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Mundo
Grande mídia transforma a população do Líbano em terroristas para justificar barbárie israelense
Publicado em 02/10/2024 11:35 - Jamil Chade (UOL), UOL, Séamus Malekafzali (Intercept_Brasil) – Edição Semana On
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Em discurso diante do Conselho de Segurança, o secretário-geral da ONU afirmou que o Oriente Médio virou “um inferno”. Hoje, Israel o classificou como “persona non grata” no país.
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Guterres condenou o Irã pelos ataques a Israel. Segundo ele, os mísseis “não ajudam a causa palestina”. “Os eventos mostram que é hora de um cessar-fogo, liberar reféns em Gaza e a criação de dois estados”, disse. Mas ele insistiu em denunciar as ações de Israel, Hamas e Hezbollah, além de acusar Israel de roubo de terras e de estar agindo para impossibilitar a criação de um estado palestino.
Chamando a situação de uma “escalda doente”, o chefe da ONU alertou que a região está “à beira do abismo”. “Cada escalada é justificativa para próxima”, disse. “O ciclo mortal precisa parar e o tempo está e esgotando”, disse, lembrando que são os civis que estão pagando o preço.
Guterres revelou ainda que Israel pediu que as tropas de paz da ONU na fronteira entre Israel e Líbano fossem deslocadas. Mas ele recusou. “A bandeira da ONU continua a tremular”, disse.
Embaixadores do Reino Unido e França anunciaram apoio a Guterres. Apoio é um sinal de repúdio à atitude de Israel contra o secretário-geral.
No Conselho, o governo da Argélia anunciou seu “apoio e admiração” ao secretário-geral. Para o embaixador argelino, Amar Bendjama, declarar o secretário-geral persona non grata é “incrível” e revela “o menosprezo de Israel ao sistema internacional”.
Embaixador de Israel falou em ‘decepção’
Danny Danon, embaixador de Israel na ONU, afirmou que decisão ocorre depois de “muita decepção”. Declaração foi dada a jornalistas nesta quarta-feira na sede da organização em Nova York.
“Sempre há lugar para diplomacia. Mas estamos muito decepcionados por sua forma de lidar com o caso”, disse Danon. Segundo ele, Guterres emitiu uma declaração “muito fraca” depois dos ataques do Hamas em 7 de outubro, lembrando que o português citou que o atentando não ocorreu num vácuo. “Sob sua liderança, a ONU nunca aprovou uma resolução condenando o Hamas”, disse.
Embaixador também acusa Guterres de estar “desconectado da realidade”: “e ontem, ao ver Israel ser atacado, a declaração que ele emitiu apenas pede uma desescalada. Sem mencionar Irã.”
Israel já pediu renúncia de Guterres
A crise entre a ONU e Israel não é nova, ainda que a medida eleve a tensão. No ano passado, o então chanceler, Eli Cohen, fez uma ofensiva contra o português, na tentativa deliberada de enfraquecer qualquer ação da entidade em Gaza.
A ONU tem denunciado a ofensiva israelense e alertado que os ataques do Hamas não ocorreram num vácuo. A entidade também tem criticado os ataques contra hospitais, enquanto seus relatores falam em crimes de guerra.
“Vamos continuar guerra até eliminar Hamas e retirar reféns”, prometeu. Segundo ele, até agora o Comitê Internacional da Cruz Vermelha não obteve acesso aos israelenses levados pelo Hamas.
“Aquele foi o pior dia do povo israelense desde o Holocausto. Estamos lutando pelo estado de Israel. Mas também por dignidade. Se não vencermos, vocês serão os próximos”, disse a jornalistas ocidentais.
O mesmo ministro pediu a renúncia do português, o que levou governos como o do Brasil e de várias outras partes do mundo a sair em defesa do secretário-geral.
Cohen, porém, insistiu nos ataques contra o português. “Guterres não merece ser chefe da ONU. Guterres não promove processo de paz na região”, insistiu. Para ele, o chefe das Nações Unidas está “sentado ao lado do Irã”. “Os iranianos fazem parte da ONU e pedem a destruição de outro de seus membros. O Irã não poderia fazer parte. É antissemitismo. É contra o estado de Israel”, declarou.
Cohen alertou que Guterres “sabe” que Israel não escolheu essa guerra. “Ele deve dizer claramente: liberte Gaza do Hamas. Por qual motivo ele não diz?”, insistiu.
Israel promete resposta ‘dolorosa’
Israel anuncia que vai responder aos ataques do Irã e alertou que a ação será “decisiva e dolorosa”. Instantes antes do Conselho de Segurança da ONU se reunir em Nova York, Danny Danon, embaixador de Israel, mandou um alerta internacional. Enquanto isso, o governo dos EUA pediu que o órgão internacional adote novas sanções contra as autoridades iranianas e alertou Teerã de que não irá tolerar uma ação contra seus interesses na região.
“Israel não vai ficar parado. Israel vai responder. E será decisivo e doloroso”, disse Danon. Ele garante, porém, que a resposta respeitará o direito humanitário, numa indicação que não pretendem fazer uma ofensiva em locais civis. “Estamos feridos. Mas não somos fracos”, disse.
Danon destacou como os ataques do Irã mostraram que se trata de um “estado terrorista”. “A máscara caiu”, disse. “Após ataques contra 10 milhões de civis, o Irã teve audácia de mandar uma carta ao Conselho de Segurança dizendo que agiram respeitando o direito humanitário e que atingiram instalações militares”, afirmou.
A carta ainda aponta que qualquer resposta de Israel seria “ilegal”. “Ninguém entende a audácia de um regime que lança 181 foguetes”, disse. “Essa é uma perversão da realidade”, afirmou. Para ele, ao dizer que os ataques eram uma resposta às mortes dos líderes do Hamas e Hezbollah, os iranianos assumem responsabilidade sobre anos de terror implementado pelas milícias. “A verdade está clara: é o governo orquestrando terror”, disse.
EUA defendem novas sanções contra Irã
No Conselho de Segurança, o governo dos EUA denunciou o regime iraniano e disse que, diante da coordenação militar em Washington e Tel Aviv, os ataques “fracassaram”.
Linda Thomas Greenfield, embaixadora dos EUA, qualificou a ofensiva iraniana de “não provocada”, contradizendo a justificativa de Teerã, que diz que agiu como revanche às mortes dos líderes do Hezbollah e Hamas.
Para ela, os iranianos agem para “semear terror” e pediu que o Conselho de Segurança atue para “condenar” os atos.
“O Conselho de Segurança tem a responsabilidade de colocar mais sanções contra o Irã”, disse. “Se não fizer nada, que mensagem mandará? Temo que isso promova novos ataques”, alertou.
Para o governo Biden, o Irã precisa ser responsabilizado pelas ações e alertou as autoridades de Teerã que a Casa Branca não irá tolerar qualquer ataque contra seus interesses.
Árabes querem ação contra Israel
O governo da Argélia também alertou para a inação do Conselho de Segurança. Mas por outro motivo. Para o embaixador argelino, Amar Bendjama, foi a paralisia da ONU que deu “carta branca” para que Israel avança em suas operações.
“O que precisamos é acabar a ocupação de terras árabes, no Líbano ou na Palestina, por Israel”, disse o diplomata, pedindo que resoluções aprovadas nos últimos anos contra Tel Aviv sejam cumpridas.
Israel tenta redesenhar mapa do Oriente Médio e diz que atinge onde desejar
“Esta é a verdade: Israel busca a paz”. Foi com essas palavras que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, introduziu seu discurso diante da Assembleia Geral da ONU, na última sexta-feira (27). Mas menos de uma hora depois de deixar o prédio da ONU, escoltado por um aparato militar que cruzava Nova York, ele deu ordens para matar Hassan Nasrallah, líder histórico do Hezbollah, no Líbano.
Aquela não seria só uma ordem de assassinato. Mas a confirmação de que ele estava redesenhando o mapa político do Oriente Médio. Entre negociadores e fontes na região, a percepção é de que o governo de Netanyahu entendeu que tem uma oportunidade única em gerações de promover uma mudança profunda nos contornos das relações de poder.
Seu governo usou os ataques terroristas do Hamas de 7 de outubro de 2023 como o pretexto perfeito para destruir 80% da economia de Gaza e dois terços dos prédios. Arrancou oliveiras e destruiu até mesmo a única clínica de fertilização artificial da região, num ato interpretado por mulheres como uma destruição também do futuro das famílias.
Intensificou o cerco contra as cidades na Cisjordânia, colocou 7.000 pessoas em prisões e ampliou os assentamentos. Segundo investigações da ONU, a operação num lugar que o Hamas sequer controla visava humilhar os palestinos.
“Os detidos disseram que foram mantidos em instalações semelhantes a gaiolas, despidos por períodos prolongados, usando apenas fraldas”, afirmou um levantamento realizado pela entidade. Os depoimentos deles apontam ainda para vendagem prolongada, privação de comida, sono e água, além de submissão a choques elétricos e queimaduras com cigarros.

Alguns detentos disseram que cães foram soltos sobre eles, e outros afirmaram que foram submetidos a afogamento, ou que suas mãos foram amarradas e eles foram suspensos no teto. Algumas mulheres e homens também falaram de violência sexual e de gênero.
No Irã, ao matar em julho o chefe da milícia palestina, Ismail Haniyeh, Israel mostrou uma ampla superioridade de seus serviços de inteligência e humilhou o regime de Ali Khamenei.
A etapa seguinte foi o Hezbollah. A eliminação de Nasrallah foi seguida por uma operação para enfraquecer o grupo no Líbano, invadindo a soberania do país vizinho.
“A eliminação de Nasrallah é um passo muito importante, mas não é o último”, disse Yoav Gallant, ministro da Defesa de Israel. “Empregaremos todos os recursos à nossa disposição e, se alguém do outro lado não entender o que esses recursos implicam, queremos dizer todos os recursos”, disse.
Em pouco tempo, quase toda a liderança política e militar do grupo, além de comandantes de nível médio, foi assassinada ou tirada de combate.
Ao mesmo tempo, ataques constantes contra bases das milícias no Iêmen completam a ofensiva.
Nenhuma das três dimensões dos ataques ocorre de forma isolada. A operação tem como meta desmontar as proteções iranianas, criadas e intensificadas desde 2020 e que passaram a ser chamadas de “eixo de resistência”.
“Não há nenhum lugar —não há nenhum lugar no Irã— que o longo braço de Israel não possa alcançar. E isso se aplica a todo o Oriente Médio”, afirmou Netanyahu.
Seu recado era claro: a estratégia de Teerã de criar uma linha de defesa fora do país estava sendo desmontada.
E Netanyahu ainda lançou um alerta aos líderes iranianos ao gravar um vídeo legendado em farsi com uma mensagem ao povo iraniano: em breve, vocês ficarão livres do regime.
Pressionado internamente pelas alas mais radicais e ameaçado por seu rival regional, Ali Khamenei não teve outra opção que não fosse atacar. Mas, uma vez mais, Israel mostrou sua superioridade, agora militar. Os quase 180 mísseis não causaram uma só vítima e confirmaram a capacidade de o país se defender.
Os iranianos também descobriram que Israel conta com uma capacidade real de fazer dano, quando explodiu radares na cidade de Isfahan. Entre os analistas, o gesto foi interpretado como um sinal por parte de Netanyahu de que poderia atingir as instalações nucleares iranianas com a mesma facilidade.
Para diplomatas, porém, há um aspecto central que permite que Israel possa ir adiante com seu plano: a impunidade que reina nas relações internacionais e a incapacidade de qualquer potência frear suas ambições neste momento.
Sem força, a ONU não é capaz de se impôr diante de uma transformação dos eixos de poder. Israel operou, nos últimos meses, uma eficiente campanha de deslegitimação do órgão mundial.
Os russos, envolvidos em sua própria guerra na Ucrânia, não estão em condições de abrir uma nova frente militar e sair ao apoio do Irã.
Já os EUA, envolvidos em sua eleição mais crítica em décadas, veem uma corrida entre os candidatos para que provem, à opinião pública, qual deles é o “verdadeiro amigo” de Israel. Kamala Harris, nesta terça-feira, anunciou seu “compromisso total” com a segurança de Israel. Já Donald Trump se considera como um dos aliados mais próximos de Netanyahu, enquanto Joe Biden, enfraquecido, se limitou a chamar o assassinato de Nasrallah de “medida de justiça”.
“Se havia um momento para redesenhar um mapa, era agora”, admitiu um experiente negociador árabe.
No púlpito da ONU, na última sexta-feira, Netanyahu ainda fez uma declaração que deixou alguns na sala com calafrios. “Basta”, disse, sabendo que seu próximo ato seria ordenar um assassinato. E que não haveria nada que o impedisse de ir adiante com seu plano.
A mídia transforma a população do Líbano em terroristas para justificar Israel
Na sexta-feira da semana passada, Israel atacou uma reunião de lideranças do Hezbollah no bairro de al-Qaem, no sul de Beirute. Foi uma operação de assassinato, que se seguiu à detonação, ocorrida dias antes, de milhares de pagers e walkie-talkies com explosivos plantados.
Em al-Qaem, os militares israelenses se vangloriaram de seu “ataque de precisão” no “coração do reduto do Hezbollah em Beirute”. A escolha de termos evocava imagens de uma operação audaciosa contra um complexo militar bem protegido, uma espécie de Pentágono, em uma empreitada inteiramente valorosa.
Na realidade, o que aconteceu foi um imenso ataque que destruiu completamente um edifício residencial e matou os líderes do Hezbollah, mas também as inúmeras famílias que moravam no local. Muitas dessas famílias ainda estão sob o os escombros, e outras seguem desaparecidas.
Quase toda vez que chegam notícias do sul de Beirute, a imprensa ocidental só imita a terminologia usada pelos militares israelenses, como se “reduto do Hezbollah” fizesse parte do nome do bairro. Os defensores desse tipo de terminologia podem até apontar o uso de “redutos” para descrever bases de apoio do Partido Democrata dos EUA, ou do Partido Trabalhista, no Reino Unido, mas são usos que acontecem em um contexto ocidental que não confunde ninguém.
No Líbano, as conotações são óbvias, e atendem diretamente aos interesses israelenses.
Retratar como reduto militar o sul de Beirute, conhecido coloquialmente em árabe como Dahiyeh, é dar a Israel autorização para usar uma força descomunal — direcionada à infraestrutura civil tanto quanto aos líderes do Hezbollah. O objetivo declarado é impedir qualquer ataque futuro atingindo a base de suporte mais concentrada do Hezbollah. Israel faz os civis pagarem o preço de qualquer coisa que o Hezbollah supostamente tenha feito, e depois culpa o Hezbollah pelas mortes que os próprios israelenses causaram.
A estratégia tem até nome: Doutrina Dahiyeh, cunhado depois que Israel praticamente destruiu a região em sua guerra contra o Hezbollah, em 2006. Ela passaria a ser o modus operandi de Israel nas guerras seguintes, e o roteiro para a atual destruição completa de Gaza.
Agora, com a rápida escalada dos ataques de Israel contra o Líbano, a doutrina Dahiyeh está voltando para a origem, justificada pela terminologia que chama a região de “reduto” militante.
“Doutrina Dahiyeh”
Dahiyeh é um conjunto de bairros de maioria muçulmana xiita no entorno dos limites da cidade de Beirute, onde vivem centenas de milhares de pessoas. É uma área muito mais densamente povoada que a própria capital. Dentro de Dahiyeh existem diversos campos de refugiados para palestinos e outros grupos, que são ainda mais densamente povoados que as aglomerações urbanas ao redor.
Na década de 1980, durante os 15 anos de guerra civil do país, a região sofreu massacres por integrantes de organizações paramilitares cristãs libanesas de direita, apoiadas por Israel. Dahiyeh também sofreu um número gigantesco de mortes em 2006, quando recebeu um intenso bombardeio israelense durante a guerra entre Israel e o Hezbollah.
Grupos como o Hezbollah, que se opõem às organizações que causaram tanta destruição, recebem na região um apoio significativo. O Hezbollah é um partido político, com alas militares e civis, uma organização que interage com instituições públicas e concorre às eleições como qualquer outro partido político do Líbano. Ao caminhar por Dahiyeh nos últimos dias, era impossível não ver as inúmeras fotos de combatentes do Hezbollah abatidos e retratos do então secretário-geral do Hezbollah, Hassan Nasrallah, morto esta semana por Israel.
Embora o nome “Doutrina Dahiyeh” tenha vindo logo depois da guerra, as autoridades militares israelenses falavam abertamente sobre sua abordagem na região e declaravam uma política com explícita intenção de não distinguir entre infraestrutura civil e militar.
Em uma entrevista de 2008, o general israelenses Gadi Eisenkot, que ajudou a formular a doutrina, deixou claro que os ataques desproporcionais contra a infraestrutura civil eram parte da estratégia, não um efeito indesejado.
“O que aconteceu em 2006 no bairro de Dahiyeh, em Beirute, vai acontecer em todas as aldeias de onde Israel seja alvejado”, disse. “Vamos aplicar força desproporcional [no vilarejo] e causar grandes danos e muita destruição lá. Da nossa perspectiva, não são vilarejos civis, são bases militares.”
E acrescentou: “Essa não é uma recomendação. É um plano. E foi aprovado.”
As vidas dos libaneses são descartáveis na luta contra o Hezbollah, pura e simplesmente. As repercussões dessa mudança declarada se mostraram com ainda mais clareza na Faixa de Gaza.
Gaza como Base do Hamas
Há meses estamos sendo expostos a uma sequência de relatórios declarando que praticamente tudo na Faixa de Gaza é uma base do Hamas, um lugar que abriga terroristas do Hamas, um centro de comando do Hamas.
Mesquitas, hospitais e escolas são todos alvos declarados dos militares israelenses, e suas ligações com o Hamas muitas vezes não são nem explicadas. Quando as explicações surgem, elas se baseiam em absolutamente qualquer interação com o Hamas — que é o governante do território onde esses lugares existiam.
A grande mídia ocidental vem seguindo diligentemente essa escolha de termos, preparando o terreno para que locais como o Hospital al-Shifa fossem destruídos sem muito alarde, nem muita comprovação. O renascimento da doutrina Dahiyeh no Líbano adota a mesma lógica: tudo que toca o Hezbollah automaticamente se transforma em alvo militar na interpretação mais extensiva possível.
A imprensa ocidental, no entanto, jamais toleraria que esse tipo de terminologia fosse usado contra os israelenses. Nenhum veículo de comunicação dos EUA jamais defenderia a sério o argumento de que as Forças de Defesa Israelenses estão usando “escudos humanos” por manterem seu quartel-general no centro de Tel Aviv.
As FDI, por sua vez, reagiram a um ataque iemenita com drones em Tel Aviv com uma ilustração da área, mostrando a proximidade da infraestrutura civil importante e condenando a imprudência, aparentemente sem perceber qualquer ironia.
O objetivo dessa terminologia é claro: apagar a ideia de que esses lugares, cidades, vilarejos, e bairros como Dahiyeh existem como centros populacionais movimentados, com tanta complexidade política quanto outros lugares, e, principalmente, que são o local de residência de milhões de pessoas que vivem seu cotidiano.
Enquanto existirem fora das esferas de influência dos EUA e de Israel, as vidas dessas pessoas são consideradas descartáveis, feitas apenas para serem jogadas fora como dano colateral, de uma forma que estadunidenses e israelenses jamais aceitariam. Essas vidas só têm importância quando podem ser usadas como massa de manobra contra os grupos a quem os países ocidentais se opõem, e quando elas se recusam a colaborar, são esquecidas na mesma velocidade.
A população de Dahiyeh não deveria precisar comprovar sua humanidade para o mundo. Ela deveria ser inerente.
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