Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Mundo

Netanyahu e Trump apostam na guerra para salvar seus próprios destinos

Rússia fala em armar Irã com ogivas nucleares: EUA respondem com ameaças

Publicado em 23/06/2025 12:50 - Semana On

Divulgação Reprodução

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Em um planeta já marcado por tensões geopolíticas, mudanças climáticas e desigualdades sociais crescentes, a emergência de lideranças que operam na lógica do colapso não é apenas uma anomalia política — é uma ameaça existencial. Dois nomes sintetizam essa lógica: Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, e Donald Trump, ex-presidente e pré-candidato à presidência dos Estados Unidos. Ambos, embora separados por oceanos e sistemas políticos distintos, compartilham uma característica inquietante: usam o conflito, a tensão permanente e a fabricação de inimigos como instrumentos de autopreservação política — e, não por coincidência, como estratégia para evitar a prisão.

CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP

A história política oferece inúmeros exemplos de governantes que, diante da possibilidade de perda de poder ou responsabilização jurídica, optaram por acender fósforos perto de barris de pólvora. Mas, talvez, nunca antes na história recente dois líderes tenham reunido simultaneamente tamanho potencial destrutivo, tanto para suas sociedades quanto para a estabilidade global.

Netanyahu e a lógica do conflito perpétuo

Benjamin Netanyahu, o mais longevo primeiro-ministro da história de Israel, representa como poucos a fusão entre sobrevivência política e política de Estado. Réu em processos por corrupção, fraude e abuso de confiança, Netanyahu transformou o cargo de chefe de governo em escudo jurídico e político. E, para mantê-lo, aposta na guerra como modus operandi.

O ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, que resultou na morte de mais de 1.200 israelenses e levou à captura de centenas de reféns, expôs uma falha que muitos analistas consideram inexplicável. A famosa inteligência israelense, capaz de mapear até suspeitos que atravessam continentes, não foi capaz de prever a maior incursão terrorista em solo israelense desde 1948. A investigação sobre as responsabilidades do governo está em curso, mas a suspeita de que Netanyahu teria negligenciado alertas internos não é desprezível.

Ainda mais controversa é a revelação, segundo relatos da imprensa israelense e de analistas internacionais, de que seu governo teria estabelecido um acordo operacional com membros do Estado Islâmico (ISIS) na Faixa de Gaza para combater o Hamas. Uma aliança que, para muitos, ultrapassa qualquer limite ético e político, transformando o pragmatismo bélico em uma forma refinada de delinquência política.

Este não é um movimento isolado. Netanyahu sustenta, há décadas, uma política sistemática de desmoralização da Autoridade Palestina, representada por Mahmoud Abbas, além de fomentar a expansão de assentamentos ilegais na Cisjordânia e oferecer suporte tácito às ações de colonos judeus extremistas, que frequentemente atacam comunidades palestinas, com episódios documentados por organizações como Human Rights Watch e B’Tselem.

O discurso da “ameaça existencial”, reiterado desde os anos 1990, é a espinha dorsal de sua retórica. Contudo, segundo estudiosos como Ilan Pappé, historiador israelense e professor da Universidade de Exeter, “desde a Guerra do Yom Kippur, em 1973, Israel não enfrenta ameaças militares que coloquem sua existência nacional em risco” — uma afirmação sustentada por relatórios periódicos da própria IDF (Forças de Defesa de Israel).

O ápice desse belicismo disfarçado de defesa nacional surge na escalada contra o Irã. Segundo reportagens divulgadas por veículos como o Haaretz, Netanyahu teria defendido nos bastidores o assassinato de Ali Khamenei, líder supremo do Irã, sendo contido pela pressão de Washington. Não à toa, a inteligência israelense parece hoje mais eficiente em operar em Teerã do que foi em sua própria fronteira com Gaza no fatídico outubro de 2023.

Trump: o incendiário global

Nos Estados Unidos, Donald Trump espelha essa lógica, embora com outros métodos. O ex-presidente, que enfrenta mais de 90 acusações criminais — entre elas, tentativa de subversão do processo democrático e retenção ilegal de documentos confidenciais —, usa a retórica bélica como combustível para sua base política radicalizada.

Durante sua campanha, Trump prometeu que, se eleito, encerraria de imediato conflitos como a guerra na Ucrânia e o conflito Israel-Hamas, afirmando que “essas guerras nunca teriam acontecido” se estivesse na Casa Branca. Entretanto, sua própria gestão desmentiu essa promessa retroativa. Em janeiro de 2020, ordenou um ataque ao Irã sem autorização do Congresso, violando abertamente a legislação americana, conforme documentado pelo Congressional Research Service.

O paradoxo nuclear salta aos olhos: enquanto o Irã, signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), é acusado de tentar obter armas atômicas — algo que até hoje não se confirmou —, Israel, que nunca assinou o tratado, possui um arsenal nuclear estimado entre 80 e 400 ogivas, segundo o Nuclear Threat Initiative (NTI). Um cenário que, nas palavras do cientista político Noam Chomsky, “demonstra a hipocrisia estrutural das potências ocidentais no jogo da segurança internacional”.

A reflexão se amplia quando se observa que, se a Ucrânia não tivesse transferido seu arsenal nuclear para a Rússia após o colapso da União Soviética, talvez a invasão de 2022 jamais tivesse ocorrido — uma tese defendida por especialistas como Graham Allison, da Harvard Kennedy School.

Além dos riscos bélicos, as políticas de Trump colocaram a economia global em estado de alerta. Sua obsessão por tarifas comerciais, especialmente contra a China, e a instabilidade no Estreito de Ormuz, ponto por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, são fatores que ampliam o risco de uma crise econômica global.

O barril de pólvora global

O Irã, alvo preferencial dessa engrenagem de tensões, vive sob a ditadura dos aiatolás desde 1979. Embora amplos setores da sociedade iraniana manifestem desejo de mudança — como demonstram os constantes protestos de mulheres, jovens e minorias —, o regime mantém controle absoluto sobre as forças armadas e a poderosa Guarda Revolucionária Islâmica, tornando improvável qualquer transição por vias internas no curto prazo.

A escalada recente tem alarmado as potências globais. Ontem, na ONU, o embaixador russo Vasily Nebenzya alertou que os EUA estão “jogando com a segurança da humanidade”, uma denúncia reportada pelo jornalista Jamil Chade, do UOL. A China, de forma mais diplomática, afirmou que os ataques “violam a Carta da ONU e a soberania do Irã, além de ampliarem a tensão na região”.

Os arautos do apocalipse

O que une Netanyahu e Trump, além dos processos judiciais que enfrentam, é uma visão de mundo onde o caos não é um acidente, mas uma estratégia. Quanto mais prolongados forem os conflitos, mais se fortalece sua narrativa interna de defesa da pátria, da civilização ou dos valores tradicionais — uma lógica que, na prática, destrói os próprios fundamentos do Estado democrático de direito.

A guerra, para esses líderes, não é uma tragédia, mas uma tática. Uma tática cujo preço é pago em vidas palestinas, israelenses, iranianas, ucranianas — e, potencialmente, em milhões de outras, caso esse jogo geopolítico não encontre freios.

Como advertiu Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, em Modernidade e Ambivalência (1991): “Quando a insegurança se torna política de Estado, a guerra deixa de ser uma exceção e se torna a própria condição da governabilidade.”

Se os alertas da história não bastam, talvez seja hora de ouvir os avisos da realidade. Porque, como bem lembrou o filósofo Umberto Eco, “a loucura tem sempre uma lógica. Só que é uma lógica perversa.

A diplomacia da destruição

Num mundo já marcado pela fragmentação diplomática, pelo colapso dos sistemas multilaterais e pela ascensão de lideranças autoritárias, um novo e perigosíssimo degrau foi alcançado na escalada das tensões globais. Dmitri Medvedev, ex-presidente da Rússia e atual vice-presidente do Conselho de Segurança do país, sugeriu publicamente que “vários países estão dispostos a fornecer armas nucleares ao Irã”, caso os ataques de Estados Unidos e Israel continuem. A resposta de Donald Trump, presidente norte-americano, veio carregada de ameaças, ostentação militar e um tom de desprezo calculado que faz a diplomacia internacional estremecer.

Se confirmada, a declaração de Medvedev não é apenas um rompante retórico. Ela representa a mais direta ameaça à arquitetura de segurança global desde o auge da Guerra Fria, quando o mundo viveu à beira do abismo nuclear durante a Crise dos Mísseis em Cuba, em 1962. Diferente daquele contexto, no entanto, o cenário atual é ainda mais volátil: marcado pela corrosão das instituições multilaterais, pela relativização do direito internacional e pela emergência de lideranças populistas, que enxergam o colapso não como risco, mas como oportunidade política.

A escalada começa em Moscou

Foi por meio de postagens na rede social X (antigo Twitter) que Medvedev elevou a temperatura geopolítica. Referindo-se diretamente aos ataques ordenados por Donald Trump contra instalações nucleares iranianas, ele afirmou: “O enriquecimento de material nuclear e, agora podemos dizer sem rodeios, a futura produção de armas nucleares continuarão.”

Em seguida, lançou a bomba diplomática: “Vários países estão prontos para fornecer diretamente ao Irã suas próprias ogivas nucleares.”

Essa declaração, além de sem precedentes, configura uma clara violação ao Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), do qual a Rússia é signatária desde 1970. O tratado é considerado uma das principais âncoras do regime de controle de armamentos no pós-Segunda Guerra Mundial, buscando impedir a disseminação de armas nucleares, ao mesmo tempo em que promove o desarmamento progressivo e o uso pacífico da energia nuclear.

Ao sugerir a possibilidade de transferir ogivas para Teerã, Medvedev não apenas ameaça romper um dos pilares do equilíbrio nuclear global, como também lança um alerta sombrio: a ordem internacional está em colapso e as regras que regeram o mundo desde Bretton Woods e a criação da ONU estão sendo rasgadas em público.

Trump responde com fanfarronice bélica

A reação de Trump não tardou e seguiu a mesma lógica da intimidação. Publicada também nas redes sociais, sua declaração oscilou entre o deboche, o sarcasmo e uma exibição quase pornográfica do poderio militar americano. O presidente norte-americano ironizou:

“Será que ouvi o ex-presidente Medvedev, da Rússia, falando casualmente a ‘palavra N’ (Nuclear!) e dizendo que ele e outros países forneceriam ogivas nucleares ao Irã? Ele realmente disse isso ou é apenas fruto da minha imaginação? Se ele realmente disse isso, e se for confirmado, por favor, me informe IMEDIATAMENTE.”

Mas não parou aí. Trump fez questão de ostentar: “A ‘palavra com N’ não deve ser tratada de forma tão casual. Acho que é por isso que Putin é ‘O CHEFE’. A propósito, se alguém acha que nosso ‘hardware’ foi ótimo no fim de semana, de longe o melhor e mais forte equipamento que temos, 20 anos mais avançado do que os demais, são nossos submarinos nucleares.”

E arrematou com um recado claro ao mundo: “Eles são as armas mais poderosas e letais já construídas e acabaram de lançar 30 Tomahawks — todos os 30 atingiram seus alvos com perfeição. Portanto, além de nossos excelentes pilotos de caça, obrigado ao capitão e à sua tripulação!”

A declaração é uma ode à dissuasão nuclear, mas também uma demonstração de como a lógica da segurança internacional tem sido substituída por uma lógica de espetáculo, onde ameaças existenciais são feitas como se fossem tuítes de uma briga banal.

Uma ruptura que reverbera no mundo

O tom adotado por Medvedev surpreendeu até setores da diplomacia que, até aqui, consideravam possível algum grau de aproximação entre Putin e Trump. A retórica agressiva evidencia uma deterioração rápida dos canais diplomáticos entre as potências, especialmente após a Rússia, durante reunião do Conselho de Segurança da ONU, ter classificado o governo Trump como “irresponsável” e o acusar de “jogar com a segurança da humanidade” — segundo informou o jornalista Jamil Chade, do UOL, em cobertura direta da ONU.

O que poderia soar como hipérbole diplomática é, na verdade, reflexo de uma nova realidade multipolar desordenada. A ameaça de proliferação nuclear não vem mais de Estados párias isolados, como foi o caso da Coreia do Norte, mas agora surge a partir de centros de poder nuclear estabelecidos, como Moscou, e é respondida com cinismo por Washington.

Irã no epicentro de um jogo de ruína mútua

O Irã, historicamente pressionado por sanções e isolado por décadas de política externa ocidental, transforma-se novamente no epicentro de uma disputa que não é apenas regional, mas estrutural para a ordem mundial. Ainda que o país esteja formalmente sob o regime do Tratado de Não Proliferação Nuclear, a sucessão de ataques americanos e israelenses às suas instalações nucleares tem alimentado, dentro e fora do Irã, a percepção de que possuir armas nucleares não é apenas uma ambição, mas uma questão de sobrevivência.

Esse é o paradoxo que estudiosos como o cientista político Kenneth Waltz, fundador da Teoria do Realismo Estrutural, já haviam antecipado em suas análises: quanto mais um país se sente vulnerável, mais incentivos terá para buscar dissuasão nuclear como garantia última de segurança. Waltz, em seu artigo “Why Iran Should Get the Bomb” (Foreign Affairs, 2012), defendeu que um Irã nuclearizado poderia, paradoxalmente, estabilizar a região, do mesmo modo que a doutrina da destruição mútua assegurada (MAD) evitou o conflito direto entre EUA e URSS.

O fantasma de 1962 e a incerteza do século XXI

O mundo já esteve à beira do colapso nuclear antes, como na Crise dos Mísseis em Cuba. Mas há uma diferença crucial: em 1962, existiam estadistas como John F. Kennedy e Nikita Khrushchev, capazes de recuar à beira do abismo em nome da sobrevivência coletiva. Hoje, são populistas, ultranacionalistas e figuras que operam na lógica do colapso — como Trump e o círculo de Putin — que seguram o fio da espada nuclear.

Como escreveu o historiador Yuval Noah Harari, em 21 Lições para o Século 21 (2018), “a combinação de ignorância, ódio e tecnologia é um perigo muito maior do que qualquer bomba sozinha.” A frase nunca soou tão pertinente.

Se a diplomacia não encontrar pontes — e se os freios institucionais continuarem a ser corroídos —, o mundo pode, pela primeira vez desde 1945, encarar não apenas a ameaça, mas a possibilidade concreta de um conflito nuclear em pleno século XXI. Medvedev e Trump não estão apenas jogando com palavras; estão jogando com o futuro da humanidade.

A história talvez não perdoe, mas resta saber se haverá alguém para contá-la.

Barbárie: tanques israelenses disparam contra palestinos famintos


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *