13/06/2024 - Edição 540

Mundo

Em ato mais forte contra Israel, Lula retira embaixador de forma definitiva

Um milhão de palestinos fugiram de Rafah, diz ONU

Publicado em 29/05/2024 10:51 - Jamil Chade (UOL), DW, Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On

Divulgação Foto: Abed Rahim Khatib/Anadolu via Getty Images

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Num decreto publicado hoje (29), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nomeou o embaixador do Brasil Frederico Meyer como representante do país na Conferência de Desarmamento da ONU. Com essa decisão, o diplomata é retirado de forma definitiva de Israel, posto que ocupava até fevereiro.

O decreto não indica um substituto para Meyer, em Tel Aviv.

O ato não significa uma ruptura completa de relações diplomáticas com Israel. Mas é o gesto mais forte já tomado pelo Brasil contra o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

A embaixada será, a partir de agora, liderada apenas pelo encarregado de Negócios, reduzindo a importância da representação. Diplomaticamente, é um sinal aos israelenses do grau de prioridade e de relevância que o governo Lula quer manter com o governo Netanyahu.

A retirada ocorre às vésperas de uma decisão do Tribunal Penal Internacional sobre o pedido de sua procuradoria para emitir uma ordem de prisão contra Netanyahu por crimes de guerra e crimes contra a humanidade. O chefe de governo de Israel ainda vem enfrentando críticas de organizações internacionais e de líderes mundiais, como Emmanuel Macron, que denunciaram as mortes de palestinos.

Conforme o UOL revelou na semana passada, Meyer voltou para Israel, depois de três meses da pior crise diplomática entre os dois países. Em fevereiro, por conta de comentários de Lula sobre a Segunda Guerra Mundial e a situação em Gaza, Israel declarou o presidente como “persona non grata”. Chamou também Meyer e exigiu que o brasileiro pedisse desculpas, o que jamais ocorreu.

A reprimenda de Israel ocorreu no Museu do Holocausto, em hebraico e diante do embaixador. O ato foi considerado no Itamaraty como uma “humilhação”. Dias depois, para demonstrar insatisfação, Lula convocou de volta para Brasília o diplomata, oficialmente para consultas.

Na semana passada, porém, ele retornou para Israel e, nos últimos dias, chegou a assinar telegramas oficiais aos demais embaixadores brasileiros, indicando que estava em Tel Aviv. Mas em nenhum momento comunicou ao governo de Israel que estava de volta ao posto. Ele, portanto, não reassumiu.

Agora, no Diário Oficial, Lula nomeia Frederico Meyer para o “cargo de representante do Brasil junto à Conferência do Desarmamento, na Suíça, removendo-o da Embaixada do Brasil em Tel Aviv para a Missão Permanente do Brasil junto à ONU”.

Ainda que tenha um papel estratégico, a Conferência do Desarmamento vive uma completa paralisia nos últimos 20 anos, chegando a ser alertada por António Guterres, secretário-geral da ONU, sobre o risco de um órgão viver tal situação.

O cargo, até agora, era ocupado pelo embaixador Flávio Damico.

Um milhão de palestinos fugiram de Rafah, diz ONU

Cerca de um milhão de pessoas fugiram da cidade de Rafah, em Gaza, nas últimas três semanas, informou ontem (28) a agência das Nações Unidas para os refugiados palestinos (UNRWA).

Sob ataque terrestre das forças israelenses desde o início deste mês, a pequena cidade no extremo sul da Faixa de Gaza estava abrigando mais de um milhão de palestinos que fugiram dos ataques israelenses em outras partes do exclave.

Os militares israelenses estão realizando o que dizem ser uma “operação limitada” em Rafah para matar combatentes e desmantelar a infraestrutura usada pelo Hamas, que administra Gaza. O governo israelense disse aos civis para eles irem para uma “zona humanitária ampliada” a cerca de 20 quilômetros de distância.

Muitos palestinos reclamam que estão vulneráveis a ataques israelenses onde quer que vão e têm se deslocado para cima e para baixo na Faixa de Gaza nos últimos meses.

A UNRWA disse que a fuga de Rafah vem ocorrendo “sem nenhum lugar seguro para ir e em meio a bombardeios, falta de comida e água, pilhas de lixo e condições de vida inadequadas”.

Fuga entre bombas e tanques 

Centenas se arriscam nas estradas de Rafah, fugindo da expansão do ataque terrestre de Israel, com mais bombardeios, tanques no centro da cidade e militares posicionados em terrenos mais altos.

“Estamos em pânico e com medo”, disse à agência de notícias AFP Ihab Zorob, de 40 anos, do oeste de Rafah. “Nossos filhos e esposas não param de chorar. Os bombardeios na noite passada e durante toda a manhã foram intensos e severos”, afirmou. “Ver as pessoas fugindo nos deixou com mais medo, por isso decidimos procurar abrigo em Al-Mawasi (na costa). Espero que encontremos espaço por lá.”

Nesta terça-feira, repórteres da AFP viram pessoas carregando os pertences que podiam enquanto fugiam de Tal al-Sultan, no oeste de Rafah, onde um ataque no domingo que, segundo Israel, tinha como alvo o Hamas, matou 45 pessoas, de acordo com autoridades palestinas.

Os mais afortunados transportavam pilhas de colchões e cobertores e dezenas de crianças na traseira de caminhões, enquanto outros carregavam o que puderam em sacos de lixo ou caminhavam com colchões enrolados na cabeça.

Na cidade vizinha de Khan Yunis, no sul do país, os repórteres da AFP viram pilhas de travesseiros, colchões e sacos de roupas cobrindo uma área arenosa para onde as pessoas que fugiam de Khan Yunis estavam sendo levadas.

“Drones atacam qualquer um que se mova”

Yasser Adwan, um morador de 22 anos do oeste de Rafah, disse que “os drones israelenses atacavam qualquer pessoa que se mova ou ande pelas ruas de Rafah”.

Ele relatou que várias vítimas foram “deixadas deitadas na rua” porque as equipes de defesa civil não puderam retirá-las por medo de serem elas mesmas alvejadas.

O Ministério da Saúde da Faixa de Gaza, administrada pelo Hamas, disse em comunicado que os bombardeios israelenses dentro e ao redor das instalações de saúde na província deixaram apenas uma ainda em funcionamento.

Apenas o Hospital Maternidade Tal Al-Sultan ainda estaria “tentando continuar prestando serviços aos pacientes na província de Rafah”.

Várias testemunhas relataram que tanques israelenses se posicionaram em uma colina em Tal Zorob, perto da fronteira com o Egito.

Os militares de Israel disseram em um comunicado que suas forças realizaram operações no Corredor Philadelphi, uma faixa de terra ao longo da fronteira egípcia e perto de Tal Zorob, na noite de segunda-feira.

O governo disse que eles estavam “conduzindo atividades operacionais precisas com base em informações de inteligência que indicavam a presença de alvos terroristas na área”.

A agência de defesa civil de Gaza relatou as dificuldades enfrentadas pelas equipes de ambulância para chegar às “casas sitiadas e evacuar os feridos” na vizinha Praça Zorob, principalmente devido a “drones quadricópteros” israelenses que teriam atacado as equipes em três ocasiões.

Uma fonte de segurança de Gaza disse à AFP nesta terça-feira que tanques israelenses também chegaram à “área central de Rafah”.

A linha vermelha traçada pelos EUA para Israel sempre muda de lugar

Para Israel, disse o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, foi “um erro trágico” das Forças de Defesa do país o ataque aéreo a um acampamento perto da cidade de Rafah, no Sul da Faixa de Gaza, que matou pelo menos 45 palestinos no último domingo (26), ferindo mais de 80. O incêndio provocado reduziu a cinzas uma dezena deles.

Mas para o governo dos Estados Unidos, o ataque não constituiu uma operação militar capaz de cruzar qualquer linha vermelha traçada por ele para Israel. A linha vermelha fica sempre adiante de qualquer ação de Israel reputada como criminosa e inaceitável pela comunidade internacional. O maior aliado de Israel não liga para isso.

John Kirby, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional norte-americano, afirmou que os Estados Unidos não estão a “fechar os olhos” à situação dos civis palestinos: “Israel disse que foi um erro trágico e que está sendo investigado”. Por ora, é o que basta para o governo assaz tolerante do presidente Joe Biden.

Perguntado sobre a presença, ontem (28), de tanques israelenses em Rafah, Kirby respondeu: “Não os vimos entrar com grandes unidades, grande número de tropas, em colunas e formações, numa espécie de manobra coordenada contra múltiplos alvos no terreno. Foi um ataque de âmbito limitado”. Tudo bem, então. Avante!

A fala de Kirby se deu horas antes de o Ministério da Saúde de Gaza anunciar que 21 pessoas foram mortas por Israel em um campo de deslocados palestinos na parte ocidental de Rafah, ontem, e que 64 ficaram feridas. Esse campo está em uma área considerada “segura” pelas Forças de Defesa de Israel. Ali, os palestinos deveriam se abrigar.

Uma avaliação interna da ONU, enviada a governos de todo o mundo, estima que, mais de oito meses depois do início da guerra em Gaza, há uma “escala sem precedentes de destruição e perda de vidas de civis”. Informa a ONU:

* Mais de 5% por cento da população de Gaza foi morta, ferida ou está desaparecida;

* Pelo menos 3.000 mulheres ficaram viúvas;

* Pelo menos 10 mil crianças ficaram órfãs;

* Mais de 17 mil crianças estão desacompanhadas ou separadas de suas famílias;

* Mais de 1 milhão de pessoas perderam suas casas, quase metade da população de Gaza.

De acordo com a ONU, as crianças enfrentam situações cada vez mais perigosas para tentar encontrar alimentos, água e madeira. Os riscos associados à violência de gênero aumentaram, com oportunidades limitadas para os sobreviventes dessas agressões obterem apoio.

Há várias indicações de “um aumento extremamente preocupante de detenções em massa e arbitrárias”, com “sérias preocupações de detenções incomunicáveis e desaparecimentos forçados”. No total, 36 mil palestinos morreram até aqui, e 81 mil se feriram.

É o horror, horror, que a maior potência do planeta, a única capaz de parar a guerra, finge não ver. Biden cava sua sepultura a seis meses das eleições que poderão devolver a Casa Branca a Donald Trump.


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