20/06/2024 - Edição 540

Mundo

Genocídio: com apoio dos EUA, Israel mata dezenas de civis em Rafah

Crianças queimadas é o custo ao mundo de deixar Netanyahu solto

Publicado em 27/05/2024 10:15 - Jamil Chade e Leonardo Sakamoto (UOL), Paula Laboissière e Andreia Verdélio (Agência Brasil) – Edição Semana On

Divulgação Mohammed Abed/AFP

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No Palácio da Paz, em Haia, o constrangimento é escancarado, com funcionários e juízes incrédulos diante da resposta que, uma vez mais, tiveram diante de uma decisão da Corte Internacional de Justiça. Na sexta-feira (24), o tribunal determinou que Israel deveria “parar imediatamente” com seu ataque contra Rafah, no Sul de Gaza.

As decisões da Corte são legalmente vinculantes e Israel faz parte do órgão. Os juízes anunciaram que dariam um mês para que o governo de Benjamin Netanyahu mostrasse o que estava fazendo para cumprir as ordens.

Não precisaram esperar. Sob a alegação de caçar terroristas, 60 ataques foram realizados em apenas 48 horas, inclusive contra um campo de refugiados. A ofensiva foi uma resposta ao disparo de foguetes por parte do Hamas contra Tel Aviv, também no fim de semana.

Desde sexta-feira:

– Pelo menos 45 palestinos foram mortos em um ataque israelense contra o campo de refugiados de Tal as-Sultan, no sul de Rafah. Agências humanitárias alertam que os números podem crescer.

– No total, mais de 200 pessoas foram mortas desde sexta-feira, com ataques também contra Jabalia, Nuseirat e Gaza City.

– Hamas disparou oito foguetes no domingo contra Tel Aviv, pela primeira vez em meses.

– Num comunicado emitido nesta segunda-feira, a Agência da ONU para Refugiados Palestinos (UNRWA) afirmou que as cenas relatadas a partir de Rafah são “horríveis”.

“Gaza é o inferno na terra. As imagens de ontem pela noite são mais uma prova disso”, alertou.

Segundo a agência, as “mortes em massa” no fim de semana incluem crianças e mulheres.

Os ataques também geraram críticas por parte de Emmanuel Macron, presidente da França e que havia, em outubro, demonstrado pleno apoio ao governo de Israel diante da morte de mais 1.300 pessoas pelo Hamas.

“Indignados com os ataques israelitas que mataram muitas pessoas deslocadas em Rafah”, disse. “Estas operações têm de acabar. Não existem zonas seguras em Rafah para os civis palestinianos”, constatou. “Apelo ao pleno respeito pelo direito internacional e a um cessar-fogo imediato”, concluiu um dos principais líderes ocidentais.

Israel diz que usou “armas de precisão”

O governo de Israel alegou que os ataques contra o acampamento visavam terroristas que tinham sido os autores de atentados. Segundo Tel Aviv, os militares usaram “armas de precisão”. O exército de Israel disse ter matado Yassin Rabia e Khaled Nagar, altos funcionários do Hamas.

Mas admite que existem civis atingidos, depois que um incêndio tomou conta de parte do campo. O Exército indicou estar “ciente de relatos que indicam que, como resultado do ataque e do fogo que se acendeu, vários civis na área foram feridos. O incidente está sendo analisado”.

O direito internacional estabelece que combatentes não podem usar civis como escudos. Mas tampouco permite que o outro lado ataque, sem pré-avisos ou garantias aos civis.

O Crescente Vermelho Palestino, de seu lado, afirmou que existe “um grande número” de pessoas mortas e feridas. “Elas morreram queimadas”, disse a entidade, que destacou que seus serviços na região já estavam saturados, antes de receber a nova leva de vítimas.

O que torna o evento ainda mais dramático, segundo ele, é que o local foi designado por Israel como uma “área humanitária” e muitos palestinos que estavam em Rafah foram forçados a ocupar essas barracas. “Atualmente, várias pessoas continuam presas sob as chamas e nas tendas destruídas pelo bombardeio”, disse.

Os atos foram condenados por governos europeus, agências humanitárias e relatores da ONU.

A Autoridade Palestina denunciou o “massacre hediondo” e alertou que se trata de uma questionamento à corte de Haia.

Para o governo da Noruega, que nesta terça-feira vai reconhecer o estado palestino, o ataque contra Rafah é uma “violação ao direito internacional”. Espen Barth Eide, chanceler norueguês insistiu na manhã desta segunda-feira que existe uma “ordem compulsória da Corte Internacional de Justiça ordenando que Israel interrompa seu ataque em Rafah”.

“Ela é obrigatória. É vinculante, o que significa que continuar a atacar em Rafah é uma violação material da decisão da mais alta corte do mundo”, disse.

Procurador ameaçado e chamado de antissemita

Josep Borell, chefe da diplomacia da UE, também insistiu que Israel tem a obrigação de cumprir a determinação da Corte de Haia. O espanhol ainda destacou o fato de que o procurador do Tribunal Penal Internacional, um jurista britânico, passou a ser alvo de intimidação e ataques desde que pediu a prisão de membros do Hamas e do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

“O promotor do tribunal foi fortemente intimidado e acusado de antissemitismo, como sempre quando alguém faz algo que o governo de Netanyahu não gosta”, disse Borrell. “Acho que a acusação de antissemitismo contra o promotor totalmente inaceitável.”

O Ministério das Relações Exteriores da Irlanda chamou o ataque de “bárbaro”. “Pedimos a Israel que pare, pare agora, em termos de operação militar em Rafah”, disse.

A entidade Médicos Sem Fronteira afirmou estar “horrorizada” com os ataques das últimas horas. Segundo ela, mais de 15 cadáveres e dezenas de feridos foram levados a centro de atendimento.

Francesca Albanese, relatora especial da ONU sobre direitos humanos no território palestino, denunciou “a flagrante violação à lei e ao sistema internacionais”. Para ela, “o genocídio não terminará facilmente sem pressão externa: Israel deve enfrentar sanções, justiça, suspensão de acordos, comércio, parceria e investimentos, bem como participação em fóruns internacionais.”

Balakrishnan Rajagopal, relator especial da ONU sobre o direito à moradia, chamou o ato de “atrocidade monstruosa”. Precisamos de uma ação global conjunta para impedir as ações de Israel agora”, disse.

Crianças queimadas em Rafah é o custo ao mundo de deixar Netanyahu solto 

O governo de Benjamin Netanyahu tratou não apenas palestinos como lixo, mas também a Corte Internacional de Justiça, que havia mandado interromper os bombardeios à cidade de Rafah.

“As informações provenientes sobre novos ataques a famílias que procuram abrigo são horríveis. Há relatos de vítimas em massa, incluindo crianças e mulheres entre os mortos. Gaza é o inferno na terra. As imagens da noite passada são mais uma prova disso”, postou no X/Twitter a agência das Nações Unidas para o atendimento aos refugiados palestinos.

Corpos carbonizados, membros dilacerados, gente queimada urrando de dor esperando para morrer. Ironicamente, no local para onde Israel originalmente empurrou milhões de palestinos de toda Gaza, alegando que estariam salvos de ataques e bombardeios.

Há uma hipocrisia por parte do sistema Internacional e de organizações multilaterais ao ficarem surpresas com o governo de Israel por desrespeitar uma decisão da corte. Nesse sentido, Netanyahu vem sendo extremamente coerente na banana que dá diariamente ao mundo. No afã de se manter longe da prisão, que é o local para onde ele pode ir ao deixar o governo devido às denúncias de corrupção, os ataques à Suprema Corte e sua incompetência em prever os ataques do Hamas, continua produzindo cenas de horror não se importando com a opinião pública internacional.

Sabe que a guerra o mantém no poder. Milhares de israelenses, principalmente famílias de reféns, protestam contra ele por estender o conflito e não conseguir traze-los de volta. São reprimidos com violência na “maior democracia do Oriente Médio”.

Diante do cinismo escancarado, a única saída é que o Tribunal Penal Internacional acate o pedido do procurador-chefe Karim Khan, de prisão de Netanyahu, do ministro da Defesa, Yoav Gallant, e de três líderes do grupo Hamas, responsável pelo ataque terrorista a Israel. Por mais que Tel Aviv não reconheça a competência do TPI, uma série de países que reconhecem já disseram que mandariam Bibi ao xilindró, como a própria Alemanha, mesmo discordando da prisão.

Não há falsa equivalência no pedido, como reclamaram os Estados Unidos, que vêm sendo fiador da carnificina em Gaza. Israel foi sim alvo de um ataque terrorista abominável, mas decidiu optar pelos crimes de guerra e contra a humanidade como resposta. O resultado, até agora, são mais de 36 mil mortes.

O pedido de prisão contra Netanyahu não vai resolver a guerra porque ele não será preso em Israel, nos EUA e em uma série de países. Mas sem uma sinalização forte de que o mundo repudia a sua conduta genocida, ela vai continuar acontecendo sem causar um mínimo de preocupação.

Reafirmar a importância do reconhecimento de um Estado palestino, como vem sendo feito pela maioria esmagadora da Assembleia Geral das Nações Unidas, é importante. Mas deixar claro que o primeiro-ministro de Israel é um fora da lei, também é. Se o pedido de Khan não for acatado, o sistema internacional será cúmplice dos ataques. Não terá dado a ordem de queimar crianças, mas consentirá com a barbárie diante do silêncio com beicinho de desaprovação.

Quando o holocausto dos palestinos cessar, a imprensa será cobrada

O que dirá grande parte da imprensa mundial, a nossa incluída, quando finalmente emergirem um dia todos os horrores cometidos por Israel, ou se preferirem, pelo governo de extrema-direita do primeiro-ministro Benjamin “Bibi” Netanyahu, contra milhões de palestinos inocentes na Faixa de Gaza, na Cisjordânia e sabe-se lá mais onde desde o 7 de outubro do ano passado?

Porque os horrores cometidos pelo grupo Hamas, que naquela data invadiu Israel, matou e sequestrou 252 pessoas, esses foram e continuam sendo expostos à medida que ocorrem. Israel proibiu a imprensa de cobrir suas ações a pretexto de que ela poderia tornar-se mais uma vítima acidental da guerra. Mas não foi por isso. Foi para que a imprensa não testemunhasse ao vivo seus crimes e os denunciassem.

Há relatos à farta, mas não necessariamente vistos por olhos de jornalistas, do holocausto em curso dos palestinos, que não é chamado por esse nome. Holocausto, que significa massacre, é uma expressão só usada para relembrar o que sofreram os judeus durante a Segunda Guerra Mundial, quando mais de 6 milhões deles, de ciganos e de outras minorias foram mortos pelos nazistas alemães.

Não obstante, é de holocausto que se trata. E mais um dos seus atos ficou comprovado ontem: um ataque aéreo de Israel na região de Rafah, no extremo sul da Faixa de Gaza, provocou a morte de ao menos 35 pessoas, informaram autoridades palestinas. As Forças Armadas de Israel (FDI) reconheceram que o ataque atingiu civis palestinos, prometendo abrir uma investigação sobre o caso.

Ao mesmo tempo, disseram se tratar de um alvo legítimo, uma vez que ali se escondiam terroristas. Entidades internacionais contestam a versão, indicando que a área abrigava palestinos deslocados pela guerra, abrigados em tendas de lona, e que havia sido classificada por autoridades israelenses como uma zona segura. Foi Israel que forçou o deslocamento para lá antes de bombardear e invadir Rafah.

O Crescente Vermelho, organização médica equivalente à Cruz Vermelha, reportou muitos mortos e feridos na área, ao passo que o Ministério da Saúde de Gaza, administrado pelo Hamas, confirmou que 35 pessoas morreram e dezenas ficaram feridas. A ONG Médicos Sem Fronteiras disse que recebeu mais de 15 mortos e dezenas de feridos em um centro médico que mantém na região.

“O ataque foi realizado contra alvos legítimos, ao abrigo do direito internacional, através da utilização de munições precisas e com base em informações precisas que indicavam a utilização da área pelo Hamas”, afirmou uma autoridade militar de Israel, acrescentando que o “incidente” estaria “sob análise”. Dois líderes do Hamas teriam sido mortos: Yassin Rabia, e Khaled Nagar. E daí que morreram?

Para matar dois, cinco ou oito supostos líderes do Hamas de uma vez, se é que de fato eles foram mortos, Israel não se incomoda em matar dezenas de palestinos não combatentes, a maioria mulheres e crianças. Já, já, o número de palestinos inocentes mortos alcançará a cifra de 40 mil sem que o Hamas seja extinto como Israel garantiu que será, sem que sua rede de túneis seja inteiramente destruída.

O governo de Netanyahu só faz o que está fazendo porque tem, em casa, amplo apoio dos israelenses, e fora de casa, o apoio de potências como os Estados Unidos, a Inglaterra, a França e a Alemanha, entre outras. O isolamento internacional de Israel está em alta, mas ainda não basta para fazê-lo negociar o fim da guerra que o Hamas já propôs mais de uma vez, seguida da troca de prisioneiros.

Se a guerra acabar, o governo Netanyahu acabará também. Foi assim com todos os governos de Israel acusados por falhas de segurança que deram início a guerras. Os processos contra Netanyahu por corrupção empacaram porque Israel está em guerra, mas voltarão a andar quando as armas silenciarem. Ele não quer isso. Por isso, prolonga a matança indefinidamente. Conta com a nossa cumplicidade.

Exército de Israel recuperou corpo de brasileiro sequestrado pelo Hamas

O Exército israelense anunciou na sexta-feira (24) que recuperou os corpos de três reféns sequestrados em outubro de 2023 pelo grupo palestino Hamas. Entre eles está o brasileiro Michel Nisembaum, de 59 anos.

Os corpos foram recuperados durante a madrugada, numa operação conjunta do Exército e dos serviços secretos de Israel em Jabaliya, no norte da Faixa de Gaza. Os outros dois reféns foram identificados por autoridades israelenses como Orión Hernández Radoux, de 30 anos, Hanan Yablonka, de 42 anos.

Nas redes sociais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentou a morte do brasileiro e disse que o governo segue engajado nos esforços para que todos os reféns mantidos pelo Hamas sejam libertados.

“Soube, com imensa tristeza, da morte de Michel Nisembaum, brasileiro mantido refém pelo Hamas. Conheci sua irmã e filha, e sei do amor imenso que sua família tinha por ele. Minha solidariedade aos familiares e amigos de Michel”, postou.

“O Brasil continuará lutando e seguiremos engajados nos esforços para que todos os reféns sejam libertados, para que tenhamos um cessar-fogo e a paz para os povos de Israel e da Palestina”, completou.

Nisembaum, que tinha cidadania brasileira e israelense, era residente em Israel e considerado desaparecido desde o dia 7 de outubro do ano passado. Na ocasião, ele participava de um festival de música alvo de ataque do Hamas.

Em nota, a Embaixada de Israel no Brasil também lamentou a morte do brasileiro. “Todos os nossos corações doeram com a terrível notícia de seu assassinato. O povo de Israel, o Ministério das Relações Exteriores e a Embaixada do Estado de Israel no Brasil partilham a tristeza da família”.

“O Estado de Israel comunica, com extremo pesar, o assassinato do israelense-brasileiro Michel Nissenbaum, morto pelos terroristas do Hamas”, afirma o comunicado. “Seu corpo foi encontrado pelas forças de segurança de Israel num túnel na Faixa de Gaza e levado de volta para Israel.”

Também em nota, o Itamaraty disse que o governo brasileiro recebeu a notícia “com profunda tristeza e consternação”. O ministério manifestou condolências à família e aos amigos do brasileiro, bem como ao povo de Israel.

“O Brasil reitera sua veemente condenação aos atos terroristas praticados pelo Hamas e volta a exortar pela libertação imediata de todos os reféns e por negociações que levem à cessação de hostilidades em Gaza”, diz o texto do Itamaraty.


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