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Mundo

Itamaraty recomenda que mais de 20 mil brasileiros deixem o Líbano por risco de conflito

Ordem de evacuação de Israel paralisa ajuda humanitária da ONU em Gaza

Publicado em 27/08/2024 12:28 - Jamil Chade (UOL), DW, Agência Brasil – Edição Semana On

Divulgação Victor Barone - Photoshop

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O Itamaraty recomenda que os brasileiros deixem temporariamente o Líbano, diante da tensão e do risco de um conflito generalizado na região. Estima-se que mais de 20 mil brasileiros vivam no país, que enfrenta uma troca de disparos de mísseis entre Israel e o Hezbollah, milícia financiada pelo Irã.

Não se trata, porém, de uma evacuação organizada pelo governo. O UOL apurou que não existe ainda uma definição por parte do Brasil sobre como seria uma eventual operação de resgate, ainda que o tema esteja no foco de debates internos do governo.

A orientação, neste momento, é apenas para que cada brasileiro deixe, por conta própria, o Líbano. Essa ausência deveria ser considerada até que a situação se “normalize”.

No fim de semana, o governo de Benjamin Netanyahu atacou bases do grupo em território libanês, argumentando que estava evitando uma ofensiva iminente por parte do Hezbollah em Israel. Por sua parte, a milícia declarou que disparou mais de 320 foguetes e drones em direção às bases militares israelenses. Mas o impacto foi mínimo, causando constrangimento entre grupos árabes e críticas por parte de analistas.

Na ONU e em governos de várias partes do mundo, o temor é de que uma nova frente possa ser aberta na crise no Oriente Médio, com um efeito desestabilizador no Líbano. Ainda que um confronto maior não seja de interesse nem de Israel e nem do Hezbollah, não se exclui que a crise fuja do controle.

Num comunicado, a Embaixada do Brasil no Líbano afirmou estar “atenta ao aumento das hostilidades em regiões do país e empenhada em prestar as orientações devidas à comunidade”.

A chancelaria apresentou uma série de recomendações aos brasileiro, incluindo:

– Não viajar ao país.

– A embaixada recomenda aos nacionais residentes ou de passagem pelo Líbano que se ausentem do país, por meios próprios, até o retorno à normalidade.

– Aos brasileiros que decidam manter estadia no Líbano, a recomendação é para não permanecer no sul do país, em zonas de fronteira ou em outras áreas de reconhecido risco.

– Adotar as indicações de segurança das autoridades locais, com atenção às áreas consideradas de risco.

– Reforçar medidas de precaução, especialmente no sul do Líbano, em zonas de fronteiras e em outras áreas de reconhecido risco.

– Não fazer parte de aglomerações e protestos.

– Verificar se seu passaporte possui ao menos seis meses de validade.

– Certificar-se de que possui documento de nacionalidade brasileiro (como certidão de nascimento) e/ou carteira de identidade válida brasileira ou libanesa.

A embaixada ainda sugere que os brasileiros no país mantenham todos seus dados de cadastramento atualizados junto ao Setor Consular, em Beirute.

Nas últimas semanas, diversos governos vêm fazendo alertas aos seus nacionais, tanto no Líbano como em Israel, recomendando que deixem a região. Fontes diplomáticas confirmaram que, num encontro com adidos militares de Tel Aviv, os representantes de Israel sugeriram às embaixadas estrangeiras no país que tomassem medidas em relação aos seus cidadãos, diante do risco de um confronto que afete cidades do país.

O Brasil, diante da crise diplomática com Israel, não conta hoje com um embaixador em Tel Aviv, ainda que sua representação continue operando com diplomatas de graus hierárquicos mais baixos.

A história dos embates entre Israel e o Hezbollah no Líbano

Antes de 1948:

O Líbano tornou-se independente de seus governantes coloniais franceses em 1943 e, mesmo antes do estabelecimento do Estado de Israel, os libaneses já estavam debatendo que tipo de relacionamento poderiam ter com seus vizinhos.

O governo libanês sempre representou uma ampla gama de diferentes grupos religiosos e étnicos, e alguns achavam que poderiam se alinhar com os sionistas que queriam estabelecer um Estado judeu. Entretanto, outros elementos do Estado libanês acreditam que seria impossível ter um bom relacionamento com Israel e também com os Estados árabes vizinhos.

1948:

Em 14 de maio, no mesmo dia em que é declarada a fundação do Estado de Israel, Egito, Síria, Jordânia, Iraque e Líbano declaram guerra ao novo Estado. Já havia incidentes violentos no que era o Mandato Britânico da Palestina obrigatória, controlada pelo Reino Unido. As Nações Unidas concordaram que o Mandato deveria ser dividido em dois Estados – um judeu e um árabe, ou palestino –, mas muitos países árabes discordam e se recusam a aceitar o plano.

A guerra continua até o início de 1949, quando Israel e alguns Estados árabes, incluindo o Líbano, concordam com as linhas formais do armistício. Esse acordo resulta no que seria conhecido como a Linha Verde ou Fronteira do Armistício de 1949. A maioria dos Estados árabes insiste que essas fronteiras são temporárias, embora o Líbano não o faça.

No final da guerra, Israel detém cerca de 40% da área inicialmente destinada aos palestinos pelo Plano de Partilha da ONU de 1947.

Naquela época, cerca de 100 mil refugiados palestinos, que haviam sido forçados a deixar suas casas, haviam fugido para o Líbano. Em 1949, a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo (UNRWA), foi criada para ajudá-los.

1965:

Até esse ano, a fronteira entre Líbano e Israel era relativamente pacífica. Mas então um novo grupo nacionalista palestino, o Fatah, começa a lançar ataques contra Israel do outro lado da fronteira.

Outros novos grupos militantes palestinos também lançam ataques a partir da Síria e da Jordânia. No próprio Líbano, a opinião pública continua dividida em relação ao conflito, devido ao fato de vários grupos demográficos terem opiniões diferentes sobre ele.

1967:

As tensões entre Israel e seus vizinhos árabes aumentam, e o Egito, a Síria e a Jordânia se mobilizam contra Israel. Após um ataque preventivo de Israel à Força Aérea egípcia em reação à mobilização, Israel derrota as nações árabes alinhadas contra ele, no que agora é conhecido como a Guerra dos Seis Dias.

O Líbano não se envolveu fortemente nos combates, mas milhares de refugiados palestinos fugiram pela fronteira para o Líbano.

1969:

O Líbano concorda que a então recém-criada Organização para a Libertação da Palestina (OLP) passe a administrar 16 campos de refugiados palestinos no Líbano, sob o nome de Comando da Luta Armada Palestina. Essa organização acaba se tornando uma espécie de força policial nos campos.

1970:

Após iniciar uma revolta fracassada contra a família real jordaniana, a OLP muda sua sede principal da Jordânia para a capital do Líbano, Beirute. A entidade transfere seu quartel-general militar para o sul do Líbano. Isso leva ao aumento dos conflitos entre o Líbano e Israel.

1973:

Forças especiais israelenses aterrissam na costa libanesa e, como parte da Operação Cólera de Deus, de Israel, assassinam três líderes da OLP. As mortes são uma retaliação à operação de tomada de reféns de atletas israelenses pela organização militante palestina Setembro Negro durante as Olimpíadas de Munique em 1972.

1978:

Israel invade o sul do Líbano, perseguindo militantes palestinos que continuaram a realizar ataques transfronteiriços. Isso inclui combatentes que mataram mais de 30 civis israelenses em um ônibus sequestrado.

O Exército de Israel avança até o rio Litani, a cerca de 29 quilômetros da fronteira, e o Conselho de Segurança da ONU exige sua retirada imediata na Resolução 425 da ONU.

Como parte da resolução, a ONU estabelece uma “força interina para o sul do Líbano com o objetivo de confirmar a retirada das forças israelenses, estabelecer a paz e a segurança internacionais” e garantir que o governo libanês recupere o controle da área.

A Força Interina da ONU no Líbano (Unifil), continua operando no local até hoje.

1982:

Em junho, Israel invade o Líbano, perseguindo os combatentes da OLP que realizam ataques transfronteiriços. Israel também começou a financiar e treinar uma milícia cristã libanesa chamada Exército do Sul do Líbano (ESL) que se opõe à OLP.

As tensões estavam aumentando no Líbano e isso deu início à Guerra Civil Libanesa de 1975 a 1990.  Israel apoia o ESL contra outras forças na guerra que são apoiadas pela Síria.

Forças cristãs nacionalistas de direita e outras forças matam centenas de civis em campos de refugiados palestinos, no que ficou conhecido como o Massacre de Sabra e Shatila. Posteriormente, várias comissões de inquérito descobriram que, embora as forças israelenses estacionadas no local não tenham sido diretamente responsáveis pelo massacre, elas foram culpadas por permiti-lo. As fontes divergem quanto ao número de mortos, mas os especialistas mais tarde afirmaram que cerca de 3 mil civis foram mortos.

Essa invasão israelense do Líbano acabou resultando na criação do Hezbollah. Quando um grupo de clérigos muçulmanos xiitas no Líbano decidiu pegar em armas contra os israelenses, o novo governo teocrático do Irã – também muçulmano xiita – forneceu-lhes fundos e treinamento.

1985:

Depois de três anos, Israel acaba se retirando da área de Beirute em direção ao rio Litani, onde ocupa oficialmente uma área de cerca de 850 quilômetros quadrados entre o rio e a fronteira israelense. Israel argumenta que precisa de uma zona tampão de segurança nessa área para proteger os civis israelenses nas cidades fronteiriças. Isso é feito com a ajuda do ESL.

Nos anos seguintes, os israelenses na zona de segurança tornam-se alvo de militantes. Em 2000, Israel se retira do território libanês, de acordo com a Resolução 425 de 1978 do Conselho de Segurança da ONU.

1993:

Em julho, Israel lança o que chama de Operação Responsabilidade. no Líbano, ela é conhecida como a Guerra dos Sete Dias. Os combates começaram após uma série de ataques de combatentes de Israel e do Hezbollah perto da fronteira, que mataram civis e soldados de ambos os lados. Centenas de milhares de pessoas ficaram desabrigadas. Depois de uma semana, os EUA negociam um cessar-fogo.

1996:

Em abril, Israel inicia o que chama de Operação Vinhas da Ira, em uma aparente tentativa de deslocar civis em direção a Beirute, para pressionar o governo libanês a desarmar o Hezbollah. Israel aconselha os moradores dos vilarejos do sul do Líbano a saírem e começa a bombardear pesadamente a área.

Durante a operação de 17 dias, Israel realiza cerca de 600 ataques aéreos, bombardeia o aeroporto e as usinas de energia de Beirute e também bloqueia vários portos libaneses. O Hezbollah responde com disparos de foguetes. Centenas de milhares de civis são deslocados em ambos os lados da fronteira.

Um bombardeio israelense contra um complexo da ONU perto da aldeia libanesa de Qana mata mais de 100 pessoas que estavam abrigadas no local, incluindo cerca de 37 crianças. Centenas de outras pessoas ficaram feridas, incluindo as forças de paz da ONU. Israel afirma que o bombardeio foi acidental. O incidente atrai a condenação internacional e, mais tarde, membros da Al Qaeda diriam que o massacre de Qana os motivou a começar a atacar os EUA.

A operação dura 17 dias e termina com um entendimento mútuo, mediado pelos EUA, de que civis não são alvos legítimos.

2000:

Israel se retira do sul do Líbano até a Linha Azul, uma demarcação estabelecida pela ONU como linha de fronteira temporária para que a Unifil pudesse monitorar a retirada israelense.

2006:

O Hezbollah captura dois soldados israelenses em um ataque transfronteiriço e mata vários outros. O grupo exige a libertação de prisioneiros palestinos em troca dos soldados reféns. Israel se recusa e lança uma campanha militar de cinco semanas, que ficou conhecida como no Líbano como a Guerra de Julho.

O conflito desloca até um milhão de libaneses e meio milhão de israelenses. Cerca de 1.200 libaneses são mortos, assim como 158 israelenses, quase todos soldados. A infraestrutura libanesa é muito danificada.

A luta termina com uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que exige que o Hezbollah se desarme e que o Exército israelense se retire, além de expandir o mandato da Unifil para que possa usar a força para impedir atividades hostis na área de fronteira que supervisiona.

Tanto Israel quanto o Hezbollah consideram isso uma vitória. Em outubro, Israel já havia se retirado em sua maior parte.

2023:

Desde 2006, tem havido ataques regulares na fronteira sul do Líbano. Tudo isso mudou após o ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro – o conflito se intensificou.

Ordem de evacuação de Israel paralisa ajuda humanitária da ONU em Gaza

As operações de ajuda da Organização das Nações Unidas (ONU) estão paralisadas na Faixa de Gaza desde ontem (26) depois da nova ordem de evacuação de Israel para Deir Al-Balah, no centro do enclave, região onde o centro de operações da ONU está localizado, disse uma autoridade sênior das Nações Unidas.

A ordem de evacuação chegou quando a ONU se preparava para começar, no sábado (24), a campanha de vacinação de cerca de 640 mil crianças em Gaza. A Organização Mundial de Saúde (OMS) disse que um bebê de 10 meses foi contaminado pelo vírus da pólio tipo 2, no primeiro caso no território em 25 anos.

“Estamos incapazes de trabalhar hoje com as condições que temos”, disse uma autoridade sênior da ONU, falando sob a condição de anonimato. “Não estamos operando em Gaza desde essa manhã”.

A ONU realocou o seu principal centro de operações na Faixa de Gaza e a maior parte do seu pessoal para Deir Al-Balah, depois que Israel ordenou a evacuação de Rafah no sul de Gaza vários meses atrás.

“Para onde vamos agora?” perguntou a autoridade, acrescentando que a equipe da ONU teve que se mudar tão rapidamente que deixou equipamentos para trás.

A unidade humanitária do exército israelense (COGAT) não respondeu imediatamente ao pedido de comentário.

A autoridade sênior da ONU disse que a equipe da organização no território foi instruída a procurar maneiras para continuar operando. Ele afirma que as operações da ONU não foram formalmente suspensas.

“Não estamos abandonando (Gaza) porque as pessoas precisam de nós aqui”, disse a autoridade. “Estamos tentando balancear a necessidade das pessoas com a segurança do pessoal da ONU”.

Sam Rose, diretor de campo sênior da agência da ONU para refugiados palestinos (UNRWA), disse que a UNRWA ainda estava conseguindo oferecer serviços de saúde e outros nesta segunda-feira, mas acrescentou que, ainda que a UNRWA atue de maneira diferente do restante da ONU, ainda enfrenta os mesmos desafios.

“Estamos sendo colocados em áreas ainda menores em Gaza”, disse a repórteres nesta segunda-feira. “A zona humanitária declarada por Israel diminuiu. É agora cerca de 11% do total da faixa de Gaza, mas não se trata de 11% do território que é adequado para habitação, para serviços, para a vida”.

“A resposta humanitária aqui está sendo estrangulada e a nossa capacidade de agir está muito limitada”, disse Louise Wateridge, porta-voz da UNRWA em Gaza, hoje.

O programa mundial de alimentos da ONU (WFP) disse nesta segunda que, nos últimos dois meses, conseguiu “trazer apenas metade das 24 mil toneladas de comida e auxílio necessárias para atender 1,1 milhão de pessoas”. A WFP disse que sofre com a piora do conflito, número limitado de travessias e estradas destruídas.


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