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Mundo

Em Davos, Trump ameaça europeus e eleva tensão diplomática

Ao pressionar por Groenlândia presidente americano humilha aliados

Publicado em 21/01/2026 11:51 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Em um discurso que misturou bravatas, recuos calculados e recados diretos, Donald Trump voltou a tensionar relações com aliados históricos durante sua participação no Fórum Econômico Mundial, em Davos, nesta quarta-feira (21). Diante de líderes políticos e empresariais, o presidente norte-americano reafirmou o interesse estratégico dos Estados Unidos pela Groenlândia, ironizou a Europa, provocou o Canadá e lançou declarações controversas sobre imigração e geopolítica.

Trump afirmou que não pretende recorrer à força militar para assumir o controle da Groenlândia — território autônomo sob soberania da Dinamarca —, mas deixou claro que considera a ilha um ativo estratégico indispensável. “Não preciso usar força. Não quero usar força. Não usarei força”, disse, após admitir que os EUA seriam “imparáveis” caso optassem por uma ação militar.

O tom conciliador, contudo, foi rapidamente relativizado por uma advertência: países envolvidos teriam a opção de “dizer sim” — ou arcar com consequências futuras. “Vocês têm uma escolha: podem dizer sim, e vamos ficar muito agradecidos, ou podem dizer não, e nós vamos lembrar”.

Pressão sobre aliados e ataques retóricos

A retórica confrontacional se estendeu a outros parceiros tradicionais. Sobre o Canadá, Trump afirmou que o país “vive por causa dos Estados Unidos” e deveria demonstrar gratidão a Washington, em referência direta ao primeiro-ministro Mark Carney. Já a Europa foi descrita como um continente “fora da direção certa”, alvo de críticas às políticas migratórias, ambientais e comerciais.

As declarações repercutiram mal entre líderes europeus presentes. A presidente da Comissão Europeia reiterou que a soberania de países aliados “não está em negociação”. O presidente francês Emmanuel Macron foi mais direto, classificando a postura americana como sinal de “novo colonialismo” e alertando para o risco de ruptura na estabilidade transatlântica. Trump respondeu com deboche, dizendo que Macron “posou de durão” em Davos — e chegou a zombar publicamente de seu sotaque e de seus óculos, gesto visto como desrespeitoso por diplomatas.

Venezuela, imigração e revisionismo

Trump também recorreu à Venezuela para ilustrar sua visão de força como instrumento de negociação. Ao comentar a relação com Caracas, afirmou — sem apresentar provas — que o governo venezuelano estaria cooperando após ações de pressão dos EUA e elogiou acordos ligados à exploração de petróleo, apresentados por ele como benéficos aos venezuelanos. As falas repetiram a lógica de que concessões surgem apenas diante de demonstrações explícitas de poder.

No campo interno, o presidente atacou imigrantes da Somália em Minneapolis com comentários de cunho estigmatizante, sugerindo inferioridade intelectual e descrevendo o país africano como um “Estado fracassado”. As declarações reforçaram críticas recorrentes de organizações de direitos humanos ao discurso discriminatório do mandatário.

Houve ainda espaço para revisionismo histórico. Ao se dirigir aos europeus, Trump afirmou que os Estados Unidos “salvaram” o continente do nazismo e que, sem os americanos, “estariam falando alemão”. Em seguida, exaltou supostos êxitos econômicos de seu governo, alegando — sem dados — tratar-se do “maior crescimento que um país já teve”.

 

Clima de crise transatlântica

O discurso ocorreu em meio ao momento mais delicado das relações entre EUA e Europa em anos. Integrantes do governo Trump chegaram a classificar a Dinamarca como “irrelevante”, enquanto líderes europeus discutem abandonar a cautela diplomática diante do que veem como escalada de agressividade da Casa Branca. Segundo a Bloomberg, a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, deixou um jantar restrito após críticas do secretário de Comércio dos EUA à Europa.

Autoridades europeias tentaram manter canais de diálogo abertos. O comissário de Comércio da União Europeia reuniu-se com representantes americanos em Davos e defendeu negociações “respeitosas e maduras”, sem descartar contramedidas. Uma reunião prevista entre Trump e o chanceler alemão Friedrich Merz acabou cancelada por atrasos na chegada do presidente americano.

A mensagem por trás da Groenlândia

Ao negar o uso da força enquanto exibe a superioridade militar dos EUA, Trump transmitiu um recado que vai além da Groenlândia. A lógica exposta em Davos sugere que, no mundo que propõe, a soberania é negociável quando confrontada com poder econômico e militar. Não se trata apenas de comprar um território, mas de impor uma ordem baseada no medo de quem detém “a maior pistola”.

Para os europeus, o dilema é evidente: ceder pode significar anos de subordinação; resistir, o risco de retaliações comerciais e políticas. Davos, tradicional palco do multilateralismo, tornou-se desta vez o cenário de um aviso pouco diplomático — e difícil de ignorar.


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