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Mundo

O grito final do Papa por justiça e paz

Em artigo póstumo, Francisco aponta a desumanidade na Palestina

Publicado em 23/04/2025 11:25 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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Em um de seus últimos gestos públicos, o papa Francisco legou ao mundo uma mensagem poderosa e comovente. O artigo póstumo, publicado na revista The Parliament no dia seguinte à sua morte, clama por uma paz concreta entre Israel e Palestina. Mais do que um manifesto espiritual, o texto é um documento político e moral que denuncia o ciclo de violência que se perpetua há décadas no coração da Terra Santa. “A segurança não pode jamais ser atingida por dominação, aniquilação, humilhação ou a exclusão do próximo”, escreveu o pontífice, reafirmando seu apoio à solução de dois Estados como única via para a justiça e a paz duradoura.

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O artigo, intitulado “O banho de sangue na Palestina/Israel deve acabar”, não apenas ressoa com o peso espiritual de um líder religioso, mas dialoga diretamente com a realidade concreta de um território dilacerado. Ao lembrar que judeus, cristãos e muçulmanos compartilham aquela terra sagrada, Francisco aponta o paradoxo de uma região venerada por sua santidade, mas ensanguentada por guerras constantes. Ele denuncia a “banalização da guerra”, a naturalização da violência como linguagem política e a redução da paz a um gesto de fraqueza. Trata-se, como bem disse Hannah Arendt, da transformação do mal em rotina — e da paz em utopia.

Mas enquanto a última mensagem do papa ecoa como apelo humanista, os fatos em Gaza revelam um agravamento trágico da situação. O bloqueio total imposto por Israel desde março levou ao colapso do sistema de saúde e à suspensão da vacinação contra a poliomielite. Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, mais de 600 mil crianças ficaram sem imunização, o que representa uma ameaça concreta de ressurgimento de uma doença erradicada na maior parte do mundo. “Se as vacinas contra a poliomielite não chegarem imediatamente, prevemos uma verdadeira catástrofe”, alertou Khalil Deqran, porta-voz do ministério (Reuters, 22/04/2025).

O pretexto oficial de Israel para o bloqueio — pressionar o Hamas pela libertação de reféns — contrasta com a gravidade humanitária denunciada por agências internacionais. A ONU estima que mais de 1,6 mil palestinos morreram nos bombardeios recentes, e cerca de 400 mil foram deslocados. Ao mesmo tempo, 70% da Faixa de Gaza está agora sob ordens de evacuação ou designada como “zona proibida”, segundo declarou o secretário-geral António Guterres. “Estou muito apreensivo de que a assistência continue a ser bloqueada, com consequências devastadoras”, afirmou.

Essas chamadas “zonas de segurança” — que ocupam agora 36% da Faixa de Gaza — não apenas reduzem drasticamente o espaço habitável da população, como refletem uma política de controle territorial e destruição sistemática. A ONG israelense Breaking the Silence acusa o governo de praticar uma “limpeza étnica em larga escala”, sob o pretexto de segurança. “Eles a denominam ‘zona-tampão’. Mas o que está em curso é expulsão e destruição, não segurança”, afirmou Nadav Weiman, diretor da organização.

A história ensina que políticas baseadas na exclusão e na dominação não produzem paz. O filósofo Edward Said, em sua análise seminal Peace and Its Discontents, alertava que a ausência de um reconhecimento mútuo genuíno transforma qualquer cessar-fogo em uma pausa estratégica, e não em uma etapa de reconciliação. Ao contrário, o que se observa em Gaza é uma militarização crescente, com corredores como o de Morag e o Filadélfia isolando regiões inteiras, destruindo infraestrutura civil e suprimindo qualquer perspectiva de autonomia.

Para o papa Francisco, a paz verdadeira “não é apenas uma questão de acordos políticos”, mas exige um esforço ético e coletivo de reconhecimento da dignidade alheia. Ao declarar que “a independência deve andar de mãos dadas com a interdependência”, o pontífice retoma um princípio básico da convivência democrática: não há liberdade legítima sem a liberdade do outro.

A realidade, porém, parece caminhar no sentido oposto. A cada nova incursão militar, o tecido social da Faixa de Gaza é rasgado. Ruas transformadas em escombros, famílias vivendo ao relento, acesso negado a alimentos, medicamentos e água potável. O Estado de Israel, por sua vez, recusa qualquer proposta de trégua duradoura que não envolva o desarmamento completo do Hamas — exigência irreal no curto prazo — enquanto o governo Netanyahu evita apresentar planos para o “dia seguinte”. Como alerta o historiador israelense Ilan Pappé: “A ocupação prolongada não é uma solução, é uma receita para a perpetuação da violência”.

Francisco encerra seu texto evocando Isaías e Mateus, clamando por justiça e invocando o papel da comunidade internacional. Seu apelo final não é apenas pela paz entre povos em guerra, mas por uma humanidade capaz de reconhecer a dor alheia como sua. “Deus e as futuras gerações nos julgarão não por quantos inimigos nós derrotamos, mas por quantas vidas salvamos.”

A Terra Santa, ao que tudo indica, está cada vez mais distante da paz — mas talvez, como bem lembrou o papa, ainda possa se tornar realmente santa.

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