20/06/2024 - Edição 540

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Guerra deixa 10 mil órfãos e 1 milhão de palestinos sem casa, diz ONU

Procuradora do TPI ameaçada pela Mossad devido a investigação de crimes de guerra

Publicado em 28/05/2024 9:36 - Jamil Chade (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles), Mariana Ribeiro Soares (RTP) – Edição Semana On

Divulgação OMS

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Uma avaliação interna da ONU enviada a governos de todo o mundo estima que, mais de oito meses depois do início da guerra em Gaza, há uma “escala sem precedentes de destruição e perda de vidas de civis”.

Os dados do raio-X da ONU revelam a dimensão da crise humanitária em Gaza, desde o dia 7 de outubro de 2023, quando o Hamas atacou Israel. A retaliação do governo de Benjamin Netanyahu deslocou praticamente toda a população de 2,2 milhões de pessoas do território palestino.

O levantamento faz parte dos documentos que a Coordenação da ONU para Assuntos Humanitários compilou para fazer um apelo internacional por recursos. A entidade estima que precisa de US$ 3,8 bilhões (R$ 19,7 bilhões) para o resgate dos palestinos. Mas, em oito meses de conflito, recebeu de doadores internacionais apenas 27% do valor.

Com base nas informações fornecidas pelo Ministério da Saúde em Gaza e fontes próprias, a ONU estima que:

– Mais de 5% por cento da população de Gaza foi morta, ferida ou está desaparecida;

– Pelo menos 3.000 mulheres ficaram viúvas;

– Pelo menos 10 mil crianças ficaram órfãs;

– Mais de 17 mil crianças estão desacompanhadas ou separadas de suas famílias;

– Mais de 1 milhão de pessoas perderam suas casas, quase metade da população de Gaza.

De acordo com a ONU, há ainda um cenário preocupante diante do colapso da ordem social:

– As crianças estão enfrentando situações cada vez mais perigosas para tentar encontrar alimentos, água, madeira e suprimentos essenciais.

– Os riscos associados à violência de gênero aumentaram, com oportunidades limitadas para os sobreviventes dessas agressões acessarem serviços de apoio que salvam vidas e riscos crescentes para crianças, especialmente meninas com deficiência.

– Há várias indicações de “um aumento extremamente preocupante de detenções em massa e arbitrárias”, com “sérias preocupações de detenções incomunicáveis e desaparecimentos forçados”.

Os dados, na avaliação dos especialistas da entidade, reforçam a ideia de que crimes de guerra e crimes contra a humanidade podem ter sido cometidos em Gaza.

Depois de a Corte Internacional de Justiça determinar, na sexta-feira (24), que Israel deve cessar qualquer ofensiva sobre Rafah, no sul de Gaza, o informe aponta que os conflitos mataram 250 palestinos e deixaram 829 feridos.

Nesse mesmo período, um soldado israelense morreu.

No total, os dados apontam para mais de 36 mil mortos em Gaza e mais de 81 mil feridos.

Cortes internacionais são ignoradas por Netanyahu

O informe da ONU é enviado a governos no momento em que o governo de Benjamin Netanyahu é colocado sob forte pressão internacional. Nesta terça-feira (28), três países europeus passarão a reconhecer o Estado palestino.

Os ataques no fim de semana contra um campo de refugiados geraram indignação até mesmo de aliados de Israel, como a França e a União Europeia.

A ofensiva ocorre num momento em que tanto a Corte Internacional de Justiça como a procuradoria do Tribunal Penal Internacional insistem em apontar que os crimes em Gaza e em Israel não podem ficar impunes.

O horror e o terror moral, amigos de Israel na matança dos palestinos

A armadilha montada no extremo-sul da Faixa de Gaza para matar palestinos funcionou a contento do governo de Israel. Pelo menos 45 pessoas morreram queimadas e decapitadas em tendas onde Israel garantiu que elas estariam a salvo de bombardeios, e 250 escaparam feridas – a maioria das vítimas, mulheres, crianças e velhos. O horror, o horror!

A expressão “o horror, o horror” aparece pela primeira vez na literatura em Heart of Darkness, do escritor britânico de origem polonesa Joseph Conrad, no ano de 1899. São as palavras derradeiras de Kurtz, um traficante de marfim franco-inglês que se encontra fisicamente doente e, ao que tudo indica, igualmente insano.

No filme Apocalipse Now, lançado em 1979, o cineasta Francis Ford Coppola resgatou a expressão e a pôs na boca do Coronel Kurtz, das forças especiais dos Estados Unidos, vivido por Marlon Brando, que enlouquecera e se refugiou nas selvas do Camboja. A ação se passa na guerra do Vietnã e todos os personagens são militares.

Coube ao Capitão Willard (Martin Sheen) a tarefa de localizar e matar o coronel, o que ele faz. Mas antes de ser morto, o coronel lhe diz: “Você tem o direito de me matar, mas não o de me julgar. É impossível pôr em palavras o necessário para quem desconhece o sentido do horror. Horror. Horror tem rosto e é preciso fazer amizade com o horror. O horror e o terror moral são seus amigos. Se não forem, então são inimigos a temer. São inimigos de verdade.”

Não peça a Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel, que reconheça o horror das suas ações. Ele só vê o horror nas ações do grupo Hamas, que invadiu seu país em 7 de outubro do ano passado. Se visse também nas suas, não poderia chamar o Hamas de grupo terrorista para que Israel não fosse tachado de Estado terrorista.

Mais uma vez, o mundo chocou-se com o que aconteceu nas proximidades de Rafah, no extremo-sul da devastada Faixa de Gaza, e reagiu com indignação, a pedir o fim da guerra. Netanyahu limitou-se a declarar, contrafeito: “Apesar dos nossos esforços máximos para não prejudicar os civis, infelizmente algo correu tragicamente errado”.

O mundo chocar-se não quer dizer grande coisa. Não mudará em nada a determinação dos dirigentes de Israel de ir em frente com a guerra que já matou mais de 36 mil palestinos civis e inocentes. Somente os Estados Unidos poderiam impor a Israel seu desejo de que a guerra terminasse, mas não o fará. Israel é seu braço armado na região.

Por mais que continue matando palestinos e árabes aqui e acolá, Israel já perdeu esta guerra. Não tem como derrotar o Hamas em definitivo, promessa repetida por Netanyahu a cada vez que é obrigado a se explicar. A Netanyahu só resta estender o fim do seu governo provocando o horror e o terror moral, seus diletos amigos.

Procuradora do TPI ameaçada pela Mossad devido a investigação de crimes de guerra

Uma investigação do jornal britânico The Guardian, publicada nesta terça-feira (29), revela que a ex-procuradora do Tribunal Penal Internacional (TPI), Fatou Bensouda, foi ameaçada e pressionada pelo ex-diretor da agência de inteligência israelense, Yossi Cohen, para cancelar a investigação sobre crimes de guerra na Palestina.

O caso remonta a 2015, quando Fatou Bensouda decidiu abrir uma investigação preliminar sobre a situação na Palestina. O seu inquérito tinha como objetivo fazer uma avaliação inicial das alegações de crimes cometidos por Israel em Gaza, na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental.

A decisão de Bensouda despertou a atenção de Israel e Yossi Cohen, na altura chefe do Conselho de Segurança Nacional de Israel, coordenou um esforço entre várias agências contra o TPI.

Em janeiro de 2016, Yossi Cohen foi nomeado diretor da Mossad, a agência de inteligência israelense, e intensificou as pressões sobre a procuradora do TPI. Várias fontes confirmaram ao Guardian que Bensouda foi alvo de “ameaças, manipulação e perseguição” por parte de Cohen, com o objetivo de fazer cair a investigação sobre crimes de guerra na Palestina.

Quatro fontes confirmaram que Bensouda informou um pequeno grupo de altos funcionários do TPI sobre as tentativas de Cohen para influenciá-la, ao mesmo tempo que se mostrava preocupada com a natureza cada vez mais persistente e ameaçadora do seu comportamento.

De acordo com relatos partilhados com funcionários do TPI, Cohen terá dito a Bensouda: “Você deveria ajudar-nos e deixar-nos cuidar de si. Você não se quer envolver em coisas que possam comprometer sua segurança ou a da sua família”.

“Campanha de difamação”

Em dezembro de 2019, a procuradora anunciou que tinha motivos para abrir uma investigação criminal completa sobre alegações de crimes de guerra em Gaza, na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental.

A partir dessa altura, Cohen intensificou as ameaças e as tentativas de persuadir a procuradora a não prosseguir com uma investigação completa caso os juízes dessem luz verde. A família de Bensouda passou também a ser alvo de investigações e pressão por parte da Mossad.

Fontes com conhecimento direto da situação revelaram que a agência de inteligência israelense obteve transcrições de gravações secretas do marido de Bensouda e tentaram usá-las para desacreditar a procuradora. No entanto, não tiveram sucesso.

Três fontes próximas descreveram os esforços como parte de uma “campanha de difamação” mal sucedida contra Bensouda. “Eles foram atrás de Fatou”, disse uma fonte, mas isso “não teve impacto” no trabalho da procuradora. Nestes esforços de intimidação e conspiração contra Bensouda, Israel recebeu o apoio de Joseph Kabila, o antigo presidente da República Democrática do Congo.

Em março de 2021, após ter recebido a confirmação de que o TPI tinha jurisdição nos territórios palestinos ocupados, Bensouda anunciou a abertura de uma investigação sobre os crimes de guerra cometidos por Israel.

Três meses depois, Bensouda concluiu o seu mandato de nove anos no TPI e deixou ao seu sucessor, Karim Khan, a tarefa de assumir a investigação.

Esta investigação culminou num mandado de detenção para o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, e dirigentes do Hamas por crimes de guerra e crimes contra a humanidade em Gaza.

“Com base nas provas recolhidas e examinadas pelo meu Gabinete, tenho motivos razoáveis para acreditar que Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel, e Yoav Gallant, o ministro da Defesa de Israel, têm responsabilidade criminal por crimes de guerra e crimes contra a humanidade cometidos no território do Estado da Palestina (na Faixa de Gaza) a partir de, pelo menos, 8 de outubro de 2023”, afirmou Karim Khan em comunicado.

“O fato de terem escolhido o chefe da Mossad para ser o mensageiro não oficial do primeiro-ministro para Bensouda foi para intimidar, por definição. Mas falhou”, disse uma fonte informada sobre a operação de Cohen ao jornal The Guardian.


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