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Mundo
Cavalgando mentiras, Trump atropelou um Biden rouco e tatibitate
Publicado em 28/06/2024 9:47 - Heloisa Villela (ICL Notícias), Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On
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Foi um debate difícil de acompanhar, o que se viu na quinta-feira (27), na CNN. O presidente Joe Biden, quase sem voz por causa de uma gripe recente, se perdeu em uma das primeiras perguntas que respondeu. Parecia ter esquecido do que estava falando. Donald Trump, já no fim da noite, negou novamente o resultado das eleições que perdeu para Biden. Na hora de responder se vai aceitar o resultado do pleito desse ano, ele afirmou que se for uma eleição justa e limpa, com certeza, “mas a quantidade de fraudes da última vez foi ridícula”, disse.
Reescrevendo a história sem constrangimentos, Trump negou qualquer responsabilidade pela invasão do Capitólio, no dia 6 de janeiro de 2020, e garantiu que ofereceu reforço na segurança, mas a prefeita do Distrito de Columbia não aceitou. “Você ficou sentado no escritório oval por 3 horas sem fazer nada! E vários assessores imploraram para você fazer algo, parar aquilo”, disse Biden, em um dos poucos momentos de confronto direto entre os dois candidatos.
No estilo de sempre, Trump martelou, do começo ao fim, a ideia de que o grande problema do país hoje é a imigração: “eles vão acabar com o nosso país. Estão tomando os empregos dos negros e dos hispânicos”. Ele ainda acusou Joe Biden de abrir as fronteiras dos Estados Unidos para presidiários e pacientes de hospitais psiquiátricos que estupram e matam as mulheres do país.
Biden se animou e respondeu com rapidez e eficiência as perguntas sobre o direito ao aborto e a saída para financiar o social security, a seguridade social, que paga as aposentadorias e os programas de saúde dos idosos: “fazer com que os milionários paguem a parte deles”. Biden aproveitou para lembrar que Trump adotou um corte de impostos que favoreceu os mais ricos enquanto Trump defendeu que cortar impostos gera empregos.
Há dois anos a Suprema Corte dos Estados Unidos acabou com a garantia de acesso ao aborto no país, uma mudança na lei que vigorou por 51 anos. Na época, Trump comemorou e tomou crédito pela medida, já que colocou na corte três juízes conservadores que votaram pelo fim do direito. Mas diante da reação negativa da maior parte da população, tem tentado mudar de posição. Diz que respeita as decisões das pessoas, mas defende que o assunto deve ser decidido nos estados. Biden foi enfático: o aborto é uma decisão a ser tomada pela mulher e pelo médico dela e não pelos políticos, disse.
Debate não aprofundou assuntos
O formato do programa, criado pela rede CNN, tornou o debate um ping pong acelerado, sem chance de aprofundar os assuntos e raramente permitiu contrastar as ideias do republicano e do democrata. Mas os dois encontraram brechas para reagir. Biden chamou Trump de mentiroso várias vezes. E quando não pode falar ou desmentir o adversário, riu um bocado, debochando.
Trump fez o de sempre: falou dos quatro anos que passou à frente do governo como os melhores da história do país. Tanto na situação da economia doméstica como nas relações internacionais. Ele garantiu que se fosse presidente, a guerra na Ucrânia não teria começado porque ele não deixaria Vladimir Putin invadir o país. Quanto ao genocídio em Gaza, Biden disse que Israel precisa acabar com o Hamas e Trump não respondeu se aceitaria a criação de um Estado palestino para pacificar a região.
Biden trouxe à tona a condenação de Trump. Ele será sentenciado no dia 11 de julho pelas 34 condenações relativas ao caso que teve com a atriz pornô Stormy Daniels. O presidente apresentou o adversário como um condenado que é um perigo para a economia, para a classe média e para as relações internacionais, além de ter incentivado uma tentativa de golpe de estado. Trump destacou a dificuldade de articulação de Biden. “Não entendi o que ele disse e acho que nem ele sabe o que queria dizer”, afirmou.
No fim da hora e meia de debate, a impressão é de que as expectativas negativas se confirmaram dos dois lados. Joe Biden terá 86 anos no fim do mandato, se for reeleito. Aparentemente, não estava bem disposto. Trump mentiu como já se esperava e dificilmente um dos dois ganhou votos neste primeiro debate. Vamos ver como vai ser o segundo, no dia 10 de setembro.
Reeleger um caduco ou ressucitar um mentiroso golpista
O debate entre Joe Biden, 81, e Donald Trump, 78, produziu duas conclusões irrefutáveis e duas interrogações tenebrosas.
Primeiro, as conclusões: 1) Foi um confronto medíocre. 2) Cavalgando mentiras, Trump atropelou um Biden rouco e tatibitate.
Agora, as perguntas: 1) Quem vence um debate ordinário é melhor ou pior do que quem perde? 2) Obrigado a escolher o menor de dois males, o eleitor dos Estados Unidos deve reeleger o caduco ou ressuscitar o mentiroso golpista?
Trump fez o que se esperava dele. Pelas contas do New York Times, pronunciou pelo menos 15 declarações falsas, já descontadas as afirmações enganosas, exageradas ou descontextualizadas.
Biden desperdiçou sua melhor oportunidade para espantar a maledicência da senilidade e reativar a percepção de que o rival é uma ameaça democrática. Revelou-se um favorito não à Casa Branca, mas aos memes das redes sociais.
Enquanto o rival mentia e desconversava com o destemor habitual, Biden abusava da gagueira e dos raciocínios confusos. A certa altura, sofreu um apagão mental que o impediu de concluir um raciocínio sobre sistema de saúde.
A ausência de renovação da política americana é um sintoma desagradável. O eventual retorno de Trump à Casa Branca, hipótese cada vez menos negligenciável, daria contornos de realidade à especulação segundo a qual os Estados Unidos conspiram a favor de sua própria decadência.
Num cenário polarizado, a decisão entre a reeleição de Biden ou a volta de Trump está nas mãos dos americanos indecisos —algo como 20% do eleitorado. Resta torcer para que percebam que a diferença entre a aversão de Trump à democracia e a senilidade de Biden é que o golpismo não pode ser medicado.
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