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Mundo

Fome mata um palestino a cada seis horas em Gaza

Israel prepara invasão total ao norte da região e ordena evacuação de hospitais

Publicado em 21/08/2025 1:34 - Semana On

Divulgação Hatem Khaled/Reuters

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Gaza enfrenta sua fase mais aguda de fome desde o início da ofensiva militar israelense em outubro de 2023, com uma morte causada por desnutrição registrada a cada seis horas. Desde julho, 204 palestinos não resistiram à falta de alimentos — 51 eram crianças. Os dados constam em um informe interno do Escritório de Coordenação Humanitária da ONU (OCHA), distribuído a governos e organizações internacionais.

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O documento revela que, entre outubro de 2023 e 20 de agosto de 2025, 269 mortes foram oficialmente relacionadas à desnutrição, incluindo 112 crianças. Ao todo, estima-se que mais de 62 mil palestinos tenham morrido em Gaza nesse período, em decorrência direta da ofensiva israelense e do colapso humanitário subsequente. Outros 156 mil estariam feridos.

O alerta mais grave, porém, vem da velocidade com que a crise se intensifica. Nos últimos 50 dias, a taxa de mortalidade por fome dobrou, atingindo quatro mortes por dia. “A fome em Gaza está no pior nível desde outubro de 2023 e a quantidade de ajuda que entra na Faixa é insuficiente para atender à escala das necessidades”, afirma o relatório do OCHA.

Desnutrição infantil atinge patamar alarmante

O drama mais evidente está entre as crianças. Em julho, hospitais de Gaza registraram 13 mil admissões de crianças com desnutrição aguda, o dobro do mês anterior e seis vezes mais do que em fevereiro. A Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou, em meados de agosto, 54 internações de crianças em estado grave de desnutrição apenas nas duas primeiras semanas do mês.

Apesar do crescimento dos casos, há apenas cinco centros de tratamento especializados em toda a Faixa de Gaza, com capacidade total de apenas 43 leitos. A maioria já opera acima da capacidade, sem medicamentos e suplementos alimentares básicos.

A escassez de suplementos nutricionais à base de lipídios forçou a suspensão dos programas de alimentação suplementar, inclusive os voltados para grávidas, lactantes e crianças menores de cinco anos. Segundo a ONU, os estoques estão quase esgotados após meses de bloqueio e entrada limitada de ajuda humanitária desde 19 de maio.

A situação foi confirmada por relatos da Médicos Sem Fronteiras (MSF). A organização relata taxas de desnutrição aguda de 20% entre os pacientes examinados, com mais de mil pessoas sendo atendidas por semana. Só na cidade de Gaza, 1.599 pacientes estavam registrados em tratamento de desnutrição em 9 de agosto — cinco vezes mais que no fim de maio.

“A desnutrição não é apenas uma escassez de alimentos, mas uma condição médica com risco de vida”, declarou a MSF em nota oficial, reforçando a urgência do envio de alimentos terapêuticos e da ampliação da capacidade hospitalar.

Comida parada, fronteiras fechadas

Enquanto a fome avança, toneladas de alimentos permanecem retidas nos arredores de Gaza, impedidas de chegar à população. O governo israelense, liderado por Benjamin Netanyahu, nega o colapso e afirma que o sistema de distribuição de ajuda humanitária está funcionando, com o apoio dos Estados Unidos.

A realidade descrita pelas agências internacionais é outra. Em 17 de agosto, o setor de Segurança Alimentar da ONU relatou que apenas 404 mil refeições individuais estavam sendo preparadas diariamente, frente a mais de 1 milhão em abril. Das refeições atuais, apenas 132 mil são distribuídas no norte de Gaza, onde a situação é mais crítica.

“As dietas extremamente desequilibradas, sem nutrientes essenciais, elevam o risco de desnutrição aguda, com impacto especialmente grave sobre crianças, mulheres grávidas e idosos”, alerta o relatório da ONU.

Estima-se que 62 mil toneladas de alimentos por mês seriam necessárias para atender às necessidades básicas da população. O Programa Alimentar Mundial (PAM) possui 170 mil toneladas de alimentos armazenadas ou em trânsito, mas, entre 19 de maio e 18 de agosto, apenas 54 mil toneladas chegaram efetivamente a Gaza.

Cenário de guerra prolongada

A escalada da fome ocorre em paralelo à continuidade da operação militar israelense. Segundo o Ministério da Saúde da Palestina, 2.018 pessoas morreram e 14.947 ficaram feridas ao tentarem acessar suprimentos alimentares entre 27 de maio e 20 de agosto.

Do lado israelense, 454 soldados morreram desde o início da incursão terrestre em outubro de 2023, além de 2.874 feridos. O total de vítimas israelenses e estrangeiras ultrapassa 1.654 mortos, sendo a maioria em 7 de outubro de 2023, quando o Hamas lançou ataques iniciais. Ao menos 50 pessoas continuam em cativeiro em Gaza, segundo dados do governo israelense.

Apelo internacional por acesso humanitário

Em 7 de agosto, o Unicef classificou o ritmo de deterioração nutricional como “alarmante” e fez um apelo urgente para a entrada de suplementos infantis antes que mais vidas fossem perdidas. Especialistas em direito humanitário internacional alertam para o risco de uso da fome como arma de guerra, o que violaria convenções internacionais.

Em entrevista à Al Jazeera, o relator especial da ONU sobre o direito à alimentação, Michael Fakhri, afirmou: “Estamos testemunhando um colapso deliberado do sistema alimentar de Gaza. Negar comida a civis, especialmente crianças, é uma violação direta do direito internacional.”

O cerco à Gaza, somado à destruição de infraestrutura civil e aos impedimentos para a entrada de ajuda humanitária, já é apontado como um caso de fome induzida por políticas militares, e pode configurar crime de guerra, segundo o Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

A fome em Gaza deixou de ser uma consequência colateral da guerra e se tornou um elemento central do conflito, alimentado por bloqueios, omissões diplomáticas e negligência internacional. Com crianças morrendo por desnutrição em um território sitiado, enquanto carregamentos de comida aguardam a liberação em fronteiras fechadas, a crise já ultrapassou os limites do aceitável — e exige uma resposta urgente e coordenada da comunidade internacional.

Israel prepara invasão total ao norte de Gaza e ordena evacuação de hospitais

Israel iniciou os preparativos para uma nova ofensiva terrestre de larga escala na Faixa de Gaza e ordenou a evacuação imediata de hospitais e organizações humanitárias no norte do território palestino. O alerta, enviado a instituições médicas e entidades civis na Cidade de Gaza, antecipa o que pode ser o capítulo mais violento do conflito iniciado em outubro de 2023.

Segundo fontes militares israelenses, mais de 1 milhão de palestinos devem deixar a área sob cerco e se dirigir ao sul da Faixa, em meio ao avanço das tropas. Na noite anterior ao aviso, bombardeios atingiram diversas zonas urbanas, deixando ao menos 25 mortos, conforme estimativa da Defesa Civil local.

A movimentação de tanques e soldados já ocorre nas periferias da cidade, maior centro urbano de Gaza, enquanto 60 mil reservistas foram convocados pelas Forças de Defesa de Israel. O plano de invasão aguarda apenas o aval final do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, esperado para as próximas horas.

População protesta em meio ao cerco

Em um gesto raro diante da repressão e do medo generalizado, moradores de Gaza organizaram uma marcha pacífica com cartazes pedindo o fim da ofensiva e o socorro internacional. “Salve Gaza, basta” e “Gaza está morrendo pela matança, fome e opressão” eram algumas das mensagens carregadas por manifestantes.

A mobilização teve apoio de diversas organizações civis locais, em um contexto em que a vida cotidiana se tornou insustentável diante dos ataques, da fome e do colapso total dos serviços públicos. Como mostrou relatório recente da ONU, ao menos um palestino morre de fome a cada seis horas na região — uma consequência direta do bloqueio à entrada de ajuda humanitária.

Reféns como justificativa para operação

O governo israelense justifica a ofensiva pelo objetivo de resgatar os 50 reféns que permanecem em cativeiro sob o controle do Hamas desde 7 de outubro de 2023, quando o grupo lançou ataques ao território israelense. Desses, 27 já são considerados mortos, com os corpos ainda retidos em Gaza.

A insistência na solução militar, no entanto, se mantém mesmo diante de uma proposta de cessar-fogo em negociação com mediação do Egito e do Catar. O Hamas já sinalizou apoio a uma trégua de 60 dias, com troca de reféns por prisioneiros palestinos. Israel ainda não respondeu oficialmente à proposta.

A expectativa de diplomatas envolvidos nas tratativas é de que o avanço militar anunciado por Israel sabote as negociações em curso e agrave ainda mais a crise humanitária na região.

Hospitais sob risco e deslocamento em massa

A ordem de evacuação de hospitais na Cidade de Gaza coloca em risco centenas de pacientes, incluindo crianças, feridos de guerra e pessoas em tratamento por desnutrição grave. A ONU e organizações como a Médicos Sem Fronteiras (MSF) já haviam alertado que os centros médicos funcionam no limite, sem suprimentos, medicamentos ou capacidade operacional.

Evacuar essas unidades em meio a bombardeios e bloqueios é, na prática, condenar muitos pacientes à morte, segundo análise de especialistas em saúde humanitária. O deslocamento forçado de mais de 1 milhão de pessoas, em um território já colapsado, pode configurar violação do direito internacional humanitário, de acordo com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

A iminente invasão ao norte de Gaza revela uma guinada decisiva — e brutal — na estratégia militar de Israel. Ao ordenar a evacuação de hospitais e pressionar civis a deixarem suas casas sob fogo cerrado, o governo israelense transforma o campo de batalha em uma zona de catástrofe humanitária. A justificativa do resgate de reféns é colocada em xeque pela continuidade de negociações de trégua, ignoradas até aqui por Tel Aviv.

Em um cenário onde a diplomacia perde terreno para a força militar e onde a fome, o colapso sanitário e o deslocamento em massa definem a vida de milhões de palestinos, o conflito se aprofunda — sem trégua à vista.

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