17/07/2024 - Edição 550

Mundo

Lula consulta Macron e Scholz para organizar cúpula contra extremismos

Quem são e o que pensam os líderes da 'nova' extrema direita na Europa

Publicado em 17/06/2024 10:52 - Jamil Chade (UOL) – Edição Semana On

Divulgação Ricardo Stuckert - PR

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciou uma série de consultas para avaliar de que forma pode convocar uma reunião internacional para discutir formas de lidar contra os extremismos políticos. Nos últimos dias, ele tratou da proposta tanto com o presidente da França, Emmanuel Macron, como com o chanceler alemão, Olaf Scholz.

O tema entrou na agenda das reuniões bilaterais que ele manteve às margens da cúpula do G7, na Itália. Antes da viagem, Lula também tinha debatido a possibilidade de um encontro ao conversar com o presidente do governo espanhol, Pedro Sanchez.

Trata-se da primeira tentativa concreta de se organizar um debate diante da ofensiva da extrema direita que, nos últimos anos, internacionalizou sua estratégia e criou encontros, cooperações e troca de ajudas em eleições espalhadas pelo mundo.

Não há ainda uma definição sobre o formato da conferência. Uma possibilidade seria a de aguardar até a reunião da Assembleia Geral da ONU, em setembro, para aproveitar a participação de todos em Nova Iorque para organizar o encontro.

O governo de Joe Biden havia tentado estabelecer uma “Cúpula para a Democracia”. Mas o objetivo não declarado era criar uma aliança ocidental contra a China, o que acabou levando ao fracasso do projeto.

De todas as formas, diplomatas acreditam que esse caminho apenas poderá ser tomado depois das eleições convocadas por Macron, depois de sua derrota no Parlamento Europeu. Também seria necessário esperar uma redefinição das forças políticas na Europa, com a eventual reeleição de Ursula van der Leyen no comando da Comissão Europeia.

Na conversa com Macron, Lula ainda tratou do avanço da extrema direita nas eleições europeias. O francês explicou sua estratégia ao dissolver a Assembleia Nacional e convocar uma nova votação: na avaliação de Macron, o povo francês não vota da mesma forma para escolher seus representantes na Europa e seus parlamentares nacionais.

Segundo Macron, mesmo no pior cenário – a da vitória da extrema direita nas eleições no final de junho – seu cálculo é que seria melhor que isso ocorra no Legislativo que em 2027, quando a França passa por uma eleição presidencial. A visão exposta por Macron, porém, é considerada como sendo de “alto risco”.

Com a líder da extrema direita italiana, Lula trata só de negócios

Lula, porém, não tocou no assunto da possível conferência com a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni. Líder de um partido de extrema direita e uma das vencedoras da eleição, a italiana foi a anfitriã do G7.

Lula, porém, tocou apenas em temas comerciais e de investimentos com Meloni, evitando os temas polêmicos e as diferenças.

Durante a viagem pela Europa, Lula citou o risco que a democracia corre em vários momentos e discursos.

“O mundo democrático sempre foi assim. Tem uma hora que os setores da esquerda ganham as eleições. Outra hora, ganha o setor mais conservador. Agora, algo que cresceu muito foi a extrema direita. Que não é nem a direita e nem a esquerda, que está ocupando o espaço”, disse Lula.

“Eu tenho dito para todos: temos um problema de risco da democracia tal como nós a conhecemos”, afirmou o presidente.

Lula também criticou os ataques de populistas às instituições. “O negacionista nega as instituições, nega o que é o Parlamento, o que é a Suprema Corte, o Judiciário, nega o que é o próprio Congresso. São pessoas que vivem na base da construção de mentiras”, acusou.

“E sabe qual a desgraça da primeira mentira? A de passar o resto da vida mentindo para justificar. As pessoas que aprendem a fazer política mentindo passam o resto da vida mentindo, pois não podem desmentir o que falou”, afirmou.

Para Lula, essa situação “é um perigo, mas é um alerta também”. “As pessoas que têm sentido e respeito pela democracia tem de brigar para que a democracia prevaleça, na Europa, na América do Sul, na Ásia”, afirmou.

Imagem: AFP/Frederick Florin, AFP/Julien de Rosa, REUTERS/Guglielmo Mangiapane, Reprodução/Chega, AFP/Thomas Coex

Quem são e o que pensam os líderes da ‘nova’ extrema direita na Europa

O resultado parcial das eleições para o Parlamento Europeu, embora indiquem uma vitória da centro-direita, mostraram um importante avanço da extrema direita no continente. A ascensão do movimento não é novidade, mas alguns de seus representantes sim — e, tal como os políticos mais tradicionais, eles também investem em pautas conservadoras, anti-imigração e anti-União Europeia, por vezes recorrendo a discursos racistas, homofóbicos e xenofóbicos.

ALEMANHA – MAXIMILIAN KRAH (AFD), 47 ANOS

Polêmico, cabeça de chapa da AfD é popular no TikTok. Membro do Parlamento europeu desde 2019, o advogado faz sucesso entre o público jovem com suas mensagens simples e diretas, como “confie em você” e “seja autêntico”, que vincula a posições políticas: “Não vote verde” e “não acredite que você precisa ser gentil e suave: homens de verdade estão na extrema direita”.

Não se considera ‘conservador’ e rejeita a União Europeia. Embora se descreva apenas como “de direita”, Krah deu várias palestras no Instituto de Política Estatal (IfS) consideradas “certamente de extrema direita” pelo Escritório Federal para a Proteção da Constituição. Ele também diz rejeitar a UE, mesmo sendo membro do Parlamento Europeu, e define o bloco como “vassalo” dos Estados Unidos.

É visto como um político simpático a China e Rússia. Um de seus assessores do Parlamento Europeu foi preso no final de abril por suspeita de espionagem para Pequim. Mais recentemente, em maio, investigadores cumpriram mandados de busca e apreensão em escritórios de um segundo funcionário de Krah no Parlamento Europeu. A investigação apura suspeitas de que políticos da UE teriam recebido propina da Rússia.

Foi afastado do partido por declarações sobre o nazismo. Em maio, Krah disse que “nem todos os membros da SS” — uma força paramilitar nazista e uma das organizações responsáveis pelo Holocausto — “eram criminosos”. Ele foi proibido pelo próprio partido de fazer aparições na campanha, apesar de ser o cabeça de chapa. Como foi reeleito para o Parlamento Europeu, Krah poderá ocupar o cargo normalmente, mas não como representante da AfD, segundo explicou um porta-voz do partido à AFP.

FRANÇA – JORDAN BARDELLA (RN), 28 ANOS

Veio de família italiana, mas se posiciona contra a imigração. Assim como Krah, da Alemanha, Bardella também rejeita o funcionamento da UE hoje, embora negue que seja contrário à existência do bloco em si. “Eu não sou contra a Europa. Sou contra a maneira como a Europa funciona agora”, disse o francês durante debate com o primeiro-ministro da França, Gabriel Attal, antes das eleições ao Parlamento Europeu.

Rompeu a imagem tradicional do partido de Marine Le Pen. O jovem de 28 anos é presidente do Rassemblement National (Reunião Nacional, em tradução livre) desde 2022. Seus críticos o veem como mais liberal do que Le Pen e o acusam de dedicar muito tempo a aperfeiçoar sua imagem pública e pouco a estudar as questões políticas importantes. Sua figura bem cuidada e sua habilidade de comunicação lhe rendem sucesso nas ruas e nas redes sociais: no TikTok, Bardella conta com mais de 1 milhão de seguidores, em sua grande maioria jovens.

Já disse se opor ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mesmo assim, aceitou que, para a maioria dos franceses, “o casamento para todos agora é uma realidade” e afirmou que o debate sobre o assunto está encerrado, sugerindo haver questões mais importantes a serem discutidas no país. Bardella ainda defende cortar os serviços sociais para imigrantes ilegais e legalizar a cannabis para fins medicinais.

Foi acusado de publicar comentários racistas e homofóbicos. Em janeiro, uma reportagem da emissora France 2 revelou a existência de uma conta falsa no X (ex-Twitter) supostamente administrada por Bardella. Sob o pseudônimo “RepNat du Gaito”, o perfil também exaltava Jean-Marie Le Pen, pai de Marine Le Pen, conhecido por seus comentários racistas e antissemitas. A última postagem, feita em fevereiro de 2017, é uma imagem obscena zombando de Théo Luhaka, um jovem negro que sofreu graves agressões da polícia naquele ano. Bardella nega ser dono da conta.

ITÁLIA – GIORGIA MELONI (FDI), 47 ANOS

Eleita em 2022, premiê é a 1ª mulher a ocupar o cargo. Meloni é jornalista por formação e preside o Fratelli d’Italia (FdI) desde 2014. O FdI tem suas raízes políticas no MSI (Movimento Social Italiano), que surgiu do fascismo de Benito Mussolini. A primeira-ministra italiana, porém, hoje rejeita o rótulo fascista com veemência — embora tenha dito no passado que Mussolini foi “um bom político”. “Obviamente tenho uma opinião diferente agora”, disse Meloni em entrevista à Reuters, em 2022.

É contra a eutanásia e a adoção de crianças por casais gays. Meloni, que não acredita ser de extrema direita, se define como “cristã, católica e conservadora” e tem como lema “Deus, Pátria e Família” – o mesmo slogan de origem fascista usado por Jair Bolsonaro (PL) no Brasil. “‘Sim’ à família natural, ‘não’ aos lobistas LGBT! ‘Sim’ à identidade sexual, ‘não’ à ideologia de gênero!”, defendeu a premiê em discurso feito em 2022, na Espanha.

Já foi acusada de islamofobia e adotou políticas anti-imigração. Em setembro do ano passado, seu governo aumentou de três para 18 meses o período de detenção de imigrantes ilegais. “Teremos todo o tempo necessário não apenas para realizar as checagens, mas também para fazer o repatriamento daqueles sem direito à proteção internacional”, explicou Meloni à época, acrescentando que a batalha contra a imigração é “uma batalha épica para a Itália e a Europa”.

Seu partido saiu vitorioso nas eleições ao Parlamento Europeu. Meloni foi a única primeira-ministra europeia em exercício a alcançar o feito. “A Itália se apresenta no G7 e na Europa com o governo mais forte de todos”, disse ela, que acompanhou o fechamento das urnas da casa de sua irmã Arianna. “Esta é uma votação mais bonita que a de 2022”.

PORTUGAL – ANDRÉ VENTURA (CHEGA), 41 ANOS

É deputado e líder do Chega, a 3ª maior força do país. Fundado em 2019 por Ventura, o partido anti-imigração e populista quadruplicou sua representação parlamentar nas eleições gerais de março deste ano. Ao longo da campanha, o deputado tentou deslegitimar o sistema eleitoral, questionando também as pesquisas de intenção de voto. “Temos que estar de olho aberto, ninguém pode nos enganar”, afirmou.

Defende a castração química de pedófilos e a pena de morte. Ventura, que se define como “liberal a nível econômico, nacionalista e conservador”, também já fez discursos discriminatórios contra ciganos e imigrantes muçulmanos.

Apoiou publicamente a reeleição de Bolsonaro no Brasil. Recentemente, em meados de maio, Ventura havia convidado o ex-presidente brasileiro, o vice-primeiro-ministro da Itália, Matteo Salvini, e outros nomes importantes da direita para uma cúpula mundial organizada pelo Chega em Lisboa. Com a ausência de Bolsonaro, cujo passaporte segue apreendido pela Polícia Federal, o evento foi cancelado.

ESPANHA – SANTIAGO ABASCAL (VOX), 48 ANOS

Fundou o Vox em 2013, após anos de militância no Partido Popular. Abascal chegou a se referir ao PP como “direita covarde” e acusou seu antigo partido de ser “muito brando”. Desde 2019, o Vox é a terceira força política no Parlamento espanhol e se apresenta de “mão estendida” ao PP com o objetivo de tirar do governo o socialista Pedro Sánchez, que está no poder desde 2018.

Critica os movimentos separatistas na Catalunha e no País Basco. Agora, após reorganizar a extrema direita na Espanha, o líder do Vox frequentemente acusa a esquerda de querer “dividir os espanhóis”, resgatando a memória das vítimas da ditadura de Francisco Franco, e de ter “profanado” o túmulo do general, exumado em 2019 pelo governo Sánchez. Abascal costuma contar que seu pai, que foi vereador do PP, escapou de três tentativas de assassinato pelo grupo separatista ETA.

Fez elogios a Milei, que criou crise diplomática com a Espanha. Em maio, durante a convenção anual do Vox, Abascal chamou o presidente argentino de “nossa estrela brilhante”. Neste mesmo evento, do qual também participaram Le Pen e Meloni, Milei fez críticas a Pedro Sánchez e chamou sua esposa, a primeira-dama Begoña Gómez, de corrupta. Em resposta, a Espanha retirou sua embaixadora na Argentina de forma definitiva.

‘Sinal de alerta’

Nova extrema direita é ‘digital’ e investe nos mais jovens. Esses líderes rejeitam a imprensa tradicional e costumam usar as redes sociais como principal meio de comunicação, aproveitando-se de discursos enfáticos para gerar engajamento e atrair seguidores novos — e mais jovens —, segundo explica ao UOL Filipe Savelli Pereira, pesquisador do Laboratório de História das Interações Políticas e Institucionais da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo).

Políticos se inspiram em nomes tradicionais, mas pregam renovação. Além disso, segundo Pereira, os representantes da nova extrema direita enxergam os líderes mais antigos, como o premiê húngaro Viktor Orbán e o presidente turco Recep Tayyip Erdo?an, como fracos. “Para eles, a ‘velha’ extrema direita demonstrou fraqueza ao se abrir para o diálogo [com outros partidos]”, diz o pesquisador.

Eleição na França pode dar sinalizações sobre o futuro da Europa. Embora as eleições europeias tenham feito o mundo ligar um sinal de alerta, são as eleições legislativas na França, marcadas para 30 de junho e 7 de julho, que devem mostrar se o avanço da extrema direita é uma tendência ou um movimento pontual. “O Bardella é uma potência midiática. Talvez nunca o partido da Le Pen tenha tido um candidato tão palatável”, analisa Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV (Fundação Getúlio Vargas).

“Esses candidatos [da extrema direita] aparecem muito na internet. No contexto europeu, assim como no Brasil, a esquerda também está velha, desgastada, ineficiente e, acima de tudo, com uma linguagem inadequada, muito acadêmica. A esquerda não tem lugar na rede social muito por conta de sua linguagem”, diz Filipe Savelli Pereira, da Ufes.

“O que vai vir daqui para frente depende dessa eleição de agora [na França]. Se o partido de Le Pen consegue eleger um primeiro-ministro, tudo muda. É difícil saber. Mas fato é que, se Marine Le Pen chega ao poder – e imagino que eles vão tentar fazer um bom governo para usar de propaganda -, isso estimula outros países. Você anima um pouco esse grupo [da extrema direita]”, reforça Leonardo Paz, da FGV.


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