20/06/2024 - Edição 540

Mundo

Avanço na extrema direita na Europa é alerta ao Brasil

Sobreviventes de Auschwitz alertam sobre crescimento do fascismo após eleição na UE

Publicado em 11/06/2024 11:21 - Jamil Chade (UOL) – Edição Semana On

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O avanço da extrema direita na Europa precisa servir de alerta no Brasil. O recado é do ministro do Trabalho, Luiz Marinho, que está em Genebra para as reuniões da OIT (Organização Internacional do Trabalho).

“Nós temos de estar alerta, enfrentar o debate”, disse. “Os partidos, movimentos e sindicatos precisam discutir e observar. A ocupação de território nos debates e nas ideias se dava de um jeito. Hoje, é diferente”, afirmou. “Portanto, temos de debater como criar condições para isso”, defendeu o ministro, que sugere que as forças políticas no Brasil fiquem de olho no que ocorreu na UE.

No fim de semana, a extrema direita saiu como a grande vitoriosa em eleições na França, Áustria, Itália e outras partes da UE. Na Alemanha, o movimento ultraconservador chegou na segunda posição, com seu melhor resultado da história.

Na próxima quinta-feira (13), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva também estará na OIT e, segundo fontes no Palácio do Planalto, usará seu discurso na organização para sair em defesa das democracias diante do avanço dos movimentos populistas. Entre diplomatas brasileiros, o temor é de que a coalizão internacional que repudiou a ofensiva bolsonarista contra as instituições da democracia no Brasil possa se desfazer se países como a França, EUA e outros sofrerem uma guinada à extrema direita.

Durante a eleição de 2022, foi justamente um pacto entre democracias que sinalizou aos bolsonarismo que a comunidade internacional não aceitaria qualquer ruptura do estado de direito no Brasil, conforme proposto por militares e aliados de Jair Bolsonaro.

“Tem uma avalanche de mudança, como teve no Brasil”, disse Marinho.

“Muitas vezes a agenda econômica interfere muito. A extrema direita tem conseguido fazer o discurso fácil, irresponsável. Vender ilusão é mais fácil que vender a verdade, planejamento e consequências”, disse o ministro. “Tem gente que acredita que pode conseguir as coisas para amanhã”, lamentou. “Depois, as consequências são trágicas”, alertou.

Parte do problema, segundo ele, é a difusão de desinformação. Para Marinho, a academia, os meios de comunicação e todos os setores devem repensar a forma pela qual podem provocar que as pessoas estejam “abertas à realidade”. “A extrema direita, tal como está construída, não tem compromisso algum com a verdade”, disse.

Outro fator é dinheiro. “Nesse debate, há muito dinheiro”, disse. “Não é apenas uma questão de comunicação. O melhor discurso não serve se não houver dinheiro para impulsionar. Sem impulsionar, não chega na esquina. Com dinheiro, chega na China”, afirmou. “É disso que se trata e por isso precisa de regulagem”, constatou.

Para ele, a extrema direita “tem dinheiro para botar e estão comprando”. “A esquerda vai ficar para trás”, disse.

“Demoramos para regular”, lamentou o ministro.

Sobreviventes de Auschwitz alertam sobre extrema direita após eleição na UE

Os sobreviventes do Holocausto e dos campos de concentração criados pelos nazistas soam o alerta diante do avanço da extrema direita na Europa e, em especial, na Alemanha.

Na segunda-feira (10), após os resultados que mostraram a vitória do movimento ultraconservador em diversos países da Europa, o Comitê Internacional de Auschwitz declarou estar preocupado e em choque.

A eleição ao Parlamento Europeu viu uma guinada do continente à extrema direita, com vitórias contundentes na França, Áustria e Itália, além de chegar em segundo lugar na Alemanha e Holanda.

“Para os sobreviventes do Holocausto e dos campos de concentração e extermínio alemães, esse resultado eleitoral é um ponto de inflexão deprimente”, disse o vice-presidente executivo Christoph Heubner.

“A Europa está perdendo e esquecendo de si mesma: em cada vez mais países, partidos nacionalistas e de extrema direita estão ganhando influência, que na verdade desprezam a ideia europeia que surgiu dos horrores da Segunda Guerra Mundial e do horror assassino dos campos”, afirmou o Comitê, em um comunicado.

O alerta do grupo se dá pelo fato de que diversos movimentos populistas na UE mantém relações com herdeiros da extrema direita que, no século 20, jogou o continente a um massacre. A Alternativa para a Alemanha (AfD), por exemplo, conta com uma deputada que é neta de um dos principais ministros de Adolf Hitler.

Num apelo, Heubner insistiu que o projeto de integração da Europa é a resposta que os sobreviventes do Holocausto apostam. “É exatamente por isso que eles pedem urgentemente que os outros partidos do Parlamento Europeu protejam essa ideia europeia e se unam contra a agitação e o incitamento das forças extremistas de direita”, completou.

Extrema direita venceu na antiga Alemanha Oriental

Nesta segunda-feira, os dados detalhados da eleição ao Parlamento Europeu foram publicados e revelaram que o partido alemão de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) ficou em primeiro lugar em todos os cinco estados federais que compõem a antiga Alemanha Oriental.

De uma forma geral em toda a Alemanha, o AfD somou 15,9%, seu melhor resultado em uma eleição e com 6,5 milhões de apoiadores. Mas, nos estados do leste, o resultado foi ainda maior. Na Saxônia, por exemplo, o movimento somou 31,8% dos votos. Em Turíngia, ele somou 30,7%, taxa similar na Saxônia-Anhalt. Em Brandemburgo, o partido AfD conseguiu 27,5% dos votos.

Fragilizada e fragmentada, UE amplia instabilidade global após eleição

Os resultados da eleição europeia, a decisão de Emmanuel Macron de dissolver o Parlamento, a derrota de Olaf Scholz na Alemanha e a fragmentação das forças políticas no Velho Continente ampliam o cenário de incerteza mundial.

Neste fim de semana, a votação para escolher um novo Parlamento Europeu foi concluída com a vitória da centro-direita. Mas foi o avanço de movimentos populistas e de extrema direita que chamou a atenção.

Pela primeira vez existem vozes contrárias ao projeto europeu de integração com um espaço suficiente para influenciar no futuro da agenda do bloco. Para analistas, os resultados revelaram uma crise existencial na UE, com repercussões que serão sentidas pelos próximos cinco anos.

A isso se soma o risco de uma vitória de Donald Trump, nos EUA em novembro.

O cenário de um arco conservador no Atlântico Norte seria, para diplomatas, um terremoto na ordem internacional.

Ao comemorar a vitória, Marine Le Pen afirmou que seu movimento está pronto a assumir o governo francês e retomar ideias nacionalistas.

Lula levará para Europa mensagem de alerta contra extrema direita

Nesta quinta-feira (13), de fato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fará um discurso na sede da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no qual ele deve alertar para os riscos da extrema direita global e apontará para a necessidade de respostas por parte das democracias.

No dia seguinte, estará na cúpula do G7, ao lado da vencedora da eleição na Itália, Giorgia Meloni. Mas também de Emmanuel Macron e Scholz, ambos derrotados.

Em seu primeiro discurso após a eleição, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, confirmou a preocupação com a estabilidade e deixou claro que tem consciência de que será sua missão garantir a coesão e a viabilidade do projeto europeu.

Na esquerda, a mensagem é semelhante. “Embora haja ganhos a serem comemorados em muitos países, a esquerda está atenta às perigosas correntes políticas que alimentam a divisão e influenciam a política europeia”, afirmou um comunicado do grupo que reúne os partidos de esquerda da UE e liderado por Manon Aubry.

“A esquerda continua sendo uma força significativa em um contexto de ascendência da extrema direita”, defendeu a copresidente da esquerda, Manon Aubry. “Reafirmamos nosso compromisso de ser a voz firme das pessoas, do planeta e da paz”, insistiu.

Mas, para diplomatas ouvidos pelo UOL, não existem dúvidas de que essa estabilidade hoje já está ameaçada. E, junto com ela, o risco é de uma incerteza global ainda maior.

Ucrânia x Rússia

Um primeiro aspecto será a reação dos europeus diante da guerra na Ucrânia. A nova composição do Parlamento pode trazer para o coração da UE aliados de Vladimir Putin. Alegações de corrupção e de espionagem envolvendo o eurodeputado Maximilian Krah, da extrema direita alemã, seriam a ponta do iceberg.

Ele é acusado na Justiça alemã de receber dinheiro de chineses e russos por seu trabalho no Parlamento. Seu principal assessor foi preso, enquanto outros membros do partido também estão sob a mira da Justiça.

Alguns dos principais vencedores do pleito deste fim de semana não escondem uma certa simpatia por Putin. Em 2014, Marine Le Pen recebeu recursos do russo para sua campanha eleitoral.

Na Áustria, o movimento de extrema direita Partido da Liberdade tem sido uma força ativa em evitar críticas contra o Kremlin. Nesta eleição, eles saíram pela primeira vez como os grandes vencedores em seu país.

Para Kiev, o risco é de que isso signifique que haverá uma pressão sobre os ucranianos para que aceitem um acordo no qual o conflito é encerrado com um novo mapa do país e a perda de províncias ocupadas pelos russos.

Agenda climática congelada

Um outro impacto sendo acompanhado de perto por potências internacionais é o impacto da eleição para a agenda de mudanças climáticas, em especial tendo em vista a COP30 no Brasil em 2025.

O temor de ambientalistas é de que a maior presença da extrema direita e mesmo do grupo conservador atrase qualquer tomada de decisão da UE no que se refere à descarbonização da produção.

Revelador para observadores foi ver a queda significativa dos partidos ecologistas que, em 2019, tinham se consolidado como uma voz importante na eleição. Agora, perderam quase 20 assentos.

Na Alemanha, por exemplo, o voto dos jovens que tinha ido para os ecologistas em 2019 migrou, desta vez, para a extrema direita.

“O resultado pode ser a paralisia da Europa no debate sobre como lidar com mudanças climáticas”, admitiu um negociador do Itamaraty.

Esforço pela paz em Gaza paralisado

Um impacto de paralisia semelhante pode ser registrado com relação ao papel europeu na guerra em Gaza e um eventual esforço diplomático para que um acordo possa ser fechado.

Com o governo de Emmanuel Macron lutando para sobreviver e eleições marcadas para final de junho, e diante de forças próximas a Israel saindo vitoriosas, um vácuo pode ser deixado na agenda europeia no Oriente Médio.


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