Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Mundo
Imprensa visita hospital de Beirute e não encontra bunker do Hezbollah: norte de Gaza está sem água, comida e assistência médica
Publicado em 24/10/2024 10:42 - Jamil Chade (UOL), Lucas Pordeus León (Agência Brasil) - Edição Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
A declaração final da cúpula do Brics faz duras denúncias contra o governo de Israel, omite o Hamas e poupa o governo de Vladimir Putin por causa da invasão da Ucrânia.
Liderada em 2024 pelo Kremlin, a aliança teve sua cúpula realizada na terça-feira (22), em Kazan. Além de russos e iranianos, fazem parte do bloco África do Sul, Arábia Saudita, China, Índia, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos e Brasil.
CLIQUE AQUI E SIGA A SEMANA ON NO INSTAGRAM
Depois de sofrer um acidente doméstico, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, não viajou à Rússia e participou apenas por videoconferência. Em seu discurso, e diante de Putin, Lula insistiu sobre o impacto das guerras sobre inocentes.
“Como disse o presidente [turco Recep] Erdogan na Assembleia Geral da ONU, Gaza se tornou ‘o maior cemitério de crianças e mulheres do mundo’. Essa insensatez agora se alastra para a Cisjordânia e para o Líbano”, disse Lula.
Ele falou que “evitar uma escalada e iniciar negociações de paz também é crucial no conflito entre Ucrânia e Rússia”. “No momento em que enfrentamos duas guerras com potencial de se tornarem globais, é fundamental resgatar nossa capacidade de trabalhar juntos em prol de objetivos comuns”, completou.
Mas a declaração final do encontro revela um tratamento diferente das duas guerras mencionadas por Lula.
O bloco não tomou posição sobre a guerra entre Ucrânia e Rússia e, na declaração final da cúpula, o texto apenas cita que cada país mantém suas posições nacionais, sem dizer quais são.
“Recordamos as posições nacionais relativas à situação na Ucrânia e em seus arredores, conforme expressas nos fóruns apropriados, incluindo o Conselho de Segurança da ONU e a Assembleia Geral da ONU”, afirma.
“Enfatizamos que todos os Estados devem agir de forma consistente com os Propósitos e Princípios da Carta da ONU em sua totalidade e interrelação. Observamos com apreço as propostas relevantes de mediação e bons ofícios, visando uma resolução pacífica do conflito por meio do diálogo e da diplomacia”, diz a declaração, sem qualquer referência explícita à invasão por parte de Putin.
Denúncia contra Israel e omissão sobre Hamas e Hezbollah
No que se refere ao Oriente Médio, o bloco reitera a “grave preocupação com a deterioração da situação e a crise humanitária no Território Palestino Ocupado, em especial, com a escalada sem precedentes da violência na Faixa de Gaza e na Cisjordânia como resultado da ofensiva militar israelense, que resultou em mortes e ferimentos em massa de civis, deslocamentos forçados e destruição generalizada da infraestrutura civil”.
O bloco pede um “cessar-fogo imediato, abrangente e permanente na Faixa de Gaza, a libertação imediata e incondicional de todos os reféns e detidos de ambos os lados que estão sendo mantidos ilegalmente em cativeiro e o fornecimento sustentável e em escala de ajuda humanitária para a Faixa de Gaza, além da cessação de todas as ações agressivas”.
Mas não cita nominalmente o Hamas e nem condena o grupo palestino.
O foco é a ação do governo de Benjamin Netanyahu. “Denunciamos os ataques israelenses contra operações humanitárias, instalações, pessoal e pontos de distribuição. Para esse fim, pedimos a implementação total das resoluções 2712 (2023), 2720 (2023), 2728 (2024) e 2735 (2024) do Conselho de Segurança das Nações Unidas”, disseram os dez países do Brics.
Para o bloco, o “agravamento do conflito na Faixa de Gaza alimenta a tensão, o extremismo e as graves consequências negativas em nível regional e global”. “Pedimos a todas as partes relevantes que ajam com a máxima moderação e evitem ações de escalada e declarações provocativas”, pede.
O texto ainda diz que os membros do Brics:
Reconhecem as medidas provisórias da Corte Internacional de Justiça nos procedimentos legais instituídos pela África do Sul contra Israel.
Reafirmam o apoio à adesão plena do Estado da Palestina às Nações Unidas no contexto do compromisso inabalável com a visão da solução de dois Estados com base no direito internacional, incluindo as resoluções relevantes do Conselho de Segurança da ONU e da AGNU e a Iniciativa de Paz Árabe, que inclui o estabelecimento de um Estado da Palestina soberano, independente e viável, de acordo com as fronteiras internacionalmente reconhecidas de junho de 1967, com Jerusalém Oriental como sua capital, vivendo lado a lado em paz e segurança com Israel.
Líbano e sem referências ao Hezbollah
Outro ponto de estaque é a “preocupação” do Brics com a situação no sul do Líbano. “Condenamos a perda de vidas civis e os imensos danos à infraestrutura civil resultantes dos ataques de Israel em áreas residenciais no Líbano e pedimos a cessação imediata dos atos militares”, disseram, sem citar o Hezbollah.
“Enfatizamos a necessidade de preservar a soberania e a integridade territorial do Estado do Líbano e de criar condições para uma solução política e diplomática, a fim de salvaguardar a paz e a estabilidade no Oriente Médio, ao mesmo tempo em que ressaltamos a importância da estrita observância das resoluções 1701 (2006) e 2749 (2024) do CSNU”, afirmam.
O bloco ainda “condena veementemente os ataques ao pessoal da ONU e as ameaças à sua segurança” e pede a Israel que “cesse imediatamente essa atividade”.
O texto ainda critica os “ataques terroristas ligados a recursos de tecnologia”. “Nesse sentido, condenamos o ato terrorista premeditado de detonação de dispositivos de comunicação portáteis em Beirute em 17 de setembro de 2024, que resultou na perda de vidas e no ferimento de dezenas de civis. Reiteramos que esses ataques constituem uma grave violação do direito internacional”, afirma.
O bloco ainda “condena o ataque contra as instalações diplomáticas da República Islâmica do Irã na capital da Síria, Damasco, por Israel, em 1º de abril de 2024, que constitui uma violação do princípio fundamental da inviolabilidade das instalações diplomáticas e consulares nos termos da Convenção de Viena de 1961 sobre Relações Diplomáticas e da Convenção de Viena de 1963 sobre Relações Consulares”.
Imprensa visita hospital de Beirute e não encontra bunker do Hezbollah
Veículos de imprensa internacionais não encontraram qualquer bunker ou estrutura do Hezbollah no subsolo do Hospital Al-Sahel, em Beirute, no Líbano. A mídia inglesa BBC e a mídia alemã DW estavam entre os veículos que visitaram o hospital depois que Israel afirmou que o local era usado para esconder milhões em dinheiro e ouro do grupo Hezbollah. A direção da unidade de saúde negou as acusações.
“Nada foi encontrado”, afirmou o âncora da mídia pública germânica. A direção do hospital permitiu que os jornalistas percorressem o interior da unidade. “Posso confirmar que não vimos nenhuma infraestrutura suspeita durante nossa estadia e durante esta visita ao hospital”, disse o repórter Mohamad Chreyteh, acrescentando que a todo momento ouvia os caças israelenses cruzando o céu acima do hospital.
Após as acusações de Israel, equipes e pacientes foram retirados do local devido ao medo de bombardeios. Na Faixa de Gaza, hospitais foram atacados por Israel sob o argumento de que escondiam grupos militantes da resistência palestina.
A mídia pública inglesa BBC também enviou uma repórter ao Hospital Al-Sahel, em Beirute. “A área logo atrás de mim é onde o lixo médico é armazenado. Até isso foi aberto para darmos uma olhada. O necrotério foi aberto, todas as gavetas foram abertas para nos mostrar que não havia nada dentro”, disse a jornalista da BBC, Orla Guerin.
Ainda segundo a profissional, os médicos estavam ansiosos por mostrar que não havia qualquer bunker do Hezbollah no local e que os jornalistas puderam andar por conta própria dentro do prédio, sem serem conduzidos por qualquer funcionário do local. “Portas foram abertas para nós em todas as áreas, armários. Fomos autorizados a ver o que há para ver. Agora, a equipe do hospital está inflexível de que não há nenhum bunker escondido”, finalizou.
Local errado
Enquanto os jornalistas visitavam o local, o porta-voz do Exército de Israel, Nadav Shoshani, informou em uma rede social que eles estavam procurando no local errado e que provavelmente o Hezbollah está escondendo a entrada do bunker. “Com base em informações de inteligência, a entrada para o bunker, que armazena meio bilhão de dólares em dinheiro e ouro, fica neste prédio no lado leste do subsolo”, informou o militar israelense.
Após esse informe de Israel, o repórter da DW Mohamad Chreuteh foi ao prédio comercial ao lado do hospital e desceu em uma escada até um estacionamento onde também não encontrou qualquer estrutura suspeita.
“O estacionamento está realmente vazio. Há apenas alguns carros aqui e não há acesso para dentro e para fora, além da entrada principal por onde entramos aqui. Há apenas esta sala dentro do estacionamento”, afirmou na reportagem.
Norte de Gaza está sem água, comida e assistência médica, diz ONU
A intensificação do bloqueio de Israel no norte da Faixa de Gaza nas últimas três semanas fez com que a região ficasse sem água, comida e assistência médica. Segundo a Agência para Refugiados Palestinos das Nações Unidas (UNRWA), que tem equipes trabalhando no norte de Gaza, Israel não tem permitido a entrada de ajuda humanitária no território.
O chefe da agência da ONU, Philippe Lazzarini, disse na terça-feira (22) que já são três semanas de bombardeios ininterruptos de Israel no norte do enclave.
“Nossos funcionários relatam que não conseguem encontrar comida, água ou assistência médica. O cheiro da morte está em todo lugar, com corpos sendo deixados nas estradas ou sob os escombros. Missões para limpar os corpos ou fornecer assistência humanitária são negadas”, afirmou Lazzarini em uma rede social.
Em nota divulgada também nesta terça-feira, Israel rebateu a informação da ONU e disse que permitiu a entrada de cerca de 230 caminhões com alimentos, água e suprimentos médicos para o norte de Gaza. Segundo a ONU, anteriormente, entravam em média 500 caminhões com mercadorias, por dia, em Gaza.
Estima-se que dezenas de milhares de palestinos ainda estejam no norte do enclave. A agência da ONU vem fazendo apelos sistemáticos para que Israel permita a entrada de assistência humanitária no local. A UNRWA informou ainda que as pessoas que tentam fugir da região são mortas e os corpos deixados na rua e que não são autorizadas missões para resgatar feridos embaixo dos escombros.
“No norte de Gaza, as pessoas estão apenas esperando para morrer. Eles se sentem abandonados, sem esperança e sozinhos. Eles vivem de uma hora para a outra, temendo a morte a cada segundo”, completou Lazzarini.
O alto-representante da União Europeia (UE) para negócios estrangeiros, Josep Borrell Fontelles, também se manifestou sobre a situação no norte da Faixa de Gaza. Segundo a autoridade europeia, os relatos da região são horríveis e pediu que observadores internacionais e os meios de comunicação tenham acesso ao local.
“O sofrimento humano causado pela fome provocada pelo homem e pelo deslocamento forçado não pode ser justificado. Condeno o pesado bombardeio e a destruição de instalações da UNRWA”, afirmou hoje Fontelles em uma rede social.
Após as novas denúncias da UNRWA, o governo de Israel publicou uma nota dizendo que permitiu a entrada de 237 caminhões com alimentos, água e suprimentos básicos desde a segunda feira da semana passada, dia 14 de outubro, “como parte dos esforços para entregar ajuda humanitária ao norte da Faixa de Gaza”.
“[Israel] continuará a agir de acordo com a lei internacional para facilitar e facilitar a resposta humanitária à Faixa de Gaza”, completou o comunicado.
Cerco a hospitais
O Escritório da ONU para Assuntos Humanitários (Ocha) tem denunciado ataques e cercos a unidades de saúde no norte da Faixa de Gaza. Segundo a organização, dois dos três hospitais que restam foram diretamente atingidos.
“Nas últimas duas semanas, as forças israelenses aumentaram a pressão sobre esses hospitais para que fossem evacuados, mas os pacientes não tinham para onde ir. No hospital indonésio, dois pacientes morreram devido a uma queda de energia e falta de suprimentos; alguns funcionários médicos tiveram que fugir para salvar suas vidas. A instalação não está mais operacional”, alertou Muhannad Hadi, coordenador humanitário da Ocha para o Território Palestino Ocupado.
Deixe um comentário