proposta permitiria a tomada de agências e instituições do Executivo por pessoas leais ao governo.

Críticas: o fim dos EUA como o conhecemos

Se o Projeto 2025 abriu um intenso debate na sociedade dos EUA, coube ao Centro para o Progresso Americano uma avaliação aprofundada pelo plano. Suas conclusões apontam para os riscos de uma implementação de suas recomendações, caso Donald Trump vença as eleições.

“Muito simplesmente, se o Projeto 2025 for implementado, os Estados Unidos ficarão irreconhecíveis”, disse o Centro. “Em vez disso, eles se assemelhariam a autocracias do mundo todo, como a Hungria e a Turquia, que, nos últimos anos, enfraqueceram seriamente suas democracias e investiram um poder desordenado em líderes autoritários que atendem aos interesses deles mesmos, não do público”, alertou.

“O Projeto 2025 derrubaria as grades de proteção, incluindo o armamento do Departamento de Justiça dos EUA contra oponentes políticos e americanos comuns; a substituição de dezenas de milhares de funcionários públicos apartidários por leais à ordem do presidente”, disse.

O Projeto 2025 seria um “caminho plausível para que um governo de extrema direita, baseado em uma filosofia branca, nacionalista cristã, pró-corporativa e anti-trabalhista, degrade a democracia e promova metas políticas radicais que há muito tempo deseja realizar, mas que ainda não conseguiu implementar”.

Para o Centro, trata-se de um “roteiro autoritário de uma minoria política em declínio e que tem como objetivo derrubar o sistema de freios e contrapesos”.

“Se o Congresso for privado de seu papel imperativo de controle e equilíbrio do poder do presidente, e o Poder Judiciário estiver disposto a conceder ao presidente uma autoridade quase ilimitada, o resultado será a autocracia”, completou.

Divididos, americanos vão às urnas para decidir quem vive ou morre no mundo

Nos últimos dias, governos de todo o mundo suspenderam decisões, adiaram anúncios e colocaram negociações em suspensão até que os americanos definam quem será o próximo governo da potência nuclear.

Os europeus, por exemplo, estudam o que fazer caso Donald Trump vença e opte por concretizar sua promessa de campanha de fechar o mercado americano. Uma nova guerra comercial, principalmente com o setor automotivo alemão, vem deixando Berlim e outras capitais apreensivas.

Na própria ONU, uma das preocupações se refere ao destino de programas de ajuda a mulheres e meninas. Uma vitória de Donald Trump significará a suspensão de milhões de dólares para programas de direitos reprodutivos e sexuais, principalmente nos países mais pobres.

A entidade americana MSI Reproductive Choices, que fornece serviços de contracepção e aborto seguro em todo o mundo, estimou que 8 milhões de mulheres perderam o acesso a serviços de saúde e direitos sexuais e reprodutivos durante o mandato de Trump a partir de 2016. Isso teria resultado em 6 milhões de gestações indesejadas e 1,8 milhão de abortos inseguros.

Agora, a preocupação é que, se Trump vencer, ele poderá expandir essa restrição do uso de recursos americanos para incluir toda a assistência ao desenvolvimento dos EUA e bloquear o financiamento de organizações multilaterais que trabalham na área, como o Fundo de População das Nações Unidas.

De uma forma mais geral, diplomatas também temem a suspensão de recursos americanos para dezenas de outros programas, inclusive para combater as mudanças climáticas. Depois de Trump cortar os pagamentos para a OMS (Organização Mundial da Saúde) e outras agências, o governo de Joe Biden retomou o fluxo de recursos. Assim, as contribuições dos EUA para o sistema da ONU aumentaram de US$ 11,6 bilhões em 2020 para US$ 18,1 bilhões em 2022.

Documentos da ala mais radical dos conservadores americanos apontam que a proposta é condicionar ajuda a uma mudança de alianças por parte daqueles que recebem o resgate. Ou seja: para sobreviver, terão de se alinhar aos interesses dos EUA.

O Brasil também aguarda para tomar decisões. O governo da China insiste em lançar negociações para que o país faça parte de seu projeto global de investimentos, a nova Rota da Seda. No Palácio do Planalto, porém, a ordem é esperar as urnas nos EUA para saber que destino dar às relações com o resto do mundo.

Dependem também dos americanos o destino da guerra na Ucrânia, o socorro humanitário no Sudão, a violência no Haiti e dezenas de crises pelo mundo.

Em Cuba, por exemplo, o apagão que a ilha enfrenta é, em parte, responsabilidade das sanções impostas pelos EUA. Mas retirar o embargo não é um tema apenas de política externa. O voto dos cubanos anticastristas na Flórida é fundamental e, portanto, deixar a ilha no escuro é apenas um “impacto colateral” da luta democrática pelo poder em Washington.

Nem todos optam por esperar. Em Israel, Benjamin Netanyahu, com medo de um eventual governo de Kamala Harris, acredita que a janela de oportunidade está se fechando e que continuar o massacre de palestinos pode ser mais difícil com a campanha encerrada. Por isso, ele não tem hesitado em ampliar as operações militares, enquanto sabe que seu maior aliado vive uma encruzilhada interna.

O que está em jogo nas urnas nos EUA, portanto, não é apenas o destino de um país em crise existencial. Mas o que ocorrerá com milhões de pessoas em zonas de conflito, em áreas de crise humanitária, em zonas de desastres naturais e com mulheres e meninas em todo o mundo.

Nas urnas nos EUA está, portanto, o destino também de quem vive e quem morre no mundo.

Como a eleição dos EUA deve afetar o Brasil

Nenhuma disputa eleitoral é acompanhada com tanta atenção pelo mundo como a pela Casa Branca. O cargo de presidente dos Estados Unidos tem grande poder político, econômico e militar, e suas decisões provocam efeitos muito além de suas fronteiras.

O pleito da terça-feira (05) desperta particular apreensão: a democrata Kamala Harris e o republicano Donald Trump estão em empate técnico nas pesquisas, e Trump já demonstrou no seu mandato anterior seu potencial disruptivo para a estabilidade democrática e o combate às mudanças climáticas.

Para o Brasil, o impacto de uma vitória de Trump deve ser significativo: fortalecimento da extrema direita, redução de financiamento e parcerias na área ambiental, entraves comerciais e pressão sobre a parceria com a China são alguns dos efeitos mencionados por especialistas ouvidos pela DW.

Já no caso de uma vitória de Harris, a tendência é a manutenção de uma relação morna entre Washington e Brasília, sem grandes ambições relacionadas à América do Sul, mais business as usual e com entendimentos para a defesa da democracia liberal e a proteção do meio ambiente.

Não é segredo quem é o candidato preferido do governo brasileiro. No início de junho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que torcia para que o presidente americano Joe Biden vencesse – três semanas depois, ele depois abriu mão de sua candidatura à reeleição em favor de Harris. Já Trump apoiou a reeleição de Jair Bolsonaro em 2022, dizendo que Lula era um “lunático da esquerda radical”.

Democracia e extrema direita

Os EUA são uma referência para muitos no Brasil, e o resultado da disputa política americana às vezes reverbera no cenário político brasileiro. Um exemplo: em novembro de 2016, Trump foi eleito presidente pela primeira vez; dois anos depois, Bolsonaro venceu no Brasil. Em janeiro de 2021, apoiadores de Trump inconformados com sua derrota invadiram o Capitólio; também após dois anos, bolsonaristas indignados com seu fracasso eleitoral invadiram o Congresso, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal.

Neste ano, a campanha de Trump tem sido mais explícita do que a de 2016 em propostas de cunho autoritário – como usar instituições de Estado e as Forças Armadas contra seus adversários. E se ele for eleito, fortalecerá a posição da extrema direita ao redor do mundo, inclusive a do Brasil, afirma à DW a cientista política Maria Hermínia Tavares, professora aposentada da USP e pesquisadora sênior do Cebrap.

“Uma vitória do Trump vai diminuir ainda mais a capacidade de democracias liberais de fazerem frente a uma ascensão de regimes autoritários e de movimentos de extrema direita”, afirma. “Existe uma influência clara e uma linguagem comum nesses movimentos, e uma vitória do Trump fortalece a extrema direita no Brasil, que já é forte.”

Um eventual sucesso de Trump em 2024 trará um vento de esperança para o bolsonarismo em 2026, acrescenta Roberto Goulart Menezes, professor de relações internacionais da UnB e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU).

“Há um vínculo claro do núcleo duro do bolsonarismo com a extrema direita dos Estados Unidos. Se ele assumir a Casa Branca, essa rede se consolida mais”, diz, citando as articulações de Eduardo Bolsonaro com o trumpismo e lembrando que ele chegou a ser cogitado por Bolsonaro para ser embaixador do Brasil no país.

Se Harris vencer, a tendência é de menor instabilidade na democracia brasileira e latino-americana como um todo, diz Menezes. “O governo Biden foi decisivo para o Bolsonaro não triunfar com o golpe no Brasil – eles se mobilizaram durante meses para que o Brasil não saísse do trilho.”

Parcerias sobre mudanças climáticas

Um ponto de convergência entre os dois atuais governos é a defesa do meio ambiente. As gestões Lula e Biden firmaram parecerias para iniciativas climáticas, e a Casa Branca anunciou um plano de doar 500 milhões de dólares para o Fundo Amazônia ao longo de cinco anos – dos quais 53 milhões já foram transferidos.

O valor total anunciado pelos EUA é superior ao que Noruega, Alemanha e Petrobras doaram ao Fundo Amazônia ao longo de 14 anos, diz Menezes. Se Trump vencer, a tendência é de desmobilização dessas parcerias na área ambiental. “O Trump tirou os Estados Unidos do Acordo de Paris”, lembra.

Os dois atuais governos também avançaram em negociações sobre a economia verde, buscando alinhar objetivos do Green New Deal de Biden aos do Plano de Transformação Ecológica de Lula, e essas conversas devem prosseguir sob um eventual governo Harris, diz Menezes. Até agora, porém, pouco de concreto já foi anunciado – como investimentos americanos para extrair minerais críticos.

“Para o Brasil, essa cooperação na área ambiental é muito importante tanto no que diz respeito a recursos como a parcerias técnicas e científicas”, afirma Tavares. Se Trump vencer, ela projeta que essas ações serão paralisadas. “O Trump não é só muito nacionalista e isolacionista, mas também negacionista do ponto de vista ambiental.”

Comércio exterior

Os EUA são o segundo maior destino das exportações brasileiras. Em 2023, o país comprou 37 bilhões de dólares do Brasil, só atrás da China, que comprou 104 bilhões de dólares no mesmo período, segundo dados do Comex Stat.

O perfil de exportação para os dois países também é diferente. Enquanto para a China predomina a venda de commodities, para os Estados Unidos também são vendidos produtos semimanufaturados ou manufaturados, diz Menezes.

Entre as dez categorias de itens mais exportados para a China, todas são commodities agrícolas ou minerais, enquanto no mesmo ranking para os EUA constam também máquinas e aparelhos, aeronaves e produtos químicos. No entanto, a relação comercial com a China é superavitária para o Brasil, e com os EUA é deficitária.

No quesito investimento direto no Brasil, os americanos lideram, com um estoque de 246,3 bilhões de dólares em 2022, cerca de um quarto do total, segundo estudo da Apex Brasil divulgado neste ano, quando as relações comerciais entre os dois países completaram 200 anos.

“Os EUA não estão implicados diretamente no processo de desindustrialização da economia brasileira, como é o caso da China”, diz Menezes. Mesmo assim, a Casa Branca não tem em vista nenhum projeto ou acordo comercial mais ambicioso para o Brasil ou a América Latina, e isso não deve mudar, seja com Trump ou com Harris. “Não somos um espaço de primeira ordem para os EUA”, afirma.

A maior alteração nesse campo deve ocorrer após uma eventual vitória de Trump, que prometeu na campanha aumentar linearmente em 10 pontos percentuais as tarifas de importação. Para Tavares, se o acesso de produtos brasileiros ao mercado americano for dificultado, a tendência é o Brasil desviar uma parcela ainda maior de seu comércio exterior para a Ásia.

Proximidade entre Brasil e China

Por sinal, a relação do Brasil com a China é outro ponto que pode ser foco de tensões se Trump vencer. Washington considera Pequim uma adversária, e vem adotando políticas comerciais e regulatórias agressivas para tentar conter a expansão da potência asiática.

Enquanto isso, a relação entre Brasil e China se aprofunda. O país se tornou o maior parceiro comercial do Brasil em 2009 e consolidou-se nessa posição. Os dois são membros do Brics, e Pequim vem tentando convencer Brasília a integrar seu programa de desenvolvimento da infraestrutura global, a Iniciativa do Cinturão e Rota.

“A China está entrando com tudo no Brasil, e começa a entrar também na cooperação acadêmica e científica. Mas tenho a impressão que o establishment democrata americano ainda não se deu conta disso”, afirma Tavares.

Já sob Trump, um eventual endurecimento dos EUA sobre o tema tende a empurrar o Brasil ainda mais na direção da China. “A esquerda brasileira já tem uma tradição de um certo antiamericanismo, e uma vitória do Trump vai fortalecer esses setores, que dirão: ‘vamos para o Brics, são mais importantes que outras coalizões internacionais’. Não acho que isso seja necessariamente bom”.

Menezes também avalia que um governo Trump tenderá a pressionar com mais agressividade Brasília para que repense sua relação com Pequim. Ele cita como exemplo a decisão de a Casa Branca “advertir” em outubro passado o Peru sobre a concessão de obras de infraestrutura aos chineses em seu território, das quais a joia é o novo porto ultramarino de Chancay. O porto será inaugurado em novembro com a presença do presidente chinês, Xi Jinping, que em seguida visitará o Brasil e se reunirá com Lula.

Falta de projetos ambiciosos

Seja quem for o vencedor, o Brasil deve seguir fora do radar de prioridades da Casa Branca, que tem outros desafios internacionais mais prementes como a China, a imigração ilegal por meio do México e a guerra entre Israel e o Hamas.

A última Cúpula das Américas, realizada em Los Angeles em 2022, foi “esvaziada”, lembra Menezes, e a Casa Branca segue sem ter uma agenda ambiciosa para a América Latina. É sintomático que, durante seu mandato, Biden não fez nenhuma viagem ao Brasil – há expectativa que ele possa comparecer à cúpula do G20 no Rio de Janeiro, em 18 e 19 de novembro, mas ainda não confirmou sua presença.

“Quando você fala em América Latina para os Estados Unidos, isso significa México, uma parte da América Central, por conta de Cuba, e países que criam problemas, como a Venezuela. Tirando isso, o interesse do governo é baixo”, diz Tavares.

Mas ela enfatiza que as trocas entre os dois países são muito mais amplas do que a interação entre os dois governos, e envolve uma trama de relações “densas e importantes” da sociedade civil e do meio acadêmico – sem mencionar o grande interesse do brasileiro pelo país como destino turístico e referência cultural e de valores.


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *