Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Mundo
Mais de 200 jornalistas foram mortos por Israel, diz Repórteres Sem Fronteiras
Publicado em 09/07/2025 11:10 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
No dia 3 de julho, Abdullah Hammad, higienista da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), foi morto por forças israelenses enquanto aguardava a chegada de caminhões de ajuda humanitária, junto a dezenas de civis, em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza. Era o 12º profissional do MSF morto na região desde outubro de 2023. No mesmo ataque, ao menos outras 15 pessoas perderam a vida. A tragédia, descrita pela organização como “deliberada e sem advertência prévia”, revela uma realidade que há meses vem se desenhando sob os olhos do mundo: a transformação da fome em ferramenta de guerra.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
A ONU contabilizou 613 mortes em pontos de distribuição de alimentos entre 27 de maio e 27 de junho — todas resultantes de ataques a civis desarmados, muitos deles mulheres, crianças e idosos, tentando acessar o mínimo necessário para sobreviver. No caso de Hammad, o que se esperava era farinha. Mas o que chegou foi o silêncio dos projéteis e a recusa posterior do Exército israelense em permitir a remoção dos corpos.
“O nível de desespero por alimentos em Gaza está nesse momento além de qualquer compreensão”, declarou Aitor Zabalgogeazkoa, coordenador de emergência do MSF na região. “Esta carnificina precisa acabar agora.”
Crise humanitária planejada
Ao longo dos últimos nove meses, a Faixa de Gaza tornou-se o epicentro de uma devastação humanitária sem precedentes na história recente do Oriente Médio. A escassez extrema de alimentos, medicamentos, água e energia não é resultado apenas do caos da guerra. Ela tem sido descrita por observadores internacionais como uma política deliberada de punição coletiva — proibida pelo direito internacional humanitário.
“A fome não é um dano colateral. É parte do método”, afirmou o relator especial da ONU para o direito à alimentação, Michael Fakhri, ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, em março de 2024. Segundo ele, há “fortes indícios de que Israel está usando a fome como método de guerra, o que constitui crime de guerra segundo o Estatuto de Roma”.
A acusação ganha respaldo na estrutura montada: o bloqueio de rotas de entrada de alimentos, a restrição ao funcionamento de agências humanitárias, os bombardeios a hospitais, armazéns, panificadoras, instalações agrícolas, e os ataques sucessivos às filas de ajuda — como o que matou Abdullah.
Hospitais em colapso: o fim da linha
Além da fome, o sistema de saúde de Gaza colapsou. Segundo a coordenadora do MSF em Jerusalém Oriental, Damares Giuliana, 94% dos hospitais estão fora de operação, e os 6% restantes funcionam em condições precárias, após também terem sido atingidos.
Não se trata apenas de hospitais sem energia ou insumos. Muitos foram alvo direto de mísseis e evacuações forçadas — como o hospital Al-Shifa, que teve suas instalações destruídas e seu corpo clínico preso ou dispersado. Essas ações não apenas impedem o tratamento de feridos, mas inviabilizam a própria vida nas cidades. Mulheres grávidas, idosos, crianças com doenças crônicas — todos se tornam vítimas potenciais da falência total de infraestrutura.
Essa destruição sistemática viola de forma direta os princípios das Convenções de Genebra, que garantem proteção especial a estruturas médicas e ao trabalho humanitário durante conflitos armados. Como lembra a professora de Direito Internacional da Universidade de Harvard, Gabriella Blum, “a destruição de hospitais e a obstrução da ajuda humanitária ultrapassam os limites da legalidade e da moralidade. É o colapso da ideia mesma de humanidade compartilhada”.
A lógica do cerco e a história do bloqueio
A situação atual em Gaza não surge do nada. Desde 2007, após a vitória do Hamas nas eleições legislativas palestinas e seu posterior controle da Faixa, Israel e Egito impuseram um bloqueio ao território, sob a justificativa de conter o armamento de grupos militantes. Na prática, o bloqueio se traduziu em um cerco progressivo que afetou a economia, o saneamento, o abastecimento de energia e a circulação de pessoas.
A ONU, a Cruz Vermelha e diversas ONGs internacionais vêm, desde então, classificando Gaza como “território sob ocupação”. Segundo o direito internacional, isso significa que Israel continua responsável pela população civil que vive ali, inclusive por garantir suas necessidades básicas. Ao restringir deliberadamente o fornecimento de bens essenciais e ao atacar estruturas civis, as autoridades israelenses incorrem em potenciais crimes de guerra e crimes contra a humanidade.
Em 2021, o respeitado historiador israelense Ilan Pappé escreveu: “O cerco de Gaza é mais do que uma política de segurança. É uma forma de engenharia demográfica e política. Não se trata de defender Israel, mas de negar aos palestinos qualquer horizonte de soberania” (The Ethnic Cleansing of Palestine, 2006; artigo no Middle East Monitor, 2021).
O silêncio que legitima
Apesar das denúncias, pouco mudou no cenário diplomático. A Corte Internacional de Justiça, em janeiro de 2024, determinou que Israel adotasse “medidas imediatas para prevenir atos de genocídio”. Em resposta, o governo israelense reafirmou sua “direito à legítima defesa” diante dos ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023 — ação que deixou cerca de 1.200 mortos em Israel e desencadeou a atual ofensiva.
No entanto, o princípio da proporcionalidade, base do direito internacional humanitário, não tem sido observado. Mais de 38 mil palestinos já foram mortos, segundo o Ministério da Saúde de Gaza — número que, mesmo contestado por Israel, é corroborado por organizações como o MSF e a ONU. A maioria são civis. Mais de 70% são mulheres e crianças, segundo o Escritório da ONU para Assuntos Humanitários (OCHA).
A ausência de sanções, embargos ou intervenções concretas por parte das potências ocidentais levanta questões éticas e geopolíticas profundas. Como lembra a filósofa Judith Butler, “quando vidas são consideradas lamentáveis apenas quando morrem do lado certo da guerra, estamos diante de um apartheid ético” (Frames of War: When Is Life Grievable?, 2009).
O que a morte de Abdullah Hammad nos diz
Abdullah Hammad era um higienista. Não empunhava armas, não comandava milícias, não ameaçava a segurança de ninguém. Trabalhava há um ano e meio numa clínica do MSF em Al Mawasi, limpando salas, desinfetando superfícies, garantindo que outros pudessem sobreviver. Foi morto em silêncio, junto a pessoas que esperavam por um saco de farinha.
A sua morte não é um acidente. É o retrato fiel de um método: o de matar lentamente pela fome e rapidamente pela bala aqueles que a comunidade internacional já se acostumou a considerar invisíveis.
Como escreveu Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz, “aconteceu, portanto pode acontecer de novo. Isso é o cerne do que temos a dizer”. Gaza, hoje, convoca essa memória — não como comparação simplista, mas como alerta ético e político.
Mais de 200 jornalistas foram mortos em Gaza
Uma semana antes da próxima reunião do Conselho de Relações Exteriores da UE, marcada para 15 de julho em Bruxelas, a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) pede à Comissão Europeia e aos estados-membros que suspendam o acordo de associação entre a UE e Israel. Em uma declaração conjunta, a RSF e 186 organizações citam violações israelenses do Artigo 2 deste acordo de parceria comercial, que torna o respeito aos direitos humanos um elemento essencial do relacionamento bilateral. No âmbito do seu mandato como organização de defesa dos jornalistas e da liberdade de imprensa em todo o mundo, a RSF recorda que mais de 200 jornalistas foram mortos pelo exército israelense na Faixa de Gaza desde outubro de 2023, incluindo pelo menos 46 intencionalmente visados por causa de sua atividade jornalística, bem como no Líbano, onde três repórteres foram mortos por bombardeios israelenses.
Devido aos múltiplos abusos cometidos por Israel contra jornalistas na Faixa de Gaza desde outubro de 2023, a RSF apresentou quatro queixas ao Tribunal Penal Internacional (TPI) por crimes de guerra cometidos pelo exército israelense no enclave palestino. A RSF também defende o reconhecimento do estatuto de vítima dos jornalistas palestinos para que possam participar de processos judiciais internacionais em andamento.
“As condenações verbais da UE já duram bastante tempo diante do número sem precedentes de jornalistas mortos e dos crimes de guerra cometidos pelo exército israelense contra jornalistas na Faixa de Gaza. O governo de Netanyahu, que continua a desrespeitar seus compromissos internacionais de direitos humanos, deve ser sancionado. Como maior parceira comercial de Israel, é hora de a UE suspender seu acordo de associação bilateral”, diz Antoine Bernard, diretor de Advocacia e de Assistência da RSF
Uma publicação inicial da declaração conjunta pedindo a suspensão do Acordo de Associação UE-Israel, tornada pública em 19 de junho, não incluiu a RSF. Apesar deste apelo de quase 130 organizações internacionais e sindicatos, o Conselho dos Negócios Estrangeiros da UE, em sua última sessão de 23 de junho, recusou-se a suspender o Acordo de Associação UE-Israel.
Em agosto de 2024, a RSF e 59 organizações internacionais enviaram uma carta ao chefe da diplomacia europeia exigindo a suspensão do acordo de associação entre a UE e Israel.

Proteção a jornalistas palestinos
Por iniciativa da Repórteres Sem Fronteiras e do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), mais de uma centena de organizações de defesa da liberdade de imprensa e redações internacionais lançam um apelo público para exigir acesso imediato, independente e sem restrições dos jornalistas internacionais à Faixa de Gaza. Elas também pedem a proteção total dos jornalistas palestinos, dos quais quase 200 foram mortos nos últimos 20 meses pelo exército israelense.
Há mais de 20 meses, as autoridades israelenses impedem a entrada de jornalistas estrangeiros na Faixa de Gaza. Ao mesmo tempo, o exército israelense matou quase 200 jornalistas palestinos no enclave sitiado, dos quais pelo menos 45 no exercício da profissão. Os jornalistas palestinos que continuam trabalhando — os únicos testemunhos presentes no local — enfrentam condições insuportáveis: deslocamentos forçados, fome, ameaças permanentes. Este apelo coletivo, lançado com a RSF e o CPJ, reúne meios de comunicação emblemáticos de todos os continentes, que exigem o direito de enviar seus correspondentes ao enclave para trabalhar ao lado de seus colegas palestinos.
“O bloqueio midiático imposto sobre Gaza, com o massacre de quase 200 jornalistas pelo exército israelense, facilita a destruição total do enclave sitiado, bem como seu apagamento. As autoridades israelenses proíbem a entrada de jornalistas estrangeiros e orquestram um controle implacável da informação. Trata-se de uma tentativa metódica de sufocar os fatos, calar a verdade, isolar a imprensa palestina — e com ela, a população. Exigimos dos governos, das instituições internacionais e dos chefes de Estado que deixem de lado seu silêncio cúmplice, que imponham a abertura imediata de Gaza à imprensa internacional e que reafirmem uma evidência demasiadamente violada: no direito internacional humanitário, matar um jornalista é um crime de guerra. Este princípio tem sido demasiadamente ignorado: ele deve ser aplicado”, diz Thibaut Bruttin, Diretor Geral da RSF.
Esse bloqueio midiático sobre Gaza continua apesar dos repetidos apelos da RSF por garantir o livre acesso aos jornalistas e das ações judiciais, como o recurso da Associação da Imprensa Estrangeira (Foreign Press Association ou FPA) junto à Suprema Corte de Israel. Já os jornalistas palestinos estão cercados, deslocados, famintos, difamados e alvos por causa de sua profissão. Aqueles que sobreviveram ao massacre sem precedentes de jornalistas se encontram sem abrigo, sem equipamento, sem atendimento médico e até mesmo sem comida, segundo um relatório do CPJ. Eles correm o risco de serem mortos a qualquer momento.
Para pôr fim à impunidade que permite a continuidade desse crime, a RSF já recorreu diversas vezes ao Tribunal Penal Internacional (TPI), pedindo a investigação de crimes de guerra presumidamente cometidos contra jornalistas em Gaza pelo exército israelense. A RSF também apoia jornalistas palestinos no terreno, especialmente em Gaza, por meio de parcerias concretas com organizações locais como a ARIJ (Arab Reporters for Investigative Journalism). Essa parceria permite oferecer apoio material, psicológico e profissional aos jornalistas palestinos, garantindo ao mesmo tempo a produção e difusão de reportagens de qualidade, apesar do bloqueio e dos riscos. A RSF reafirma, por meio dessa cooperação, seu compromisso com o jornalismo independente e rigoroso, mesmo nas condições mais extremas.
Assinado por:
Israel massacrou 100 mil palestinos, 4% da população de Gaza
Deixe um comentário