Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Mundo
Gastos com armas atômicas disparam e potências ampliam ogivas operacionais
Publicado em 19/06/2024 1:07 - Semana On, Julian Ryall (DW), Jamil Chade (UOL) – Edição Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
O acordo assinado nesta quarta-feira (19) em Pyongyang, entre a Coreia do Norte e a Rússia, prevê a prestação de assistência mútua em caso de agressão, anunciou o presidente russo, Vladimir Putin.
“O acordo de parceria global prevê igualmente a prestação de assistência mútua em caso de agressão contra uma das partes do acordo”, declarou Putin após conversas com o líder norte-coreano, Kim Jong-un, segundo a agência noticiosa russa TASS.
Putin referiu-se a declarações dos Estados Unidos e de outros países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) sobre o fornecimento à Ucrânia de armas de longo alcance, aviões F16 e outro armamento para atacar o território russo.
“Não se trata apenas de uma declaração, isto já está ocorrendo e é uma violação grosseira das restrições assumidas pelos países ocidentais no âmbito de vários tipos de obrigações internacionais”, afirmou.
Tanto Moscou quanto Pyongyang esperam que as conversas do líder russo com o ditador norte-coreano produzam uma série de iniciativas econômicas e militares. Os analistas alertam que alguns dos acordos – especialmente aqueles sobre a troca de armas e tecnologia avançada de mísseis e satélites – provavelmente serão mantidos em segredo.
Além desses pactos, no entanto, os dois lados estão igualmente ansiosos para fazer uma grande demonstração de estadismo. Kim Jong-un está desesperado para aprimorar suas credenciais como um importante líder mundial, e as imagens de satélite da capital norte-coreana mostram preparativos suntuosos para a chegada de Putin ao centro de Pyongyang.
Putin, por sua vez, quer demonstrar que a Rússia ainda tem amigos e aliados e que ele está livre para viajar para o exterior, apesar das sanções da ONU e do mandado internacional de prisão emitido contra ele pelo Tribunal Penal Internacional por causa do sequestro de crianças ucranianas pelas tropas russas.
A “vitória” de Kim ao receber Putin
“A lista de países dispostos a receber Putin está mais curta do que nunca, mas para Kim Jong-un, essa visita é uma vitória”, disse Leif-Eric Easley, professor de estudos internacionais da Universidade Ewha Womans, na Coreia do Sul. “O encontro não apenas melhora o status da Coreia do Norte entre os países que se opõem à ordem internacional liderada pelos EUA, mas também ajuda a reforçar a legitimidade interna de Kim.”
“Moscou e Pyongyang provavelmente continuarão a negar que cometem violações da lei internacional, mas mudaram notavelmente passando de esconder suas atividades ilícitas para ostentar sua cooperação”, disse ele à DW.
“A visita de Putin é, em parte, para agradecer à Coreia do Norte por agir como um ‘arsenal para a autocracia’ em apoio à sua invasão ilegal da Ucrânia”, acrescentou Easley. “Depois que Kim Jong-un viajou para a Rússia para as duas cúpulas bilaterais anteriores, essa visita de reciprocidade é politicamente importante, porque permite que a propaganda de Pyongyang retrate Kim como um líder mundial.”
Moscou e Pyongyang unidos contra os EUA
Mesmo antes de aterrissar em Pyongyang, Putin anunciou a criação de novos sistemas não especificados para comércio e pagamentos internacionais. A Rússia foi efetivamente excluída das estruturas de cooperação internacional lideradas pelo Ocidente devido às sanções impostas pela guerra na Ucrânia. Da mesma forma, a Coreia do Norte não tem conseguido acessar bancos e outras instalações comerciais como punição por seus programas de armas nucleares e mísseis.
Em um artigo publicado no jornal Rodong Sinmun da Coreia do Norte na manhã desta terça-feira (18/06), Putin disse que a relação entre os dois países é “baseada nos princípios de igualdade, respeito mútuo e confiança”.
Ele também expressou sua gratidão à Coreia do Norte pelo apoio de Pyongyang à “operação militar especial” na Ucrânia e disse que os Estados Unidos estão “fazendo tudo o que podem para impor ao mundo a chamada ‘ordem baseada em regras’, que é essencialmente nada mais do que uma ditadura neocolonial global baseada em um ‘padrão duplo'”.
A “força de vontade” de Putin
Um editorial que acompanha o jornal elogiou Putin como “um político extraordinário”, que está “fortalecendo o poder nacional [da Rússia] com suas habilidades refinadas e forte vontade”.
Yakov Zinberg, professor de relações internacionais nascido na Rússia da Universidade Kokushikan, do Japão, vê a visita de Putin a Pyongyang como “ameaçadora”.
“Essa é uma ameaça calculada à aliança de segurança entre os EUA, a Coreia do Sul e o Japão na região e foi projetada para enviar a mensagem de que ele não apenas é forte em reagir à Otan na Europa, mas que também está sendo forte ao reagir no Extremo Oriente”, disse ele.
Zinberg prevê que Kim se comprometerá a fornecer à Rússia mais projéteis de artilharia, além dos milhões de tiros que os analistas acreditam já terem sido enviados para as linhas de frente na Ucrânia. Em troca, Putin continuará a oferecer suporte tecnológico para os projetos nucleares, de mísseis e espaciais norte-coreanos.
A Rússia e a Coreia do Norte negam estar havendo transferência da munição e qualquer cooperação ilegal em tecnologia militar e de satélites.
Apoio militar russo à Coreia do Norte?
Lim Eun-jung, professora associada de estudos internacionais da Universidade Nacional de Kongju, na Coreia do Sul, acrescenta que Kim fez a “escolha estratégica” de apoiar a Rússia desde o início da invasão da Ucrânia, em parte para reduzir sua dependência da China para obter apoio político no cenário mundial.
“Kim foi ao Cosmódromo de Vostochny, no extremo oriente russo, em setembro do ano passado, e parece que conseguiu obter mais tecnologia russa avançada”, disse ela à DW. “Prevejo que ele busque o mesmo novamente nesse encontro, mas ele também pode pedir um compromisso militar firme de Putin e, se ele conseguir isso por escrito, isso colocaria a Coreia do Norte em uma posição muito forte.”
“Essa é uma ameaça calculada à aliança de segurança entre os EUA, a Coreia do Sul e o Japão na região e foi projetada para enviar a mensagem de que ele não apenas é forte em reagir à Otan na Europa, mas que também está sendo forte ao reagir no Extremo Oriente”, disse ele.
Zinberg prevê que Kim se comprometerá a fornecer à Rússia mais projéteis de artilharia, além dos milhões de tiros que os analistas acreditam já terem sido enviados para as linhas de frente na Ucrânia. Em troca, Putin continuará a oferecer suporte tecnológico para os projetos nucleares, de mísseis e espaciais norte-coreanos.
A Rússia e a Coreia do Norte negam estar havendo transferência da munição e qualquer cooperação ilegal em tecnologia militar e de satélites.
Apoio militar russo à Coreia do Norte?
Lim Eun-jung, professora associada de estudos internacionais da Universidade Nacional de Kongju, na Coreia do Sul, acrescenta que Kim fez a “escolha estratégica” de apoiar a Rússia desde o início da invasão da Ucrânia, em parte para reduzir sua dependência da China para obter apoio político no cenário mundial.
“Kim foi ao Cosmódromo de Vostochny, no extremo oriente russo, em setembro do ano passado, e parece que conseguiu obter mais tecnologia russa avançada”, disse ela à DW. “Prevejo que ele busque o mesmo novamente nesse encontro, mas ele também pode pedir um compromisso militar firme de Putin e, se ele conseguir isso por escrito, isso colocaria a Coreia do Norte em uma posição muito forte.”
Troca de recursos naturais por mão de obra
É provável que Putin também concorde em fornecer os recursos naturais que a economia norte-coreana deseja, incluindo petróleo e gás. Enquanto isso, espera-se que Kim concorde em enviar mais trabalhadores para a Rússia para compensar o déficit causado pelo recrutamento militar.
Lim disse que Kim está, sem dúvida, tirando o máximo proveito do acordo, observando que até mesmo os amigos de Kim na China poderiam fazer objeções à aproximação da Coreia do Norte com a Rússia.
“Essa é uma grande preocupação em Seul, Tóquio e Washington, mas também em Pequim”, disse ela.
No entanto, Easley sugere que é provável que existam falhas não muito abaixo da superfície do que é efetivamente uma aliança de conveniência.
“O alinhamento de tais Estados é uma ameaça ao comércio e à paz globais”, disse ele. “No entanto, esses Estados não compartilham instituições e valores de aliança duradouros; eles estão apenas fracamente unidos pela resistência à aplicação de leis e normas internacionais.”
“Além das democracias ricas, muitos outros governos têm interesses permanentes no comércio e na diplomacia baseados em regras”, concluiu Easley. “Eles devem aplicar sanções com urgência, para ajudar a garantir que a visão Putin-Kim das relações internacionais fracasse.”
Gastos com armas atômicas disparam e potências ampliam ogivas operacionais
As principais potências militares do mundo ampliam de forma dramática seus investimentos em armas nucleares, ampliando a tensão internacional. Dados divulgados nesta segunda-feira pela ICAN – a campanha internacional pelo banimento de armas nucleares – revelam que US$ 91 bilhões foram gastos em bombas atômicas por parte da China, França, Índia, Israel, Coreia do Norte, Paquistão, Rússia, Reino Unido e EUA.
Isso equivale a US$ 173 mil por minuto, ou US$ 2,8 mil por segundo.
O maior gasto vem dos EUA, com US$ 51,5 bilhões. O volume é maior do que a de todos os outros países com armas nucleares juntos e é responsável por 80% do aumento nos gastos com armas nucleares em 2023.
O segundo maior gastador foi a China, com US$ 11,8 bilhões, com a Rússia gastando o terceiro maior valor, US$ 8,3 bilhões. Os gastos do Reino Unido aumentaram significativamente pelo segundo ano consecutivo, com um aumento de 17% para US$ 8,1 bilhões.
O que o levantamento revela é que os fabricantes de armas nucleares destinaram pelo menos US$ 6,3 milhões em 2023 para influenciar as políticas governamentais e as atitudes do público em relação às armas nucleares.
Em 2023, as empresas envolvidas na produção de armas nucleares receberam novos contratos no valor de pouco menos de US$ 7,9 bilhões. Somente nos EUA e na França (os países para os quais os números podem ser obtidos), essas empresas gastaram US$ 118 milhões em lobby.
“No ano passado, pelo menos US$ 123 milhões foram gastos na contratação de mais de 540 lobistas e no financiamento dos principais grupos de reflexão que influenciam o debate nuclear”, afirma a entidade.
Nos últimos cinco anos, foram gastos US$ 387 bilhões em armas nucleares, com um aumento de 34% nos gastos anuais, de US$ 68,2 bilhões para US$ 91,4 bilhões por ano. Em alguns casos, esses contratos de fabricação estão previstos para durar até 2040, o que significa que não haverá um desarmamento.
O dinheiro foi usado para modernizar e, em alguns casos, a expandir os arsenais.
“A aceleração dos gastos com essas armas desumanas e destrutivas nos últimos cinco anos não está melhorando a segurança global, mas representando uma ameaça global”, afirmou a autora do levantamento, Alicia Sanders-Zakre.
Mas ogivas operacionais
O inventário global aponta para um total de cerca de 12.121 ogivas em janeiro de 2024. Dessas, cerca de 9.585 estavam em estoques militares para uso potencial.
Dados também publicados nesta segunda-feira pelo SIPRI (Instituto de Pesquisas da Paz de Estocolmo) apontam que 3.904 dessas ogivas tenham sido colocadas com mísseis e aeronaves – 60 a mais do que em janeiro de 2023 – e o restante estava em armazenamento.
Cerca de 2.100 das ogivas instaladas foram mantidas em um estado de alerta operacional elevado em mísseis balísticos. Quase todas essas ogivas pertenciam à Rússia ou aos EUA, mas, pela primeira vez, acredita-se que a China tenha algumas ogivas em alerta operacional elevado.
“Embora o total global de ogivas nucleares continue a cair à medida que as armas da era da Guerra Fria são gradualmente desmanteladas, lamentavelmente continuamos a ver aumentos anuais no número de ogivas nucleares operacionais”, disse o diretor do SIPRI, Dan Smith. “Essa tendência parece provável que continue e provavelmente se acelere nos próximos anos e é extremamente preocupante”.
Segundo o estudo, a Índia, o Paquistão e a Coreia do Norte estão buscando a capacidade de implantar várias ogivas em mísseis balísticos, algo que a Rússia, a França, o Reino Unido, os EUA e, mais recentemente, a China já possuem.
“Isso permitiria um rápido aumento potencial das ogivas instaladas, bem como a possibilidade de os países com armas nucleares ameaçarem a destruição de um número significativamente maior de alvos”, indicou.
Hoje, Rússia e EUA juntos possuem quase 90% de todas as armas nucleares. Os tamanhos de seus respectivos estoques militares permanecem relativamente estáveis em 2023, embora se estime que a Rússia tenha implantado cerca de 36 ogivas a mais com forças operacionais do que em janeiro de 2023.
A estimativa do SIPRI sobre o tamanho do arsenal nuclear da China aumentou de 410 ogivas em janeiro de 2023 para 500 em janeiro de 2024, e espera-se que continue crescendo. Pela primeira vez, a China também pode estar implantando um pequeno número de ogivas em mísseis em tempos de paz.
“Dependendo de como decidir estruturar suas forças, a China poderá ter pelo menos tantos mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs) quanto a Rússia ou os EUA até a virada da década, embora seu estoque de ogivas nucleares ainda deva permanecer muito menor do que os estoques de qualquer um desses dois países”, afirma o estudio.
“A China está expandindo seu arsenal nuclear mais rapidamente do que qualquer outro país”, disse Hans Kristensen, pesquisador do Programa de Armas de Destruição em Massa do SIPRI e Diretor do Projeto de Informações Nucleares da Federação de Cientistas Americanos.
O que daria para fazer com o dinheiro das armas nucleares?
Na avaliação da ICAN, os bilhões de dólares desperdiçados em armas nucleares todos os anos são uma “alocação inaceitável de recursos públicos”.
“Em vez de despejar recursos muito necessários em uma corrida imprudente com armas de destruição em massa, os nove países com armas nucleares poderiam pagar por serviços vitais para seus cidadãos ou ajudar a enfrentar crises globais existenciais”, disse.
“US$ 91,4 bilhões por ano poderiam pagar por energia eólica para mais de 12 milhões de residências para ajudar a combater a mudança climática ou cobrir 27% da lacuna de financiamento para combater a mudança climática, proteger a biodiversidade e reduzir a poluição”, estimam.
Um minuto dos gastos com armas nucleares em 2023 poderia ter pago o plantio de um milhão de árvores.
Cinco anos de gastos com armas nucleares poderiam ter alimentado 45 milhões de pessoas que atualmente enfrentam a fome – durante a maior parte de suas vidas.
Deixe um comentário