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Israel reavalia seu papel regional após queda de Assad
Publicado em 11/12/2024 1:14 - Kersten Knipp, Nik Martin, Tania Krämer (DW) – Edição Semana On
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Embora já amplamente derrotada na Síria, a organização terrorista “Estado Islâmico” (EI) ainda representa uma ameaça a um futuro pacífico para o país. Pelo menos essa é a opinião do governo Biden, que, por isso, ordenou ataques maciços contra os jihadistas. A seriedade da ameaça já é indicada pelo arsenal de aeronaves utilizadas. Bombardeiros B-52 pesados participaram dos ataques no centro do país, assim como os caças F-15 e A-10 Thunderbolt.
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Os ataques contra líderes, combatentes e acampamentos do EI no centro do país foram parte de uma missão contínua para enfraquecer e derrotar o EI, anunciou o Comando Central dos EUA, na plataforma de mensagens curtas X. “Dezenas” de ataques foram realizados.
“Não deve haver dúvidas – não permitiremos que o EI se reagrupe e tire proveito da atual situação na Síria”, acrescenta o texto no X, citando o general Michael Erik Kurilla. “Todas as organizações na Síria devem saber que nós as responsabilizaremos se colaborarem com o EI ou o apoiarem de alguma forma.”
“Ajudaremos a garantir a estabilidade no leste da Síria, protegendo todo o pessoal – nosso pessoal – de quaisquer ameaças e mantendo nossa missão contra o EI, incluindo a segurança dos centros de detenção onde os combatentes do EI estão presos”, disse no domingo o presidente dos EUA, Joe Biden.
“O EI nunca sumiu completamente”
O “Estado Islâmico” nunca desapareceu completamente na Síria, embora tenha sido amplamente derrotado, segundo o especialista em Oriente Médio e consultor político Carsten Wieland. “Mas ainda existem várias células no centro e no leste da Síria, inclusive células adormecidas. E elas ainda representam uma ameaça. E o perigo é sempre particularmente grande quando há um vácuo de poder, como é o caso atualmente. Na opinião dele, os EUA agiram corretamente. “Agora é importante estabilizar as forças que tomaram o poder na Síria da forma mais pacífica possível e não sobrecarregá-las com uma frente adicional na forma do EI”, ressalta.
Do Iraque para a Síria
Fundado no Iraque no contexto da intervenção dos EUA em 2003, o “Estado Islâmico” também se espalhou para a Síria em 2012, durante o tumulto da revolta. Lá, a organização se autodenominou Jabhat al-Nusra ou Frente Al-Nusra (“Frente de Apoio”). Ela era comandada por Abu Mohammed al-Jolani – o mesmo homem que agora dirige a milícia Organização pela Libertação do Levante (Hajat Tahrir al-Sham ou HTS), cujo avanço levou à queda do ditador Bashar al-Assad. Ideologicamente, al-Jolani foi se distanciando cada vez mais do EI iraquiano. Nos anos seguintes, a rivalidade entre os dois grupos tornou-se cada vez mais acirrada.
Ataques a civis
Enfraquecido pelos anos de revoltas, O Exército sírio não conseguiu fazer muito contra o EI. Muitos soldados perderam suas vidas em batalhas e emboscadas. Entretanto, a partir de 2015, o “Estado Islâmico” e a Frente Al-Nusra enfrentaram uma crescente pressão militar dos EUA. O EI ficou cada vez mais enfraquecido. Em 2019, foi amplamente forçado a abrir mão de seu domínio. No entanto, alguns dos chamados “califas”, os comandantes militares e espirituais supremos do EI, conseguiram se manter. Mas os EUA conseguiram eliminá-los várias vezes. Muitos membros do EI foram detidos no nordeste da Síria e ainda podem ser encontrados na região até hoje.
Apesar disso, algumas células e campos do EI sobreviveram, principalmente no deserto de Badia, na região da fronteira entre a Síria e o Iraque. “As milícias do EI realizaram repetidamente ataques em pequena escala”, diz Carsten Wieland. Esses ataques foram direcionados especialmente contra a população civil rural e, principalmente, contra as pessoas que buscavam as trufas que cresciam ali. “Em alguns casos, várias dezenas de pessoas foram mortas”, lembra Wieland. Outros membros estão em atuam de forma velada, aguardando possíveis ordens de mobilização. Como o EI é amplamente organizado em uma base descentralizada, é quase impossível desbaratá-lo de uma vez por todas.
EI pode tentar aumentar influência
É verdade que o EI é atualmente considerado incapaz de se espalhar amplamente ou mesmo de restabelecer seu antigo território. Porém, após a queda de Assad e a mudança política na Síria, ele poderia tentar aumentar sua influência. É exatamente por isso que o grupo, conhecido por sua brutalidade, está sendo combatido com tanta determinação.
“É bastante possível que Mohammed al-Jolani tenha de fato renunciado à ideologia do EI”, diz Carsten Wieland. “O grupo fez arranjos e acordos com vários outros atores locais. Isso me dá alguma esperança de que ocorra algo construtivo daqui para frente. Também é notável que não tenha havido grandes massacres ou campanhas de vingança. Sob a ideologia do EI, provavelmente teria ocorrido algo completamente diferente nos últimos dias.”
Como a guerra civil destruiu a economia da Síria
Em 2011, quando começou a guerra civil na Síria, o Produto Interno Bruto (PIB) do país era de 67,5 bilhões de dólares. A Síria ocupava o 68º lugar entre 196 países na classificação global do PIB, com uma economia comparável à do Paraguai ou da Eslovênia.
No ano passado, o PIB sírio havia caído para o 129º lugar nessa mesma tabela de classificação, tendo encolhido 85%, para apenas 9 bilhões de dólares, de acordo com estimativas do Banco Mundial. O país está, assim, no mesmo nível do Chade e dos territórios palestinos.
Quase 14 anos de conflito, sanções internacionais e o êxodo de 4,82 milhões de pessoas – mais de um quinto da população – afetaram fortemente a economia do que já era, antes da guerra civil, uma das nações mais pobres do Oriente Médio.
Outros 7 milhões de sírios, mais de 30% da população, são deslocados internos, segundo os dados de dezembro da agência de ajuda humanitária das Nações Unidas.
O conflito devastou a infraestrutura, causando danos duradouros aos sistemas de eletricidade, transporte e saúde. Várias cidades, incluindo Aleppo, Raqqa e Homs, foram destruídas.
A moeda síria sofreu forte desvalorização, o que levou a uma enorme queda no poder de compra. Em 2023, o país teve hiperinflação, segundo o Syrian Center for Policy Research (SCPR), uma organização independente de estudos.
Em junho passado, o SCPR afirmou que mais da metade dos sírios vivia na pobreza extrema e era incapaz de assegurar suas necessidades básicas de alimentação.
Os dois principais pilares da economia da Síria – o setor petrolífero e a agricultura – foram dizimados pela guerra. Em 2010, as exportações de petróleo haviam sido responsáveis por cerca de um quarto da receita do governo, e a produção de alimentos contribuiu com um percentual semelhante para o PIB.
O regime do presidente Bashar al-Assad perdeu o controle da maioria de seus campos de petróleo para grupos rebeldes, inclusive a milícia terrorista Estado Islâmico, mas também para as forças lideradas pelos curdos no nordeste do país.
Assim, uma das prioridades na reconstrução da Síria é o governo da província oriental de Deir Zor, que detém cerca de 40% das reservas de petróleo da Síria e vários campos de gás. A cidade de Deir Zor, capital da província, é a maior do leste do país e foi tomada pelos rebeldes curdos em meio à queda do regime de Assad. Os curdos mantêm um governo autônomo no nordeste da Síria.
Debate sobre fim das sanções
E há ainda as sanções econômicas internacionais, que restringiram severamente a capacidade do governo de exportar petróleo, grãos e algodão. Com a produção de petróleo reduzida a menos de 20 mil barris por dia nas áreas controladas pelo regime, o país tornou-se altamente dependente de importações do Irã, que era um dos principais aliados do regime.
O debate sobre o fim das sanções à Síria já começou. O especialista Delaney Simon, da organização independente International Crisis Group (ICG), voltada à prevenção e resolução de conflitos armados, afirmou que a Síria é um dos países mais sancionados do mundo e que deixar essas restrições em vigor equivale a “puxar o tapete da Síria no momento em que ela tenta se levantar”.
Sem o alívio das restrições, os investidores continuarão evitando o país, e as agências de ajuda humanitária poderão ficar receosas em fornecer ajuda humanitária vital à população.
Governo indicado por islamistas
Alguns analistas alertam que pode levar quase dez anos para que o PIB da Síria retorne ao nível anterior à guerra civil e duas décadas para que o país seja totalmente reconstruído. E essas perspectivas podem piorar ainda mais se houver mais instabilidade política.
Assim, antes da começar a enorme tarefa de reconstruir as cidades, a infraestrutura e os setores petrolífero e agrícola, é preciso clareza sobre o novo governo da Síria.
Nesta terça-feira (10/12), os rebeldes que derrubaram Assad, liderados pelo grupo islamista Organização para a Libertação do Levante (Hayat Tahrir al-Sham, ou HTS), anunciaram que o governo interino será comandado por Mohammed al-Bashir, que foi nomeado primeiro-ministro. Bashir disse que foi incumbido de ficar à frente do governo sírio até 1 de março. Em janeiro Bashir havia sido nomeado chefe do “Governo de Salvação”, a administração da província de Idlib e de áreas adjacentes, ligada ao HTS.
O próprio HTS é alvo das rigorosas sanções internacionais, pois é classificado como uma organização terrorista pelos Estados Unidos e pelas Nações Unidas. Nações ocidentais e árabes temem que o grupo tente impor um governo fundamentalista islâmico na Síria.
A agência de notícias Associated Press informou que o governo Biden estava avaliando a possibilidade de retirar o HTS da lista de grupos terroristas, citando dois altos funcionários da Casa Branca. Um deles justificou a decisão afirmando que o HTS é um componente importante no futuro a curto prazo da Síria.
O presidente dos EUA, Joe Biden, disse que os Estados Unidos vão dialogar com todos os grupos sírios, também no âmbito do processo liderado pelas Nações Unidas, para que haja uma transição rumo a um país “independente e soberano”, com uma nova Constituição.
Biden alertou que a Síria está enfrentando um período de risco e incerteza e que os Estados Unidos ajudarão onde puderem.
A União Europeia comunicou que não está em contato com o HTS ou seus líderes e que vai avaliar não só as palavras, mas também as ações do grupo.
O enviado da ONU para a Síria, Geir Pedersen, declarou que os grupos rebeldes “têm enviado boas mensagens” sobre unidade nacional e inclusão, mas reconheceu que o principal desses grupos é considerado terrorista pela ONU. “Falando francamente, também vimos em Aleppo e Hama coisas tranquilizadoras.”
Lento retorno ao cotidiano
Um toque de recolher nacional ordenado pelos rebeldes levou ao fechamento da maioria dos estabelecimentos comerciais em toda a Síria nesta segunda-feira, mas bancos e o comércio começam a reabrir nesta terça. A moeda da Síria continua sendo usada.
O Ministério do Petróleo pediu a todos os funcionários do setor que se dirigissem a seus locais de trabalho a partir de terça-feira, acrescentando que seria fornecida proteção para garantir sua segurança.
O chefe da ajuda humanitária das Nações Unidas, Tom Fletcher, afirmou que sua agência fará tudo o quer puder para apoiar as pessoas necessitadas, incluindo centros de recepção e a distribuição de comida, água, combustível, tendas e cobertores.
Como vários países europeus, inclusive a Alemanha, disseram que suspenderiam a análise de pedidos de refúgio de cidadãos sírios, a agência de refugiados da ONU Acnur pediu “paciência e vigilância” na questão do retorno dos refugiados.
A Áustria foi mais longe do que a maioria dos países da Europa, afirmando que estava preparando um “programa ordenado de repatriação e deportação” para os sírios.
Israel reavalia seu papel regional após queda de Assad
Desde a queda do ditador Bashar al Assad, Israel está observando de perto o que ocorre na Síria. Como frisam analistas, as mudanças no país em revolução apresentam tanto oportunidades quanto riscos.
Na terça-feira (10), o país informou que já atingiu mais de 350 alvos da infraestrutura militar síria nos últimos dois dias, inclusive bases aéreas, a frota naval de guerra e presumíveis locais de desenvolvimento de foguetes de longo alcance e de armazenamento de armas químicas. Um dos alvos se localiza na capital Damasco.
Segundo o ministro israelense do Exterior, Gideon Saar, o objetivo foi evitar que os armamentos caiam em mãos de terroristas. As forças de Israel se deslocaram para uma zona-tampão desmilitarizada que separa os dois países, patrulhada por tropas de paz das Nações Unidas.
Depois, os soldados atravessaram essa zona-tampão, que fica a cerca de 40 quilômetros de Damasco, ou seja: penetraram mais fundo na Síria do que em qualquer ocasião desde 1974, quando os dois países assinaram o Acordo de Desengajamento. Na manhã desta terça-feira, as tropas israelenses estavam a apenas 25 quilômetros da capital Síria, segundo a agência de notícias Reuters.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, explicou que a operação era necessária, porque as Forças Armadas sírias – expressamente leais a Assad – haviam se retirado da área, o que significou “o colapso do acordo de 1974”.
Ele acrescentou que a medida era temporária, só sendo mantida até que haja um novo pacto. “Estabelecer relações de vizinhança pacíficas com as novas forças emergindo na Síria é o nosso desejo. Mas se não for possível, faremos todo o necessário para defender o Estado de Israel e suas fronteiras.”
Contudo Netanyahu ressalvou que “Golã será parte do Estado de Israel por toda a eternidade”. Os israelenses ocuparam as Colinas de Golã em 1967, anexando-as em 1981. Com exceção dos Estados Unidos, a comunidade internacional considera a região síria, e sua ocupação, ilegal.
Críticas crescentes a avanço israelense na Síria
A penetração de Israel na Síria tem sido alvo de críticas internacionais: para a Organização das Nações Unidas, ela viola o Acordo de Desengajamento. Até mesmo os EUA, o aliado mais ferrenho do país, insiste que a operação seja apenas temporária. O Ministério do Exterior da vizinha ao norte Jordânia condenou a mobilização; enquanto para o da Arábia Saudita, as operações militares israelenses levam a crer que o país está determinado a “sabotar as chances da Síria de recuperar sua segurança, estabilidade e integridade territorial”.
“Mesmo que seja temporário, qual é o propósito?”, questiona o reitor da Universidade de Tel Aviv, Eyal Zisser, especialista em assuntos sírios. “Posso entender por que se bombardeie e destrua armamentos químicos que foram abandonados pelo regime da Síria, mas não seguir adiante com as tropas. O clima na Síria não é contra Israel, não é voltado em absoluto na sua direção, ninguém o menciona. Então, por que forçar sua presença nesse quadro?”
“A queda de Assad é, para o Oriente Médio, o equivalente à queda do Muro de Berlim”, resumiu Nadav Eyal no jornal Yedioth Ahronoth de domingo. “Não por causa dele, um ditador fraco e fracassado, mas por aquilo que ele emblema. O Hezbollah foi duramente derrotado por Israel, e os iranianos também levaram uma surra – e eles temiam uma derrota humilhante na Síria.”
O jornalista frisou que grande parte dos serviços de inteligência israelenses, inclusive o militar, foram surpreendidos pela velocidade com que o regime sírio caiu: “Foi uma surpresa para todo mundo, especialmente para Bashar al Assad, os iranianos, a Rússia e o Hezbollah”, confirma o analista Zisser.
“Eu gostaria de enfatizar que não foi uma revolução, protesto ou revolta. Foi a invasão por um exército formado por [líder rebelde Abu Mohammed] al Golani, sob os auspícios da Turquia.” O “lado positivo” para Israel seria que “Bashar al Assad era um elo crítico entre o Irã e o Hezbollah, e agora o Irã não tem mais respaldo sírio. Então é uma evolução importante.”
Sem Assad, Israel diante de uma incógnita
Uma opinião corrente em Israel é que os avanços do Hayat Tahrir al-Sham (HTS) de Golani e de outros grupos aliados não teriam acontecido sem apoio israelense. Segundo Netanyahu, desde que o grupo militante Hamas, sediado na Faixa de Gaza, atacou seu país, em 7 de outubro de 2023, Tel Aviv tem trabalhado “de modo sistemático, calculado e organizado” para desmembrar os aliados do Hamas no eixo iraniano.
O chefe de governo repetiu sua afirmativa de que a queda de Assad foi “o resultado direto dos pesados golpes que demos no Hamas, Hezbollah e Irã”, e que Israel está “transformando a fisionomia do Oriente Médio”. “Isso não teria acontecido sem a derrota do Irã e do Hezbollah no Líbano”, escreveu Amos Harel no diário israelense Haaretz. “Os rebeldes da Síria identificaram a debilidade e confusão do eixo iraniano, e se apressaram para atingir seu elo fraco.”
Analistas atribuem o fim extraordinariamente sumário do regime Assad não apenas ao enfraquecimento dos grupos associados ao Irã: a Rússia também tem sido aliada da família Assad há anos, mantém uma importante base naval na Síria, e em 2015 interveio na guerra civil local com maciças ofensivas aéreas.
Entretanto no momento os russos estão sobrecarregados com a Ucrânia, tendo devolvido ao Leste da Europa grande parte de seus aviões de combate. E aparentemente não estavam dispostos a intervir mais uma vez. Em compensação, ofereceram asilo a Assad e família, os quais atualmente, ao que tudo indica, se encontram em Moscou.
Embora por enquanto os perigos representados pelo Irã e o Hezbollah possam ter diminuído, no longo prazo o próximo governo sírio ainda pode impor uma série de ameaças a Israel. Grupos como o HTS são têm raízes profundas na ideologia extremista, sendo difícil prever seu comportamento no curto prazo.
“No longo prazo, com Bashar al Assad a gente sabia exatamente o que estava ocorrendo, pelo menos nas Colinas de Golã”, observa Zisser. “Agora é uma incógnita. E o povo de Israel está preocupado, exatamente como a Jordânia e outros países.”
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