Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Mundo
Corte de subsídios, desemprego, congelamento salarial e escândalos de corrupção corroem apoio popular
Publicado em 25/10/2025 11:03 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
O presidente argentino Javier Milei chega às eleições legislativas de meio de mandato, neste domingo (26), pressionado por uma crise social profunda, queda acentuada na popularidade e escândalos de corrupção envolvendo aliados próximos — inclusive sua irmã e braço-direito Karina Milei. Com metade da Câmara e um terço do Senado em disputa, o pleito representa não apenas uma tentativa do governo de ampliar sua base parlamentar, mas também um teste direto de sobrevivência política.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
Eleito com promessas de “extirpar a casta” e “refundar a Argentina”, Milei entregou, até aqui, uma agenda centrada em cortes brutais, decretos unilaterais e desmonte de políticas públicas. A conta, porém, tem sido paga pelos setores mais vulneráveis da sociedade argentina: desemprego em alta, congelamento de salários e queda generalizada do poder de compra.
“Há uma desconexão total entre o discurso oficial do presidente e a realidade na qual vive a maioria dos argentinos”, resume o cientista político Alejo Pasetto, em entrevista ao ICL Notícias.
Austeridade sem rede de proteção
No primeiro ano de mandato, Milei aprovou sua chamada “Lei de Bases” — em versão diluída —, mas, sem maioria no Congresso, passou a governar por decretos. Entre as medidas adotadas: cortes de subsídios, revogação de legislações trabalhistas e desregulação de setores estratégicos da economia. O custo dessa radicalização fiscal foi imediato. Estima-se que 500 mil empregos tenham sido eliminados nos primeiros 18 meses de governo, segundo a consultoria Equilibra.
A promessa de “equilíbrio macroeconômico” tampouco convenceu. Embora a inflação mensal tenha recuado de 25% para cerca de 2%, os dados sociais seguem alarmantes: desemprego chegou a 7,6%, aposentados perderam 12% de poder de compra, e servidores públicos federais acumularam perdas salariais reais de até 35%.
Na vida real, o resultado é um país exausto. Adriana Romero, 32 anos, representa bem essa nova classe trabalhadora precarizada: “O salário não alcança. Tenho praticamente quatro trabalhos”, relata. De dia, atua em uma concessionária; à noite, conserta celulares, vende perfumes por catálogo e administra redes sociais de uma pizzaria. Ela não é exceção.
Voto de castigo ou de resignação
A eleição de domingo será, portanto, uma espécie de referendo informal da gestão Milei — não por acaso, ele mesmo tenta transformá-la em uma reafirmação de seu mandato. Ainda que o governo projete ampliar sua presença no Congresso, analistas como Sergio Morresi, do Conicet (Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas), consideram improvável uma vitória expressiva.
“Tudo indica que, se o governo vencer, será uma vitória pequena. Manter a atual bancada já seria um êxito”, avalia Morresi.
A avaliação geral é de que a campanha de Milei se sustenta cada vez mais em símbolos, como a figura de Donald Trump, e menos em resultados concretos. Ainda assim, o presidente insiste em apresentar-se como aliado estratégico do republicano, numa tentativa de reforçar seu discurso “anti-establishment” e buscar oxigênio externo para seu governo.
Segundo o analista Facundo Cruz, ouvido pelo UOL, essa estratégia tem impacto limitado: “Essa será uma eleição de voto econômico, não de política internacional”. Ele resume o cenário com precisão: “As pessoas olham o desemprego, a desigualdade, a queda no consumo. A estabilidade macroeconômica não basta para manter apoio nas urnas”.
Um Congresso frágil e um governo à deriva
Desde a redemocratização da Argentina, em 1983, nenhum governo teve tão pouca força legislativa quanto o de Milei. Sem articulação política estável, depende de alianças voláteis — como com o PRO, do ex-presidente Mauricio Macri — para manter sua agenda viva. Ao mesmo tempo, sofre com a desconfiança dos governadores e da opinião pública.
A tentativa de Milei de sustentar os vetos e impedir o avanço da oposição depende de alcançar cerca de um terço da Câmara (aproximadamente 89 cadeiras). Segundo Cruz, isso garantiria uma “estratégia defensiva” mínima. Abaixo disso, o cenário é de desgaste crescente e isolamento político.
“Jamais vimos um Javier Milei obrigado a negociar. Se perder, estaremos diante de algo novo e imprevisível: um Milei que terá de aceitar condições impostas por outros”, alerta Cruz.
A sombra do passado e o risco da abstenção
Enquanto o peronismo tenta se reorganizar após a derrota de 2023 e o desgaste de lideranças como Cristina Kirchner — condenada por corrupção —, parte significativa do eleitorado simplesmente se mostra desencantada. Em Buenos Aires, nas legislativas de setembro, quase 40% se abstiveram. Uma tendência que pode se repetir no domingo.
“A abstenção será o grande desafio. Muitos não votaram no peronismo em 2023 e tampouco se sentem motivados a apoiar Milei agora”, analisa Pasetto.
A possível polarização entre o partido de Milei (Liberdade Avança) e o peronismo (Força Pátria) pode, paradoxalmente, reduzir o espaço de forças moderadas, como a nova coalizão de centro, Províncias Unidas. Caso a soma entre os dois polos ultrapasse os 80% dos votos, analistas como Pablo Salinas comparam o cenário ao pré-2001 — ano do colapso institucional mais grave da história recente argentina.
Entre a retórica e o prato vazio
Nos últimos meses, Milei adotou uma estratégia “rockstar” para tentar reconquistar os jovens que o impulsionaram em 2023. Organizou shows e aparições públicas com linguagem provocadora, numa tentativa de reanimar seu núcleo duro de apoiadores. Mas os números mostram erosão: segundo levantamento citado por Cruz, Milei perdeu cerca de 10 pontos de apoio popular desde o início do ano — um ponto por mês.
Enquanto isso, a vida segue dura nas ruas. Gustavo, servidor público, resume o sentimento de muitos: “Um salário só não é suficiente. Sem dúvida, é o pior governo da história”. Para sobreviver, ele também dá aulas de tênis e espanhol. Um retrato da nova Argentina sob austeridade.
No fim, a eleição deste domingo será menos sobre ideologia e mais sobre sobrevivência. O ajuste liberal prometido por Milei produziu mais dor do que esperança. E é essa dor que os argentinos levarão às urnas.
Saiba como nova lei dos estrangeiros afeta brasileiros em Portugal
Deixe um comentário