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Mundo

Cessar-fogo entre Hamas e Israel vem após 46 mil palestinos mortos, entre eles 18 mil crianças

Após 15 meses de conflito devastador, acordo mediado por Catar e Egito prevê troca de reféns, retirada de tropas israelenses e socorro humanitário em Gaza

Publicado em 15/01/2025 3:36 - Semana On

Divulgação Pixabay

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Após mais de 15 meses de um conflito que devastou a Faixa de Gaza e resultou em mais de 46 mil mortes, Israel e Hamas chegaram a um acordo preliminar de cessar-fogo, mediado pelo Catar e Egito. A trégua, que ainda enfrenta resistências dentro do governo israelense, promete alívio humanitário e a troca de prisioneiros, mas não apaga a tensão latente que define o embate histórico entre os dois lados.

O pacto, anunciado nesta quarta-feira (15), prevê uma trégua inicial de seis semanas, durante as quais reféns israelenses, incluindo mulheres, crianças e idosos, começarão a ser libertados. Em contrapartida, Israel soltará cerca de 1.000 prisioneiros palestinos. Além disso, tropas israelenses iniciarão a retirada gradual da Faixa de Gaza, concentrando-se no estratégico corredor Filadélfia, próximo à fronteira com o Egito. A medida permitirá que palestinos desarmados retornem ao norte do território.

A trégua ocorre em um cenário de profunda destruição em Gaza, onde milhões de civis enfrentam condições insuportáveis. Bombardeios incessantes destruíram infraestrutura básica, enquanto a entrada de ajuda humanitária foi severamente limitada. A ONU, que já qualificou a situação como “catastrófica”, exigiu a liberação imediata de 600 caminhões de auxílio diário — um aumento significativo frente aos níveis atuais.

Nos bastidores, a diplomacia internacional foi decisiva para viabilizar o acordo. Autoridades do Catar e do Egito atuaram como mediadores-chave, enquanto os Estados Unidos, por meio do secretário de Estado Antony Blinken, endossaram as negociações. “Ninguém deve esperar que Israel aceite um Estado palestino liderado por extremistas”, declarou Blinken, enfatizando que a reconstrução de Gaza deve excluir o Hamas do poder.

No entanto, a trégua também expõe fissuras políticas internas. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, enfrenta pressão de aliados ultranacionalistas, como o ministro da Segurança Nacional Itamar Ben-Gvir, que ameaçou romper com o governo caso o pacto seja implementado. Já o Hamas, em comunicado, afirmou que aceitou a proposta para “deter a agressão sionista e acabar com os massacres”.

O presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, celebrou o acordo como um reflexo de sua vitória eleitoral. Em declarações em redes sociais, Trump afirmou que sua administração continuará promovendo a “paz através da força”, retomando uma retórica que marcou seu primeiro mandato e os controversos Acordos de Abraão. Esses acordos, firmados entre Israel e países árabes, aprofundaram o isolamento do Hamas na geopolítica regional e, segundo analistas, foram um dos estopins para o ataque palestino de 7 de outubro de 2023.

No entanto, críticos alertam que a abordagem baseada na força pode ser insuficiente para solucionar o conflito de forma sustentável. Desde 1948, quando foi criado o Estado de Israel, o embate territorial e político com os palestinos permanece como uma ferida aberta no Oriente Médio. Em Gaza, décadas de bloqueios, ocupação e violência sistemática promovida pelo sionismo criaram um terreno fértil para o extremismo e a radicalização.

Segundo o historiador israelense Yuval Noah Harari, “o conflito não pode ser resolvido apenas com armas. A verdadeira paz exige reconhecer a humanidade do outro lado”. Essa visão encontra eco em organizações internacionais, como a Anistia Internacional, que classificaram as recentes ações em Gaza como genocídio e pedem um acordo que respeite os direitos humanos. Como enfatizou Dubravka Suica, comissária da União Europeia, “um cessar-fogo só será significativo se for acompanhado de esforços para uma paz duradoura”.

Os números da guerra

Nos últimos 15 meses, pelo menos 46.707 pessoas em Gaza perderam a vida, incluindo cerca de 18.000 crianças. Esse número significa que uma em cada 50 pessoas foi morta em Gaza. Muitos analistas e grupos de direitos humanos acreditam que o número real de mortos é ainda maior.

Apesar das condenações globais e apelos de organizações internacionais, Israel continua sua campanha de punição coletiva contra a população sitiada, onde metade tem menos de 18 anos. Essa ofensiva eliminou várias gerações de famílias do registro civil.

No mínimo 110.265 pessoas ficaram feridas em Gaza como resultado da guerra, o que corresponde a uma em cada 20 pessoas. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 22.500 feridos têm lesões permanentes que necessitam de reabilitação, mas não recebem o tratamento necessário. Amputações de membros severamente feridos são frequentes.

A Agência das Nações Unidas para Refugiados Palestinos (UNRWA) relatou que, diariamente, 10 crianças perdem uma ou ambas as pernas em operações realizadas com pouca ou nenhuma anestesia devido ao bloqueio imposto por Israel. O Ministério da Saúde da Palestina declarou que, até o final de 2024, houve pelo menos 4.500 amputações.

Milhares de pessoas continuam soterradas sob os escombros, com poucos recursos para resgates. Voluntários e trabalhadores da Defesa Civil Palestina usam apenas as mãos para tentar retirar os sobreviventes.

Estima-se que 85.000 toneladas de explosivos foram lançadas em Gaza, de acordo com a Autoridade de Qualidade Ambiental da Palestina. Especialistas preveem que levará mais de uma década para limpar os destroços, que totalizam mais de 42 milhões de toneladas, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Gaza está morrendo de fome

De acordo com o Estatuto de Roma, tratado que estabeleceu o Tribunal Penal Internacional, a fome intencional de uma população é um crime de guerra em tempos de conflito armado.

Uma investigação da Al Jazeera revelou que Israel tem negado sistematicamente ajuda e água à população faminta de Gaza. Em janeiro, a agência humanitária da ONU afirmou que os esforços para fornecer ajuda chegaram a um “ponto de ruptura”.

Israel restringe entregas de ajuda e ataca trabalhadores humanitários, agravando a crise de uma população dependente de assistência externa. Pelo menos oito bebês morreram de hipotermia, enquanto palestinos em Gaza lutam para sobreviver em abrigos inadequados para o inverno.

Quase 1,9 milhão de pessoas estão deslocadas internamente, sendo que 80% vivem em abrigos improvisados, sem roupas ou proteção adequadas contra o frio. Estima-se que quase meio milhão estejam em áreas propensas a inundações. Autoridades de Gaza alertam que cerca de 110.000 das 135.000 tendas usadas como abrigo estão deterioradas e inutilizáveis.


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