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Mundo

Israel amplia guerra na Cisjordânia mesmo sem ataques do Hamas

Israelenses estão usando palestinos como escudo humano?

Publicado em 13/09/2024 11:00 - Jonah Valdez (Intercept Brasil), DW, Jan-Christoph Kitzler (DW), Jamil Chade (UOL) – Edição Semana On

Divulgação

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Em 2022, durante uma viagem à Cisjordânia para realizar pesquisas e visitar sua família em Nablus, Yara Asi se recorda de quando os militares israelenses sitiaram a cidade, um dos principais centros econômicos da região, para tentar erradicar os militantes que moravam ali.

“Certamente o mundo vai intervir, e não vão deixar essa cidade importante ser fechada”, Asi lembra de ter pensado.

O cerco militar durou mais de três semanas, e matou mais de 23 palestinos em todo o território. Naquele ano, os ataques aéreos e invasões israelenses mataram mais de 150 palestinos, fazendo dele o ano mais mortal para a Cisjordânia desde 2006. Os ataques e as mortes continuaram ao longo de 2023, e só se intensificaram desde então.

Enquanto a maior parte dos olhares permanece em Gaza, os ataques militares israelenses na Cisjordânia mataram mais de 594 pessoas desde 7 de outubro, incluindo 115 crianças que foram mortas por munição real, e 1.114 crianças feridas, segundo a ONU. Aproximadamente uma dezena dessas mortes pode ser atribuída à violência de colonos israelenses extremistas.

“Ninguém interferiu, nada aconteceu, e desde então temos presenciado cada vez mais incursões militares, e não percebo nenhum movimento ou crítica real”, diz Asi, professora da Universidade Central da Flórida e integrante do instituto de pesquisas Al-Shabaka.

Esta semana, Israel expandiu sua campanha militar na Cisjordânia, com invasões e ataques aéreos nas cidades de Tulkarem, Jenin e Tubas, configurando o maior ataque em território ocupado desde 2002, durante a Segunda Intifada. No período de três dias, os militares israelenses mataram pelo menos 20 palestinos em ataques preventivos. As filmagens mostram escavadeiras destruindo estradas e outros itens de infraestrutura civil na região. Um ataque contra o campo de refugiados de Nur Shams deixou cinco mortos, dentre eles dois adolescentes, de 13 e 15 anos.

Israel Katz, ministro das Relações Exteriores de Israel, determinou aos militares que “cuidem da ameaça exatamente da mesma forma que cuidam da infraestrutura terrorista de Gaza, incluindo a evacuação temporária de civis palestinos e todas as outras medidas necessárias”.

“Esta é uma guerra por tudo, e precisamos vencê-la”, escreveu em um comunicado, segundo as traduções do hebraico para o inglês em várias reportagens. A declaração despertou preocupação entre os palestinos, que temem que o nível de destruição visto em Gaza possa ser iminente na Cisjordânia.

Enquanto o escritório de direitos humanos da ONU declarou que os ataques ferem o direito internacional, os EUA reiteraram o direito de Israel de atender a “necessidades de segurança muito reais, que incluem o combate à atividade terrorista na Cisjordânia”, segundo um comunicado do Departamento de Estado para o site de notícias Middle East Eye.

O medo, em meio a esse ambiente, segundo Asi, é que esses ataques poderiam expulsar definitivamente os palestinos do território.

“Pela primeira vez, estou realmente me perguntando: haverá algum lugar chamado Palestina para onde meus filhos e netos possam ir?”, diz Asi, que nasceu em Nablus e migrou para os EUA com seu pai em 1989, quando tinha 4 anos. À medida que foi crescendo, ela continuou a visitar a família todos os verões.

“Sempre achei que a ocupação iria durar, e ela nunca será boa”, diz. “Agora fico pensando, será que vai ser alguma coisa? E isso é realmente assustador.”

Para Trita Parsi, cofundador e vice-presidente executivo do Instituto Quincy para Diplomacia Responsável, essas preocupações sobre a limpeza étnica em curso na região não são infundadas. A natureza dos ataques de Israel na Cisjordânia revela o que ele considera a verdadeira motivação de Israel: o controle total da região.

“Isso deve ser visto no contexto de um esforço contínuo de décadas para anexar progressivamente o máximo de território palestino possível”, explica Parsi. “Nunca houve um ataque proveniente da Cisjordânia, e o Hamas não é a força dominante ali, o que mostra que não se trata tanto do Hamas, mas do plano de longo prazo de Israel para eliminar, varrer a Palestina do mapa.”

Parsi diz que o governo israelense está capitalizando o momento em que vem enfrentando pouca responsabilização pela comunidade internacional, principalmente pelos Estados Unidos.

“A estratégia sempre foi aproveitar os momentos da comunidade internacional em que Israel consegue se safar o máximo possível”, diz.

As provas das violações aos direitos humanos nas operações de Israel em Gaza continuam a se acumular, e incluem o bombardeio de civis e de infraestrutura civil, como os hospitais; o bloqueio de ajuda humanitária; e a tortura e o abuso de prisioneiros palestinos, tanto de Gaza, quando da Cisjordânia, nas prisões. Os governantes de Israel enfrentam possíveis acusações de crimes de guerra no Tribunal Penal Internacional, em conjunto com o processo por genocídio em curso na Corte Internacional de Justiça da ONU. Nos EUA, cada vez mais integrantes do Partido Democrata vêm pressionando o presidente Joe Biden a cumprir a legislação estadunidense, que impede a transferência de auxílio militar caso existam provas de violações aos direitos humanos.

Mesmo assim, Israel continua recebendo apoio dos EUA, e o governo Biden segue enviando armas.

Segundo Muhannad Ayyash, professor de sociologia na Universidade Mount Royal e analista de políticas no instituto de pesquisas Al-Shabaka, a lógica de Israel é simples: “se podemos nos safar com o que estamos fazendo em Gaza, podemos nos safar com a mesma coisa na Cisjordânia”.

“O contexto do ataque contra a Cisjordânia é que Israel vê basicamente uma oportunidade para continuar a aprofundar seu projeto da Grande Israel“, continua Ayyash, em referência à visão histórica do sionismo na região.

Yousef Munayyer, um analista político que dirige o Programa Palestina/Israel no instituto de pesquisa Centro Árabe, com sede em Washington, chamou a política dos EUA para Israel de “completamente desarticulada”, sem nenhuma visão para além de “permitir que Israel domine”.

“Não deveria nos surpreender que os militares de Israel sintam que têm essa liberdade de ação, quando essa é a mensagem que chega do seu principal apoiador e fornecedor”, diz.

Esse nível de apoio, segundo Parsi, do Instituto Quincy, também prejudica a posição dos EUA na comunidade internacional, como no Conselho de Segurança da ONU, onde o país vem ficando quase sempre isolado dos demais integrantes. Ele considera que décadas de envolvimento dos EUA em outros conflitos no Oriente Médio também prejudicaram sua posição internacional.

“Todas essas coisas diferentes enfraqueceram os EUA”, diz. “E, além disso, estamos vendo uma geração de americanos que terão um padrão de vida mais baixo que o de seus pais, em média, o que é em grande parte resultado do volume imenso de dinheiro, recursos e sangue que foi desperdiçado nessas guerras desnecessárias.”

Apesar do discurso de Biden e da vice-presidente Kamala Harris em favor de uma solução de dois estados, que a comunidade internacional apoia amplamente, os EUA vêm mostrando pouco esforço para efetivamente fazer Israel encerrar a ocupação ilegal.

Khaled Elgindy, que foi consultor das lideranças palestinas em diversos esforços conjuntos, com Israel e os EUA, para elaborar um plano em direção a um estado palestino ao longo dos anos 2000, diz que nunca se sentiu mais longe de uma solução de dois estados.

Ele considera que os ataques recentes na Cisjordânia, assim como a troca de ataques com o Hezbollah, no Líbano, fazem parte da tentativa do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de provocar uma guerra regional para atender ainda mais à sua coalizão de extrema-direita e se manter no poder.

“Será que a jogada final de Netanyahu é ‘vou só continuar a lutar em tantas frentes quanto for possível criar para manter todos em desequilíbrio e prolongar minha permanência no poder’?”, diz Elgindy, “ao mesmo tempo em que satisfaz sua ala extremista que adoraria ver a Cisjordânia ser evacuada”.

Elgindy, que atualmente é um pesquisador sênior e diretor no Instituto do Oriente Médio, compara a escala dos ataques com aqueles realizados pelos militares israelenses durante a Segunda Intifada, em 2002. Esses ataques, no entanto, vieram na sequência de uma série de atentados suicidas a bomba por militantes palestinos, que mataram dezenas de civis israelenses. Atualmente, em um ambiente em que o governo israelense já acusou a agência da ONU para palestinos, UNRWA, principal fonte de ajuda humanitária para Gaza, de ser uma fachada para terroristas, Elgindy teme que essas definições imprecisas possam levar à perda de ainda mais vidas na Cisjordânia, no que Israel considera iniciativas de contraterrorismo. (O governo israelense alega que 12 funcionários da UNRWA estariam envolvidos nos ataques de 7 de outubro, embora uma avaliação independente tenha revelado que Israel não apresentou nenhuma prova dessa acusação.)

Todos os anos, quando retornava a Nablus, Asi percebia que as condições de vida estavam piorando, à medida que as forças israelenses foram apertando o domínio. Embora seus familiares estejam seguindo com a vida na Cisjordânia, ela tem ouvido falar de mais jovens que manifestaram interesse de imigrar para a Europa ou o Kwait. As incursões militares, que costumavam ser realizadas durante a noite, vêm aumentando de frequência em todas as horas, limitando a liberdade de locomoção. A violência dos colonos, muitas vezes facilitada pelas forças israelenses, também está piorando.

“Até os idosos da família, que já viram de tudo — estavam lá em 67, viram as Intifadas, Oslo — estão dizendo ‘isso é o pior que já aconteceu’”, conta Asi.

“As pessoas que se orgulham de serem resilientes e não terem medo, como parte de sua identidade palestina, estão realmente com medo”, continua. “Sair de casa, especialmente se você tem um filho, é ter um medo material real da morte. (…) Se algo acontecer, não haverá uma investigação, não vai haver um tribunal: será apenas mais uma estatística.”

Ataque em Gaza mata seis funcionários de agência da ONU

Seis funcionários da UNRWA, a agência das Nações Unidas para refugiados palestinos, foram mortos em um ataque israelense a um abrigo da entidade na Faixa de Gaza na quarta-feira (11/09).

Segundo autoridades palestinas da área controlada pelo Hamas, ao menos 18 pessoas teriam sido mortas na ação, incluindo mulheres e crianças, sendo que uma das vítimas era o administrador do abrigo, instalado na escola Al-Jaouni, em Nuseirat.

A ONU diz que o local abriga cerca de 12 mil refugiados da guerra e que já sofreu cinco bombardeios desde o início do conflito. Desde então, a entidade afirma já ter perdido 220 funcionários, sendo que o ataque desta quarta-feira foi o mais letal.

“Este incidente deve ser investigado de forma independente e minuciosa para garantir a responsabilização”, afirmou o porta-voz da ONU Stephane Dujarric. “A contínua falta de proteção efetiva para os civis em Gaza é inconcebível.”

Indagado sobre se era possível descartar a presença de combatentes do Hamas no abrigo, Dujarric, porém, disse não poder responder à pergunta.

O Exército israelense alega que o local também estava sendo usado por combatentes do Hamas e listou nove nomes entre os mortos, sendo que três deles trabalhavam oficialmente para a UNRWA – uma acusação que a ONU disse não estar “em posição de comentar ou verificar”.

Israel acusa a agência de conluio com o Hamas e disse que centenas de funcionários teriam dupla atuação.

No que também pareceu ser uma crítica velada ao Hamas, Guterres “pediu a todas as partes” – mas sem mencionar o grupo palestino – “que se abstenham de usar escolas, abrigos ou seus arredores para fins militares”.

Israel tem repetidamente afirmado que toma medidas para reduzir o dano a civis e acusado o Hamas de usá-los como escudo humano.

O atual conflito na Faixa de Gaza foi desencadeado pelo ataque terrorista sem precedentes de 7 de outubro, quando radicais palestinos invadiram Israel, matando cerca de 1.200 pessoas e fazendo 251 reféns. A resposta israelense ao atentado deixou mais de 41 mil palestinos mortos, segundo o Ministério da Saúde em Gaza.

Israel está usando palestinos como escudo humano?

Sentado em uma tenda em Khan Younis, a segunda maior cidade da Faixa de Gaza, Mohammad S. fala de um lado menos conhecido da guerra em Gaza.

Há quase um ano, as Forças de Defesa de Israel (IDF) vêm lutando contra o Hamas e outras organizações extremistas no enclave palestino, classificadas como organizações terroristas pela Alemanha, União Europeia, Estados Unidos, entre outros governos. O estopim foi um ataque sem precedentes contra Israel no dia 7 de outubro, quando, de acordo com fontes israelenses, milícias islâmicas mataram mais de 1.200 pessoas e levaram 251 reféns para Gaza.

Desde então, Israel tem alegado que o Hamas usa a população civil de Gaza como escudo humano. Imagens de armas e munições encontradas em escolas e hospitais, por exemplo, foram apresentadas como prova. Mas o relato do palestino Mohammad S. também incrimina soldados israelenses.

“Eles [soldados do exército israelense] nos vendaram os olhos e amarraram nossas mãos atrás das costas. Eles nos levaram em seus jipes e nos sentamos em uma casa”, descreveu Mohammad S. “No dia seguinte, eles nos levaram à força e disseram: Ou vocês vêm conosco ou nós os mataremos.” Essa rotina seguiu por 15 dias, segundo o relato do palestino. Seu trabalho era liderar o caminho quando havia perigo.

Comandos transmitidos por fones de ouvido

“Eles enviaram eu e outra pessoa em uma missão. Colocaram uma câmera em nossas mãos, além da câmera no capacete. E nos controlaram por meio de fones de ouvido e disseram: Pare aqui, vá para lá, filme esta casa, pare nesta rua”, descreveu Mohammad S.

De acordo com seu relato, ele teve que entrar em casas antes das tropas, assumindo riscos que os soldados israelenses não queriam enfrentar. Em outras palavras, o exército israelense o usou como escudo humano.

Nadav Weiman, diretor da ONG israelense de soldados veteranos Breaking the Silence (Quebrando o Silêncio, em inglês), confirma esses relatos. Desde dezembro, soldados que serviram na guerra em Gaza têm reportado à organização o uso de civis palestinos como escudos humanos.

Segundo ele, as IDF têm retirado palestinos das chamadas zonas humanitárias e os encaminhado para tropas em combate em Gaza. Vestidos com uniforme do exército e, às vezes, com câmeras presas ao capacete ou ao peito, palestinos são encarregados de fazer buscas em túneis ou casas – e de verificar se há bombas, armadilhas ou dispositivos semelhantes.

Em muitos lugares de Gaza, tropas israelenses descobriram entradas para túneis a partir dos quais os combatentes do Hamas têm operado. Entrar neles é um grande risco para os soldados. Isso também se aplica ao combate urbano em muitas partes do enclave.

ONG recebe até três relatos por semana

A Breaking the Silence recebe entre dois e três novos relatos de soldados toda semana. Para Weiman, isso prova que não são casos isolados, mas que a prática de enviar civis palestinos para situações perigosas é generalizada – acontece há meses, em toda a Faixa de Gaza, em várias unidades militares.

“Em uma unidade, o oficial disse: ‘Você não precisa pensar em crimes de guerra, eu sou seu oficial. Vocês não precisam pensar, têm de seguir as ordens.’ Em outro lugar, eles disseram: ‘Você prefere morrer? Nós preferimos que o palestino morra.'”

Outro palestino, Mohammad A., também relatou ter sido forçado, sob a mira de uma arma, a entrar em prédios por 15 dias.

Ele disse que os soldados o vestiram com um uniforme israelense para que ele fosse o alvo, não os soldados israelenses. O medo de morrer o acompanhou por todo o tempo, seja assassinado por combatentes entrincheirados do Hamas ou por armadilhas ou bombas.

Mohammad A. relatou à emissora pública alemã ARD como teve de entrar em muitas casas antes dos soldados, filmar o interior e abrir todas as portas. Às vezes, ele era acompanhado por um drone.

“Não é autodefesa, é uma guerra política”

Mohammad A. disse que foi libertado por soldados israelenses em abril, mas que ainda tem pesadelos relacionados a momentos da época, como quando ele procurou tropas israelenses em um hospital.

“Foi horrível. Havia cadáveres por toda parte no hospital Nasser. Não acredito que consegui sair de lá. Ainda tenho pesadelos e acordo durante a noite.”

O exército israelense respondeu à reportagem da ARD com uma resposta padrão: “As diretrizes da IDF proíbem o uso de civis capturados em Gaza em missões militares que os coloquem em risco. As alegações foram encaminhadas às autoridades competentes para investigação”.

Para Weiman, essas acusações não vão apenas contra a lei humanitária internacional, mas também contra os padrões éticos do exército israelense. “Acreditamos que precisamos de um exército e que temos que nos defender”, disse. “Mas o que vemos em Gaza não é autodefesa, é uma guerra política”, concluiu. E para se discutir uma solução política, é crucial revelar como a IDF opera em Gaza, arrematou.

Antes de terminar a entrevista, Mohammad S. mostra um curativo em seu peito, lembrança de sua última missão, quando foi enviado para frente das tropas mais uma vez. A última coisa de que ele se lembra, antes de acordar no hospital, é do tiro. Ao menos ele sobreviveu para contar sua história.

Em dia ‘histórico’, Palestina assume lugar na Assembleia Geral da ONU

Num dia considerado como “histórico” pela diplomacia dos países árabes, as autoridades palestinas assumiram um assento oficial na Assembleia Geral da ONU, em Nova York. A diplomacia palestina anunciou, imediatamente após ocupar o posto nesta terça-feira, que irá apresentar uma resolução pedindo a retirada de Israel dos territórios ocupados num prazo de seis meses. Trata-se da primeira resolução de autoria dos palestinos, em mais de 70 anos da ONU.

Ainda que os discursos de chefes de estado ocorram apenas no final de setembro, inclusive com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Assembleia Geral iniciou seus nesta terça-feira, desta vez com a presença dos palestinos.

Minutos antes do início do encontro, a reportagem do UOL presenciou como delegações de diferentes países se dirigiram até o local reservado para os palestinos para tirar fotos e saudar o embaixador palestino, Riyad Mansour. Coube à delegação do Egito anunciar a “chegada” dos palestinos, sob os aplausos da Assembleia. “Esse é um dia histórico”, disse a diplomacia do Cairo. “140 países reconhecem a Palestina como um estado soberano. Ela precisa estar sentada entre nós”, completou.

O governo de Israel rebateu, alertando que a medida era um “favoritismo político”. “Apenas estados soberanos podem fazer parte. Por acaso a Carta da ONU foi reformada?”, criticou a delegação de Israel. “Isso é uma recompensa ao Hamas”, disse.

Em maio, com o patrocínio e voto do Brasil, a entidade aprovou uma resolução que pede o reconhecimento da Palestina como um Estado soberano, defende a entrada do país nas Nações Unidas e amplia os direitos dos palestinos nos trabalhos do organismo internacional.

O ato, porém, ainda não garantiu a adesão plena dos palestinos como membros da ONU, já que ela precisa passar pelo Conselho de Segurança, onde o governo dos EUA já vetou a proposta.

Em sua capacidade de observador, porém, o Estado da Palestina não tem o direito de votar na Assembleia Geral ou de apresentar sua candidatura aos órgãos das Nações Unidas. Mas, simbolicamente, agora tem um lugar entre os demais estados.

A partir de agora, a delegação palestina tem o direito:

– de se sentar entre os países da ONU em ordem alfabética

– de se inscrever na lista de palestrantes em itens da agenda que não sejam questões palestinas e do Oriente Médio, na ordem em que manifestar seu desejo de falar;

– de fazer declarações em nome de um grupo de países

– de apresentar propostas e emendas e introduzi-las, inclusive oralmente, inclusive em nome de um grupo de países

– de co-patrocinar propostas e emendas

– de fazer declarações de voto em nome dos Estados Membros de um grupo;

– de levantar moções processuais, incluindo pontos de ordem e solicitações para colocar propostas em votação, incluindo o direito de contestar a decisão do presidente da sessão

– de propor itens a serem incluídos na pauta provisória das sessões regulares ou especiais e o direito de solicitar a inclusão de itens suplementares ou adicionais na pauta das sessões regulares ou especiais;

– de ter membros de sua delegação eleitos como oficiais no Plenário e nos Comitês Principais da Assembleia Geral;

– a ter uma participação plena e efetiva nas conferências das Nações Unidas e nas conferências e reuniões internacionais convocadas sob os auspícios da Assembleia Geral.

Apoio do Brasil

Em maio, os palestinos conseguiram 143 votos, inclusive o Brasil. Votaram contra o projeto apenas 9 países: EUA, Israel, Argentina, Hungria, Nauru, Palau, Micronésia, República Tcheca e Papua-Nova Guiné. Outros 25 países optaram pela abstenção, entre eles Alemanha, Paraguai, Suíça, Itália e Reino Unido.

Eram necessários dois terços dos países da ONU para que a resolução fosse aprovada. O resultado foi usado para demonstrar o isolamento do governo de Joe Biden e colocar pressão para que a soberania palestina seja respeitada.

Na época, Riyad Mansour, embaixador palestino na ONU, lembrou que o “voto histórico” ocorre num momento em que Gaza está sendo “destruída”, acusando Israel de fechar qualquer acesso humanitário à população. Segundo ele, há uma “ameaça existencial” aos palestinos.

“Como podemos explicar que Israel é parte da ONU há 75 anos e os palestinos não?”, questionou. Ele concluiu o emotivo discurso repetindo: “Palestina Livre, Palestina Livre”.

Já o embaixador de Israel, Guilad Erdan, afirmou que o diplomata palestino “jorra lágrimas de crocodilo”. “Esse é o dia da infâmia”, disse. Ele acusou os apoiadores da resolução de serem “cegos”. “Vocês vão aprovar um estado terrorista, liderado pelo Hitler de nosso tempo”, disse o diplomata aos demais governos. “Vocês estão abrindo a ONU a um grupo terrorista. Isso me faz sentir doente”, disse.


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