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Mundo
Como Israel transforma vitórias militares em desgaste moral e ilegalidades contra os direitos humanos
Publicado em 21/05/2026 1:39 - Semana On
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O Ministério das Relações Exteriores de Israel anunciou, nesta quinta-feira (21), a deportação de todos os ativistas estrangeiros da flotilha de Gaza, capturados esta semana pelas forças israelenses em águas internacionais, após a indignação internacional pelo tratamento recebido durante a detenção.
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“Todos os ativistas estrangeiros da flotilha da Solidariedade com a Palestina foram deportados de Israel. Israel não permitirá nenhuma violação do bloqueio naval legal a Gaza”, declarou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Oren Marmorstein.
Apesar do anúncio, até o momento pelo menos 428 ativistas de direitos humanos que atuam na Palestina estão desaparecidos. A denúncia é da Global Sumud Flotilla (GSF). Quatro brasileiros que foram detidos ainda estão desaparecidos:
Beatriz Moreira, militante do Movimento de Atingido por Barragens;
Ariadne Teles, advogada de direitos humanos e coordenadora da GSF no Brasil;
Thainara Rogério, desenvolvedora de software, nascida no Brasil e cidadã espanhola e
Cássio Pelegrini, médico pediatra.
As três mulheres foram presas juntas. Pelegrini estava no penúltimo barco interceptado, que quase chegou a Gaza, ficando a menos de 100 milhas náuticas da costa.
Segundo lideranças da GSF, até o momento, não há nenhuma notícia sobre os brasileiros. Além de o Estado de Israel não dar atualizações sobre o paradeiro e o estado de saúde dos brasileiros, as autoridades proibiram o atendimento consular e o contato com advogados.
A preocupação é de que sofram torturas, violência sexual e outros tipos de agressão. A Embaixada do Brasil em Tel Aviv informou que todos os ativistas serão levados ao porto de Ashdod e serão encaminhados ao centro de detenção de Ktzi’ot. A expectativa é de que as visitas consulares sejam permitidas nesta quinta-feira (21).
Brasil condena ‘tratamento degradante e humilhante’
O governo do Brasil declarou que “deplora o tratamento degradante e humilhante dispensado por autoridades israelenses” após o vídeo publicado pelo próprio ministro da Segurança Interna de Israel, Itamar Ben-Gvir, que mostra os ativistas pró-Palestina da Flotilha Global Sumud, mantidos sob custódia após serem sequestrados pela Marinha israelense em águas internacionais, sendo humilhados e agredidos fisicamente.
A posição brasileira foi emitida pelo Itamaraty em nota na noite de quarta-feira (20/05) e menciona especificamente Itamar Ben-Gvir, responsável pelo compartilhamento do vídeo e que também aparece nas imagens sorrindo e lançando frases provocativas, como “Bem-vindos a Israel, nós somos os donos da casa” e “O povo de Israel está vivo”.
“O governo brasileiro deplora o tratamento degradante e humilhante dispensado por autoridades israelenses, em particular pelo Ministro da Segurança Interna de Israel, Itamar Ben Gvir, aos participantes da Flotilha Global Sumud”, afirma.
A chancelaria também classifica a interceptação de embarcações da flotilha em águas internacionais como “ações ilegais”, exigindo a libertação imediata dos ativistas mantidos sob custódia pelo governo de Israel, que incluem quatro cidadãos brasileiros. O Brasil, por fim, cita respeito à Convenção contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes, destacando se tratar de um dos compromissos internacionais assumidos por Israel.
“Ao reiterar seu repúdio à interceptação, em águas internacionais, das embarcações integrantes da flotilha e à detenção de seus participantes — ambas ações ilegais —, o Brasil demanda libertação imediata de todos os ativistas detidos, incluindo de quatro cidadãos brasileiros, assim como pleno respeito a seus direitos e a sua dignidade, em linha com os compromissos internacionais assumidos pelo Estado de Israel, a exemplo da Convenção contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes”, conclui.
Israel transforma vitórias militares em desgaste estratégico
Israel parece caminhar para uma contradição cada vez mais evidente: enquanto acumula vitórias militares contra seus principais adversários regionais, assiste simultaneamente à deterioração acelerada de seu capital político e moral no cenário internacional.
Desde os ataques de 7 de outubro de 2023, o Estado israelense impôs danos severos a inimigos históricos como Hamas, Hezbollah e Irã. Lideranças foram eliminadas, estruturas de comando desmanteladas, arsenais destruídos e áreas estratégicas passaram a ser ocupadas pelas Forças de Defesa de Israel, tanto na Faixa de Gaza quanto no sul do Líbano. Sob a ótica estritamente militar, os resultados são difíceis de contestar.
O problema é que esses ganhos operacionais vêm sendo acompanhados por um processo contínuo de desgaste ético e diplomático. A percepção internacional de que Israel responde aos ataques sofridos com ações desproporcionais, abusivas e incompatíveis com o direito internacional passou a contaminar até países que inicialmente apoiaram sua ofensiva.
O episódio mais recente dessa erosão simbólica ocorreu após a interceptação de uma flotilha de ativistas pró-palestinos em águas internacionais. Um vídeo amplamente difundido mostrou o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, circulando sorridente entre os detidos enquanto integrantes das forças de segurança submetiam os ativistas a constrangimentos físicos e humilhações. Sentados em posições forçadas, empurrados e obrigados a se ajoelhar, os militantes ouviam do ministro a frase: “Bem-vindos a Israel”, pronunciada em tom de deboche enquanto ele agitava uma bandeira nacional.
A reação oficial foi rápida, mas insuficiente para conter os danos. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e lideranças de diferentes campos políticos condenaram a atitude do ministro. A reprimenda, porém, perdeu credibilidade diante da repetição de episódios semelhantes envolvendo militares israelenses nos últimos meses.
Recentemente, Netanyahu também se viu obrigado a criticar soldados israelenses após a divulgação de imagens de vandalismo contra símbolos cristãos no sul do Líbano. Em um dos casos, um militar destruiu com marretadas uma imagem de Jesus Cristo; em outro, um soldado colocou um cigarro aceso na boca de uma estátua da Virgem Maria.
As controvérsias não se limitam a atos de humilhação simbólica ou desrespeito religioso. O caso da prisão de Sde Teiman tornou-se um dos exemplos mais graves da deterioração institucional denunciada por críticos do governo israelense. Carcereiros acusados de empalar um detido palestino chegaram a ser alvo de investigação da própria corregedoria militar. Posteriormente, porém, uma reviravolta processual mudou o rumo do caso: a corregedora responsável pela investigação acabou presa, enquanto os acusados passaram a ser tratados por setores da sociedade como heróis nacionais.
A sucessão de episódios amplia um debate que já ultrapassa o campo militar e alcança a própria legitimidade política e moral do Estado israelense. Há setores que contestam desde a origem o projeto sionista, classificando-o como colonialista e associando as ações em Gaza a práticas genocidas. Para esses grupos, os abusos recentes apenas confirmariam uma lógica histórica já existente.
Mas mesmo entre aqueles que defendem o direito de autodeterminação de israelenses e palestinos, cresce a percepção de que o comportamento do governo Netanyahu compromete fundamentos morais historicamente associados à criação de Israel após o Holocausto e à resolução da ONU de 1948 que estabeleceu a divisão territorial da região.
O impacto desse desgaste já aparece de maneira concreta nas relações diplomáticas. Países europeus que inicialmente respaldaram a reação israelense aos ataques do Hamas passaram gradualmente a endurecer o discurso. Espanha, França, Alemanha e Reino Unido vêm aumentando as críticas tanto à condução da guerra quanto à expansão de assentamentos judeus na Cisjordânia.
A questão territorial tornou-se um dos principais focos de tensão. As fronteiras originalmente definidas pela chamada Linha Verde, estabelecida em 1948, foram alteradas após a Guerra dos Seis Dias, em 1967. Desde então, Israel consolidou uma ocupação considerada ilegal pelas Nações Unidas, especialmente na Cisjordânia, onde colonos ligados às alas mais radicais da política israelense ampliam sua presença continuamente.
Em resposta, governos europeus passaram a adotar medidas econômicas de pressão contra Israel. Mais recentemente, o constrangimento internacional aumentou após Espanha, Itália, Reino Unido, França e Alemanha convocarem embaixadores israelenses para prestar esclarecimentos sobre o tratamento dado aos integrantes da flotilha interceptada.
O desgaste internacional coincide com um momento de crescente fragilidade política interna para Netanyahu. O Knesset aprovou um projeto que abre caminho para antecipação das eleições parlamentares, movimento que pode encurtar um dos mandatos mais longos da história política israelense.
Dentro de Israel, parte da sociedade ainda sustenta a expectativa de que a saída de Netanyahu — eventualmente acompanhada de responsabilização judicial, seja no plano doméstico ou internacional — bastaria para interromper os abusos e restaurar a legitimidade do país. Essa interpretação, porém, encontra resistência na própria realidade política israelense.
Os episódios recentes indicam que a permissividade em relação a excessos militares e violações de direitos não se restringe ao núcleo do governo. Setores expressivos da população manifestaram apoio aos militares acusados no caso de Sde Teiman, enquanto instituições que deveriam atuar como mecanismos de contenção também passaram a adotar decisões alinhadas ao endurecimento da ocupação.
Um exemplo citado é a decisão recente da Suprema Corte israelense que passou a exigir o registro individualizado de trabalhadores humanitários envolvidos na distribuição de alimentos em Gaza. Críticos apontam que medidas desse tipo aprofundam o controle sobre a população palestina e dificultam a entrada de ajuda humanitária em um território devastado pela guerra.
Nesse contexto, movimentos como o das flotilhas internacionais encontram terreno fértil para ampliar a pressão sobre Israel. Mais do que romper bloqueios físicos, essas iniciativas buscam explorar politicamente a exposição pública de abusos, alimentando a percepção de que o país fracassa em aplicar a si próprio os padrões éticos e legais que exige de seus adversários.
A consequência estratégica desse processo pode ser mais profunda do que qualquer derrota militar convencional. Ao perder legitimidade internacional e aprofundar divisões internas, Israel arrisca comprometer não apenas sua capacidade de coexistência regional, mas também a autoridade moral necessária para sustentar sua própria narrativa histórica de sobrevivência, segurança e autodeterminação.
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