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Mundo

Atirador tinha 20 anos e era eleitor do Partido Republicano, de Trump

Ex-presidente usa 'martírio' como campanha e democracia dos EUA vive definição

Publicado em 14/07/2024 11:33 - DW, Jamil Chade (UOL) - Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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O FBI afirmou neste domingo (17) ter identificado o autor do disparo que feriu ontem o ex-presidente Donald Trump como Thomas Matthew Crooks, de 20 anos, morador de Bethel Park, distrito a cerca de 70 quilômetros do local do atentado na Pensilvânia. Crooks é registrado como eleitor do Partido Republicano, segundo banco de dados de eleitores do Estado. Ele foi morto por agentes do Serviço Secreto.

O escritório do FBI em Pittsburgh confirmou ainda no sábado que  Trump, sofreu uma “tentativa de assassinato”. A informação foi dada em uma entrevista coletiva por Kevin Rojek, agente especial encarregado do escritório de campo do FBI na cidade. Ele pediu ajuda dos moradores para coletar dados sobre o caso.

No entanto, ainda não se sabe quais seriam as motivações do suposto atirador e se ele era o que é conhecido como “lobo solitário” ou tinha um cúmplice.

A rede de televisão CNN informa que quando os agentes chegaram ao homem, ele estava deitado no telhado onde teria disparado os tiros. Ele não tinha nenhum documento consigo, o que dificultou sua identificação por horas. As autoridades informaram que coletaram amostras de DNA para identificá-lo

Foi possível ver imagens dos policiais chegando ao telhado onde o homem estava deitado, vestido com roupas de camuflagem cinza.

“Bala perfurou parte superior de minha orelha”

A mídia local de Pittsburgh, WTAE, informou que ele usou um rifle do tipo AR-15 e disparou oito tiros antes de ser alvejado e morto pelos agentes do Serviço Secreto.

As autoridades afirmaram que ele matou um participante do comício, feriu Trump na orelha direita e deixou outras duas pessoas gravemente feridos na plateia.

Em vídeos que registravam o comício é possível ouvir os estampidos, e depois Trump levando a mão à orelha. Na sequência, vários apoiadores que estavam atrás do ex-presidente se abaixaram e gritaram. Agentes se lançaram sobre Trump e, após verificar seu estado, o retiraram do palanque segundos depois e o escoltaram até um veículo.

Ao se reerguer no palanque antes de deixar o local, Trump parecia ter um pouco de sangue na orelha direita, na bochecha e nas mãos. Ele levantou o punho nesse momento, geticulando para seus apoiadores.

“Foi atingido por uma bala que perfurou a parte superior de minha orelha direita”, escreveu o republicano em sua plataforma Truth Social. “É incrível que um ato assim possa ocorrer em nosso país”, acrescentou.

Trump desembarca aparentando estar bem

Poucas horas depois, Trump apareceu aparentando bom estado de saúde. Imagens divulgadas pela rede de televisão Fox News mostram o ex-presidente descendo de seu avião particular ao chegar depois da meia-noite deste domingo no aeroporto de Newark, no estado de Nova Jersey.

Usando um terno azul e sem gravata, Trump desceu os degraus da aeronave sem qualquer ajuda, caminhou com normalidade e acenou para algumas pessoas na pista.

Ele presumivelmente seguiu para a Trump Tower, edifício em Manhattan onde tem um de seus endereços.

Logo após ser alvo do ataque, Trump foi levado às pressas para um hospital, cujos detalhes não foram divulgados, mas provavelmente na cidade de Pittsburgh, que é a cidade mais próxima da pequena e rural Butler, onde ocorreu o ataque.

Ele ficou no hospital por apenas algumas horas e, depois, uma caravana de veículos escoltada pela Polícia Estadual da Pensilvânia foi vista a caminho do aeroporto local para que Trump embarcasse em seu avião.

Não se sabe se o político terá alguma atividade neste domingo ou se vai descansar, mas sua equipe de campanha já confirmou que ele é esperado na segunda-feira na convenção do Partido Republicano em Milwaukee, onde a legenda deve formalizar sua candidatura para as eleições presidenciais de novembro.

Reações

Presidente e candidato à reeleição, Joe Biden se solidarizou com Trump. Ele escreveu no X que está “grato” por Trump estar bem. “Estou rezando por ele e sua família e por todos aqueles que estiveram presentes no comício, enquanto aguardamos mais informações.”

O filho mais velho do ex-presidente, Donald Trump Jr., disse que falou com o pai por telefone e que ‘ele está de ótimo humor’. ‘Ele nunca vai parar de lutar para salvar a América, não importa o que a esquerda radical jogue contra ele,’ disse sobre seu pai em um comunicado.

O ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro e outros aliados de Trump prestaram apoio ao candidato republicano. “Nossa solidariedade ao maior líder mundial do momento. Esperamos sua pronta recuperação. Nos veremos na posse”, disse Bolsonaro. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, disse que ficou “chocado” com o incidente.

Presidente Lula classificou o episódio como “inaceitável”. “O atentado contra o ex-presidente Donald Trump deve ser repudiado veementemente por todos os defensores da democracia e do diálogo na política. O que vimos hoje é inaceitável”.

Putin e Milei instrumentalizam atentado contra Trump

O protocolo diplomático estabelece que, em um atentado contra uma figura política, as mensagens do exterior se limitem a condenar a violência e mostrar solidariedade à vítima. Pelo mundo, foi isso o que ocorreu depois dos tiros disparados contra Donald Trump. Salvo em dois casos: o Kremlin e a Casa Rosada, na Argentina.

A porta-voz do governo de Vladimir Putin pediu aos Estados Unidos que “façam um balanço” de suas “políticas de incitação ao ódio”. Moscou ainda usou a tentativa de assassinato para denunciar o apoio americano à Ucrânia.

Dirigindo-se “àqueles que votam nos Estados Unidos para fornecer armas” a Kiev, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, criticou o apoio a Kiev, que, segundo ela, alimentou “ataques contra o presidente russo”.

“Talvez fosse melhor usar esse dinheiro para financiar a polícia americana e outros serviços que supostamente garantem a lei e a ordem nos Estados Unidos?”, espetou.

Uma vitória de Trump nas eleições de novembro colocaria em questão o apoio contínuo dos EUA à Ucrânia. O candidato do Partido Republicano sugeriu que acabaria com o conflito muito rapidamente se ganhasse de volta a presidência.

Javier Milei, aliado de Trump, não perdeu tempo e também transformou o atentado numa manobra para reforça seu discurso de ataques contra a esquerda.

“Todo o meu apoio e solidariedade ao presidente e candidato Donald Trump, vítima de uma tentativa covarde de assassinato que colocou em risco a sua vida e a de centenas de pessoas”, disse o argentino.

“O desespero da esquerda internacional não é surpreendente, pois hoje vê a sua ideologia nociva expirar e está disposta a desestabilizar as democracias e a promover a violência para chegar ao poder”, disse.

“Com medo de perder nas urnas, recorrem ao terrorismo para impor a sua agenda retrógrada e autoritária. Espero a rápida recuperação do presidente Trump e que as eleições nos Estados Unidos sejam realizadas de forma justa, pacífica e democrática”, completou Milei.

Trump usa ‘martírio’ como campanha e democracia dos EUA vive definição

O disparo contra Donald Trump coloca a democracia americana numa encruzilhada e num momento de definição. Observadores, políticos e analistas tentam entender, neste momento, se o atentado abrirá uma era de violência política sem precedentes nos últimos 50 anos, ou se haverá um novo tom na disputa pelo poder.

Entre 1963, quando John Kennedy foi assassinado, até 1981, o país viveu uma série de atos de violência política. Ronald Reagan foi alvo apenas dois meses depois de tomar posse. Antes, Gerald Ford havia escapado de dois outros atentados. Assassinatos políticos passaram a fazer parte da realidade americana.

Mas não há nada que indique, por enquanto, que o caminho seja o da pacificação e nem de armistício.

No campo de Donald Trump, as cenas, o fato e ter sobrevivido se transformaram na confirmação de sua identidade política, independentemente do que dirão as investigações sobre o autor do atentado e a veiculação de sua suposta relação com os próprios republicanos.

A ordem é a de estabelecer uma narrativa que impulsione sua campanha, agora com contorno de um suposto “herói”.

Imediatamente após o disparo, sua imagem com um rosto ensanguentado, o punho para cima e bandeira americana como pano de fundo foi usada. Um de seus filhos foi às redes sociais para divulgar não apenas o que promete ser um retrato ícone para os republicanos. Mas também uma mensagem clara: “esse é o lutador que os EUA precisam”.

Isso tudo depois de semanas de um debate sobre a fragilidade de Joe Biden e sua falta de energia para conduzir uma superpotência em decadência.

Os apoiadores de Trump usaram o sangue como sinal de martírio pela nação, reforçando a ideia central de sua campanha: sua energia e força, traços definidores de sua identidade política diante de uma base de eleitores formada por camadas repletas de angústia e incerteza.

Trump instrumentalizou cada momento do seu “milagre”. Horas depois, desceu de seu avião sozinho, sem a necessidade de ajuda. Um recado, mais uma vez, em contraposição à situação física de Joe Biden.

A mensagem já está preparada: depois de tentarem eliminar Trump nas urnas, na Justiça e nas redes sociais, agora querem sua eliminação física. O argumento tem dois impactos: mobiliza seus eleitores como nunca e cria uma imunidade contra qualquer ataque, nas cortes ou nos discursos.

O corolário desse argumento é tão simples como cativante para seus apoiadores: Trump – um suposto resistente – representa uma ameaça ao Establishment ao supostamente dizer a “verdade”.

Sem esperar nem mesmo o nome do criminoso, a campanha do republicano também não demorou para veicular a mensagem de que o disparo era resultado das mensagens de ódio dos democratas contra Trump. Uma das falas mais repetidas do campo de Biden é de que o ex-presidente republicano precisa ser “parado”. Nada mais nada menos que 30 políticos republicanos foram às redes acusar os democratas, num ato visivelmente orquestrado e coordenado.

O atual presidente fez sua parte. Telefonou para Trump, pediu orações, suspendeu a campanha e condenou o ataque. Mas os democratas ficaram órfãos de uma das principais alegações que usavam: a violência política que o trumpismo representa.

Os próximos meses devem ser marcados como os mais tensos da história recente da democracia americana. Entre diplomatas nos EUA, não se exclui que a violência política amplie qualquer disposição a retomar cenas como a do assalto ao Capitólio ou incidentes e atentados em outros locais do país.

Há poucos dias, Jacob Chansley, que se vestiu de viking na invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, anunciou que estava pedindo os chifres de sua fantasia de volta. Eles estão retidos com as autoridades e o “QAnon Shaman”, como é conhecido, quer usa-las na campanha eleitoral.


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