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Mundo

Kamala derrota Trump em debate. Agora, falta derrotá-lo no voto

Apesar da retórica superior da candidata, “extrema direita alucinada” ainda é forte nos EUA

Publicado em 11/09/2024 4:38 - UOL, Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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O primeiro debate entre Kamala Harris e Donald Trump, que disputam as eleições presidenciais nos EUA, aconteceu na terça-feira (10). O evento, realizado pela rede ABC News, foi marcado pela postura irônica da candidata democrata, que irritou o adversário republicano, que recorreu a teorias da conspiração e foi constantemente corrigido pelos mediadores do debate.

Debate sobre aborto. A discussão foi um dos momentos mais acalorados entre Kamala e Trump, que trocaram acusações sobre o tema. “Não é preciso abandonar a fé ou crenças profundamente arraigadas para concordar que o governo e Donald Trump certamente não deveriam dizer a uma mulher o que fazer com seu corpo”, disse a atual vice-presidente.

Trump disse que “os democratas são radicais” em relação a políticas de aborto. O candidato republicano afirmou que o vice de Kamala, Tim Walz, apoia a “execução após o nascimento” e defendeu a proibição do aborto em gravidez de seis semanas.

O planejamento da campanha de Kamala em preparar a candidata para perguntas incisivas de Trump e tentar provocá-lo funcionou, avaliou a campanha democrata. “Ela está um pouco irregular e perdendo algumas oportunidades, mas Trump é um desastre completo, ela está jogando muito bem com ele”, disse uma fonte à CNN na reta final do debate.

Aliados do ex-presidente afirmaram, sob anonimato, que o republicano perdeu a compostura diversas vezes durante o debate. “Seu pior comportamento está em exibição”, disse uma das pessoas ouvidas pela emissora norte-americana.

Com os microfones silenciados, Kamala utilizou expressões faciais para reagir a falas de Trump. Durante a organização do debate, Kamala Harris pediu que os microfones ficassem abertos a todo momento, mas a equipe de Donald Trump insistiu na regra para que o republicano participasse do encontro na ABC News.

Ao longo do debate, o republicano recorreu a teorias da conspiração e tentou relacionar a adversária ao marxismo. Trump chegou a afirmar que imigrantes comem “todos os pets” do lugar que estão. “É isso que está acontecendo no nosso país. Uma vergonha”. A afirmação foi desmentida pelos mediadores.

Atentado e guerras

Durante o debate, Trump tentou relacionar os democratas ao atentado que ele sofreu em julho. “Provavelmente levei um tiro na cabeça por causa das coisas que dizem sobre mim. Eles falam sobre democracia. Eles são a ameaça à democracia”.

As guerras na Faixa de Gaza e na Ucrânia também foram discutidas pelos candidatos. “Quero que a guerra acabe”, disse o republicano ao ser questionado se defende a vitória de Kiev. A democrata ironizou o adversário, afirmando que “líderes mundiais estão rindo de Donald Trump”.

Kamala adotou uma postura mais cautelosa sobre o conflito entre Israel e Hamas. Ela condenou o ataque do grupo, mas também lamentou a morte de palestinos inocentes. Já Trump declarou apoio incondicional aos israelenses.

Debate foi realizado na Pensilvânia. A escolha do local não é por acaso: a Pensilvânia é um estado roxo, ou seja, varia quem escolhe nas eleições, elegendo tanto republicanos quanto democratas, geralmente por margens acirradas. Por isso, os estados recebem o apelido de “roxos”, pois representam a mistura entre os partidos vermelho (Republicanos) e azul (Democratas).

A equipe de Kamala Harris pediu um novo debate em outubro. “Sob as luzes brilhantes, o povo americano pôde ver a escolha que enfrentará neste outono nas urnas: entre seguir em frente com Kamala Harris ou retroceder com Trump. Foi isso que eles viram esta noite e o que devem ver em um segundo debate em outubro. A vice-presidente Harris está pronta para um segundo debate. Donald Trump também?”, disse Jen O’Malley Dillon, chefe da campanha.

Trump rebateu dizendo que Kamala quer fazer outro debate porque “foi derrotada esta noite”. “[O debate] mostrou como eles são fracos, patéticos e o que estão fazendo para destruir nosso país, na fronteira, com o comércio exterior, com tudo. […] Agora, ela quer fazer outro [debate], porque foi derrotada esta noite, mas não sei se vamos fazer outro”, afirmou o republicano, em uma coletiva de imprensa após o evento.

Kamala discursou para apoiadores e afirmou que são “azarões” na disputa. “Pessoal, ainda somos os azarões nesta corrida. Está acirrada”. Ela também disse que a campanha democrata é “sobre unir as pessoas”.

Pesquisas mostram disputa equilibrada

Nas pesquisas eleitorais publicadas na última semana, a vantagem de Kamala Harris em relação a Donald Trump teve leve queda. Em alguns casos, a democrata aparece com poucos pontos à frente do republicano. Em outros, os dois estão empatados tecnicamente.

Pesquisas analisam voto popular e não levam em consideração o sistema de colégio eleitoral. Nos Estados Unidos, presidente e vice não são eleitos diretamente pelo voto dos cidadãos. Os eleitores, na realidade, escolhem os representantes do Colégio Eleitoral de seus respectivos estados.

Um candidato precisa conquistar 270 dos 538 representantes (delegados) para ser eleito. O número de representantes é proporcional à população e ao número de parlamentares de cada Estado. Dessa forma, o candidato que recebe a maioria dos votos populares não será necessariamente eleito.

Kamala ganhou o debate, mas ainda pode perder para Trump

No debate contra Donald Trump, Kamala Harris produziu uma mágica. Vice de Joe Biden, um presidente impopular, ela se apresentou como uma espécie de mudança dentro da continuidade. Foi como se tirasse uma cartola de dentro do coelho. Com um desempenho de mostruário, Kamala venceu o debate. Mas ainda pode perder a eleição para Trump.

Bem ensaiada, Kamala desviou dos principais torpedos do arsenal de Trump, como inflação e imigração. Fez acenos vagos à classe média. Grudou em Trump três pechas tóxicas: inimigo da democracia, benfeitor dos ricos e malfeitor das mulheres. Esfregou na face do rival a invasão do Capitólio e o cerceamento do direito ao aborto, algo caro ao cidadão americano.

Kamala foi auxiliada pela língua de Trump e pela dupla de mediadores do debate. A língua mentiu. Os mediadores desmentiram bizarrices como a acusação segundo a qual imigrantes haitianos estariam comendo animais domésticos no estado de Ohio. Ou que alguns estados permitiram a lunáticos abortistas matarem bebês depois do nascimento.

Trump falou para devotos convertidos. Kamala mirou indecisos e independentes, os eleitores que mais importam no momento. Há dois meses e meio, esse nicho do eleitorado, estimado em 11% nos estados mais relevantes, assistia a uma disputa entre dois homens brancos pelo privilégio de quebrar o recorde de presidente mais velho da história dos Estados Unidos.

Kamala introduziu no processo uma nova dinâmica, oferecendo aos americanos a possibilidade de eleger sua primeira presidente mulher. Durante o debate, Trump, 78 anos, sentiu falta de Biden, 81. “Onde está o nosso presidente?”, indagou, em timbre irônico. Kamala, 59, esclareceu ao rival que ele já não dispõe de um cachorro morto para chutar: “Você não está concorrendo com Biden, mas comigo”.

A mais recente pesquisa da Universidade Siena para o jornal New York Times, divulgada no domingo passado, trouxe Trump um ponto à frente de Kamala: 48% a 47%. Nessa sondagem, 28% admitiram saber pouco sobre Kamala. Apenas 9% disseram o mesmo sobre Trump. Seis em cada dez americanos informaram que desejam o novo. A maioria (53%) acha que Trump encarna a mudança. Apenas 25% avaliam que ela virá com Kamala. Resta agora saber se o debate alterou essa percepção.


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