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Mundo
Presidente criticou países ricos, alfinetou X e pediu voz aos indígenas
Publicado em 24/09/2024 2:54 - Jamil Chade e Lucas Borges Teixeira - UOL
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O presidente Lula (PT) criticou o financiamento de países desenvolvidos, saudou a Palestina, alfinetou o X (antigo Twitter) e criticou a continuidade das guerras em discurso na abertura da 79ª Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), em Nova York, na manhã desta terça-feira (24).
Lula fez uma fala dura contra países mais ricos, voltada ao chamado “sul global”, tom que tem dado à pauta internacional no terceiro mandato. “A falsa oposição entre Estado e mercado foi abandonada pelas nações desenvolvidas que voltaram a praticar políticas industriais ativas e forte, e forte regulação da economia doméstica”, disse.
Países da África tomam empréstimo a taxas até oito vezes maiores que a Alemanha e quatro vezes maiores que os Estados Unidos. É um plano Marshall às avessas, em que os mais pobres financiam os mais ricos. Sem maior participação dos países em desenvolvimento na direção do FMI e do Banco Mundial, não haverá mudança efetiva.
Lula, sobre desigualdade global
Lula disse ainda que esta desigualdade “resulta em efeitos nefastos sobre a paisagem política” e fez uma defesa a Cuba. ” É injustificado manter Cuba em uma lista unilateral de estados que supostamente promovem terrorismo e impõem medidas coercitivas unilaterais que penalizam indevidamente as populações mais vulneráveis”, afirmou o brasileiro.
O presidente ainda cobrou uma revisão geral da estrutura e das funções da ONU. Lula pediu maior participação dos países em desenvolvimento, sobretudo os africanos, e igualdade de gênero.
Na fundação da ONU, éramos 51 países. Hoje somos 193. Várias nações, principalmente no continente africano, estavam sob domínio colonial e não tiveram voz sobre seus objetivos e funcionamento. Inexiste equilíbrio de gênero no exercício das mais altas funções. O cargo de Secretário-Geral jamais foi ocupado por uma mulher. Estamos chegando ao final do primeiro quarto do século XXI com as Nações Unidas cada vez mais esvaziada e paralisada. É hora de reagir com vigor a essa situação, restituindo à Organização as prerrogativas que decorrem da sua condição de foro universal.
Saudação à Palestina
O brasileiro já abriu o discurso celebrando a presença da delegação palestina e voltou a criticar o conflito. “[A guerra] começou com uma ação terrorista de fanáticos contra civis israelenses inocentes, tornou-se uma punição coletiva de todo o povo palestino”, lamentou, em sua fala.
A guerra na Faixa de Gaza já matou mais de 41.000 pessoas e feriu quase 100.000, segundo o Ministério da Saúde da Palestina, comandado pela organização extremista Hamas. Só nas últimas 24 horas, um ataque de Israel matou mais 12 pessoas e feriu outras 43.
Enquanto Lula falava, não eram poucas as delegações que filmavam com seus celulares. A referência inicial à Palestina foi agradecida pela delegação que, pela primeira vez, pode sentar na Assembleia Geral da ONU e arrancou aplausos. As críticas de Lula ao governo de Israel também colocaram a delegação de Benjamin Netanyahu no foco, no pior momento da relação diplomática entre os dois países.
Esses recursos [gastos com guerra] poderiam ter sido utilizados para combater a fome e enfrentar a mudança do clima. O que se vê é o aumento das capacidades bélicas. O uso da força sem amparo no direito internacional está se tornando a regra. Presenciamos dois conflitos simultâneos com potencial de se tornarem um confronto generalizado.
Cutucou o X
Lula também alfinetou o X (antigo Twitter). Sem citar a rede social do bilionário Elon Musk, bloqueada no Brasil desde agosto, o presidente criticou plataformas online que confrontam a soberania nacional.
Lula defendeu um Estado “que não se intimida ante indivíduos, corporações ou plataformas digitais que se julgam acima da lei”. “O futuro de nossa região passa, sobretudo, por construir um Estado sustentável, eficiente, inclusivo e que enfrenta todas as formas de discriminação”, pregou o presidente.
A liberdade é a primeira vítima de um mundo sem regras. Elementos essenciais da soberania incluem o direito de legislar, julgar disputas e fazer cumprir as regras dentro de seu território, incluindo o ambiente digital.
Ouvir os indígenas sobre meio ambiente
Ao abordar a pauta climática, Lula pregou que é preciso ouvir os “povos indígenas” sobre o tema. Como o UOL mostrou, Lula tinha a intenção de já transformar o Brasil na vitrine internacional do combate ao desmatamento, mas o recente recorde de queimadas frustrou os planos de Lula.
Não é mais admissível pensar em soluções para as florestas tropicais sem ouvir os povos indígenas, comunidades tradicionais e todos aqueles que vivem nelas. Nossa visão de desenvolvimento sustentável está alicerçada no potencial da bioeconomia.Lula, sobre debate sustentável
O próprio Lula tem admitido, no entanto, que o governo não estava preparado para o combate aos incêndios. Mesmo já podendo liberar verbas em crédito extraordinário desde o início de setembro, após permissão do STF (Supremo Tribunal Federal), o governo só liberou R$ 514 milhões para combate às queimadas na noite da última quarta (18).
O Brasil tem batido recorde de queimadas. Em agosto, o país registrou 68 mil focos de calor, segundo dados do Programa de Queimadas do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) —o maior número para o mês desde 2010 e 145% a mais do que no mesmo mês no ano passado.
Neste ano, a Amazônia queimou três Sergipes. De 1º de janeiro a 1º de setembro de 2024, foram queimados 6.718.025 hectares na Amazônia, segundo o governo federal. Ao todo, até a última semana, foram registrados 189 incêndios: só 38 foram extintos e 158 seguem ativos, 76 deles de forma controlada.
Mundo está no ‘purgatório’ e vive ‘colapso climático’, diz secretário-geral
Em sua fala, antes de Lula, António Guterres, secretário-geral da ONU, citou o brasileiro e disse que mundo vive ‘colapso climático’. Ele disse estar trabalhando junto ao brasileiro —único líder internacional citado—em prol do clima, mas criticou a exploração de petróleo, defendida por Lula.
Guterres fez um dos discursos mais duros das últimas décadas. Segundo ele, as divisões geopolíticas continuam se aprofundando, o planeta continua esquentando. As guerras continuam sem nenhuma pista de como terminarão.
Para ele, a situação do mundo é “insustentável”. “Estamos nos aproximando do inimaginável – um barril de pólvora que corre o risco de engolir o mundo”, alertou Guterres. “Não podemos continuar assim”, alertou.
[Os países] podem fechar os olhos para as convenções internacionais de direitos humanos ou para as decisões de tribunais internacionais. Eles podem ignorar o direito humanitário internacional. Podem invadir outro país, devastar sociedades inteiras ou desconsiderar totalmente o bem-estar de seu próprio povo. E nada acontecerá.
Guterres também elogiou Lula. “Tenho a honra de trabalhar em estreita colaboração com o presidente Lula do Brasil, que é presidente do G20 e anfitrião da COP30, para garantir o máximo de ambição, aceleração e cooperação”, disse, mas chamou a continuidade da exploração de petróleo, defendida pelo brasileiro, de “situação maluca”.
O setor de combustíveis fósseis continua a embolsar enormes lucros e subsídios, enquanto as pessoas comuns arcam com os custos da catástrofe climática, desde o aumento dos prêmios de seguro até a perda de meios de subsistência.
Venezuela fica fora do discurso
Uma das crises mais importantes para o Brasil, porém, ficou de fora do discurso: Venezuela. Fontes em Brasília confirmaram ao UOL que, em versões preliminares, o tema havia sido incluído. Mas houve uma decisão política de nao fazer referência ao impasse em Caracas. Momentos depois, o presidente americano Joe Biden criticou Nicolas Maduro ao subir ao palco após o brasileiro.
Para uma ala dentro do Itamaraty, a Venezuela foi “a grande ausente do discurso”. Em versões anteriores da fala de Lula, a crise no país era citada, mas sem uma condenação ao presidente Maduro. A orientação era para que não houvesse, no discurso, nada que justificasse uma ruptura da possibilidade de diálogo.
Lula sai de Nova York tendo mandado uma mensagem clara de que se apresentará como porta-voz dos países em desenvolvimento. Mas, para além dos aplausos, nada garante que sua voz seja suficiente diante de um mundo profundamente polarizado e, como disse o secretário-geral da ONU, António Guterres, a “terra treme sob o pés” de cada líder.
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