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Mundo
Campanha usará imagem do ex-presidente ferido para reforçar seu favoritismo: no Brasil, bolsonaristas apostam na desinformação
Publicado em 15/07/2024 10:26 - Jamil Chade, Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On
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Foi por muito pouco. Um centímetro a mais e a democracia americana estaria seriamente comprometida, jogando o restante do que existe ainda de credibilidade das potências ocidentais num fosso e instaurando um clima absoluto de incerteza no mundo.
Ainda que tenha sido de raspão, o tiro deixou claro o risco de ruptura que existe no pacto americano, já profundamente abalado em seu compromisso de estabelecer uma comunidade de destino. Forjada sob violência, a construção dos EUA vive uma ameaça existencial, pelo menos da forma que a conhecemos.
Nada é exatamente novo. Donald Trump zombou ou deu pouca importância para políticos que foram agredidos, incitou a violência e chamou de “patriotas” os invasores do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021. Mais recentemente, ele afirmou que os golpistas que estão hoje presos foram “sequestrados” pelo Estado.
O que ocorreu no fim de semana, portanto, é muito mais o resultado de uma retórica cada vez mais agressiva e de uma sociedade profundamente dividida — e armada — que um ato realmente isolado.
Ao decidir que não poderia aceitar a derrota nas eleições, ao mentir e ao fazer com que circulasse a ideia de que ele não havia perdido o pleito, Trump conseguiu o impensável: convencer uma parte dos americanos de que o atual presidente é ilegítimo e que o resultado foi fraudado.
Em abril, uma pesquisa revelou que apenas 70% dos americanos acreditavam que Biden havia vencido a eleição de 2020. Entre os republicanos, a taxa é de apenas 38%.
Junto com esse feito, o que se viu foi um abalo profundo na confiança de uma parcela da população em suas próprias instituições.
Se a democracia é um pacto, ela apenas existe se há um acordo de princípios entre os cidadãos de que toda a infraestrutura estabelecida para que o regime funcione tem lastro. E, nos últimos anos, é esse lastro que foi golpeado.
Prova disso é que o sangue nem sequer havia secado e republicanos estavam acusando Joe Biden de ter um envolvimento no atentado. Do outro lado do espectro político, democratas se apressaram em denunciar o atentado como “armação”, sem prova alguma.
A violência que era retórica ficou explícita. Como num genocídio, o crime nunca começa com o primeiro morto. Mas com a liberação do discurso de ódio. E, hoje nos EUA, há um claro espírito de vingança.
Numa recente pesquisa realizada pela PBS, NPR e Marist, 20% dos americanos afirmaram que estão dispostos a usar violência para “recolocar o país nos trilhos”. Entre os democratas, a taxa é de 12%. Mas sobe para 28% entre republicanos.
Sim, a bala passou muito perto.
Atentado gera onda de desinformação
Guerra civil, infiltrados na polícia, “a mão de Joe Biden”, CIA, Hamas, Mossad ou mesmo comunistas e antifascistas.
Nas horas que se seguiram ao atentado contra Donald Trump, as redes sociais foram tomadas por teorias conspiratórias, mentiras e a disseminação de desinformação, num sinal claro da dificuldade que a eleição americana representa para as plataformas.
Inicialmente, uma das postagens com maior repercussão foi a de que se tratava de um agente infiltrado da política de Butler, cidade onde ocorreu o atentado. Nada disso era verdade. Mas contas com milhões de seguidores difundiram a suposta notícia, inclusive canais conhecidos por divulgar propaganda do Kremlin.
Na rede de Elon Musk, que auto se declara um “absolutista da liberdade de expressão”, o termo “guerra civil” foi amplamente usado, enquanto canais do grupo QAnon – de extrema direita – insistiam que o ato havia sido uma estratégia da esquerda para que os conservadores reagissem e, assim, uma guerra civil fosse instalada no país. Nada disso tinha qualquer base.
Mas, na mesma rede, o hashtag “armação”, ou staged (em inglês), chegou a figurar como o segundo lugar entre os trending topics. Ao aparecer como um dos temas mais destacados do dia, a palavra ganha maior impulso e, por sua vez, disseminação.
Outras plataformas abandonaram essa classificação, por conta da acusação de que estariam fazendo uma curadoria dos temas que seriam de maior interesse.
Sem qualquer prova, uma das teorias mais difundidas nas últimas horas apontava a culpa para o “deep state” americano. Ou seja, o estado profundo que, longe das câmeras, supostamente controla o destino dos EUA.
Mesmo sem que as autoridades tenham apontado o nome do autor dos disparos, postagens ainda indicavam que o criminoso seria Mark Violets, um suposto “ativista antifascista”. Mais uma vez, nada disso era verdade. A foto veiculada era de Marco Violi, um influenciador italiano e que cobre assuntos ligados ao futebol.
Violi foi obrigado a ir às redes dizer que estava em Roma e que não tinha qualquer relação com o atentado.
Mesmo assim, contas bolsonaristas chegaram a publicar a acusação contra o “ativista antifascista”, para depois apagar a postagem no X.
Parte dos ataques foi dirigido contra a Casa Branca. O republicano Michael Collins ainda acusou Joe Biden, insistindo que ele deveria ser denunciado pelo crime. Outros políticos aliados de Trump também optaram por veicular o mesmo discurso, sem qualquer provas.
As autoridades americanas identificaram e mataram o autor dos disparos. Segundo eles, trata-se de Thomas Crooks, que vivia 64 quilômetros da cena do crime.
Campanha usará imagem de Trump ferido, e isso pode reforçar seu favoritismo
Após tiros serem ouvidos, Trump surgiu ferido com sangue na orelha e na bochecha. Foi imediatamente protegido e retirado do palco pelo serviço secreto, ainda tendo tempo para erguer o punho cerrado para o ar.
Uma investigação dirá o que, de fato, aconteceu, quem foi o responsável e o motivo. Mas duas coisas podem ser ditas neste momento:
1) A imagem de Trump ferido já viralizou nas redes sociais e será usada ad nauseam por sua campanha para gerar empatia e reforçar a narrativa de que ele é perseguido. Nomes conhecidos entre os políticos democratas prestam solidariedade ao republicano. Com isso, pode conseguir muitos votos e reforçar seu favoritismo na eleição de novembro.
Para efeito de comparação sobre a força de um atentado, em 6 de setembro de 2018, o então candidato Jair Bolsonaro foi alvo de um durante ato de campanha em Juiz de Fora (MG). A facada que levou de Adélio Bispo, um lobo-solitário com problemas mentais, gerou uma onda de empatia a seu favor que contribuiu com a sua eleição. Ele também soube usar isso a seu favor, evitando debates e eventos.
2) Os Estados Unidos reforçam sua imagem como país dos tiroteios, em que comprar uma arma é mais fácil do que adquirir um carro. Isso vai ser usado na campanha eleitoral para pressionar a classe política a tornar mais rígida a regulamentação do acesso a armamentos e munição – mudança que é negada sistematicamente pelos conservadores.
É mais fácil Joe Biden ser reeleito do que ser aprovada uma restrição a armas.
Trump empurrou seus seguidores contra o Congresso norte-americano para uma tentativa de golpe fracassada em 6 de janeiro de 2021. Dois anos depois, Bolsonaro empurrou seus seguidores para uma tentativa de golpe fracassada contra as sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023.
O Brasil havia copiado os Estados Unidos na tentativa de golpe, agora os Estados Unidos copiam o Brasil no atentado ao candidato de extrema direita?
A depender do que apontarem as investigações, a eleição pode ter acabado no sábado.
Formalização de candidatura vira ritual de ‘canonização’ de Trump
Até aqui, os Estados Unidos viviam a uma das mais cruciais campanhas eleitorais de sua história à beira do abismo. A tentativa de assassinato do candidato do Partido Republicano mudou essa realidade. O tiro que atingiu a orelha de Donald Trump empurrou a corrida pela Casa Branca para dentro do abismo.
Começou com dois dias de antecedência a Convenção Nacional Republicana desta segunda-feira. O atentado tonificou o encontro. O que seria apenas a formalização de uma candidatura ganhou ares de um ritual de canonização do candidato. Trump foi convertido pelo fortuito em vítima do ódio político que cultua e estimula.
A bala que por um triz não matou Trump pode ter ferido de morte o já cambaleante plano de reeleição do seu rival. Antes do final de semana, Joe Biden ralava para convencer financiadores e aliados de que não está caduco. Agora, além de não brigar com a própria língua, terá que presentear o adversário com uma trégua. Pior: precisará guerrear contra uma miragem.
Onipresente nas redes sociais, a imagem de Trump com sangue no rosto, cercado de agentes de segurança, punho erguido, tendo a bandeira americana como pano de fundo, é a mais eficiente peça publicitária que o marketing político jamais criou. Mestre em cenografia, Trump ainda injetou som na miragem: “Lutar, lutar, lutar”.
A menos de quatro meses de da eleição o primitivismo antidemocrático está tinindo nos cascos. Numa disputa em que o voto é facultativo, parte da resistência talvez enxergue o comparecimento às urnas como desperdício de tempo.
Não é que a reta final da campanha eleitoral americana migrou de uma fase precária para um ciclo sombrio. A questão é que a própria democracia da superpotência flerta com o insondável. Uma eventual decadência dos Estados Unidos, especulada há mais de 50 anos, ganhou um raro contorno de realidade.
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