13/06/2024 - Edição 540

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Condenação de Trump é histórica, mas ele ainda pode disputar a presidência

Decisão testará a fidelidade dos EUA à democracia

Publicado em 31/05/2024 9:50 - Ricardo Noblat (Metrópoles), Joseph Tanfani, Ned Parker e Peter Eisler (Reuters), Jamil Chade e Leonardo Sakamoto (UOL) - Edição Semana On

Divulgação Curtis Means - Piscina/Getty Images

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Por unanimidade, um júri popular considero o ex-presidente Donald Trump culpado em todas as 34 acusações das quais era alvo em um caso sobre falsificação de registros de negócios para encobrir um escândalo sexual de 2016.

Uma data histórica, que poderá tomar de Trump a condição de favorito para se reeleger presidente nas eleições de novembro próximo. O atual presidente Joe Biden deve estar rindo à toa.

Trump estava relativamente calmo quando o veredicto foi lido. A máscara de calma caiu quando ele, ao deixar o tribunal, manifestou-se pela primeira vez: “O verdadeiro veredicto será dado pelo povo em 5 de novembro. E eles sabem o que aconteceu aqui.”

O juiz Juan M. Merchan pode condenar o ex-presidente a até quatro anos de prisão. Outra opção é a liberdade condicional, que exigiria que Trump se reportasse regularmente a um oficial da justiça.

Qualquer punição poderá ser adiada quando Trump recorrer da condenação, o que ele fará. É improvável que qualquer recurso seja resolvido antes do dia da eleição, e assim ele permanecerá em liberdade até lá.

Neste século, Trump é a maior ameaça à democracia americana. Há quatro anos, ele incentivou seus fanáticos seguidores a invadir o Capitólio para impedir o anúncio oficial da vitória de Biden.

Não reconheceu sua derrota até hoje. E adianta que só reconhecerá os resultados das eleições deste ano caso vença. Eleito, sem sombra de dúvidas tentará implantar no país um regime autoritário.

O Brasil é o país do cambalacho, do acordo, do dá-se um jeito. Nos Estados Unidos, não há acordo quando você lesa o contribuinte. Que o diga o famoso gângster de Chicago Al Capone, e agora Trump.

Que o diga também a construtora Odebrecht, que nos Estados Unidos e na Suíça foi tratada com o rigor da lei, e aqui com a condescendência do Supremo Tribunal Federal, depois do enterro da Lava-Jato.

Uma coisa é certa, como escreve o “The New York Times” em sua edição de hoje: a condenação de Trump testará o povo americano e a fidelidade da nação ao Estado de Direito.

Apoiadores pedem tumultos e represálias violentas após condenação

Apoiadores de Trump, enfurecidos com a sua condenação, inundaram websites pró-Trump com apelos a motins, revolução e represália violenta.

Depois que Trump se tornou o primeiro presidente dos EUA a ser condenado por um crime, seus apoiadores responderam com dezenas de postagens violentas online, de acordo com uma análise da Reuters de comentários em três sites alinhados a Trump: a plataforma Truth Social do ex-presidente, Patriots.Win e o Gateway Pundit.

Alguns apelaram a ataques aos jurados, à execução do juiz Juan Merchan ou à guerra civil total e à insurreição armada.

“Alguém em NY sem nada a perder precisa cuidar de Merchan”, escreveu um comentarista do Patriots.Win. “Espero que ele encontre os ‘ilegais’ com um facão”, dizia o post em referência aos imigrantes ilegais.

No Gateway Pundit, um participante sugeriu atirar em opositores após o veredito. “É hora de começar a matar alguns esquerdistas”, dizia o post. “Isso não pode ser resolvido por meio de votação.”

Ameaças de violência e retórica intimidadora aumentaram depois que Trump perdeu as eleições de 2020 e alegou falsamente que o voto foi roubado.

Enquanto faz campanha para um segundo mandato na Casa Branca, o ex-presidente classificou infundadamente os juízes e procuradores nos seus julgamentos como ferramentas corruptas da administração Biden, com a intenção de sabotar a sua candidatura à Casa Branca.

Os seus partidários responderam com uma campanha de ameaças e intimidação dirigida a juízes e funcionários judiciais.

“Isto foi uma vergonha, este foi um julgamento fraudado por um juiz em conflito que era corrupto”, disse Trump aos repórteres depois, repetindo comentários que fez frequentemente durante o julgamento.

Trump continuou seus ataques online após o veredito

No Truth Social, o ex-presidente atacou Merchan e criticou as instruções do júri como injustas. Um comentarista respondeu postando uma foto de uma plataforma de enforcamento e uma forca, com a legenda em que dizia que o promotor traiu o sistema de Justiça.

Jacob Ware, coautor do livro “God, Guns, and Sedition: Far-Right Terrorism in America” (“Deus, armas e sedição: Terrorismo de extrema direita na América”) disse que a linguagem violenta usada pelos seguidores de Trump era uma prova da “capacidade férrea do ex-presidente de mobilizar apoiadores mais extremistas para a ação, tanto nas urnas como através da violência”.

“Até e a menos que ele aceite o processo, a reação extremista aos seus problemas jurídicos será militante”, disse Ware, pesquisador do Conselho de Relações Exteriores.

Um porta-voz da Truth Social disse: “É difícil acreditar que a Reuters, que já foi um serviço de notícias respeitado, tenha caído tão baixo a ponto de publicar um artigo tão manipulador, falso, difamatório e transparentemente estúpido como este, puramente por despeito político”.

Todos os três sites têm políticas contra linguagem violenta e algumas postagens foram removidas posteriormente. Representantes do Patriots.Win e do Gateway Pundit não retornaram imediatamente os pedidos de comentários.

Um porta-voz de Trump também não respondeu a um e-mail solicitando comentários.

“Enforque todos”

Após o veredito desta quinta-feira, muitos dos seus apoiadores também disseram que a sua condenação era a prova de que o sistema político americano estava quebrado e que só uma ação violenta poderia salvar o país.

“1.000.000 de homens (armados) precisam ir a Washington e enforcar todo mundo. Essa é a única solução”, disse um participante no Patriots.win. Outro acrescentou: “Trump já deveria saber que tem um exército disposto a lutar e morrer por ele se ele disser as palavras… Pegarei em armas se ele pedir”.

Outras postagens recomendavam especificamente atingir os democratas, em alguns casos sugerindo que eles fossem fuzilados. “AMÉRICA TOTALMENTE DESTRUÍDA PELAS DEMOCRATAS. LOCK AND LOAD (comando militar para abrir o ferrolho de uma metralhadora e carregá-la)”, escreveu um usuário do Gateway Pundit.

Embora todas as publicações identificadas pela Reuters apelassem à violência ou à insurreição, a maioria ficou aquém do padrão legal para uma ameaça processável, o que normalmente exige provas de que o comentário reflete uma intenção clara de agir ou de incutir medo, em vez de simplesmente sugerir um resultado assustador.

Ainda assim, um investigador que estuda milícias extremistas disse que o veredito de culpa poderia inspirar violência ao reforçar a convicção entre alguns dos apoiantes de Trump de que ele é vítima de uma conspiração orquestrada pelos seus inimigos.

“Penso que muitas destas pessoas têm procurado uma desculpa para talvez se mobilizarem já há algum tempo”, disse Amy Cooter, do Centro sobre Terrorismo, Extremismo e Contraterrorismo do Instituto Middlebury de Estudos Internacionais. “Espero estar errado. Eu já disse há muito tempo, porém, que não ficaria chocado em ver a violência resultar de um veredito de culpa, seja dirigido aos jurados ou a outras pessoas ligadas ao caso”.

Condenação pode afastar (pequena) parte do eleitorado e ajudar Biden

Qual o impacto da decisão nas eleições presidenciais de novembro deste ano? A maior parte dos eleitores republicanos acredita na narrativa de Trump e acha que ele está sendo perseguido. Parte, inclusive, vive numa realidade paralela em que a invasão ao Congresso norte-americano, em 6 de janeiro de 2021, não foi uma tentativa de golpe de Estado, mas um protesto pela democracia. Qualquer semelhança com o bolsonarista 8 de janeiro de 2023, ocorrido em Brasília, não é mera coincidência.

Mas há pesquisas indicando que ele terá perdas. Por exemplo, um levantamento da CNN/SSRS, de abril, mostra 24% dos apoiadores de Trump dizendo que uma condenação pode levá-los a reconsiderar o seu suporte a ele. O grupo representa cerca de 12% de todos os eleitores registados na votação – o que pode alterar uma disputa extremamente parelha entre ele e o presidente Joe Biden.

Qualquer mínima mudança no eleitorado significa derrota ou vitória. Considerando o sistema norte-americano, umas dezenas de milhares de votos em um punhado de estados pode definir o resultado.

A pesquisa encomendada pela CNN aponta que 81% dos apoiadores de Trump que podem reconsiderar o voto pós-condenação também não escolheriam Biden de jeito nenhum. Contudo, se ficarem em casa ou apoiarem um nome independente, já será um prejuízo grande para o ex-presidente.

Por outro lado, a condenação pode fazer com que parte dos democratas que estão decepcionados com o atual governo resolva sair de casa para votar. Não por confiarem em Biden (criticado pelos preços altos apesar da melhora nos indicadores econômicos e pelo apoio a Israel no massacre de Gaza), mas para evitar o vexame de eleger um condenado para a Casa Branca.

O eleitor tem informação provida oficialmente pela Justiça de que um dos candidatos mentiu, fraudou e enganou. O que pode ser útil para a tomada de decisão de quem não vive numa realidade paralela construída pelas redes sociais. É pouca gente no campo trumpista, mas eles existem e podem definir a eleição.

Condenação lembra americano preso que recebeu votos

A condenação de Donald Trump é histórica. Mas, mesmo eventualmente preso, ele poderá ser candidato à presidência? A resposta é sim.

Pelas leis americanas, existem apenas três critérios para que uma pessoa seja candidata.

-Ter mais de 35 anos de idade

-Ter nascido nos EUA

-Morar por pelo menos 14 anos em território americano.

Portanto, Trump pode ser ainda candidato e a história da democracia americana já viveu momentos insólitos parecidos ao atual.

Nas eleições de 1920, o socialista Eugene Debs estava atrás das grades. Ele havia sido condenado a dez anos de prisão por sedição, ao fazer campanha contra o convocação de jovens para lutar na Primeira Guerra Mundial.

Mesmo assim, se lançou como candidato e recebeu 1 milhão de votos. Ele ficou com 3% da preferência do eleitorado.

Naquele ano, o socialista realizou uma campanha eleitoral com um slogan simples: “condenado No. 9653.”

A partir de uma lei de 1918, era proibido um cidadão americano “escrever, publicar qualquer discurso desleal, profano ou abusivo contra o governo dos EUA”. Ou contra a convocação de jovens americanos para lutar na guerra.

Um mês depois de a lei ser aprovada, Debs subiu ao palanque para fazer um discurso contra a guerra. Ele disse: “Na Idade Média, quando os senhores feudais decidiam ampliar seus domínios, aumentar seu poder, seu prestígio e sua riqueza, eles declaravam guerra uns aos outros. Mas eles mesmos não entravam em guerra, assim como os senhores feudais modernos, os barões de Wall Street, não entram em guerra. A classe trabalhadora nunca teve voz na declaração de guerra. Se a guerra for correta, que seja declarada pelo povo – vocês, que têm suas vidas a perder”.

Ele foi imediatamente preso.

Mesmo com o conflito já terminado, o governo americano se recusou a conceder um perdão ao líder socialista. Foi apenas em 1921 que ele seria liberado, depois de concorrer em quatro ocasiões para a presidência dos EUA.

Ao sair da prisão, foi aplaudido pelos seguranças. Debs morreu cinco anos depois.


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