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Mundo

Kamala x Trump: EUA escolhem presidente em eleição tensa e acirrada

Nas urnas, EUA vivem encruzilhada existencial e abalo de um sonho

Publicado em 05/11/2024 1:13 - Gilvan Marques, Jamil Chade e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

Divulgação

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Após meses de campanha, milhões de pessoas devem ir às urnas nesta terça-feira (5) para a escolha do novo presidente dos Estados Unidos —o número de eleitores é incerto, porque o voto não é obrigatório. Kamala Harris, do Partido Democrata, e Donald Trump, do Partido Republicano, buscam vaga na Casa Branca. Além do presidente, os eleitores governadores em 11 estados, 33 cadeiras no Senado e todas as vagas na Câmara.

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Acompanhe a apuração pelo placar UOL

Há dúvidas se Donald Trump aceitará caso saia derrotado. O candidato republicano jamais admitiu que perdeu de forma justa para Joe Biden em 2020 e manteve o discurso na campanha deste ano.

Votação antecipada para presidente começou em 17 de outubro. As urnas foram abertas inicialmente na Carolina do Norte, apenas algumas semanas após o furacão Helene devastar o oeste do Estado. Esse método de votação antecipada existe para facilitar o acesso ao voto e aumentar a taxa de participação. A maioria dos estados adota, mas cada um tem suas regras e prazos.

Mais de 80 milhões de pessoas já haviam até a manhã desta terça-feira (5). O número representa praticamente metade de todos os votos registados em 2020, quando Joe Biden venceu. Naquele ano de pandemia, 154 milhões de americanos foram às urnas.

Kamala e Trump disputam cada voto, e pesquisas mostram empate. Os candidatos aparecem empatados dentro da margem de erro em todos os estados considerados decisivos, os chamados estados-pêndulos. Kamala saiu na frente nas primeira pesquisas, mas na reta final Trump se recuperou, então ficou difícil prever o resultado.

A grande surpresa dos últimas dias foi o voto feminino no Iowa. Uma pesquisa divulgada no sábado (2) mostra Kamala liderando as intenções de voto em Iowa, impulsionada pelo voto feminino, especialmente de mulheres idosas. Isso seria uma reviravolta no estado tradicionalmente republicano. Em 2016, Trump venceu ali por mais de nove pontos percentuais e, em 2020, por oito pontos. Kamala tem 47% das intenções de voto contra 44% de Trump, segundo a pesquisa Selzer, encomendada pelo jornal Des Moines Register e considerada respeitada e com bom índice de acertos.

O foco dos candidatos é a Pensilvânia. O estado-pêndulo que pode definir o próximo presidente por seu peso eleitoral, representatividade demográfica e eleitorado imprevisível —os outros estados chamados roxos são Michigan, Wisconsin, Geórgia, Carolina do Norte, Arizona e Nevada. Segundo o U.S. News, dez dos últimos 12 presidentes eleitos venceram na Pensilvânia, reforçando seu papel de “termômetro eleitoral” para a vitória eleitoral. Pensilvânia possui pluralidade demográfica que a torna um “microcosmo” dos EUA.

Temor de que Trump não reconheça a vitória e gere onda de violência. A campanha dele já indicou que isso deve acontecer. Kamala admitiu que seu partido está pronto para responder, e o governo Biden alertou que não vai tolerar. Washington DC e outros locais dos EUA reforçaram a segurança com medo de episódios de violência após o anúncio dos resultados. Autoridades indicam que existem riscos reais de que cenas como a da invasão do Capitólio, em 2021, voltem a ser registradas.

“A grande pergunta é: em uma eleição tão disputada, com uma enxurrada de desinformação e mentiras, como Trump e o Partido Republicano reagirão se forem derrotados? Tudo indica, e pelo menos essa era a orientação do partido até agora, que haverá questionamento e uma tentativa de dizer que a eleição foi fraudulenta. Na verdade, os republicanos já começaram a dizer isso antes mesmo da eleição terminar. Amanhã, Washington estará absolutamente abarrotada por agentes de segurança e policiais. Há uma grande preocupação com relação à eventual violência que pode acontecer depois do anúncio do resultado”, disse o jornalista Jamil Chade.

Campanha foi marcada por atentado a tiro contra Trump. O republicano foi baleado durante comício na Pensilvânia, uma atingiu de raspão na orelha do ex-presidente. Um apoiador acabou morto. O atirador foi morto no local pelo Serviço Secreto.

Kamala entrou na disputa apenas em agosto. O Partido Democrata decidiu substituir o atual presidente, Joe Biden, que tentava a reeleição, em decorrência do desempenho ruim no primeiro debate e em meio a especulações sobre as capacidades do democrata, que tem 81 anos.

Candidatos debateram apenas uma vez. O encontro na ABC News aconteceu em 10 de setembro. Para a maior parte da imprensa norte-americana, Kamala se saiu melhor no embate. O republicano, por sua vez, preferiu recusar os convites de outras emissoras, alegando que as empresas de mídia estão contra ele.

Trump adotou discurso xenófobo e adotou desinformação. Como parte da campanha, Trump insistiu que a votação de 2020, quando ele foi derrotado, foi alvo de fraude —o que já foi comprovado que não ocorreu. Ele também adotou forte discurso anti-estrangeiros e prometeu uma “deportação em massa”. Em episódio que repercutiu bastante, acusou imigrantes de comer animais de estimação dos americanos.

Procuradores pedem ‘transição pacífica de poder’ e mandam recado para Trump

Em um sinal explícito dos temores de que a eleição nos Estados Unidos caminhe para violência e questionamento dos resultados, procuradores-gerais de todo o país se unem para fazer um apelo por uma “transição pacífica de poder”. Se o pedido é normalmente feito pelo governo dos EUA para outras regiões do mundo onde o processo eleitoral é incerto, a declaração nesta terça-feira foi interpretada como um sinal da fragilidade da democracia americana.

O apelo é feito num momento em que a campanha de Donald Trump sinaliza que não vai aceitar uma derrota e que prepara diversas ações para contestar os resultados. No campo democrata, a campanha de Kamala Harris vem alertando sobre os riscos dessa atitude e planejam uma ação caso Trump decida se declarar vencedor durante a madrugada de terça-feira para quarta-feira, mesmo sem contar com os votos necessários.

Steve Bannon, ex-estrategista de Trump, vem insistindo que cabe à base do republicano estar nas ruas para “proteger” o sistema eleitoral. Sua convocação foi recebida com preocupação por forças de ordem, que temem que grupos mais radicais possam usar da violência para supostamente fazer valer uma declaração de vitória por parte de Trump.

“Independentemente do resultado da eleição de terça-feira, esperamos que os americanos respondam pacificamente e condenamos quaisquer atos de violência relacionados aos resultados”, afirmou o comunicado da Associação Nacional de Procuradores Gerais (NAAG), uma coalizão bipartidária de 51 procuradores-gerais, liderada pelos representantes de Ohio, Dave Yost, do Oregon, Ellen Rosenblum, de Connecticut, William Tong, e do Kansas, Kris Kobach.

O temor da violência fez Washington DC se blindar e tomar medidas inéditas de segurança num dia de eleição. Autoridades indicam que existem riscos reais de que cenas como a da invasão do Capitólio, em 2021, voltem a ser registradas. O governo de Joe Biden alertou que não irá tolerar.

“Uma transferência pacífica de poder é o maior testemunho do estado de direito, uma tradição que está no centro da estabilidade de nossa nação. Como Procuradores Gerais, afirmamos nosso compromisso de proteger nossas comunidades e defender os princípios democráticos aos quais servimos”, afirma a coalizão de procuradores.

“Pedimos a todos os americanos que votem, participem de discursos civis e, acima de tudo, respeitem a integridade do processo democrático”, pediram.

“Vamos nos reunir após essa eleição, não divididos por resultados, mas unidos em nosso compromisso compartilhado com o estado de direito e a segurança de todos os americanos. A violência não tem lugar no processo democrático; exerceremos nossa autoridade para fazer cumprir a lei contra quaisquer atos ilegais que a ameacem”, completam.

Nas urnas, EUA vivem encruzilhada existencial e abalo de um sonho

Pouco tempo antes de sua morte, Eleanor Roosevelt escreveu: “Eu acredito profundamente que nós fazemos nossa própria história”. Nesta terça-feira, milhões de americanos irão escrever sua história, num país que vive uma verdadeira encruzilhada entre ventos gelados do autoritarismo e um reconhecimento implícito do fracasso de um sistema em dar respostas a todos.

Nas urnas estará a busca pela alma de um país em crise existencial. Um país que, pela primeira vez em décadas, se depara com um questionamento de sua hegemonia, enquanto se dá conta que a pobreza em suas periferias persiste.

O sistema político americano está quebrado. Como uma sátira distópica, comícios flertaram com ideias supremacistas e declarações que, em outros momentos, entrariam na classificação do fascismo.

Em encontros com grupos nas periferias pobres do país ou nos comícios, me deparei com pessoas com raiva e ansiosas. Vi corações partidos e promessas não cumpridas, esperanças frustradas e sonhos adiados.

Proliferam ainda por círculos acadêmicos, leituras e debates da obra de Sinclair Lewis, “It Can’t Happen Here” (Não pode acontecer aqui), um roteiro dos anos 30 sobre o risco de o fascismo desembarcar nos EUA. A própria leitura da obra, cem anos depois, se transformou num sinal de que do temor de que o colapso da democracia não é mais algo a ser completamente descartado.

Os EUA já enfrentaram divisões antes – e não apenas sobreviveram a elas, mas prosperaram. Mas, desta vez, é diferente. A mentira venceu e o processo eleitoral termina com uma sociedade ainda mais rachada. Um tecido social ainda mais dilacerado diante do ódio estabelecido, mesmo que Kamala Harris saia como a nova presidente dos EUA.

Divididos, os americanos ouviram de líderes republicanos apelos ao autoritarismo e xenofobia, sempre regado à demagogia. Do outro lado, os democratas tentam se apresentar como a garantia da democracia, tentando seduzir aqueles milhões de cidadãos abandonados pela “democracia”. Resta saber se, desta vez, vão acreditar.

Seja qual for o índice de desenvolvimento social examinado, a população americana vive a pior situação entre os países ricos. São 40 milhões vivendo abaixo da linha da pobreza e outros tantos sem a possibilidade de sonhar em dar aos filhos uma vida melhor.

Nos EUA, a pobreza é uma decisão política. Não faltam recursos. Nas ruas de Nova York, a caminho de um dos centros de votação, me deparei com um morador de rua. Com o frio já dando seus primeiros sinais, sua opção foi por deitar no local por onde sai o ar quente do metrô. Ele provavelmente não votará nesta terça-feira. A culpa pelo tremor que sentia não era do frio. Mas de um sistema que o abandonou.

Nas urnas, esse sistema vive uma encruzilhada, enquanto um país inteiro se pergunta por quanto tempo ainda dura a hegemonia de uma nação que exportou sonhos e tortura, ditou regras e destinos, e que hoje atravessa um de seus maiores testes.

Donald Trump impõe ao império a missão de civilizar a si mesmo

O New York Times realizou uma excursão por cinco dezenas de canais mantidos por fanáticos de Donald Trump no Telegram. O jornal esbarrou num amplo e coordenado movimento para questionar a confiabilidade do sistema eleitoral dos Estados Unidos, contestar uma eventual vitória de Kamala Harris e insuflar ações violentas nas ruas.

A desinformação e as teorias conspiratórias são características comuns aos grupos pró-Trump. Mas eles exageram. Os perfis visitados pelo Times foram criados depois da eleição americana de 2020. Derrotado por Joe Biden, Trump sustenta até hoje que foi roubado. Agora, seus devotos fabricam uma fraude antes do anúncio do resultado. E já esboçam a reação.

“Está se aproximando rapidamente o dia em que não será mais possível ficar em cima do muro”, anota uma postagem. “Homens livres não obedecem a funcionários públicos”, diz outra mensagem, ilustrada com a imagem de um homem armado, com o rosto encoberto por uma balaclava. “Estejam prontos para tudo e qualquer coisa”, instiga um terceiro post. Esse tipo de pregação deu na invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021.

Noutros tempos, os Estados Unidos encontravam fora de suas fronteiras os tiranos fanáticos que justificavam as missões de Washington para civilizar raças inferiores ao redor do mundo. Trump subverteu a hipocrisia. Impôs ao império a missão de civilizar a si mesmo.

Os americanos talvez não precisem mais enviar soldados aos fundões do planeta para encontrar seus vilões. Dependendo do resultado da eleição, o monstro primitivo pode voltar a dar expediente na Casa Branca.


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