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Mundo

Milei tenta cartada com Trump em meio à crise econômica e de imagem

Após derrotas no Congresso, escândalos de corrupção e queda de popularidade, presidente argentino aposta tudo no “aliado”

Publicado em 25/09/2025 12:57 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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Em meio a uma crise política sem precedentes e a menos de um mês das eleições legislativas, o presidente da Argentina, Javier Milei, recorreu ao apoio financeiro dos Estados Unidos para tentar conter o desgaste de sua gestão e evitar uma debacle eleitoral. O pedido de ajuda — classificado por fontes do governo como um “alerta vermelho” — foi respondido com sinal verde pelo secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, que confirmou publicamente, em seu perfil na rede X, o apoio de Washington ao governo argentino.

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A ajuda, costurada diretamente com o ex-presidente Donald Trump durante a Assembleia-Geral da ONU em Nova Iorque, inclui a liberação de recursos para pagamento de dívidas e uma linha de financiamento de US$ 20 bilhões em swap cambial. Nas palavras de Bessent: “Estamos prontos para fazer o que for necessário para apoiar a Argentina e o povo argentino”. A frase foi publicada no dia seguinte ao encontro entre os dois líderes de extrema direita, em uma clara sinalização de aliança ideológica e eleitoral.

Embora o mercado tenha reagido positivamente à notícia — com queda no dólar e no risco país —, o movimento é lido por analistas como uma manobra desesperada para conter a rápida deterioração do governo Milei, que enfrenta não apenas uma grave crise econômica, mas também um isolamento político crescente e escândalos de corrupção que atingem o núcleo do poder.

Colapso legislativo e crise de governabilidade

O enfraquecimento de Milei no Congresso ficou evidente nas últimas semanas. Em menos de 48 horas, o governo sofreu três derrotas consecutivas e expressivas: os vetos presidenciais às leis de emergência pediátrica, financiamento universitário e redistribuição automática das Contribuições do Tesouro Nacional (ATN) foram todos derrubados com ampla maioria em ambas as casas legislativas.

Na Câmara, por exemplo, 181 deputados — cerca de 75% — votaram contra o veto presidencial à pauta da saúde. No Senado, o revés foi ainda mais contundente: 83% dos parlamentares presentes rejeitaram a decisão do Executivo. O recado do Parlamento foi direto: os ajustes fiscais pretendidos por Milei não passarão sem aval legislativo.

“O governo não tem maioria parlamentar, aliás, está longe disso, e tem perdido de maneira bastante vertiginosa os apoios que tinha no Parlamento”, afirmou o cientista político Martín Armelino, pesquisador do CONICET e professor da Escola de Política e Governo da Universidade Nacional de San Martín (UNSAM). Segundo ele, o Executivo enfrenta agora um Congresso que “decide levar adiante uma nova dinâmica de jogo em que o poder Executivo não pode governar por decreto”.

Popularidade em queda e escândalo envolvendo Karina Milei

Paralelamente à crise institucional, o governo enfrenta um escândalo de corrupção que atinge diretamente Karina Milei, irmã do presidente e secretária-geral da Presidência. Segundo áudios vazados, ela estaria ligada a um esquema de propinas que pode ter rendido até US$ 800 mil por mês, relacionado à compra de medicamentos para a Agência Nacional de Deficiências (ANDIS). O ex-diretor do órgão, Diego Spagnuolo, já foi afastado.

O caso repercutiu fortemente na opinião pública e impulsionou a queda de aprovação de Milei. Pesquisa do instituto AtlasIntel, divulgada em 17 de setembro em parceria com a Bloomberg, revela que 53,9% da população desaprova a gestão do presidente — o maior índice desde o início do mandato. Apenas 42,4% ainda aprovam sua administração, e quase metade dos entrevistados (49,5%) classifica o governo como “ruim” ou “muito ruim”.

A pesquisa, que ouviu 5.315 pessoas entre 10 e 14 de setembro, também mostra que a corrupção passou a ser o principal problema apontado pelos argentinos, saltando de 37% em agosto para mais de 50% em setembro. Uma mudança drástica que evidencia o impacto do escândalo nas percepções públicas.

Derrotas regionais e risco de colapso político

O agravamento da crise política se intensificou após a derrota de Milei nas eleições provinciais de Buenos Aires, em 7 de setembro. O peronismo venceu com mais de 13 pontos de vantagem, ampliando sua força como principal bloco de oposição. A derrota foi simbólica e estratégica: a província concentra quase 40% do eleitorado nacional.

Para tentar reverter o cenário, o governo anunciou, em 15 de setembro, um aumento de gastos sociais em áreas como aposentadorias, saúde e educação. A proposta, no entanto, depende de aprovação parlamentar e só valeria a partir de 2026. A medida é vista por críticos como uma tentativa de amortecer a crise antes das urnas.

“O governo Milei é tido como o mais autoritário desde a redemocratização”, diz Armelino. “Há um discurso de violência sem precedentes e um uso desproporcional da força policial em protestos.” Segundo dados oficiais, desde o início do mandato foram registrados 2.395 manifestantes feridos e 277 detidos.

Uma base partidária frágil e sem capilaridade

Outro ponto central da crise é a fragilidade do partido governista, La Libertad Avanza, que ainda não consolidou uma estrutura partidária nacional. A articulação política tem sido conduzida por Karina Milei, que percorre o país buscando alianças com velhos caciques políticos, muitos deles oriundos do peronismo e do radicalismo. Mas, como observa Armelino, “isso não é construir um novo partido, e sim se apoiar em estruturas que já existem, mas que não garantem sustentação política no médio prazo”.

A ausência de base sólida compromete a governabilidade e reforça a percepção de que o governo opera mais como um projeto personalista do que como uma força política estruturada.

O custo de uma aliança transnacional da extrema direita

A aposta de Milei em Trump não é apenas econômica, mas simbólica. A aliança entre os dois líderes representa a tentativa de construção de um eixo transnacional da extrema direita, com forte apelo eleitoral, mas que carrega riscos institucionais graves. Trata-se, como apontam analistas, de uma “internacional reacionária” que busca se sustentar por meio de choque de ordens, culto à personalidade e desprezo pelas vias democráticas tradicionais.

A curto prazo, o influxo de dólares pode aliviar a pressão sobre as reservas e acalmar o mercado. Mas os problemas estruturais persistem: inflação elevada, desconfiança institucional, fragmentação política e perda de legitimidade pública. A pergunta que se impõe, portanto, não é se Trump pode salvar Milei — mas por quanto tempo esse respiro vai durar.

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