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Mundo
Estados Unidos iniciou a venda de petróleo roubado da Venezuela
Publicado em 16/01/2026 9:53 - Semana On
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A fotografia política da Venezuela ganhou novos contornos nesta semana, marcada por gestos simbólicos, declarações dissonantes e decisões concretas que expõem a assimetria de poder entre Washington e os atores venezuelanos — tanto do governo quanto da oposição.
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Na quinta-feira (15), a líder opositora Maria Corina Machado esteve com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para lhe entregar a medalha do Prêmio Nobel da Paz. O gesto, carregado de simbolismo, foi lido por críticos como mais um capítulo do histórico de subserviência de parcelas da elite política latino-americana diante do poder norte-americano. A tentativa de aproximação ocorre após Machado ter sido deixada de fora, sem explicações públicas, de qualquer papel formal no processo de reorganização política venezuelana posterior à captura de Nicolás Maduro.
Inicialmente, a intenção da opositora era ainda mais ambiciosa: transferir simbolicamente o próprio Nobel a Trump, apontando-o como merecedor do prêmio de 2025. Alertada de que o prêmio é intransferível, Machado optou por entregar apenas a medalha, apresentada como um gesto de agradecimento pela suposta contribuição do republicano para a derrubada de Maduro e para uma eventual abertura democrática no país.
O problema é que essa narrativa não encontra eco na Casa Branca. Trump evitou qualquer menção à democracia venezuelana, não apresentou cronograma eleitoral e sequer reconheceu publicamente Machado como líder da oposição. A entrega da medalha ocorreu longe das câmeras: a imprensa foi impedida de entrar no Salão Oval, numa clara tentativa de evitar perguntas incômodas e, sobretudo, de não tensionar a relação que Washington mantém — agora de forma pragmática — com o chavismo remanescente.
A humilhação política ficou ainda mais evidente quando, no mesmo dia, a porta-voz da Casa Branca afirmou a jornalistas que Trump estava “muito satisfeito” com a atual liderança venezuelana. Horas depois, o presidente agradeceu o presente nas redes sociais, em uma mensagem breve, marcada mais pelas omissões do que pelo conteúdo: Machado não foi citada como referência política e não houve qualquer compromisso explícito com seu futuro.
Enquanto a oposição buscava reconhecimento externo, o governo interino venezuelano tratava de reafirmar soberania. Em discurso anual à Assembleia Nacional, a presidente em exercício Delcy Rodríguez declarou que a prioridade do Executivo é a preservação do poder nacional. Invocando a Constituição, homenageou jovens mortos em confrontos recentes e reiterou que a Venezuela manterá relações diplomáticas com os Estados Unidos — e com qualquer outro país — sem abrir mão da soberania. “Se eu tiver que ir a Washington, irei de pé, não rastejando”, afirmou, numa frase que rapidamente ganhou repercussão.
Na prática, os fatos reforçam essa ambiguidade. No mesmo dia, os Estados Unidos concluíram a primeira venda de petróleo venezuelano desde que assumiram o controle do setor após a prisão de Maduro. A operação, estimada em US$ 500 milhões, faz parte de um “acordo” energético imposto por Trump que prevê a entrega de até 50 milhões de barris de petróleo aos americanos. O presidente norte-americano deixou claro que pretende controlar as receitas e já pressionou grandes petrolíferas a negociar diretamente com Washington, não com Caracas.
Paralelamente, juristas e organizações de direitos humanos elevaram o tom no plano internacional. Um pedido foi protocolado junto ao Tribunal Penal Internacional solicitando a abertura de investigação preliminar contra autoridades dos EUA por possíveis crimes de guerra, crimes contra a humanidade e crime de agressão. Entre os pontos levantados estão a captura de Maduro e de sua esposa, ataques a embarcações no Caribe, ações militares em áreas civis da Venezuela e a apreensão de petroleiros, classificada como pilhagem.
Embora os Estados Unidos não sejam signatários do TPI, especialistas lembram que a Corte pode julgar crimes cometidos em territórios de países membros ou delitos previstos no Estatuto de Roma, como já ocorreu em casos recentes envolvendo líderes de países não signatários.
A história, como sempre na América Latina, permanece aberta e imprevisível — a ponto de deixar qualquer realismo mágico constrangido pela realidade. Maduro é amplamente criticado e indefensável em muitos aspectos. Ainda assim, o gesto de Maria Corina Machado diante de Trump simboliza algo maior: a persistência de uma lógica de dependência e submissão que, longe de resolver a crise venezuelana, ajuda a perpetuar o nó histórico da solidão latino-americana.
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