17/07/2024 - Edição 550

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Avanço da ultradireita europeia preocupa imigrantes

Nova lei de imigração muda realidade na fronteira entre EUA e México

Publicado em 12/06/2024 3:14 - David Ehl (DW), Daniel Trotta (Agência Brasil) – Edição Semana On

Divulgação Nathalie Lees - Al Majalla

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A julgar pelo mapa que mostra os vencedores das eleições europeias no país, a França está toda marrom, a cor da extrema direita. Só numa inspeção mais detalhada se veem, aqui e ali, alguns salpicos de cor. O partido nacionalista de direita Reunião Nacional (RN) recebeu 31% dos votos, mais que o dobro da aliança do presidente Emmanuel Macron. Este convocou eleições antecipadas para a Assembleia Nacional já na noite da eleição.

E embora muitos na Europa fiquem apreensivos com a ideia de o partido de Marine Le Pen formar o governo nos últimos dois anos de mandato de Macron, um grupo está especialmente preocupado: os imigrantes e seus descendentes.

“Imigrantes na França estão com medo”

Raja Ali Asghar veio do Paquistão para Paris há 35 anos e hoje dirige a Liga Paquistanesa-Muçulmana da França. “Os imigrantes que vivem na França estão preocupados com seu futuro, Os partidos políticos de direita sempre tiveram visões particularmente anti-imigrantes. Sob seu governo, os problemas dos imigrantes aumentariam.”

Ele teme, por exemplo, desvantagens na busca de emprego e no acesso a benefícios sociais. “Acho que os problemas dos imigrantes na Europa aumentarão nos próximos anos.”

Satar Ali Suman, que administra vários restaurantes em Paris e imigrou de Bangladesh há 24 anos, tem opinião semelhante. “Todo mundo sabe que os partidos políticos de extrema direita não gostam de imigrantes e muçulmanos em particular. Os imigrantes na França têm medo dos dias que virão.”

“O fascismo chegou”

A autora francesa Emilia Roig é ainda mais clara: “Reconheça que o fascismo chegou – vamos falar sobre isso no tempo presente. Negação não ajuda em nada, só piora a situação”, escreve no Instagram.

E a ONG de trabalho social Ghett’Up, que trabalha com jovens imigrantes no subúrbio parisiense de Saint-Denis, afirma no X: “Temos que mudar para o modo de luta.”

Na Áustria, também, o resultado das eleições europeias é visto como um teste do clima para as eleições nacionais, agendadas para o segundo semestre de 2024. O populista de direita Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ) tornou-se o mais forte do país, à frente do conservador Partido Popular Austríaco (ÖVP).

Na Itália, o pós-fascista Irmãos da Itália (FdI), liderado pela primeira-ministra Giorgia Meloni, obteve o maior número de votos nas eleições europeias. De um modo geral, os grupos do Parlamento Europeu mais à direita obtiveram ganhos significativos.

“Todo mundo sabe que AfD é de extrema direita”

Na Alemanha, nenhum partido ganhou tantos votos nas eleições europeias quanto a AfD, sigla classificada pelos serviços de inteligência interna como “suspeita de extremismo de direita” em todo o país e até mesmo “confirmadamente extremista de direita” em três estados do Leste da Alemanha. Em dois desses estados e num terceiro, uma nova assembleia estadual será eleita no terceiro semestre – e em todos os três, a AfD teve clara dianteira nas eleições europeias.

Isso é motivo de preocupação para muita gente na Alemanha – como o presidente do Conselho Central dos Muçulmanos na Alemanha, Aiman Mazyek. “Não há apenas um problema para a comunidade migrante, mas também para a democracia. Acredito que parte dos partidos democráticos ainda não entendeu isso.”

“A AfD é um partido estabelecido, pelo menos no Leste da Alemanha – nunca mais quero ouvir o conto de fadas dos eleitores de protesto. Isso é gente ideologicamente disfarçada, que sabe muito bem que se trata de um partido de extrema direita.”

Eyüp Kalyon, secretário-geral da União Turco-Islâmica do Instituto para a Religião (Ditib), a maior organização muçulmana alemã em termos numéricos, se diz profundamente preocupado com a divisão social: “Temos que reconhecer que os extremos – tanto de direita quanto de esquerda – formam a maioria em alguns estados. O que ambas as tendências têm em comum é adotarem posições populistas e protecionistas, e envenenarem o clima social.”

“Cada um tem que fazer a sua parte”

As eleições europeias em Colônia, no oeste da Alemanha, coincidiram com o 20º aniversário do atentado na Keupstrasse, no qual uma bomba com pregos deixou 22 feridos, em parte gravemente. Só anos depois os investigadores estabeleceram a conexão com o grupo terrorista de extrema direita Clandestinidade Nacional-Socialista (NSU), que, antes e depois do ataque, assassinou 10 cidadãos por motivos racistas.

O fato de a AfD ter se tornado o segundo partido mais forte exatamente naquele dia é uma “realidade difícil de suportar”, escreveu no X (antigo Twitter) Cihan Sinanoglu, chefe do projeto de pesquisa Monitor Nacional para Discriminação e Racismo.

Meral Sahin tem uma loja no antigo local do atentado, e participou da comemoração como copresidente do Grupo de Interesse da Keupstrasse. Após as eleições europeias, comentou: “É incrivelmente triste ver como toda a Europa está se movendo para a direita. O que isso significa para todos nós? Acho que muita gente não se dá conta disso.” Ela adverte: “É preciso fazer mais. Todo mundo tem que fazer a sua parte.”

“Situação de ameaça pode se acirrar”

A AfD recebeu duras críticas em janeiro após a revelação de uma reunião secreta na qual foi discutido como “remigrar” – ou seja, deportar – da Alemanha um grande número de imigrantes ou descendentes.

As preocupações dos grupos com histórico de migração não estão sendo tratadas adequadamente, critica Tahir Della, da Iniciativa Pessoas Negras na Alemanha: “Em vez disso, estão preocupadas em perder eleitores, perder a confiança e, portanto, perder o poder, por assim dizer.” No entanto, o problema central é outro: “Se esses movimentos crescem e ganham força, a situação de ameaça para as pessoas de cor, imigrantes e refugiados também se acirra.”

Recentemente, centros de aconselhamento de vítimas e a polícia alertaram para um aumento significativo de crimes de direita com motivação política na Alemanha, especialmente os motivados por racismo e antissemitismo. Após as eleições europeias, muitos temem que essa tendência não vá parar no continente.

Nova lei de imigração muda realidade na fronteira entre EUA e México

Jessica León, imigrante do Equador solicitando asilo, escalou um muro fronteiriço no último dia 4 com a filha de três anos, pisando em solo norte-americano em San Diego, Califórnia, poucas horas antes de uma nova proibição a pedidos de asilo entrar em vigor.

Ela e outra dúzia de imigrantes da Guatemala, Colômbia e Vietnã escalaram o muro e, imediatamente, se entregarem aos agentes de fronteira dos EUA. Eles foram orientados a andar para um lugar conhecido como Whiskey 8 – uma faixa empoeirada de território norte-americano entre dois muros de fronteira, um dividindo os EUA do México e o segundo, um obstáculo mais imponente, alguns metros mais ao norte.

O local de detenção a céu aberto tornou-se símbolo de um processo caótico de asilo dos EUA que, segundo o presidente norte-americano, Joe Biden, precisa desesperadamente ser reformado. Em um abrangente decreto anunciado na terça-feira, Biden implementou uma proibição a pedidos de asilos que permite que autoridades de imigração dos EUA rapidamente deportem imigrantes que cruzarem ilegalmente a fronteira para seus países de origem ou de volta para o México.

Ativistas de imigração criticaram a decisão de Biden, dizendo que ela espelha ações duras do seu antecessor republicano, o ex-presidente Donald Trump. Ambos se enfrentarão novamente na eleição norte-americana de 5 de novembro.

A União Americana pelas Liberdades Civis disse que planeja entrar com um processo contra as medidas de Biden.

Jessica León e sua filha chegaram apenas horas antes da política entrar em vigor, à 0h01, no horário da costa leste dos EUA, desta quarta-feira (20h01 de terça, em Brasília).

Alguns imigrantes requerentes de asilo chegaram sozinhos ao Whiskey 8. Outros que foram detidos pela Patrulha de Fronteira em outros lugares entre os dois muros foram levados ao local ou orientados a andar até lá para posterior processamento.

Ainda não se sabe ao certo por quanto tempo a rotina do Whiskey 8 continuará. Trabalhadores humanitários disseram que um grupo de 85 imigrantes se reuniu no local na manhã desta ontem, apesar da proibição ter entrado em vigor.

Assim como muitos que estavam na fila em Tijuana, México, esperando para cruzar a fronteira na terça-feira, os imigrantes que se inscreverem para um posto de entrada legal por meio de um aplicativo governamental no celular ainda poderão entrar.

“Completamente sozinha”

Tendo gasto seus últimos US$ 3 mil em uma jornada de um mês por terra do Equador, León, uma faxineira de 28 anos, disse que quer uma vida melhor para sua filha.

“Estou completamente sozinha com ela”, disse, olhando para a filha e chorando durante uma breve entrevista conduzida entre os pilares de uma cerca fronteiriça com nove metros de altura.

No Whiskey 8, assim batizado pela Patrulha de Fronteira, as pessoas têm acesso a trabalhadores humanitários, advogados de imigração e jornalistas que podem se reunir do outro lado. Os pilares do muro são espaçados o suficiente para que se possa conversar, entregar comida e água ou carregar o celular, mas próximos demais para um ser humano passar entre eles.

Questionada sobre por que deixou sua casa na cidade andina de Cuenca, León mencionou o clima criminoso — “eles matam, eles roubam, eles extorquem”.


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