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Mundo

Missão da ONU denuncia ‘máquina repressiva’ contra opositores na Venezuela

Ao atacar Centro Carter, Maduro dá uma banana para o mundo

Publicado em 01/08/2024 10:15 - Jamil Chade e Josias de Souza (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On

Divulgação Reuters

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A Missão Internacional Independente de Apuração de Fatos sobre a Venezuela, criada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, declarou sua “profunda preocupação com a violência” e as alegações de violações de direitos humanos relatadas no país após a votação presidencial de domingo. Para o grupo, há uma reativação da “máquina repressiva” do governo de Nicolás Maduro contra opositores.

Num comunicado emitido em Genebra nesta quarta-feira (31), a missão afirmou que tem recebido informações confiáveis “sobre detenções, ferimentos e mortes, bem como sobre a violência perpetrada pelas forças de segurança e por grupos civis armados que apoiam o governo (conhecidos como ‘coletivos’) durante esses protestos”.

“Os incidentes registrados ocorreram em pelo menos 17 dos 23 estados do país e no distrito da capital”, disse.

Até o momento, a missão registrou pelo menos seis mortes e dezenas de feridos entre os manifestantes. O Procurador-Geral relatou a morte de um membro das forças armadas e ferimentos em 46 militares e policiais.

Além disso, a missão soube que as forças de segurança e indivíduos em trajes civis, identificados como membros de “coletivos”, dispararam armas de fogo contra os manifestantes.

“As operações de controle da ordem pública devem estar em conformidade com os padrões e normas internacionais de direitos humanos, segundo os quais o uso da força deve ser proporcional e destinado a proteger a vida humana”, disse Marta Valiñas, presidente da missão.

Até o momento, o Procurador-Geral anunciou a detenção de 749 pessoas no contexto dos protestos. Embora alguns desses indivíduos tenham sido liberados, outros permanecem detidos, e alguns enfrentam acusações graves, como terrorismo.

Prisão de opositor e máquina repressiva

A missão ainda declarou sua preocupação com a detenção do coordenador do grupo Voluntad Popular, Freddy Superlano, e de outras duas pessoas que o acompanhavam, por indivíduos armados e encapuçados na manhã de 30 de julho.

“Informações preliminares obtidas pela missão indicam que os criminosos podem ser membros do SEBIN. Quatro outros líderes políticos da oposição foram detidos nas últimas horas. Além disso, o Procurador Geral anunciou uma investigação contra a principal líder da oposição, María Corina Machado, ligando-a a um ataque cibernético contra o CNE durante a eleição”, disse.

“Estamos preocupados com essa nova onda de perseguição contra líderes de partidos políticos de oposição”, disse Patricia Tappatá, especialista da missão. “Estamos testemunhando a reativação acelerada da máquina repressiva que nunca foi desmantelada e agora está sendo usada para minar as liberdades públicas dos cidadãos e seu direito à participação política e à livre expressão de ideias.”

A missão também expressa preocupação com a situação de sete membros da oposição que buscaram refúgio na residência do embaixador argentino e que foram submetidos a assédio por grupos civis nos últimos dias.

“As autoridades devem investigar e sancionar de forma independente, rápida, imparcial e transparente todas as alegações de violações de direitos humanos e possíveis crimes cometidos por subordinados. Da mesma forma, elas devem evitar que sejam cometidos”, disse Francisco Cox, especialista da missão. “Todas as detenções devem estar em conformidade com as normas internacionais sobre o devido processo legal.”

“Por sua vez, a missão permanecerá muito atenta e investigará as graves violações de direitos humanos ocorridas no contexto pós-eleitoral, de acordo com seu mandato”, disse Valiñas. “Isso inclui a análise das forças e indivíduos responsáveis por tais violações.”

Ao atacar Centro Carter, Maduro dá uma banana para o mundo

Nicolás Maduro jura que o Palácio Miraflores, sede de todo Poder na Venezuela, é a morada do povo. Difícil é despejar o inquilino. Ao atacar o Centro Carter, uma respeitada organização sem fins lucrativos que acompanha eleições ao redor do mundo, o ditador reforça o seu desprezo pela pressão externa. É como se Maduro desse uma banana para o mundo.

A única voz que incomoda Maduro é o ronco do asfalto, que ele cuida abafar na marra. A reeleição obtida na base do abracadabra dividiu o planeta em dois: o lado democrata e a outra banda. No documento em que anotou que a eleição venezuelana “não pode ser considerada democrática”, o Centro Carter empilhou razões irrefutáveis. A partir daí, só cheira o pó de pirlimpimpim de Nicolás Maduro os viciados em ilusionismo antidemocrático.

Até a véspera da eleição, o regime considerava o Centro Carter um observador de mostruário, cujas qualidades —”seriedade” e “prestígio”— foram enaltecidas até pelo ministro amestrado da Defesa, Vladimir Padrino. Desfeito o encantamento, Maduro passou a enxergar os enviados da organização como observadores teleguiados pelo imperialismo ianque.

Nada de novo, exceto as demonstrações de cansaço da sociedade venezuelana, já meio farta de um mágico que não tira senão ruína de dentro da cartola. O despejo do inquilino do Palácio Miraflores não é impossível. Mas Maduro, bancado por China e Rússia, se equipa para elevar o custo. A fatura inclui cadáveres, sumiços, encarceramentos e tortura.

Lula brinca com fogo e se arrisca a morrer queimado

Faltou apenas um voto para que a Organização dos Estados Americanos (OEA) aprovasse uma resolução pedindo à Venezuela que fosse completamente transparente em relação aos resultados da eleição presidencial do último domingo.

A resolução precisava de 18 votos para ser aprovada, mas só obteve 17. Nenhum estado-membro da OEA votou contra. Onze deles, porém, se abstiveram, incluindo o Brasil. México, Venezuela e mais três países preferiram se ausentar.

Votaram a favor da resolução, entre outros, Argentina, Canadá, Chile, Costa Rica, Estados Unidos, Equador, Peru e Uruguai. O voto do Brasil foi seguido por Belize, Bolívia, Colômbia, São Cristóvão e Névis, Antígua e Barbados.

Diz John Kirby, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos.

“A nossa paciência e a da comunidade internacional está a esgotar-se. Estamos exaustos à espera de que as autoridades eleitorais venezuelanas digam a verdade e publiquem todos os dados detalhados destas eleições”,

Responde Maduro, ameaçador: “Não gostaríamos de ir para outras formas de fazer revolução, queremos continuar com o caminho que Chávez traçou. Mas se o imperialismo americano e a força dos criminosos fascistas nos obrigarem, chamarei o povo a uma nova revolução”.

Mais de 1.000 pessoas foram presas desde o último domingo (28) na Venezuela, informou o Ministério Público do país. Mais de 16 foram mortas até ontem, denunciou a oposição que insiste em afirmar que o vencedor da eleição foi seu candidato.

Uma análise de atas eleitorais conduzida pelo jornal americano The New York Times, e publicada na quarta-feira (31), aponta que a oposição venceu, ao contrário do que anunciou o Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela.

Se depender de Maduro, que controla todos os poderes do seu país, incluindo a Justiça, o Congresso, as Forças Armadas e a mídia, os líderes da oposição venezuelana Edmundo González e María Corina Machado deveriam ser presos: “Se você perguntar minha opinião como cidadão, essas pessoas deveriam estar atrás das grades. Como chefe de Estado, eu diria que deve haver justiça. Eles devem parar de se esconder e devem comparecer ao escritório do procurador”.

Cadê as atas eleitorais que comprovariam quantos votos foram depositados em cada urna e como eles se distribuíram entre os candidatos? Segundo Maduro, o sistema que guarda essas informações “enfrenta um ataque hacker nunca visto antes”.

Na verdade, de duas, uma: ou Maduro sabe que perdeu e não quer mostrar as atas, ou sabe que perdeu e ganha tempo para falsificar documentos que provem que ele venceu. Elementar, meus caros. Elementar, presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A Venezuela está em meio a duas tentativas de golpe. A primeira: vender como legítimo o resultado de uma eleição fraudada. Caso falhe a primeira tentativa, virá a segunda: o endurecimento do regime. A ditadura tiraria a máscara.

Para Lula, tudo é mais simples. Disse ele: “Vejo a imprensa brasileira tratando como se fosse a Terceira Guerra Mundial. Não tem nada de anormal. Teve uma eleição, teve uma pessoa que disse que teve 51% e teve outra pessoa que disse ter tido 40 e poucos por cento. Um concorda outro não. Entra na Justiça e a Justiça faz.”

Entra na Justiça aonde? Só pode ser na Venezuela. E a justiça venezuelana fará o quê? Dará razão a quem? Lula, Lula, você está brincando com fogo. Mais tarde não se queixe se morrer queimado. Chamuscado, já está.


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