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Disparam consultas de pessoas que querem deixar o país: movimento LGBTQI+ vive medo
Publicado em 13/11/2024 9:54 - Jamil Chade (UOL) – Edição Semana On
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No final de domingo, no norte de Manhattan, uma esquina era tomada por grupo de homens de gravata e bíblia na mão, chamando quem passava para um culto. Com uma caixa de som, um pastor pregava em espanhol, enquanto um segundo repetia em inglês e com o mesmo fervor o que o religioso dizia. “Se estás angustiado, entre em nosso templo. Jesus te acolhe”, convocava.
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A sala do culto, que um dia foi um cinema, estava lotada. Dominicanos, peruanos e equatorianos, além de colombianos, mexicanos e venezuelanos. Havia também um pequeno grupo de brasileiros.
Horas depois de o culto terminar, os EUA foram informados que Trump escolheu seu novo “czar da fronteira”. Trata-se de Tom Homan. Ele já foi o responsável pelo Serviço de Imigração no primeiro governo Trump e causou uma polêmica por adotar uma estratégia de separar famílias e tirar crianças de seus pais.
Em sua nova função, Homan ganhou um mandato ainda maior. Além de fechar as fronteiras, será o responsável por iniciar a “maior deportação em massa” da história dos EUA e prometida por Trump durante toda a campanha presidencial.
As estimativas oficiais do governo americano indicam que existam mais de 4 milhões de mexicanos em situação irregular, 800 mil guatemaltecos e 700 mil salvadorenhos. No caso do Brasil, os dados apontam para a existência de 230 mil sem documentos ou visto.
Homan, em entrevistas, se apressou a dizer que não haverá “campo de concentração” para essas pessoas. Mas ele foi um dos colaboradores do Projeto 2025, criado pela ala ultra-radical dos republicanos e que deveria servir de programa de governo de Trump. Ainda que o então candidato insista que desconhecia a existência do projeto, 140 ex-conselheiros seus fizeram parte da iniciativa. Homan foi um deles.
Num dos comícios de Trump, o novo chefe das fronteiras anunciou: “Tenho uma mensagem aos milhões de estrangeiros ilegais que Joe Biden liberou em nosso país: podem começar a fazer suas malas”.
Seu plano é o de intensificar batidas e operações em locais de trabalho para flagrar estrangeiros vivendo irregularmente no país.
E por isso mesmo a ofensiva desperta tanto medo. Ana Costa, uma brasileira de 62 anos, rezava para que seus parentes que estavam nos EUA não fossem deportados. “Tenho minha situação regularizada. Mas tenho três sobrinhos que estão sem papéis. Todos eles trabalham e estamos com muito medo”, admitiu.
Entre os imigrantes que vivem irregularmente, nenhum deles aceitou que a reportagem citasse seus nomes ou que fotos fossem feitas. “É muito arriscado”, justificou um deles. Dois equatorianos revelaram que uma das estratégias que eles vêm adotando é a de pedir que seus respectivos patrões paguem por semana seus salários. “Estamos mandando tudo diretamente para Quito, não sabemos o dia de amanhã”, lamentou um deles.
Rafael, um sergipano de 31 anos, também diz estar com medo. “Eu tenho dois empregos, mas não estou regularizado. É muita crueldade deportar quem está trabalhando”, disse.
Segundo ele, a estratégia de sobrevivência é a de “não dar mole”. Ou seja, pagar sempre a passagem de ônibus, não pular catraca, não se envolver em briga, estar em dia com todos os pagamentos de aluguel, não contrariar os vizinhos e evitar sair pela noite. “Não é o momento de chamar a atenção”, contou.
Uma mulher que o acompanha completou: “temos de ser invisíveis”.
Carlos, um mineiro que chegou há menos de três anos aos EUA, não disfarça seu ressentimento em relação aos brasileiros que votaram por Trump. “Conheço gente que chegou aqui de forma ilegal e deu um jeito de ser legalizado. Também conheço gente que forjou casamentos. Agora, votam por uma pessoa defende uma deportação”, lamentou.
Para deixar o Brasil e conseguir entrar nos EUA, o mineiro vendeu tudo o que tinha e ainda fez dívidas com parentes. “Se eu for deportado, como farei para pagar?”, questionou. “Estou me preparando para perder tudo o que tenho”, disse.
Pelos EUA, grupos de direitos humanos já começam a se organizar para sair em defesa de imigrantes. Uma delas é a American Civil Liberties Union, uma rede de 500 advogados que promete levar aos tribunais qualquer abuso que Trump possa cometer contra populações mais vulneráveis.
“A xenofobia e o racismo se tornariam as pedras fundamentais da política de imigração americana em um segundo governo Trump. É por isso que devemos começar a nos mobilizar com os governos locais e estaduais agora para proteger as comunidades de todo o país contra políticas extremas contra imigrantes”, disse Naureen Shah, vice-diretora de assuntos governamentais da ACLU.
Na porta da igreja, ao final do culto, o medo já era evidente, apesar de Trump tomar posse apenas em dois meses. Numa rodinha de brasileiros, quando o tema da deportação surgiu, um deles interrompeu a conversa para alertar: “não vamos ficar falando disso na rua, gente”.
Trump faz disparar consultas para deixar EUA e movimento LGBTQI+ vive medo
O choque e a decepção para milhões de americanos ainda ecoam depois da vitória de Donald Trump nas eleições. Mas, para alguns deles, essa frustração está sendo acompanhada por um outro sentimento: o medo.
Nesta semana, uma empresa de consultoria especializada em obtenção de residência no exterior para cidadãos americanos, a Flannery Foster, enviou um email a seus clientes com uma constatação surpreendente até mesmo para quem há décadas trabalha com os trâmites de vistos: desde o dia 5 de novembro, data da eleição, “a demanda aumentou exponencialmente” nos pedidos de ajuda para uma mudança de pais. Ou seja, uma fuga dos EUA sob Trump.
A consultoria, na mensagem, promete um engajamento total para atender a todos e avisa que, para pessoas do movimento LGBTQI+ e mulheres, a tarifa a ser cobrada é o que a pessoa conseguir pagar. “Para homens brancos cis heterossexuais, a taxa é de 100 dólares por hora”, explica a empresa.
Ainda que Trump não tenha sequer assumido o governo, a comunidade LGBTQI+ não esconde a angústia.
Durante a campanha eleitoral, aliados de Trump sinalizaram que iriam suspender atendimento de afirmação de gênero para jovens transgêneros. Durante os comícios, um dos pontos frequentemente destacados ela a denúncia sobre como os democratas tinham aberto o caminho para permitir que jovens trans pudessem fazer parte de equipes femininas.
No Projeto 2025, um plano de transição de extrema-direita destinado ao próximo presidente republicano, fica evidenciada a ofensiva contra os direitos dos grupos LGBTQI+. O pacote, desenhado por 140 ex-conselheiros de Trump, sinaliza que um dos objetivos seria censurar discussões acadêmicas sobre raça, gênero e opressão sistêmica, e cortar o financiamento federal para escolas com currículos que abordem estes assuntos. Pelo projeto, os pais teriam controle sobre a escola, sob a alegação de que existe uma “doutrinação política inadequada” das crianças americanas.
O documento ainda traz uma lista de termos que deveriam ser banidos de leis federais, como “orientação sexual”, “igualdade de gênero”, “aborto” e “direitos reprodutivos”.
O plano prevê adotar leis que significariam uma repressão contra pessoas transgênero, ameaçando processar as escolas que protegem os direitos dos estudantes transgênero ou dizendo aos hospitais que perderiam o financiamento se prestassem cuidados médicos.
O documento sugere que o Departamento de Saúde e Serviços Humanos deve “manter uma definição de casamento e família baseada na Bíblia”. Apoio para a infância ainda deve estar vinculado com a ideia de que pais se “comprometam a se casar”, enquanto projetos devem ter “o casamento como norma”.
Sem mencionar a fonte, o projeto também insiste que “informes das ciências sociais” indicam os benefícios de crianças criadas em “casas heterossexuais” e “com casamentos intactos”.
“Todas as outras formas de família envolvem níveis mais altos de instabilidade (a duração média dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo é a metade da duração dos casamentos heterossexuais); estresse financeiro ou pobreza; ou resultados comportamentais, psicológicos ou educacionais piores”, afirma o plano.
“Para o bem-estar da criança, os programas devem afirmar que as crianças precisam e merecem tanto o amor e a nutrição de uma mãe quanto a diversão e a proteção de um pai”, insiste.
Para o plano, os subsídios de programas sociais “devem estar disponíveis para beneficiários baseados na fé que afirmam que o casamento não é apenas entre dois adultos quaisquer, mas entre um homem e uma mulher sem parentesco”.
Não por acaso, o Trevor Project, uma organização que reúne a juventude LGBTQ+ nos EUA, indicou que seu hotline para receber ligações de pessoas em crise ou que precisam de ajuda registrou um salto de 125% nas chamas desde o dia da eleição.
David Linger é um desses americanos que admite viver um medo profundo neste momento. Caminhando para seus 70 anos, o americano vive em Santa Fé, no Novo México. “Estou olhando para a camada de neve que está la fora e confesso que estou perdido. Não sei o que fazer”, disse à reportagem.
David é amigo de Caetano Veloso e Gilberto Gil desde os anos em que os três moraram em Londres, na década de 70. “Caetano colocava um disco de João Gilberto numa vitrola que ele tinha e me fazia ler a letra para aprender português”, contou.
Hoje, David diz viver uma encruzilhada. “Se as coisas piorarem, eu não ficarei”, afirmou. O americano sabe o que significa uma perseguição. Judeu, sua família tem origens na Polônia e na República Tcheca. “Muitos morreram nos campos de concentração. Em 1938, porém, insistiam que nada iria ocorrer”, lamentou.
Para ele, são os “sinais invisíveis” os que mais preocupam. “Não é uma paranoia”, disse.
Casado com Mark, David contou que optou por cancelar uma viagem que fariam para a Luisiana, um estado no Sul com um forte componente ultraconservador. “Não sei mais se vou me sentir em segurança”, justificou.
“Eu não sei para onde isso vai caminhar. Abriu-se uma fresta que pode não fechar mais. Não sei o que fazer”, admitiu. “Os EUA sempre foram racistas e antissemita, e a maioria branca sempre houve um medo do outro. Hoje, vivemos uma apoteose disso. As pessoas não precisam mais esconder que odeiam o outro”, constatou David.
De fato, o medo não é exatamente de uma ação apenas do governo Trump. Mas a ausência de qualquer medida contra ataques que a comunidade possa sofrer por parte de grupos mais radicais.
Nesta semana, num comunicado, a maior organização de direitos LGBTQ+ dos EUA, a Human Rights Campaign, expressou seu “desgosto” com o resultado das eleições.
“Sabemos que nossa comunidade está se sentindo assustada, irritada e preocupada com o que virá a seguir para eles e suas famílias. Estamos vendo vocês – não há dúvida de que enfrentaremos mais desafios nos próximos anos como parte de nossa luta pela igualdade total dos LGBTQ+”, escreveu Kelley Robinson, presidente da entidade.
“Não se engane – não estamos recuando. E vamos continuar nos apoiando uns aos outros e na marcha rumo ao progresso – não importa o que aconteça”, disse ela.
A presidente da ong GLAAD, Sarah Kate Ellis, também emitiu um comunicado aconselhando os membros da comunidade LGBTQI+ a recorrer ao apoio da comunidade, caso se sintam ameaçados ou desamparados.
“A comunidade LGBTQ já passou por isso antes, assim como todas as outras comunidades marginalizadas, e a dor é real hoje”, disse. “Mas, como vimos desde o Lavender Scare até as revoltas de Stonewall, desde a epidemia de HIV até a derrota e a vitória do casamento, todo colapso pode levar a um avanço”, insistiu.
“Devemos ver este momento de crise como outro catalisador para a mudança. Nossa comunidade sabe como cuidar uns dos outros e como impulsionar nosso país e o mundo”, completou.
Para muitos americanos, porém, o momento é de medo.
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