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Mundo

Como Israel opera para expandir ilegalmente as fronteiras do país

Sionismo acelera limpeza étnica na Palestina e ocupação do Líbano em nome do fundamentalismo religioso

Publicado em 28/05/2026 1:21 - DW, Opera Mundi, Semana On

Divulgação Reprodução

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Diante das câmeras, a colona Daniela Weiss segura e mostra um mapa do Oriente Médio com o título “A Terra Prometida”. Em seguida, diz: “Esta é a promessa de Deus aos patriarcas da nação judaica”.

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O mapa mostra um Estado judeu que abrange partes da Jordânia, do Líbano, do Egito, do Iraque, da Síria e da Arábia Saudita – ou seja, estendendo-se muito além da linha de armistício de 1949, a chamada Linha Verde, que define o território de Israel de acordo com o direito internacional.

“São 3.000 quilômetros… Quase tão grande quanto o deserto do Saara”, acrescenta Weiss.

Weiss, às vezes chamada de “madrinha do movimento dos colonos israelenses”, refere-se à ideia do “Grande Israel”, ou “Eretz Israel HaShlema”, isto é, “Israel Completo”, em hebraico. Trata-se de um conceito expansionista popular entre a extrema direita israelense que tem origem na Bíblia.

“Para os defensores da política de assentamentos, como Bezalel Smotrich, atual ministro das Finanças, ou Itamar Ben Gvir, ministro da Segurança Nacional, não se trata de tornar Israel maior do que realmente deveria ser. Trata-se de concluir o trabalho. Isso significa que a reivindicação de toda a Palestina histórica ou ‘Eretz Israel’, como eles a definem, é uma promessa divina”, afirma Gil Shohat, historiador e diretor da Fundação Rosa Luxemburgo em Tel Aviv.

Muitos israelenses interpretam o conceito de “Israel Completo” ou “Grande Israel” com a inclusão do território que Israel conquistou em 1967: os Territórios Palestinos Ocupados (TPO) – Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Gaza –, bem como as Colinas de Golã, na Síria, anexadas por Israel, e a Península do Sinai, no Egito, que Israel devolveu há décadas.

Outros almejam toda a área que teria sido “prometida” na Bíblia, que se estende do rio Nilo, no Egito, até o rio Eufrates, que atravessa a Turquia, a Síria e o Iraque.

As palavras de Weiss foram proferidas em uma entrevista ao canal australiano ABC News em 2014, e, desde então, essas ideias ganharam força na política israelense, à medida que Israel continua em guerra em várias frentes no Oriente Médio.

O conceito na política atual

Em março de 2023, o ministro das Finanças israelense, Bezalel Smotrich, ele próprio um colono, causou um alvoroço diplomático ao discursar em uma cerimônia em Paris atrás de um pódio que exibia um mapa do “Grande Israel”, o qual incluía não apenas os territórios atualmente ocupados por Israel, mas também a Jordânia.

Um ano depois, ele declarou ao canal franco-alemão Arte que “o futuro de Jerusalém é expandir-se até Damasco”, a capital síria.

Em setembro de 2024, ao falar sobre seus planos para “o dia seguinte” à guerra entre Israel e o Hamas em Gaza, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, apresentou um mapa em que anexava totalmente a Cisjordânia.

Em agosto de 2025, ele disse ao canal israelense i24NEWS que se identificava “bastante” com o conceito do “Grande Israel”, o que levou o Egito e a Jordânia a exigirem esclarecimentos.

E, em fevereiro de 2026, o embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee, disse ao apresentador americano Tucker Carlson que seria “aceitável” se Israel assumisse o controle de todo o Oriente Médio.

As origens místicas da ideia

Na narrativa bíblica (Gênesis 15:18-21), Deus promete a Abraão e seus descendentes um território que se estende do Nilo ao rio Eufrates. Essa visão foi posteriormente retomada por alguns pensadores judeus, tanto religiosos quanto nacionalistas, e tornou-se um elemento fundamental da ideologia sionista.

Pensadores sionistas, como Theodor Herzl e Ze’ev Jabotinsky, fizeram referência a essas fronteiras bíblicas em suas escritas. Herzl chamou a ideia da pátria bíblica de “excelente” em seus diários, e Jabotinsky ecoou essa visão em sua canção “A Margem Oriental do Jordão”. Cada verso termina com a frase: “O Jordão tem duas margens – esta é nossa, e a outra também”.

A música mais tarde tornou-se o tema do movimento jovem sionista revisionista de Jabotinsky, o “Betar”. O pai de Benjamin Netanyahu, Benzion Netanyahu, foi ativo no movimento sionista revisionista de Jabotinsky e trabalhou brevemente como assessor próximo dele antes de sua morte.

O ex-primeiro-ministro de Israel (o primeiro do país), David Ben-Gurion, também flertou com a ideia do “Grande Israel”, mas acabou adotando uma abordagem mais pragmática. Antes de pensar na expansão, ele priorizou de forma tática a criação de um Estado judeu soberano. No entanto, deliberadamente, deixou as fronteiras de Israel indefinidas na Declaração de 1948 sobre a Fundação do Estado de Israel, criando uma ambiguidade estratégica para uma futura expansão.

Em um discurso em 1937, ele disse: “A aceitação da partilha não nos obriga a renunciar à Transjordânia: não se exige de ninguém que desista de sua visão. Aceitaremos um Estado dentro das fronteiras fixadas hoje, mas as fronteiras das aspirações sionistas são da competência do povo judeu e nenhum fator externo será capaz de limitá-las”.

A expansão já é realidade

Israel expandiu suas fronteiras além do que havia sido proposto no Plano de Partilha da ONU de 1947, que destinava cerca de 56% da antiga Palestina sob Mandato Britânico a um futuro Estado judeu, mas, após a Guerra Árabe-Israelense de 1948, Israel passou a controlar cerca de 77%.

Desde que ocupou Jerusalém Oriental, a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, em 1967, Israel controla efetivamente quase toda a antiga Palestina sob Mandato Britânico, além das Colinas de Golã.

A comunidade internacional não reconhece essas áreas como parte do território soberano de Israel. Mas a maioria dos israelenses, sim, afirma Shohat: “Já se passaram quase 60 anos desde que Israel ocupou essas áreas. Mesmo nos livros didáticos das escolas mais liberais de Tel Aviv, o mapa de Israel inclui Cisjordânia e Gaza”.

Hoje, mais de 700 mil colonos judeus israelenses vivem na Cisjordânia ocupada e em Jerusalém Oriental, segundo as Nações Unidas. As estimativas para as Colinas de Golã variam entre 23.000 e 31.000 colonos, além de cerca de 20.000 drusos que permaneceram na região quando Israel tomou a área.

A ONU considera todos os assentamentos israelenses além da Linha Verde uma violação do direito internacional e, em um parecer consultivo de 2024, a Corte Internacional de Justiça considerou a ocupação ilegal.

Força a partir de 1967

Após a expansão territorial que se seguiu à guerra de 1967, a ideia do “Grande Israel” ganhou força. Hoje, ela continua influente entre alguns grupos religiosos e nacionalistas israelenses de extrema direita, mas não é uma posição dominante na sociedade israelense, segundo Shohat.

“A ocupação da Palestina histórica, ou seja, basicamente, Israel, Cisjordânia e Gaza, está normalizada. Ainda não vejo uma tendência de normalização de assentamentos permanentes no sul do Líbano, nem mesmo em partes da Síria. Mas isso não significa que a situação nessas regiões não possa evoluir para um assentamento permanente se não houver oposição significativa, tanto internacional quanto interna”, afirma.

Mas, embora não seja uma posição dominante na sociedade israelense, a ideia de expansão territorial há muito tempo permeia setores-chave do governo. Em março de 2026, o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, defendeu a anexação do sul do Líbano.

Em uma conferência realizada em 2024 pela Nahala, a organização de colonos de Daniela Weiss, o ministro das Finanças, o ministro da Segurança, Ben Gvir, e a líder dos colonos fizeram lobby pela “emigração voluntária” dos palestinos de Gaza.

Em um palco, Ben Gvir afirmou: “Se não queremos outro 7 de outubro, precisamos voltar para casa e controlar [Gaza]. Precisamos encontrar uma forma legal de fazer com que [os palestinos] emigrem voluntariamente e impor penas de morte aos terroristas”.

Dois anos depois, Ben Gvir deu mais um passo em direção ao que desejava: em 30 de março, o Knesset, o parlamento de Israel, aprovou uma lei que impõe a pena de morte a palestinos condenados por ataques fatais.

UE dá luz verde para sanções contra colonos na Cisjordânia

Os ministros das Relações Exteriores da União Europeia (UE) concordaram no último dia 11 com um conjunto de sanções direcionadas a colonos israelenses na Cisjordânia. As medidas foram elaboradas em resposta à documentada violência contra palestinos em meio à expansão de assentamentos.

As sanções vinham sendo bloqueadas pela oposição da Hungria sob o então primeiro-ministro Viktor Orbán. A sua derrota eleitoral para o rival Peter Magyar no mês passado abriu o caminho para o avanço da pauta.

De acordo com a chefe da diplomacia do bloco, Kaja Kallas, os ministros também concordaram com novas sanções contra líderes do Hamas, classificado como organização terrorista pelos EUA, pela UE e diversos países no mundo. “Extremismos e violência têm consequências,” ela disse.

Israel protesta

O ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noel Barrot, celebrou a decisão: “A União Europeia está sancionando hoje as principais organizações israelenses culpadas de apoiar a colonização extremista e violenta da Cisjordânia, assim como seus líderes”, escreveu numa rede social. “Esses atos gravíssimos e intoleráveis devem cessar sem demora.”

Ele acrescentou que são alvo de novas sanções os “principais líderes” do Hamas, que “deve imperativamente ser desarmado e excluído de qualquer participação no futuro da Palestina”.

Por sua vez, o ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Saar, disse que “Israel rejeita firmemente a decisão de impor sanções a cidadãos e organizações israelenses”. “A União Europeia escolheu, de maneira arbitrária e política, impor sanções a cidadãos e entidades israelenses por causa de suas visões políticas e sem qualquer base.”

Outras medidas em pauta

As sanções têm como alvo três colonos e quatro organizações de colonos, cujas identidades não foram divulgadas publicamente.

A UE já havia mirado no passado colonos israelenses na Cisjordânia por violência contra palestinos. Um pacote de sanções em 2024 impôs o congelamento de bens e proibições de viagem a quatro pessoas e duas entidades.

Alguns países do bloco pediram medidas mais duras, como a proibição de produtos provenientes de assentamentos israelenses na Cisjordânia.

A ministra das Relações Exteriores da Suécia, Maria Malmer Stenergar, defendeu a aplicação de tarifas sobre essas importações, além de sanções contra “ministros israelenses que estão impulsionando esses assentamentos”.

O acordo alcançado nesta segunda-feira dá início ao procedimento legislativo da UE para a imposição das sanções. As medidas devem entrar em vigor em data posterior.

Não há consenso entre os Estados-membros sobre medidas mais amplas contra Israel, como a restrição de laços comerciais.

Netanyahu amplia ofensiva e ordena ocupação de 70% de Gaza

Dando andamento a esta política de ocupação expansionista, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, anunciou nesta quinta-feira (28) uma nova escalada da ofensiva militar israelense na Faixa de Gaza ao ordenar que o exército amplie sua ocupação territorial para 70% do enclave palestino. A declaração foi feita durante um pronunciamento na Cisjordânia ocupada, onde o premiê afirmou que as tropas israelenses já controlam cerca de 60% do território.

Segundo Netanyahu, a determinação dada às Forças de Defesa de Israel é expandir o domínio militar sobre Gaza em meio à continuidade da guerra iniciada após os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023. A decisão representa um novo endurecimento da estratégia israelense no enclave e ocorre apesar do cessar-fogo firmado em outubro do ano passado entre Israel e Hamas, mediado pelos Estados Unidos.

O acordo previa a interrupção das operações militares e o avanço de negociações para estabilização da região. A nova ordem, no entanto, aprofunda a presença militar israelense dentro da Faixa e reforça críticas internacionais de que o governo de Netanyahu mantém uma política de ocupação permanente e deslocamento forçado da população palestina.

Paralelamente à ampliação territorial da ofensiva, integrantes do governo israelense voltaram a defender publicamente a retirada da população palestina de Gaza. Na quarta-feira (27), o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, reafirmou a intenção de implementar o chamado “plano de emigração voluntária” para os habitantes do enclave.

A proposta prevê a saída de palestinos da Faixa de Gaza para outros países e havia sido apresentada inicialmente no começo de 2025. Embora o projeto tenha perdido força temporariamente em razão do cessar-fogo e da evolução das negociações militares, Katz declarou que o plano segue nos objetivos estratégicos do governo israelense.

“O plano de emigração voluntária de Gaza também será implementado, tudo a seu tempo e da maneira correta”, escreveu o ministro na rede social X.

A proposta ganhou impulso após declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, feitas durante reunião com Netanyahu em fevereiro de 2025. Na ocasião, Trump sugeriu publicamente a remoção da população palestina de Gaza, ideia rapidamente incorporada por setores do governo israelense.

Diversas organizações internacionais de direitos humanos classificam a política como uma tentativa de limpeza étnica, ao promover a retirada em massa de civis palestinos de seu território histórico sob pressão militar contínua, destruição estrutural e inviabilização das condições mínimas de sobrevivência no enclave.

Ainda em fevereiro, Katz anunciou a criação da chamada “Diretoria para a Saída Voluntária dos Residentes de Gaza”, vinculada ao Ministério da Defesa israelense. O órgão teria como função organizar e facilitar a saída de palestinos que desejassem deixar a Faixa “voluntariamente”.

Atualmente, cerca de 2,1 milhões de pessoas vivem em Gaza, grande parte delas confinada aos 40% restantes do território não ocupados diretamente pelas forças israelenses. A concentração populacional ocorre principalmente em áreas costeiras, onde multidões sobrevivem em tendas improvisadas ou em edifícios parcialmente destruídos.

Dados do Centro de Satélites da ONU (Unosat) indicam que aproximadamente 81% das estruturas da Faixa de Gaza sofreram danos desde o início da ofensiva israelense, em outubro de 2023. A destruição em larga escala compromete hospitais, residências, escolas, redes de saneamento e infraestrutura básica, inviabilizando qualquer perspectiva imediata de reconstrução.

Sem garantias de estabilidade e diante da ausência de um processo efetivo de reabilitação do território palestino, milhares de famílias seguem impossibilitadas de retornar às suas casas. O cessar-fogo firmado anteriormente não avançou para uma etapa de recuperação humanitária duradoura, enquanto a ofensiva militar israelense continua a expandir áreas de controle direto dentro do enclave.

Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, mais de 72,8 mil palestinos morreram desde o início da operação israelense lançada em resposta aos ataques do Hamas de 7 de outubro de 2023.

Naquele dia, combatentes do grupo islamista atravessaram a fronteira com Israel, mataram cerca de 1,2 mil pessoas e sequestraram 251, episódio que desencadeou a guerra e abriu caminho para a mais devastadora ofensiva militar já realizada contra a Faixa de Gaza.

Ataques a população civil

As forças de ocupação israelenses e grupos extremistas de colonos lançaram em abril uma ofensiva generalizada na Cisjordânia e em Jerusalém ocupada. As operações incluem ameaças de deslocamento forçado, ataques contra populações civis e uma campanha de prisões em massa contra jovens palestinos. A incursão no norte de Jerusalém continua ativa, com o fechamento de estradas e entradas paralisando o cotidiano de milhares de palestinos.

Esse comportamento está em consonância com a doutrina de anexação de fato promovida pelos setores mais extremistas do governo israelense. Essas operações não são eventos isolados, mas sim uma política de Estado que explora a impunidade internacional para alterar a demografia de Jerusalém e da Cisjordânia.

Ao isolar comunidades com terraplenagens e muros, Israel avança em seu controle territorial, ignorando as resoluções das Nações Unidas e a Quarta Convenção de Genebra, que proíbem uma potência ocupante de destruir propriedades e deslocar civis.

Essa política de cerco se insere em um contexto de violência sistemática, no qual o Ministério da Saúde palestino relata pelo menos 72.585 mortes, números que correspondem ao período de agressão desde o início das hostilidades em 7 de outubro de 2023.

Tortura psicológica

As demolições de casas palestinas por Israel se aceleram na Cisjordânia ocupada a leste de Jerusalém, onde alguns moradores são obrigados a destruir o próprio lar para evitar multas que podem chegar a dezenas de milhares de dólares. A prática, denunciada por organizações de direitos humanos como forma de coerção extrema, provoca traumas profundos e expõe a disputa política, jurídica e territorial que molda a vida cotidiana dos palestinos sob a ocupação israelense.

No bairro de Silwan, em Jerusalém Oriental, onde palestinos convivem com o domínio forçado da ocupação israelense, um homem observa o que resta de sua casa enquanto a televisão, permanentemente ligada na rede Al Jazeera, exibe novas imagens de destruição.

O homem recebeu da prefeitura de Jerusalém uma ordem de demolição: sua casa é considerada uma construção “ilegal”. O prazo dado pelas autoridades israelenses foi de 21 dias. Se não demolir por conta própria, enfrentará multas que podem ultrapassar dezenas de milhares de dólares.

Com a ajuda dos filhos, este palestino já derrubou grande parte do andar superior. “Minhas lágrimas caíam enquanto eu fazia isso. Há coisas que a gente sente por dentro e não consegue expressar. Passei dias sem conseguir comer. Estamos no limite. Sim, realmente no limite”, diz, em entrevista à RFI, pedindo anonimato.

No térreo, ainda vivem cinco familiares, entre eles a mãe de 97 anos — deslocada três vezes desde 1948 — e um filho de 35 anos com autismo. “Eu juro que não sei para onde vamos”, desabafa.

A ONG israelense B’Tselem contabiliza ao menos 1.267 estruturas destruídas em 2025 — entre casas, apartamentos e centros sociais. A maioria das demolições ocorre sob o argumento de ausência de licenças de construção, praticamente impossíveis de obter para palestinos em áreas sob controle israelense. Mas a modalidade mais extrema — obrigar o morador a destruir o próprio lar — ainda é pouco conhecida fora da região.

“Destruir a própria casa é uma forma de tortura psicológica”

Para a psicoterapeuta palestina Razzan Quran, a ordem de autodemolição de seu lar produz um tipo de violência que ultrapassa a perda material.

“Quando sou obrigada a destruir minha casa, é como se eu me destruísse. Isso é feito com minhas próprias mãos. Posso tentar iniciar o luto pela casa, mas também posso me culpar por ter obedecido. Vou me perguntar por que destruí eu mesma o meu lar. É assim que o trauma se aprofunda.”

A prática, segundo ela, gera um conflito interno devastador: o morador é forçado a escolher entre acabar com o seu bem com as próprias mãos ou ver o Estado destruir sua casa e ainda arcar com multas impagáveis.

“É uma violência que se infiltra na identidade, na dignidade e na memória familiar”, afirma.

Esse tipo de demolição tende a aumentar, segundo organizações de direitos humanos, à medida que Israel intensifica políticas de controle territorial em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia. A pressão urbanística, jurídica e policial se combina a um ambiente político cada vez mais hostil à presença palestina.

“Quem se importa com o direito internacional?”

Na prefeitura de Jerusalém Oriental, o vice‑prefeito Arieh King defende abertamente a ampliação das demolições. Ele é um dos arquitetos dessa política. “É igual em qualquer lugar do mundo. Ninguém daria autorização para construir ilegalmente no meio da Champs‑Élysées”, afirma, referindo-se à famosa avenida parisiense.

A comparação ignora, porém, que Jerusalém Oriental é considerada território palestino ocupado segundo o direito internacional. Confrontado com essa realidade jurídica, King reage: “O direito internacional? Quem ainda se importa com o direito internacional? Você se importa mesmo? Sabe qual é o meu direito internacional? A Bíblia.”

ONGs israelenses e internacionais afirmam que a política de demolições, combinada à expansão de colônias israelenses, configura uma estratégia de deslocamento sistemático de palestinos. A B’Tselem fala abertamente em “limpeza étnica”. A expressão, antes evitada por diplomatas, tornou‑se mais frequente em relatórios e debates multilaterais.

ONU alerta para “sinais de limpeza étnica”

No último dia 18, a ONU exigiu que Israel tome “todas as medidas possíveis” para impedir atos de genocídio na Faixa de Gaza e denunciou “sinais de limpeza étnica” tanto no enclave quanto na Cisjordânia. Em novo relatório, o Alto‑Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos afirmou que as ações israelenses desde 7 de outubro de 2023 constituem “violações flagrantes” do direito internacional, equivalentes em muitos casos a “crimes de guerra e outras atrocidades”.

O documento cita demolições, deslocamentos forçados, restrições de circulação e destruição de infraestrutura civil como práticas que, combinadas, podem configurar intenção de expulsar populações inteiras. O Alto‑Comissário Volker Türk pediu que Israel cumpra a ordem da Corte Internacional de Justiça, emitida em 2024, determinando medidas para prevenir atos de genocídio.

As autoridades israelenses rejeitam as acusações e afirmam que suas ações são motivadas por segurança. Já organizações palestinas e internacionais argumentam que a política de demolições — especialmente quando obriga moradores a destruir o próprio lar — ultrapassa qualquer justificativa de segurança e se insere em uma lógica de engenharia demográfica.

A dupla perda: o lar e a capacidade de permanecer

Para casos como o relatado pela RFI em Silwan, a demolição não representa apenas a perda física da casa, mas a ruptura de uma continuidade histórica. A mãe de família de 97 anos, deslocada três vezes desde 1948, enfrenta agora a quarta expulsão. O filho autista, que depende de rotinas estáveis, vive o colapso de seu único ambiente seguro.

A autodemolição também impede que a família recorra a mecanismos legais ou a redes de solidariedade comunitária. Ao destruir a própria casa, o morador elimina a prova material da violência estatal, ao mesmo tempo em que internaliza a culpa pelo ato.

“É uma dupla pena: perder o lar e carregar a responsabilidade simbólica pela destruição”, explica a psicoterapeuta palestina Razzan Quran.

Enquanto isso, as demolições seguem. Em 2025, segundo a B’Tselem, foram destruídas 1.267 unidades palestinas. A tendência, afirmam especialistas, é de aceleração.

Israel escala ofensiva no sul do Líbano

Pelo menos 16 pessoas morreram e 58 ficaram feridas em nova escalada de ataques israelenses no sul do Líbano, nesta quinta-feira (28), informam as autoridades sanitárias libanesas.

A Agência Nacional de Notícias do Líbano (NNA) informou que entre as vítimas constam seis integrantes de uma mesma família, incluindo duas crianças. Eles foram mortos pelos disparos de um drone enquanto tentavam escapar pela rodovia de Adloun, que liga as cidades de Sídon e Tiro.

As forças israelenses ampliaram suas incursões terrestres e bombardeios em cidades como Tebnine, Qlailah, Kfardounin, Chaqra, ar-Ramadiyah, Deir Aames e Qana. A escalada também atingiu Beirute, capital libanesa.

Deslocamentos

Israel também emitiu ordens de deslocamento em massa para a população libanesa residente no sul do país. A orientação é que os libaneses saiam de suas residências e migrem para o norte do rio Zahrani, a cerca de 40 quilômetros da fronteira do país com Israel.

Segundo a agência Reuters, após o cessar-fogo de abril, Israel estabeleceu uma “zona tampão” de quase 600 km² no sul do Líbano e passou a emitir sucessivas ordens de evacuação. Somadas, as áreas interditadas ou alvo de ordens de deslocamento abrangem cerca de 2 mil km² — quase 20% do território libanês.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha já alertou que os deslocamentos forçados em larga escala e os ataques contínuos estão agravando a crise humanitária no país.

A hipocrisia europeia diante do expansionismo israelense

Na retórica oficial das grandes democracias europeias, há um compromisso inabalável com o direito internacional, os direitos humanos e a rejeição de projetos nacionalistas expansionistas. Pelo menos no discurso. Porque, quando o assunto é Israel, boa parte da Europa parece subitamente desenvolver uma curiosa cegueira seletiva — uma incapacidade quase clínica de enxergar aquilo que condenaria imediatamente em qualquer outro Estado do planeta.

A frase palestina “do rio ao mar” tornou-se, nos últimos anos, alvo de criminalização política e moral em diversos países europeus. Autoridades alemãs, francesas e britânicas passaram a tratar o slogan como uma espécie de palavra proibida, frequentemente associando-o automaticamente ao antissemitismo ou à defesa da destruição de Israel. Em alguns casos, manifestações foram reprimidas, estudantes investigados e ativistas processados apenas por utilizarem a expressão.

Mas há um detalhe incômodo nessa indignação europeia: ela raramente se aplica ao outro lado da equação.

Enquanto governos europeus denunciam com rapidez qualquer formulação maximalista vinda do campo palestino, permanecem extraordinariamente silenciosos diante da expansão territorial concreta promovida há décadas pelo Estado israelense e, sobretudo, por sua extrema direita religiosa e nacionalista. E aqui reside o centro da hipocrisia.

Não se trata mais de especulação ideológica. Ministros israelenses falam publicamente sobre anexações. Parlamentares defendem expulsões em massa. Colonos reivindicam territórios que ultrapassam não apenas as fronteiras de 1967, mas até mesmo os limites reconhecidos internacionalmente do próprio Estado de Israel. O mapa do “Grande Israel” deixou de ser uma fantasia marginal rabiscada em panfletos messiânicos e passou a aparecer em púlpitos ministeriais, conferências oficiais e discursos televisionados.

Imagine, por um instante, a reação europeia se algum governo árabe exibisse mapas reivindicando territórios de países vizinhos com base em promessas religiosas milenares. Imagine se um ministro iraniano declarasse que Teerã deveria expandir-se até Bagdá ou Damasco. Imagine se um líder palestino defendesse publicamente a “emigração voluntária” de judeus israelenses. A reação seria imediata: sanções, isolamento diplomático, manchetes inflamadas e editoriais indignados sobre extremismo e ameaça à ordem internacional.

Mas, quando essas ideias emergem do sionismo ultranacionalista israelense, o tratamento muda radicalmente. A linguagem se suaviza. O expansionismo vira “questão de segurança”. A colonização transforma-se em “disputa territorial”. A ocupação militar permanente ganha o nome burocrático de “situação complexa”.

A União Europeia afirma reiteradamente que os assentamentos israelenses são ilegais segundo o direito internacional. Entretanto, continua mantendo relações econômicas, militares e diplomáticas profundamente privilegiadas com Israel, mesmo após décadas de expansão contínua na Cisjordânia. A contradição é brutal: condena-se juridicamente aquilo que, na prática, se financia politicamente.

E há algo ainda mais profundo nessa hipocrisia: a Europa parece aceitar que o nacionalismo é perigoso apenas quando pertence aos outros.

Quando palestinos reivindicam soberania territorial integral, são acusados de extremismo. Quando setores do sionismo reivindicam controle permanente “do rio ao mar”, respaldados por ocupação militar, colonização civil e poder nuclear, muitos governos europeus preferem o silêncio constrangido — ou, no máximo, notas diplomáticas cuidadosamente esterilizadas.

Isso não significa negar o direito de existência de Israel, nem ignorar os crimes do Hamas ou o trauma histórico do antissemitismo europeu. Pelo contrário: justamente por causa desse passado, a Europa deveria ser capaz de reconhecer com mais clareza os perigos do supremacismo étnico, da ocupação indefinida e da desumanização de um povo inteiro.

Mas parte do continente parece aprisionada numa culpa histórica que produz um paradoxo perverso: para expiar os crimes europeus contra os judeus, tolera-se aquilo que jamais seria tolerado em qualquer outro contexto geopolítico.

O problema é que ocupações prolongadas não produzem paz; produzem radicalização. Colonização não produz coexistência; produz apartheid territorial. E projetos políticos baseados em exclusividade étnico-religiosa inevitavelmente corroem a própria democracia que afirmam defender.

A Europa sabe disso. Conhece essa história intimamente. Viveu-a no século XX com consequências catastróficas. Talvez por isso o silêncio atual seja tão eloquente.

Porque não há nada mais perigoso do que reconhecer um extremismo — e decidir convenientemente ignorar o outro.

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