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Mundo

Aprovação de Trump cai para 36%: cenário de rejeição é consolidado

Movimento pelo afastamento do presidente ganha tração, mas enfrenta barreiras legais

Publicado em 21/04/2026 2:01 - Semana On

Divulgação The Boston Globe

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A aprovação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, permanece estagnada nos níveis mais baixos de seu atual mandato, segundo levantamento da Reuters em parceria com a Ipsos. Realizada ao longo de seis dias e concluída na última segunda-feira (20), a pesquisa aponta que apenas 36% dos americanos aprovam sua gestão, enquanto 62% manifestam desaprovação — um cenário de rejeição consolidada.

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O índice atual repete o registrado no mês anterior e contrasta com o momento inicial do mandato, quando Trump atingiu 47% de aprovação logo após a posse, em 20 de janeiro do ano passado. Desde então, dados compilados por ferramentas de agregação de pesquisas, como as utilizadas pelo The New York Times, indicam que o apoio ao presidente se manteve por meses em torno de 40%, antes de recuar com a alta da inflação e, sobretudo, com o aumento dos preços da gasolina — fenômeno intensificado após o início da guerra com o Irã.

O conflito, iniciado em fevereiro com a participação direta dos Estados Unidos e de Israel, tornou-se um dos principais fatores de pressão sobre o governo. Além do impacto econômico imediato, a ofensiva militar enfrenta resistência interna: apenas 36% dos entrevistados aprovam os ataques norte-americanos, praticamente o mesmo percentual registrado em abril (35%). A percepção de custo elevado também se reflete em outros indicadores — somente 26% consideram que a ação militar compensou seus efeitos, e o mesmo percentual aprova a condução do custo de vida pelo governo, igualando o pior desempenho de Trump nesse quesito.

A pesquisa ouviu 4.557 adultos em todo o país, por meio online, com margem de erro de dois pontos percentuais. Os dados revelam ainda fissuras políticas relevantes. Embora o Partido Republicano mantenha maior apoio ao presidente, há sinais de divisão interna, especialmente em temas ligados à sua conduta pessoal e capacidade de liderança.

Questões relacionadas ao temperamento e à clareza mental de Trump ganham destaque no levantamento. Apenas 26% dos americanos o classificam como “equilibrado”. Entre republicanos, a avaliação se divide: 53% concordam com essa definição, enquanto 46% discordam. Entre democratas, o índice despenca para 7%.

A percepção de deterioração cognitiva também aparece de forma expressiva: 51% dos entrevistados afirmam que a clareza mental do presidente piorou no último ano. Essa avaliação é compartilhada por 85% dos democratas, 54% dos independentes e até por 14% dos republicanos — um dado que evidencia desgaste mesmo entre aliados.

O comportamento recente do presidente tem contribuído para esse cenário. Nas últimas semanas, Trump protagonizou uma série de declarações controversas, incluindo ameaças públicas de “destruir a civilização do Irã” e de atacar infraestruturas estratégicas do país, como pontes e usinas de energia. Em paralelo, abriu uma frente de atrito com o líder da Igreja Católica, o papa Leão 14, a quem chamou de “fraco” após críticas do pontífice à campanha militar no Oriente Médio.

O episódio ganha relevância adicional quando comparados os níveis de popularidade: cerca de 60% dos americanos têm opinião favorável ao papa, contra os mesmos 36% que aprovam Trump. O líder religioso também supera figuras políticas democratas conhecidas, como Gavin Newsom e Kamala Harris, em termos de avaliação positiva.

No campo da política externa, a pesquisa evidencia resistência a propostas mais radicais associadas ao presidente. Apenas 16% dos americanos apoiam a saída dos Estados Unidos da Otan, medida defendida por Trump em diferentes momentos.

A percepção de segurança nacional também reflete ceticismo: somente 25% dos entrevistados acreditam que os ataques ao Irã tornarão o país mais seguro. Esse índice inclui 57% dos republicanos, mas cai para apenas 6% entre democratas, revelando uma forte polarização.

Em meio à escalada militar, tensões diplomáticas e controvérsias públicas, os dados indicam que Trump enfrenta um cenário político adverso, marcado por erosão de apoio, questionamentos sobre sua liderança e crescente impacto econômico sobre a população.

Movimento por afastamento de Trump ganha tração

O debate sobre a permanência de Trump no cargo ganhou novo fôlego em Washington, impulsionado por iniciativas no Congresso e manifestações vindas de diferentes espectros políticos. Parlamentares democratas passaram a articular a possibilidade de aplicação da 25ª Emenda da Constituição como mecanismo para afastamento do presidente, em meio ao agravamento de tensões institucionais e declarações consideradas extremas.

A proposta se ancora na quarta seção da emenda, que prevê a substituição do chefe do Executivo em casos de incapacidade para o exercício das funções. Para isso, seria necessário que o vice-presidente, em conjunto com a maioria do gabinete ou outro órgão designado pelo Congresso, declarasse formalmente a inaptidão do presidente. Trata-se, no entanto, de um dispositivo nunca acionado na história americana, o que amplia as incertezas jurídicas e políticas em torno de sua eventual aplicação.

A iniciativa tem como um de seus principais articuladores o congressista Jamie Raskin, que propôs a criação de uma comissão para avaliar a aptidão presidencial. A medida conta com o apoio de dezenas de parlamentares de seu partido, que classificam o momento como um risco à segurança nacional.

O movimento, porém, não se restringe ao campo democrata. Figuras associadas à direita americana também passaram a vocalizar críticas contundentes. A ex-congressista Marjorie Taylor Greene, antes alinhada ao presidente, declarou apoio à possibilidade de afastamento após romper politicamente com Trump. No mesmo sentido, a comentarista conservadora Candace Owens defendeu intervenção institucional, utilizando termos duros para caracterizar o comportamento do presidente.

Apesar da escalada retórica, o caminho da 25ª Emenda surge, em parte, como alternativa diante do bloqueio político ao impeachment. Embora Trump já tenha sido alvo desse processo em ocasiões anteriores, o atual equilíbrio de forças no Congresso — com os republicanos controlando a Câmara dos Representantes — inviabiliza avanços nessa frente. Como observou Raskin em entrevista à revista Time, não há, até o momento, adesão republicana suficiente sequer para iniciar o procedimento.

Especialistas em direito constitucional apontam que, além dos entraves políticos, há um componente estratégico no uso do debate sobre a emenda. Para o professor Mark Graber, da Universidade de Maryland, a discussão também funciona como instrumento de pressão política, ao associar o Partido Republicano diretamente à figura de Trump, dificultando eventuais movimentos de distanciamento.

Mesmo que o processo fosse formalmente iniciado, o presidente ainda teria margem para contestação. A legislação prevê que ele possa apresentar uma declaração afirmando sua capacidade de governar, o que transferiria a decisão final ao Congresso — onde seria necessário o apoio de dois terços dos parlamentares para efetivar o afastamento, um patamar considerado altamente improvável no atual cenário político.

Avaliações de ex-integrantes do próprio governo reforçam o ceticismo quanto à viabilidade da medida. O ex-conselheiro de segurança nacional John Bolton avalia que, independentemente da pertinência do debate, a aplicação da emenda dificilmente ocorrerá. Já o general aposentado Ben Hodges destaca a falta de disposição entre parlamentares republicanos para apoiar uma iniciativa dessa magnitude.

No plano público, a discussão sobre capacidade de liderança também encontra eco. Levantamentos recentes indicam dúvidas crescentes sobre a aptidão do presidente para lidar com desafios complexos, o que contribui para alimentar o debate institucional — ainda que, na prática, a correlação de forças em Washington mantenha o cenário de mudança distante.

Assim, embora a 25ª Emenda tenha retornado ao centro do debate político como hipótese extrema, sua aplicação permanece mais próxima do campo das possibilidades teóricas do que de uma solução concreta no curto prazo, evidenciando os limites do sistema diante de crises que combinam polarização, cálculo político e fragilidade institucional.

Estratégia ou descontrole?

A escalada de declarações e decisões atribuídas a Trump tem sido frequentemente interpretada como sinal de descontrole ou instabilidade. No entanto, cresce entre analistas a avaliação de que esse enquadramento pode simplificar um fenômeno mais complexo: a atuação do líder não como produto de irracionalidade, mas como expressão de um projeto político estruturado, com objetivos de longo prazo e impacto sistêmico.

O debate ganhou força à medida que aumentam as preocupações internas sobre os rumos do governo e os efeitos de suas decisões na política internacional e na economia americana. Em paralelo, a proximidade das eleições legislativas de meio de mandato adiciona um componente estratégico à disputa, com potencial para alterar o equilíbrio de poder no Congresso e, consequentemente, limitar a capacidade de ação da Casa Branca.

Nesse contexto, propostas de afastamento com base na 25ª Emenda voltaram ao centro das discussões. A iniciativa é impulsionada por setores que interpretam determinadas declarações do presidente — especialmente no campo da política externa — como indícios de incapacidade para o exercício do cargo. Ao mesmo tempo, cresce o volume de reportagens e análises que buscam associar o comportamento de Trump a quadros de declínio cognitivo.

Essa linha de interpretação, contudo, é alvo de críticas. Para parte do debate público, reduzir o fenômeno a uma questão de saúde mental pode obscurecer elementos estruturais mais amplos. A hipótese levantada é que há racionalidade nas ações do presidente — ainda que controversas —, inseridas em um projeto de reconfiguração institucional e de redefinição das dinâmicas de poder, tanto no plano doméstico quanto no internacional.

A discussão remete a reflexões clássicas da teoria política sobre a natureza do poder e da responsabilidade individual. Em Eichmann em Jerusalém, a filósofa Hannah Arendt analisa o julgamento de Adolf Eichmann, destacando como atos de extrema violência podem ser executados por indivíduos comuns inseridos em estruturas burocráticas que normalizam tais práticas. A autora não relativiza os crimes, mas desloca o foco da análise: do indivíduo isolado para o sistema que possibilita e legitima suas ações.

A evocação desse referencial no debate contemporâneo não implica equivalência histórica entre personagens, mas sugere uma advertência metodológica: concentrar a análise exclusivamente na figura do líder pode levar à subestimação das forças políticas, sociais e institucionais que sustentam sua atuação.

Nesse sentido, a eventual substituição de Trump — seja por mecanismos institucionais ou por vias eleitorais — não garantiria, por si só, uma mudança de rumo. O vice-presidente JD Vance é citado como uma liderança de menor peso político, o que levanta dúvidas sobre a capacidade de ruptura com a linha atual de governo. Mais do que a figura individual, o que está em jogo é a correlação de forças que permite a continuidade ou a inflexão de determinadas agendas.

A história política americana, como em outros contextos, sugere que lideranças emergem de ambientes que as legitimam. Elas não apenas moldam esse ambiente, mas também são moldadas por ele — em um ciclo que combina interesses, percepções de ameaça e oportunidades políticas.

A questão central, portanto, ultrapassa a discussão sobre a permanência de um indivíduo no poder. O desafio colocado é compreender e, eventualmente, alterar as estruturas que sustentam determinadas práticas e discursos. Sem esse enfrentamento, mudanças de liderança tendem a produzir efeitos limitados, preservando dinâmicas que continuam operando mesmo após a saída de seus protagonistas.

A leitura analítica aponta, assim, para um cenário em que o foco exclusivo na figura presidencial pode funcionar como uma simplificação conveniente — mas insuficiente — diante de transformações mais profundas em curso no sistema político e institucional dos Estados Unidos.

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