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Mundo

Israel bombardeia hospitais e planeja ocupação permanente

O sionismo como projeto colonial e sua relação com as lógicas de segregação que culminaram no nazismo

Publicado em 14/05/2025 12:52 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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A Faixa de Gaza vive, neste momento, uma tragédia de proporções históricas, onde a lógica militar da “guerra total” imposta por Israel colide frontalmente com os princípios humanitários mais elementares. Após uma breve pausa para garantir a libertação de um refém israelense-americano, as forças israelenses retomaram os ataques com intensidade redobrada, atingindo hospitais e áreas civis, e agravando uma crise humanitária que já compromete o futuro de uma geração inteira.

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O saldo imediato dos bombardeios desta semana é brutal: ao menos 28 mortos, incluindo vítimas em hospitais de Khan Younis, acusados por Israel de abrigarem “centros de comando e controle” do Hamas. As justificativas oficiais se repetem, mas a cada ofensiva, cresce a percepção internacional de que o custo humano do conflito ultrapassa os limites do aceitável, como alertam organismos como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a ONU.

Os bombardeios a hospitais como o Nasser e o Europeu, em Gaza, ilustram a escalada da ofensiva israelense. Israel alega que líderes do Hamas, como Mohammed Sinwar, utilizam essas estruturas para fins militares — uma acusação negada pela organização palestina. Em meio a essa disputa narrativa, são civis, médicos e jornalistas — como o palestino Hassan Aslih, acusado por Israel de envolvimento nos ataques de 7 de outubro — que pagam o preço mais alto.

“Todos os que estavam no Hospital Europeu corriam com medo. Alguns de muletas, outros a gritar pelos filhos, enquanto outros eram arrastados em camas”, relatou Amro Tabash, repórter local, à AFP. O relato cru e desesperado sintetiza a vulnerabilidade de uma população encurralada, sem rotas de fuga seguras, como exige o direito humanitário internacional.

O cerco à ajuda humanitária

Paralelamente aos ataques militares, Israel mantém um bloqueio rigoroso à entrada de suprimentos em Gaza desde o início de março. O representante da OMS, Rik Peeperkorn, foi categórico ao afirmar que a fome já compromete “uma geração inteira” de palestinos. Em hospital visitado no norte de Gaza, mais de 20% das crianças examinadas sofriam de desnutrição aguda.

“O que vemos é uma tendência crescente de desnutrição aguda generalizada”, declarou Peeperkorn, destacando que “sem alimentos nutritivos, água limpa e acesso à saúde, uma geração inteira será permanentemente afetada”. O impacto, segundo a OMS, não se limita à sobrevivência: atinge o desenvolvimento cognitivo, físico e social dessas crianças.

O chefe da agência de refugiados palestinos da ONU, Philippe Lazzarini, foi ainda mais incisivo, acusando Israel de usar a fome como arma de guerra ao negar ajuda aos civis — uma prática vedada pelas Convenções de Genebra. Israel, por sua vez, acusa o Hamas de roubar suprimentos, enquanto tenta viabilizar um plano, com apoio dos EUA, para distribuir ajuda em “locais neutros” — proposta que a OMS considera “extremamente inadequada” para atender às necessidades emergenciais.

O preço humano de uma guerra sem fim

A retórica belicista do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu deixa pouco espaço para a diplomacia. “Nos próximos dias, entraremos com força total para concluir a operação”, afirmou. Em sua visão, a destruição total do Hamas é condição inegociável para encerrar a guerra. Contudo, a história dos conflitos assimétricos no Oriente Médio demonstra que a eliminação física de um grupo não extingue suas raízes políticas e sociais — muito pelo contrário.

Como analisou o historiador israelense Ilan Pappé, “a ocupação e as punições coletivas apenas alimentam o ciclo de resistência” (The Ethnic Cleansing of Palestine, 2006). A destruição de infraestrutura civil e a asfixia humanitária, longe de pacificar a região, tendem a radicalizar as populações afetadas, perpetuando um conflito sem solução militar possível.

A situação em Gaza não é um episódio isolado. É a expressão de uma lógica de poder onde o uso desproporcional da força, a punição coletiva e a instrumentalização da fome são mecanismos para subjugar uma população. Trata-se, portanto, de uma violação aos princípios do direito internacional humanitário, mas também de um desafio ético à consciência global.

A responsabilidade internacional e o risco de uma geração perdida

Os números falam por si: segundo a OMS, 55 crianças já morreram de desnutrição aguda em Gaza. Com estoques para tratar apenas 500 crianças, as perspectivas são sombrias. “Normalmente, não se morre de fome. Morre-se das doenças associadas à fome”, afirmou Peeperkorn, destacando o aumento de casos fatais de gastroenterite e pneumonia entre crianças com imunidade comprometida.

Este cenário de catástrofe humanitária demanda uma resposta internacional urgente. A inércia da comunidade global frente à tragédia em Gaza é um testemunho da falência dos mecanismos de proteção aos direitos humanos, como já denunciava o filósofo francês Michel Foucault ao analisar as “biopolíticas” do poder — formas pelas quais Estados decidem quem deve viver e quem pode morrer (Segurança, Território, População, 1977-78).

O cerco de Gaza não é apenas um drama humanitário: é um espelho da falência moral da política internacional diante de conflitos assimétricos. A lógica da força bruta, travestida de autodefesa, atropela os direitos fundamentais de uma população civil, enquanto o mundo observa, hesitante, entre discursos diplomáticos e inércia política.

Se o futuro de uma geração inteira está ameaçado pela fome e pela destruição, a responsabilidade não é apenas de quem aperta os botões dos mísseis, mas de todos os que, podendo agir, escolhem o silêncio.

Ocupação como política, a fome como arma

A decisão do gabinete de segurança de Israel de aprovar o plano “Carruagens de Gideão” para ampliar a ofensiva militar em Gaza marca um ponto de inflexão no conflito. A estratégia — que inclui a ocupação prolongada do território, a transferência compulsória da população palestina e o bloqueio de ajuda humanitária — revive os piores fantasmas da política colonial e recoloca o direito internacional humanitário sob ataque direto. Em nome da segurança, Israel aprofunda uma operação que, aos olhos da ONU, das agências humanitárias e de especialistas, flerta perigosamente com a lógica da limpeza étnica.

De acordo com os termos divulgados, as Forças de Defesa Israelenses (FDI) pretendem conquistar Gaza, desalojar a população para o sul, destruir o Hamas, libertar os reféns remanescentes do ataque de 7 de outubro de 2023 e, só depois disso, estabelecer um novo mecanismo de assistência humanitária. O porta-voz militar das FDI, Ephraim Defrin, foi direto: “Um componente central da operação é a transferência compulsória da maioria da população da Faixa de Gaza”.

Sob o direito internacional, a transferência forçada de civis durante conflitos armados constitui crime de guerra. Se praticada de forma sistemática, pode configurar crime contra a humanidade, como reconhecem as Convenções de Genebra. O próprio primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, já investigado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), não escondeu a intenção: “A população de Gaza será transferida para sua própria proteção”.

O peso da ocupação: de tática militar a doutrina política

O discurso do ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, sintetiza a mudança de paradigma: “Vamos finalmente ocupar a Faixa de Gaza. Parem de ter medo da palavra ocupação”. Essa virada retórica rompe com décadas de ambiguidade da política israelense, desde a retirada formal de Gaza em 2005, e escancara uma aposta na ocupação como solução definitiva.

Historicamente, a ocupação de territórios por Israel tem sido objeto de contestação internacional. Resoluções da ONU, como a 242 (1967) e a 338 (1973), estabeleceram princípios de retirada dos territórios ocupados. Contudo, a lógica expansionista — visível nos assentamentos da Cisjordânia — sempre tensionou essas normas. Gaza, com seus 365 km² e 2,3 milhões de habitantes, agora entra definitivamente nessa equação.

O plano israelense inclui a criação de zonas de segurança, como os corredores de Netzarim e Morag, que fragmentam a Faixa em três áreas. Estima-se que 70% do território esteja, neste momento, sob ordens de evacuação ou controle militar, reduzindo a mobilidade da população a níveis insustentáveis.

O colapso do sistema humanitário

A face mais cruel da nova ofensiva se revela no cerco humanitário. Desde março, Israel bloqueia a entrada de alimentos, remédios e bens essenciais em Gaza. O bloqueio, justificado como uma medida para impedir o desvio de ajuda pelo Hamas, é visto por agências internacionais como uma tática de guerra contra civis.

Rik Peeperkorn, representante da OMS para o Território Palestino Ocupado, foi contundente: “Sem alimentos nutritivos, água limpa e acesso à saúde, uma geração inteira será permanentemente afetada”. Dados recentes indicam que mais de 20% das crianças examinadas sofrem de desnutrição aguda. A ONU já registrou 55 mortes infantis diretamente ligadas à fome.

O novo mecanismo de assistência humanitária, proposto por Israel e criticado pelas agências da ONU, centralizaria a entrada de ajuda em um único ponto de acesso no sul de Gaza, sob controle militar e empresas privadas de segurança. A ONU classificou as medidas como “inadmissíveis” e contrárias aos princípios humanitários. Em nota conjunta, as lideranças de todas as agências atuantes em Gaza afirmaram que o plano “parece elaborado para reforçar o controle sobre itens vitais como tática de pressão”.

A instrumentalização da fome como arma de guerra foi condenada no Estatuto de Roma do TPI, e historicamente associada a práticas genocidas. Como aponta a jurista e ex-relatora especial da ONU, Jean Ziegler, “privar uma população civil do acesso a alimentos e assistência essencial é uma forma moderna de extermínio”.

Uma guerra que apaga fronteiras entre militares e civis

Desde o início da ofensiva, mais de 52 mil palestinos foram mortos, segundo dados do Ministério da Saúde de Gaza, reconhecidos como confiáveis por agências internacionais. Cerca de 90% da população foi desalojada, vivendo em abrigos improvisados, sem infraestrutura, exposta à fome, doenças e violência.

Enquanto isso, dos 251 reféns israelenses capturados em 7 de outubro, 59 permanecem em Gaza, dos quais apenas 24 estariam vivos. A libertação de reféns continua sendo uma das justificativas centrais para a ofensiva, mas o custo humanitário levanta questionamentos cada vez mais fortes sobre a proporcionalidade e legalidade das ações israelenses.

A estratégia israelense atual, de acordo com analistas como Gideon Levy, colunista do Haaretz, não se trata apenas de segurança, mas de uma “guerra de punição coletiva, que visa redefinir os contornos políticos da questão palestina pela força”.

O plano “Carruagens de Gideão” não é um episódio isolado, mas a culminação de uma lógica de ocupação e repressão que, no limite, flerta com projetos de limpeza étnica — como advertiu a própria ONU. Ao institucionalizar a transferência forçada da população e usar a fome como instrumento de controle, Israel coloca em xeque os pilares do direito internacional e desafia a comunidade internacional a agir.

A solução militar para Gaza, apresentada como inevitável por Netanyahu, é, na prática, uma negação da solução política, cujo horizonte se apaga sob os escombros de hospitais bombardeados e crianças famintas. A questão não é mais apenas geopolítica. É, sobretudo, uma questão moral e civilizatória.

Israel, Gaza e o peso da história: entre a tragédia e o impasse

A recente escalada militar de Israel sobre Gaza, com o plano “Carruagens de Gideão”, recoloca em evidência um dos dilemas mais complexos da política internacional contemporânea: como um Estado fundado para abrigar sobreviventes do Holocausto pode, hoje, ser acusado de reproduzir práticas que violam princípios básicos do direito humanitário?

O embate entre segurança e ocupação, entre a memória do genocídio nazista e a realidade do domínio sobre outro povo, não é novo. Desde a criação do Estado de Israel, em 1948, essa tensão persegue a diplomacia mundial. Mas os sinais da nova ofensiva — incluindo a transferência compulsória de palestinos e o bloqueio humanitário — reacendem uma reflexão urgente sobre as raízes e os desdobramentos desse conflito.

A tragédia do Holocausto, que exterminou seis milhões de judeus europeus, foi produto de um antissemitismo profundamente enraizado na cultura ocidental. Polônia, Hungria, Romênia, Ucrânia, França, Áustria e Itália colaboraram de diferentes formas com a máquina de morte nazista, como demonstrado por historiadores como Raul Hilberg (A Destruição dos Judeus Europeus, 1961).

Após a Segunda Guerra Mundial, as potências europeias e os EUA, diante da vergonha e do peso político da Shoah, apoiaram a criação do Estado de Israel como forma de dar uma solução nacional ao “problema judeu” — mas também como peça estratégica no tabuleiro geopolítico do Oriente Médio. A Palestina, sob mandato britânico, foi o território escolhido, com pouco espaço para considerar as aspirações do povo árabe-palestino já ali estabelecido.

Como analisou o escritor israelense Amos Oz, em Uma História de Amor e Trevas (2002), havia uma contradição insolúvel: os judeus, vítimas do exílio forçado, voltavam a ser instrumentos de interesses coloniais em uma terra já ocupada. “O problema”, escreveu Oz, “é que nossos salvadores não nos queriam de volta na Europa. Era mais fácil exportar a culpa para o Oriente”.

Sionismo, colonização e a luta por um lar

Dentro do movimento sionista, havia — e há — múltiplas correntes: dos socialistas que sonhavam com kibutzim e convivência com árabes, aos nacionalistas radicais que viam a força como único caminho. Vladimir Jabotinsky, admirador de Mussolini e ideólogo do sionismo revisionista, foi um dos que defenderam abertamente a necessidade de uma “barreira de ferro” contra os árabes, antevendo uma confrontação permanente.

Porém, reduzir Israel a uma “continuação do Terceiro Reich”, como sugerem algumas interpretações radicais, é historicamente insustentável e eticamente questionável. Como destaca o historiador israelense Ilan Pappé, crítico da ocupação, “comparar Israel ao nazismo é um erro, mas ignorar que o projeto colonial de ocupação de territórios e expulsão de populações é real seria covardia intelectual” (A Limpeza Étnica da Palestina, 2006).

O impasse atual: entre segurança, colonização e guerra total

Com a retomada da ofensiva em Gaza, Israel se vê em um dilema autoinfligido. A retórica do governo Netanyahu, amplificada por figuras da extrema-direita como Bezalel Smotrich e Itamar Ben Gvir, adota abertamente a ideia de ocupação total, com distribuição de armas a colonos e expansão de zonas de segurança dentro do território palestino.

A repressão aos palestinos, o bloqueio de ajuda humanitária e os ataques indiscriminados a áreas civis provocaram críticas severas da ONU e de organizações como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional, que falam abertamente em crimes de guerra.

O uso de táticas de punição coletiva, como a fome e o deslocamento forçado, fere os princípios das Convenções de Genebra. Como aponta Michael Sfard, jurista israelense especializado em direitos humanos, “a ocupação em si não é ilegal, mas as práticas adotadas por Israel em Gaza já ultrapassam os limites do direito internacional”.

O risco da radicalização interna: Israel e sua guerra civil latente

Além do conflito externo, Israel enfrenta uma polarização interna crescente. O caso do serviço de inteligência Shin Bet, criticado por Netanyahu após os ataques de 7 de outubro, revela fissuras institucionais profundas. Segundo o pesquisador Adam Raz, autor do livro Netanyahu e o Hamas: a estratégia da divisão, o governo teria explorado a ascensão do Hamas para enfraquecer a Autoridade Palestina e justificar a radicalização da política de segurança.

Essa estratégia, no entanto, tem um preço: o risco de uma guerra civil israelense entre setores ultranacionalistas, colonos armados e forças de segurança que ainda defendem a legalidade democrática. O Estado de Israel, fundado como refúgio contra o antissemitismo, pode ver-se tragado por suas próprias contradições.

O drama de Gaza não pode ser lido em termos simplistas de “herdeiros do nazismo”, mas tampouco pode ser dissociado da história de violência colonial e das responsabilidades das potências ocidentais. O Estado de Israel, que emergiu da maior tragédia do século XX, enfrenta hoje o desafio de não trair os valores universais que inspiraram sua criação.

A lição histórica é clara: Estados que escolhem a força como único argumento terminam prisioneiros de sua própria violência. O futuro de Israel — e da paz no Oriente Médio — depende da capacidade de romper esse ciclo.

Como advertiu o filósofo judeu alemão Walter Benjamin, “não há documento de cultura que não seja ao mesmo tempo um documento de barbárie” (Sobre o Conceito de História, 1940). Cabe às sociedades escolherem qual parte de sua memória irão honrar.

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