13/06/2024 - Edição 540

Mundo

Europa pode ter guinada inédita à extrema direita, dizem projeções

União Europeia vê onda de violência política e teme ameaça à democracia

Publicado em 04/06/2024 12:21 - Jamil Chade (UOL), Martín Cúneo (El Salto, com tradução na Revista Opera) – Edição Semana On

Divulgação

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

As eleições para o Parlamento Europeu, que ocorrem na próxima semana, devem marcar uma guinada inédita do continente em direção à extrema direita, tranformando o movimento em parte do poder na UE. Pesquisas eleitorais divulgadas nos últimos dias indicaram que o bloco ultraconservador e nacionalista deve ser o que mais avançará na conquista de novos assentos.

Num bloco construído após a Segunda Guerra Mundial e que por anos criou o que os próprios partidos chamavam de “cordão sanitário” contra a extrema direita, o terremoto político prevê a vitória de populistas na França e Itália, além de significativos resultados na Holanda, Bélgica, Bulgária, Alemanha e vários outros países. O voto ocorre entre os dias 6 e 9 de junho, estabelecendo a composição do novo Parlamento Europeu e indicando a formação da própria governança da poderosa Comissão Europeia.

Segundo a pesquisa realizada pela Politico, a direita tradicional, com partidos como o alemão CDU, deve terminar em primeiro lugar, com 170 assentos. Mas os dois blocos oficiais da extrema direita, juntos, devem somar 144 lugares, praticamente empatados com os socialistas e movimentos de centro-esquerda.

Partidos que não fazem parte de blocos formais no Parlamento Europeu, como o Fidesz de Viktor Orban, deve somar mais 10 lugares, segundo as pesquisas. Movimentos políticos da Polônia, Bulgária e de outros países também estão bem cotados para avanços reais nas eleições.

Segundo a pesquisa realizada pela Euronews Poll Center, o partido de centro-esquerda do chanceler Olaf Scholz aparece apenas na terceira posição na Alemanha, sendo superado pelos candidatos da extrema direita da Alternativa para Alemanha.

Se todos esses partidos e movimentos ultranacionalistas, populistas e extremistas forem agrupados em um só bloco a previsão é de que possam chegar a 184 lugares, algo inédito na história da Europa.

Apesar do avanço, as projeções também apontam que a direita tradicional, composta por partidos historicamente democráticos como o CDU na Alemanha, deve continuar a dar as cartas e inclusive escolher a presidência da Comissão Europeia. A alemã Ursula van der Leyen é candidata a mais um mandato.

Mas ela não conseguirá governar sem consultar e incluir em seu gabinete membros da extrema direita. Se as projeções se confirmarem, a Europa terá seus primeiros comissários da ultra direita, com um impacto real em dezenas de temas, incluindo comércio, meio ambiente, relações com a China, a guerra na Ucrânia, o conflito em Gaza, debates sobre a imigração, terrorismo e a direção econômica do bloco.

União Europeia vê onda de violência política e teme ameaça à democracia

A tentativa de assassinato contra o primeiro-ministro eslovaco, Robert Fico, chocou a Europa e ampliou o temor na classe política e em analistas do risco de reviver o clima de tensão e a violência que marcaram os anos sombrios dos anos 20 e 30, e que conduziram à ascensão ao poder do movimento nazista.

Além do político do Leste Europeu, diversos líderes partidários, deputados e ministros têm sido alvo de ataques pelas redes sociais e nas ruas de algumas das principais cidades da Europa. Na Alemanha, um jovem islâmico atacou uma manifestação de extrema direita e matou um policial antes de ser abatido pela polícia.

Na Holanda, em 2023, a então vice-primeira-ministra Sigrid Kaag chorou em um programa de TV ao ouvir que suas filhas temiam que ela fosse assassinada. Um ano antes, o Ministério Público do país indicou que 1.100 ameaças contra políticos tinham sido oficialmente registradas. Um ano antes, foram apenas 588.

Na Alemanha, a agência de inteligência BfV anunciou que o extremismo de extrema direita é a maior ameaça à democracia alemã.

No início do mês, o deputado Mathias Ecke foi alvo de um ataque físico há poucas semanas, enquanto colocava seus cartazes pela cidade de Dresden. O social-democrata teve de ser submetido a uma cirurgia. Naquela mesma noite, membros do Partido Verde também foram atacados, num bairro residencial da mesma cidade.

Um dia antes, Rolf Fliss, o vice-prefeito de Essen, levou um soco no rosto. Em setembro de 2023, um homem atirou uma pedra nos líderes do Partido Verde em um evento de campanha na Baviera. A ex-prefeita de Berlim, Franziska Giffey, também foi agredida por um homem que a golpeou por trás na cabeça com uma bolsa.

Em janeiro, uma multidão impediu que Robert Habeck, vice-chanceler da Alemanha, desembarcasse de uma balsa. Mais recentemente, Katrin Göring-Eckardt, vice-presidente do Parlamento, foi impedida de sair de um evento quando 40 a 50 manifestantes cercaram seu carro.

Um momento considerado como divisor de águas foi quando, em 2019, o deputado conservador Walter Lübcke foi morto por um neonazista por ser favorável à acolhida de refugiados. O caso foi tratado como o primeiro assassinato político de extrema direita na Alemanha desde o final da Segunda Guerra Mundial.

No total, 2.700 ataques físicos, verbais e nas redes sociais contra políticos foram registrado em 2023. O número é duas vezes maior que em 2019. Desses, 234 foram ataques fisicamente violentos contra políticos.

Em 2022, 58.916 crimes com motivação política no país foram registrados contra cidadãos e simpatizantes de partidos políticos, o número mais alto desde que as autoridades começaram a manter registros em 2001. Desses, 4.000 envolveram violência física.

O fortalecimento e avanço da extrema-direita e seu discurso de ódio é considerada por agentes políticos como o principal responsável pela violência na Alemanha. “As palavras se transformam em ações”, disse Katarina Barley, candidata social-democrata para as eleições europeias.

“A democracia é ameaçada por essas coisas, portanto, aceitá-las nunca é uma opção”, disse Olaf Scholz, chanceler alemão. “Não vamos aceitar isso”, insistiu.

Para Hendrik Wüst, o governador da Renânia do Norte-Vestfália, “os recentes ataques a políticos “lembram o capítulo mais sombrio da história alemã”. “Estamos vivenciando uma escalada de violência antidemocrática”, disse Nancy Faeser, ministra do Interior da Alemanha.

Na Suécia, a violência também passou a assustar. O Conselho Nacional Sueco de Prevenção ao Crime apontou em um recente levantamento que uma em cada três políticos afirmam ter sofrido uma forma de ameaça, violência ou dano.

Habitação: A crise alimenta o fascismo na Europa

As dificuldades enfrentadas por milhões de famílias de classe média e baixa para ter acesso a um apartamento não são exclusivas da Espanha. Em maior ou menor grau, a crise imobiliária está se alastrando por toda a Europa. Os preços das casas subiram, em média, 47% entre 2010 e 2022, de acordo com o Gabinete de Estatísticas da União Europeia (Eurostat), e os preços dos aluguéis subiram 18% nos 27 estados-membros como um todo.

O aumento dos preços foi quase tão espetacular quanto o crescimento da extrema-direita, que, pela primeira vez na história, deverá conquistar mais de um quinto das cadeiras em disputa nas eleições europeias de 9 de junho. De acordo com as pesquisas, essas forças ultraconservadoras ganhariam o primeiro lugar em votos em quatro países da região – França, Itália, Bélgica e Holanda – e poderiam disputar o primeiro lugar em outros cinco – Áustria, República Tcheca, Hungria, Polônia e Eslováquia.

Esses dois fenômenos são paralelos, mas há uma ligação entre eles, de acordo com o estudo “Os riscos do mercado de aluguéis e o apoio à extrema-direita”. A precarização do trabalho, “uma fonte constante de ansiedade” para uma população que vem perdendo poder aquisitivo e segurança, não explica sozinha o crescimento dessas organizações. Para Tarik Abou-Chadi, Denis Cohen e Thomas Kurer, pesquisadores das universidades de Oxford, Mannheim e Zurique, respectivamente, as transformações urbanas da última década e o aumento dos preços das moradias são a peça que falta para entender o crescimento desses partidos autodenominados “anti-establishment”.

“Nossos resultados sugerem que o desenvolvimento urbano, assim como a transformação do mercado de trabalho, representa uma fonte importante e até então negligenciada de insegurança econômica e preocupação social com importantes implicações políticas”, resumem.

O caso holandês

A moradia estava entre as principais preocupações da população holandesa antes das eleições de novembro de 2023, nas quais o Partido da Liberdade (PVV), de extrema-direita, saiu vitorioso. Nesse país, os preços das casas dobraram na última década, e os aluguéis dispararam: o aluguel de um apartamento pode custar quase 1.000 euros (5.578 reais) e uma casa de três quartos pode custar 3.500 euros (19.523 reais) por mês, de acordo com o The Guardian.

A escassez de moradias – são necessárias quase 400 mil casas para atender à demanda –, a concorrência por apartamentos e os preços inacessíveis em relação à renda média tornaram-se combustíveis para um partido que baseou sua campanha no “ódio ao outro”, nas palavras do Relator Especial da ONU sobre Moradia, Balakrishnan Rajagopal. Os partidos de extrema-direita prosperam, observou ele, quando “podem explorar as lacunas sociais” devido à falta de investimento e de políticas adequadas e “culpar as pessoas de fora”.

O pacto governamental firmado em 15 de maio entre o anti-islâmico PVV e três outros partidos de direita inclui o compromisso de construir mais moradias, mas também de executar uma política de asilo muito mais rígida, bem como de deportar todas as pessoas que não tenham uma autorização de residência válida, “mesmo que à força”.

O líder do PVV, Geert Wilders, que renunciou ao cargo de presidente para chegar a um acordo com a centro-direita, concentrou sua campanha em um discurso contra os imigrantes, a quem acusou de se estabelecerem na Holanda – “a aldeia idiotizada da Europa” – para obter “moradia e saúde gratuitas”.

Nas eleições de novembro, o PVV obteve 23% dos votos. Mas se apenas os holandeses entre 18 e 35 anos tivessem votado, o Partido da Liberdade teria conquistado quatro cadeiras a mais, de acordo com o instituto Ipsos. Isso também não é coincidência. Assim como na Espanha, a população mais afetada pela crise imobiliária na Holanda é a dos jovens. Esse também foi o segmento da população mais influenciado por uma campanha que relaciona migração e moradia.

“Medo de perder o status”

De acordo com a pesquisa de Tarik Abou-Chadi, Denis Cohen e Thomas Kurer, o “medo de perder o status” foi e é uma das forças motivadoras por trás da ascensão do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD). A precarização do trabalho e as dificuldades de acesso e pagamento de uma moradia fazem parte, segundo essa análise, de um “pacote de ameaças que alimentam a inquietação” e que levam a um aumento no apoio à direita radical.

Esse estudo, que analisa como o mercado de aluguéis afeta o comportamento político, mostra, no caso da Alemanha, que os aumentos de preços se traduzem em mais apoio individual à extrema–direita, especialmente entre os eleitores de baixa renda que “não têm um colchão financeiro para absorver um possível aumento de aluguel”.

E não se trata apenas das famílias que sofreram esses aumentos, mas também o “risco” de sofrê-los. Isso ocorre com frequência, explicam os autores, também em regiões “em declínio, onde não ocorreram os maiores aumentos de preços, mas onde se repetem os mesmos padrões de ‘medo de perder status’, de não poder pagar pela moradia ou de ter de se mudar para um bairro ou cidade mais barata”. De acordo com essa pesquisa, não são necessárias “experiências de dificuldades econômicas” para empurrar os eleitores para a direita. A “ameaça iminente de declínio econômico na forma de riscos econômicos latentes” é suficiente.

Em resposta a esses riscos do mercado de aluguéis, que representam “uma grande ameaça à situação social e econômica das pessoas”, os eleitores podem recorrer a atores políticos que “desafiam abertamente o status quo político”, analisam.

Na Espanha, a direita e a extrema-direita concentraram seus discursos sobre moradia nos direitos dos proprietários, nas ocupações e na criminalização de ocupações de imigrantes e populações vulneráveis, com propostas para aumentar a segurança jurídica, acelerar os despejos e endurecer as penalidades para pessoas que morem em um apartamento sem contrato.

Os vínculos entre problemas de moradia e imigração foram usados recentemente pelo Vox espanhol, que em abril lançou uma proposta de lei para exigir “prioridade nacional” no acesso a benefícios sociais e programas de moradia, reforçando o boato de que a população imigrante tem vantagens sobre a espanhola quando se trata de lutar por um contingente de moradia pública quase inexistente. A Espanha conta com apenas 2,5% de moradias públicas, em comparação com 30% na Holanda.

“Se quisermos impedir o crescimento da extrema-direita, privá-la de algum oxigênio, coisas como moradia devem ser consideradas direitos fundamentais”, declarou o relator da ONU, Rajagopal.


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *