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Mundo
Em discurso no Japão e em documento oficial aos EUA, presidente alerta para riscos à democracia
Publicado em 26/03/2025 10:13 - Semana On
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Diante de líderes globais reunidos no Japão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a ocupar o palco internacional como defensor do multilateralismo, do livre-comércio e, sobretudo, da democracia. Em discurso contundente, embora sem citar diretamente o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, Lula denunciou os efeitos deletérios do protecionismo e do avanço da extrema-direita global, chamando-os de “prisioneiros da ignorância” e reiterando que a negação da política não serve à humanidade.
A fala ecoa uma estratégia política e diplomática articulada: enquanto Lula discursava ao lado do primeiro-ministro japonês Shigeru Ishiba, seu governo protocolava junto ao USTR (Representação de Comércio dos EUA) um documento técnico no qual afirma que o plano tarifário de Trump ameaça desmantelar acordos históricos da OMC e pode levar a uma “espiral negativa de medidas” que prejudicaria profundamente a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos.
Protecionismo como ameaça global
“O que nós queremos é comércio livre para que a gente possa definitivamente fazer com que nossos países se estabeleçam no movimento da democracia, no crescimento econômico e na distribuição de riqueza”, declarou Lula, alertando para a associação entre o fechamento econômico e a ascensão autoritária. Para o presidente, não se trata apenas de política comercial, mas de uma disputa civilizatória. “Nós não queremos mais muros. Nós não queremos mais Guerra Fria. Nós não queremos mais ser prisioneiros da ignorância. Nós queremos ser livres e prisioneiros da liberdade.”
Essas palavras ganham relevância diante do cenário internacional atual: a guerra na Ucrânia, o colapso do cessar-fogo em Gaza — onde Lula lamentou a morte de um jovem brasileiro preso por Israel — e a ameaça de tarifas generalizadas por parte dos EUA.
Historicamente, movimentos protecionistas têm acompanhado ondas autoritárias. O economista Dani Rodrik, professor da Universidade Harvard, alertou em The Globalization Paradox (2011): “Quando o comércio se retrai, os nacionalismos afloram. A economia fecha, e com ela se fecham as portas do diálogo entre nações.” É nesta trilha que Lula parece situar os riscos do retorno de Trump à presidência americana, num momento em que o mundo demanda mais cooperação — não menos.
A resposta do Brasil ao tarifário de Trump
No documento enviado ao USTR, o governo brasileiro criticou de forma técnica e direta a política de tarifas recíprocas proposta por Trump, que será detalhada em abril. O texto pontua que a medida viola compromissos assumidos pelos EUA na OMC e pode desestabilizar décadas de relações econômicas entre os dois países. O Brasil calcula em US$ 7,4 bilhões o prejuízo potencial, valor que representa o superávit comercial americano com o Brasil em 2024.
O governo também desmonta a narrativa americana sobre as tarifas brasileiras de etanol: enquanto os EUA se queixam da alíquota de 18% aplicada pelo Brasil, ignoram a própria tarifa de cerca de 80% sobre o açúcar brasileiro — o que evidencia, segundo o Itamaraty, uma política seletiva e assimétrica de retaliações comerciais.
Além disso, o texto defende que, se insatisfeitos, os EUA deveriam buscar renegociar os parâmetros da OMC, e não impor medidas unilaterais. “O Brasil insta os Estados Unidos a priorizarem o diálogo e a cooperação”, conclui o governo brasileiro, numa tentativa clara de evitar que o protecionismo seja tratado como resposta automática às pressões eleitorais americanas.
Democracia sob ataque: o pano de fundo
Ao falar em democracia, Lula faz mais do que um apelo moral. Ele alerta para uma erosão estrutural. “A democracia corre risco no planeta, com eleição de uma extrema-direita negacionista que não reconhece sequer vacina, não reconhece sequer a instabilidade climática e não reconhece sequer partidos políticos”, disse. Suas palavras dialogam com o que cientistas políticos como Yascha Mounk e Steven Levitsky têm chamado de “recessão democrática”, fenômeno pelo qual regimes formalmente democráticos sofrem retrocessos graduais em sua institucionalidade.
Essa recessão é impulsionada por líderes autoritários que, uma vez no poder, corroem as instituições por dentro — muitas vezes amparados por discursos populistas e protecionistas. A interseção entre nacionalismo econômico e desconfiança institucional é perigosa. Em Como as Democracias Morrem (2018), Levitsky e Daniel Ziblatt, da Universidade Harvard, destacam que “as democracias raramente morrem com um golpe; elas apodrecem lentamente, corroídas por dentro”.
O papel estratégico do Japão e do Mercosul
Durante sua visita ao Japão, Lula e o primeiro-ministro Ishiba assinaram dez acordos bilaterais em áreas estratégicas como meio ambiente, indústria e educação. Lula ainda expressou o desejo de ampliar o comércio bilateral dos atuais US$ 11 bilhões para US$ 17 bilhões — patamar já alcançado em 2011, mas que hoje, segundo ele, não corresponde ao peso das economias.
Mais do que cifras, a aproximação com o Japão insere-se numa tentativa brasileira de fortalecer o Mercosul como bloco geoeconômico, equilibrando a hegemonia americana. Lula manifestou o interesse de lançar, ainda neste semestre, negociações formais para um acordo entre o Japão e o Mercosul, iniciativa que visa reposicionar o bloco sul-americano no xadrez comercial asiático.
Multilateralismo como trincheira da liberdade
Ao defender o multilateralismo, Lula evoca não apenas o legado da diplomacia brasileira, mas também a necessidade urgente de restaurar os canais de diálogo internacional. “É muito importante a relação entre os países. […] É muito importante a troca de experiências científica e tecnológica. […] Porque nós não queremos mais muros.”
É uma declaração em defesa da humanidade diante de um cenário de crescente fragmentação. Como já afirmou Amartya Sen, Nobel de Economia, “o desenvolvimento é a liberdade” (Development as Freedom, 1999). E a liberdade — seja política, econômica ou cultural — não floresce em um mundo fechado, polarizado e isolacionista.
Lula articula uma mensagem que vai além da geopolítica e toca no coração de uma disputa de narrativas que definirá o futuro das democracias: cooperação ou confronto, abertura ou fechamento, liberdade ou regressão. Ao confrontar Trump sem nomeá-lo, o presidente brasileiro joga luz sobre as escolhas civilizatórias em jogo e se posiciona como voz dissonante em um mundo cada vez mais tentado pelo autoritarismo.
A defesa do livre-comércio aqui não se reduz a interesses econômicos: trata-se da preservação de uma ordem global baseada em regras, diálogo e justiça. E, no centro dessa batalha, está o valor essencial da democracia — que, como ensinou Norberto Bobbio, “não é um estado de perfeição, mas um esforço constante de aperfeiçoamento”.
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