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Mundo
Decisão dos EUA de suspender repasses a agências da ONU mergulha o mundo crise
Publicado em 08/05/2025 11:39 - Semana On
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Num momento histórico marcado por desigualdades abissais, crises humanitárias persistentes e uma pandemia ainda recente que evidenciou a interdependência global, a decisão dos Estados Unidos — sob a liderança de Donald Trump — de suspender bilhões de dólares em repasses a agências da ONU pode ser descrita como um atentado silencioso contra os direitos humanos universais. Em vez de mísseis, são orçamentos que colapsam; em vez de tiros, é a ausência de seringas, bolsas de sangue e alimentos. O resultado? Hospitais fechando, clínicas desmontadas, profissionais de saúde demitidos — e vidas perdidas.
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Nos corredores da ONU, o efeito dominó é devastador. A Agência da ONU para População (UNFPA) anunciou que só conseguirá pagar por 47% das 3.500 parteiras previstas para atuação nos países mais pobres do mundo em 2025. Enquanto isso, duas mil mulheres continuam morrendo por dia no parto ou por complicações da gravidez, e o número já dá sinais de crescimento. No Iêmen, mais de 590 mil mulheres em idade fértil devem ficar sem assistência de uma parteira. Na República Democrática do Congo, o diretor de um hospital alerta: “estamos com falta de tudo”.
A tragédia se estende. O Programa Mundial de Alimentos, vencedor do Prêmio Nobel da Paz, será obrigado a cortar 6 mil postos de trabalho, o que já provoca protestos violentos em campos de refugiados como Kakuma, no Quênia, onde rações foram drasticamente reduzidas. E a UNAIDS, que coordena o combate global à Aids, aponta uma estimativa alarmante: 2 mil novas infecções por HIV por dia e 6,3 milhões de mortes adicionais até 2029, se o financiamento americano não for retomado.
A ideologia da austeridade e a morte como política externa
A justificativa para a suspensão dos recursos? A retórica do “America First”, aplicada de forma implacável à política internacional. Em nome de uma suposta racionalização dos gastos públicos e combate a fraudes — jamais comprovadas com dados concretos —, Trump congelou repasses que historicamente sustentaram mais de 35% dos orçamentos de agências como a UNAIDS, UNFPA e o ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados). Como resultado, essas entidades enfrentam a maior crise financeira de sua história, justo quando completam 80 anos de existência.
“Os chefes de nossas agências humanitárias estão sendo forçados a tomar decisões impossivelmente dolorosas”, declarou Stephane Dujarric, porta-voz de António Guterres. “Esses cortes ocorrem num momento em que os gastos militares atingem novamente níveis recordes.” E de fato: o mundo destinou US$ 2,8 trilhões em armas em 2024 — o maior montante desde a Guerra Fria.
A filósofa Judith Butler, ao refletir sobre as “vidas precárias”, argumenta que as estruturas de poder decidem quem merece viver e quem pode morrer sem escândalo. A retirada dos EUA, nesse contexto, não é apenas uma decisão fiscal. É uma decisão de soberania sobre vidas alheias — vidas que não contam, porque não votam, não consomem, não ameaçam os interesses geopolíticos do Ocidente.
O desmonte programado de uma arquitetura humanitária
A arquitetura humanitária global da ONU é baseada no princípio da cooperação internacional solidária, formulada após os horrores da Segunda Guerra Mundial. Criada em 1945, a ONU busca impedir que as tragédias humanitárias do século XX se repitam no século XXI. Porém, sua capacidade de ação depende essencialmente da boa vontade dos países que a compõem — sobretudo das potências que mais contribuem com recursos.
O que se observa agora, com o corte de fundos pelos EUA, é uma hemorragia institucional em escala planetária:
– O Programa Mundial de Alimentos perde quase metade de seu orçamento.
– O ACNUR já admite que poderá operar com apenas um terço de sua capacidade atual.
– A Organização Internacional para as Migrações (OIM) anunciou corte de 30% de financiamento, afetando 6 mil funcionários e programas essenciais em zonas de guerra e rotas de refugiados.
– A Unicef anunciou que perderá 20% de seu orçamento e alertou: “os ganhos duramente conquistados e o progresso futuro das crianças estão em risco”.
– O UNAIDS, segundo sua diretora Winnie Byanyima, pode ver o número de mortes por HIV multiplicar-se por dez.
O humanitarismo como função estabilizadora global
O Alto Comissário para Refugiados, Filippo Grandi, foi enfático ao alertar ao Conselho de Segurança que a retirada das agências da ONU de zonas de crise terá efeitos não apenas sobre saúde e segurança alimentar, mas sobre a estabilidade geopolítica global. Como afirmou em reunião recente: “O impacto será sobre paz e segurança. Essas agências exercem funções estabilizadoras fundamentais nas regiões onde atuam.”
Grandi se refere a um fenômeno historicamente conhecido: a ausência de redes de proteção internacional em contextos frágeis alimenta conflitos, instabilidade política, crescimento de milícias e colapsos estatais. Do Sudão à Síria, da Venezuela ao Haiti, a presença de organizações humanitárias tem sido a única linha entre a sobrevivência e o caos.
O custo humano da geopolítica nacionalista
A decisão dos Estados Unidos de cortar fundos às agências da ONU escancara os limites do nacionalismo como doutrina de política externa. Se a lógica do “meu país primeiro” se transforma em abandono do resto do mundo, então as crises deixarão de ser apenas humanitárias — serão estruturais, incontroláveis, globais.
O economista Thomas Piketty, ao tratar das desigualdades globais, alerta que “sem uma cooperação internacional democrática, o século XXI corre o risco de repetir os erros do século XX.”
A ONU, apesar de seus limites, é ainda a principal trincheira civilizatória diante de tragédias evitáveis. E se a comunidade internacional não agir agora — para restaurar seus fundos, defender sua existência e proteger os mais vulneráveis — o mundo estará não apenas testemunhando, mas produzindo um genocídio orçamentário em tempo real.
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