13/06/2024 - Edição 540

Mundo

Fome como arma de guerra é o mais odioso crime cometido por Israel

Mais de 50% dos palestinos de Gaza podem enfrentar morte e fome até julho, alerta a ONU

Publicado em 05/06/2024 9:59 - Semana On, UOL, Jamil Chade (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On

Divulgação UNICEF/Abed Zagout

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Relatório divulgado hoje pela Organização das Nações Unidas (ONU) revela que mais da metade da população da Faixa de Gaza poderá enfrentar a morte e a fome “até meados de julho”, enquanto a insegurança alimentar aguda poderá se agravar em 21 países.

O relatório, produzido pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e pelo Programa Alimentar Mundial (PAM), destaca que a situação em Gaza é resultado do “impacto devastador do conflito, das severas restrições ao acesso de bens e do colapso dos sistemas agroalimentares locais”.

Desde o ataque do grupo islâmico Hamas a Israel em outubro do ano passado, que resultou em aproximadamente 1.200 mortos e centenas de reféns, a população de Gaza está exposta às mais graves situações de insegurança alimentar. Em resposta, Israel lançou ataques que causaram a morte de mais de 36 mil pessoas, conforme relatado pelas autoridades locais controladas pelo Hamas.

O relatório aponta que a violência e os conflitos armados são as principais causas da insegurança alimentar aguda, gerando deslocamentos massivos, destruição dos sistemas alimentares e redução do apoio humanitário. O conflito na Palestina deve agravar “o número de mortos sem precedentes”, além da “destruição generalizada e deslocamento de quase toda a população da Faixa de Gaza”.

As organizações alertam para possíveis repercussões regionais que podem aumentar as necessidades de segurança alimentar no Líbano e na Síria. A crise no Mar Vermelho também deve elevar os custos dos alimentos no Iêmen, intensificando ainda mais a situação na região.

O Haiti foi incluído na lista de locais que necessitam de “atenção muito urgente” devido à escalada da violência. Myanmar, Síria, Líbano e Iêmen foram identificados como focos de grande preocupação, com conflitos que podem resultar em mais deslocamentos e restrições ao acesso a alimentos e assistência.

O relatório também destaca as consequências dos conflitos no crescimento econômico e as “tensões geopolíticas no Oriente Médio e norte da África”, que representam um risco significativo para a economia global.

Fenômenos meteorológicos extremos, como chuvas excessivas, tempestades tropicais, ciclones, inundações, secas e a variabilidade climática também contribuem para a insegurança alimentar. O fenômeno La Niña, previsto entre agosto de 2024 e fevereiro de 2025, pode melhorar as perspectivas agrícolas, mas também provocar inundações em países africanos e no Haiti.

FAO e PAM enfatizam a necessidade de “assistência urgente e reforçada em 18 focos de fome para proteger os meios de subsistência e aumentar o acesso aos alimentos”. Intervenções precoces podem reduzir as carências alimentares e proteger os ativos a um custo menor do que uma resposta humanitária tardia. O relatório também defende “mais investimentos em soluções integradas”.

Fome como arma de guerra é o mais odioso crime cometido por Israel

Caberá ao Tribunal Penal Internacional apontar eventuais crimes de guerra cometidos por Israel e o grupo Hamas no conflito ora em curso no Oriente Médio. Mas à ONU, que reúne 193 Estados-membros, cabe desde já alertar o mundo que a fome como arma de guerra está sendo usada por Israel.

A ONU disse, no último dia 29, que a quantidade de ajuda humanitária que entra na Faixa de Gaza caiu dois terços desde que Israel iniciou a sua operação militar na região de Rafah, no sul do enclave, este mês. Uma média diária de 58 caminhões de ajuda chegou a Gaza em 7 de maio em comparação com uma média diária de 176 caminhões de ajuda de 1 de abril a 6 de maio – uma queda de 67%. Pelo menos 500 caminhões por dia de ajuda e bens comerciais precisam entrar em Gaza.

Desde que a guerra Israel-Hamas começou, há quase oito meses, a ajuda a 2,3 milhões de palestinos entrou principalmente através de duas passagens para o sul de Gaza – a de Rafah, proveniente do Egito, e a de Kerem Shalom, proveniente de Israel. Mas as entregas foram interrompidas quando Israel intensificou as suas operações militares em Rafah. O Egito fechou a passagem de Rafah devido à ameaça que representa ao trabalho humanitário, mas concordou em enviar temporariamente uma reserva de ajuda e combustível através de Kerem Shalom.

O vice-embaixador de Israel na ONU, Jonathan Miller, afirmou ao Conselho de Segurança da ONU, na quarta-feira, que Israel trava uma guerra contra o Hamas, não contra os civis: “É por isso que Israel está empenhado em facilitar a entrada de ajuda humanitária em Gaza a partir de todos os pontos de entrada possíveis.” Palavras ao vento, desmentidas pelos fatos.

Tzachi Hanegbi, conselheiro de segurança nacional do governo israelense, admitiu que as operações militares na Faixa de Gaza continuarão pelo menos até ao final do ano: “Esperamos mais sete meses de combate para reforçar a nossa conquista e concretizar o que definimos como a destruição das capacidades militares e de governo do Hamas e da Jihad Islâmica”.

Israel diz que mais de um terço dos reféns de Gaza estão mortos

Israel acredita que mais de um terço dos reféns remanescentes de Gaza estão mortos, segundo uma contagem do governo na terça-feira (4), enquanto os Estados Unidos buscam avançar na recuperação desses reféns em uma proposta para acabar com a guerra contra o Hamas.

Das cerca de 250 pessoas arrastadas para a Faixa de Gaza por homens armados palestinos liderados pelo Hamas durante o ataque transfronteiriço de 7 de outubro, muitas foram libertadas em uma trégua em novembro, enquanto outras foram recuperadas – vivas ou mortas – pelas tropas israelenses.

A contagem do governo diz que 120 pessoas permanecem em cativeiro, 43 das quais foram declaradas mortas pelas autoridades israelenses com base em várias fontes de informação, incluindo denúncias de inteligência, vídeos ou de transeuntes e análise forense.

Algumas autoridades disseram em particular que o número de mortos poderia ser maior.

O Hamas, que ameaçou no início da guerra executar reféns em represália aos ataques aéreos israelenses, disse desde então que esses ataques causaram a morte de reféns. Israel não descartou essa possibilidade em todos os casos, mas disse que alguns corpos de reféns recuperados mostravam sinais de execução.

Brasil fica sem embaixador em Israel

Numa mudança feita a toque de caixa, o diplomata Frederico Meyer deixou Tel Aviv e desembarcou em Genebra como representante do Brasil na Conferência de Desarmamento da ONU. De forma definitiva, o país agora não tem embaixador em Israel.

No dia 29 de maio, um decreto publicado no Diário Oficial determinava a retirada de forma definitiva do diplomata de Israel, sem que um substituto fosse designado. Menos de uma semana depois, Meyer já deixou o país.

A velocidade da saída surpreendeu até mesmo experientes embaixadores no Itamaraty. Segundo fontes na chancelaria, não havia mais nada a fazer lá.

O ato não significa uma ruptura completa de relações diplomáticas com Israel. Mas é o gesto mais forte já tomado pelo Brasil contra o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

A embaixada será, a partir de agora, liderada pelo encarregado de Negócios, reduzindo a importância da representação. Diplomaticamente, é um sinal aos israelenses do grau de prioridade e de relevância que o governo Lula quer manter com o governo Netanyahu.

A retirada ocorre às vésperas de uma decisão do Tribunal Penal Internacional sobre o pedido de sua procuradoria para emitir uma ordem de prisão contra Netanyahu por crimes de guerra e contra a humanidade. O chefe de governo de Israel também enfrenta críticas de organizações internacionais e de líderes mundiais, como Emmanuel Macron, que denunciaram as mortes de palestinos.

Brasil x Israel

Meyer voltou para Israel depois de três meses da pior crise diplomática entre os dois países. Em fevereiro, por conta de comentários de Lula sobre a Segunda Guerra Mundial e a situação em Gaza, Israel declarou o presidente como “persona non grata”, convocou Meyer e exigiu que o brasileiro pedisse desculpas, o que jamais ocorreu.

A reprimenda de Israel ocorreu no Museu do Holocausto, em hebraico e diante do embaixador. O ato foi considerado no Itamaraty como uma “humilhação”. Dias depois, para demonstrar insatisfação, Lula convocou de volta para Brasília o diplomata, oficialmente para consultas.

Na semana passada, porém, ele retornou para Israel e, nos últimos dias, chegou a assinar telegramas oficiais aos demais embaixadores brasileiros, indicando que estava em Tel Aviv. Mas em nenhum momento comunicou ao governo de Israel que estava de volta ao posto. Ele, portanto, não reassumiu.

Meyer assume um cargo esvaziado nas Nações Unidas. Ainda que tenha um papel estratégico, a Conferência do Desarmamento vive uma completa paralisia nos últimos 20 anos, chegando a ser alertada por António Guterres, secretário-geral da ONU, sobre o risco de um órgão viver tal situação.

O cargo, até agora, era ocupado pelo embaixador Flávio Damico.


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