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Em Gaza, um ano de guerra gerou traumas e ruínas
Publicado em 08/10/2024 11:43 - Gustavo Basso, Lucas Janone e Tania Krämer (DW) – Edição Semana On
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Abraçada aos dois filhos e a mãe, Dala Mahmoud estampava no rosto o desgaste provocado por duas semanas de ataques aéreos até conseguir voltar ao Brasil. “Só o que quero agora é abraçar meus filhos, ficar aqui no sossego, e dormir. Faz 20 dias que eu não durmo, porque ficávamos esperando a qualquer momento uma ameaça que nos obrigaria a ter deixar o local onde estamos”, conta a descendente de libaneses de 38 anos, que visitava o país para cuidar do patrimônio do pai – hoje ameaçado de ruir após bombardeios.
Até pousar na Base Aérea de São Paulo na manhã deste domingo (06/10), a bordo do Airbus A330-200 da Força Aérea Brasileira (FAB), Dala e a família conviveram de perto com os bombardeios realizados por Israel desde o começo de outubro em Beirute. O primeiro voo de repatriação trouxe 229 brasileiros vindos do Líbano, após decolar no dia anterior em Beirute, tendo feito com escala em Lisboa. Dos passageiros, dez são crianças de colo. Além disso, também viajaram três animais de estimação.
“Estávamos no bairro onde eles estão atacando agora, então fugimos para uma aldeia entre a capital e o Bekaa. Atacaram lá de novo no domingo, passado, então saímos correndo. Ficamos no aeroporto, de onde deveríamos partir na quarta, mas nosso voo foi cancelado, e a única esperança foi este voo organizado pela embaixada”, conta.
A operação envolveu o Itamaraty e os ministérios da Defesa e de Desenvolvimento Social. Os recém-chegados foram recebidos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Enquanto houver um companheiro, seja brasileiro ou parente de brasileiro, lá no Líbano que quiser vir para o Brasil, vamos buscar, porque nós não deixaremos ninguém para trás”, disse Lula. “Que vocês encontrem aqui no Brasil a felicidade que tiraram de vocês no Líbano”, completou.
Quem deixou parentes para trás pede agilidade na operação de resgate. Sereem Hijazi deixou a filha e as duas netas em Beirute. Segundo ela, as três estão na lista de brasileiros que serão repatriados, mas não foram selecionadas para este primeiro voo. “Quando a embaixada ligou para confirmar meu lugar, chorei o dia inteiro. Confirmei a presença, mas querendo sair para não deixar minha filha”, se emociona a jordaniana de 57 anos. “Foi ela quem me convenceu a ir.”
Ansiedade de quem espera
Para os brasileiro-libaneses que moram aqui e não tem previsão de rever a família, sobra ansiedade e aflição. Fátima Jebai, de 37 anos, não abandona o celular há dez dias em busca de notícias da terra natal. O maior temor é receber uma mensagem avisando que algo tenha acontecido a seu pai. Morador do sul do Líbano, seu pai, de 61 anos, contrariou o resto da família e não abandonou a terra onde viveu toda a vida. Ao falar dele, Fátima se emociona:
“Ninguém dorme direito. Por causa do fuso horário de seis horas, a partir das duas da manhã já acordamos para acompanhar as notícias de lá. Ninguém gosta de ficar no perigo, mas às vezes eu gostaria de ir para lá somente para não ficar me questionando se vou vê-lo de novo. Será que vou ter a oportunidade de continuar a minha vida com ele e meus parentes agora espalhados pelo país?”, questiona.
A mãe e a irmã abandonaram a cidade natal na região de Tiro, onde viviam, em direção a Beirute. A cidade é a maior do sul do Líbano, principal alvo dos bombardeios israelenses e que concentra maior atividade do grupo Hezbollah.
As duas mulheres, que viajaram acompanhadas da filha pequena, se juntam às quase 350 mil pessoas deslocadas no Líbano, de acordo com a agência da ONU Organização Internacional para as Migrações (OIM). Cerca de 137 mil delas estão vivendo em abrigos improvisados, como escolas e mesquitas, abertas aos refugiados.
“Minha irmã, que está grávida, junto com a minha mãe e com a minha sobrinha de três anos, ficaram no trânsito por dez horas. Dez horas em um percurso de 80 quilômetros até Beirute, que leva normalmente uma hora e dez minutos, até conseguirem chegar lá com a estrada repleta de carros e explosões ao longe”, conta a designer de interiores que diz não conseguir trabalhar desde o início dos mais recentes ataques de Israel no Líbano.
A meta agora é tirar a família do país. Sua prima chegou ao Brasil esta semana após fazer três escalas, a última delas em Atenas, até chegar a São Paulo, onde mora Fátima e parte de sua família.
Voos de repatriação
Para ajudar no esforço de remover cidadãos brasileiros do Líbano, o governo brasileiro deu início na última semana à Operação Raizes do Cedro. De acordo com o Ministério das Relações Exteriores (MRE), mais de 3 mil já preencheram o formulário que solicita ajuda para retornar ao Brasil. E a expectativa é que o número de pedidos cresça ainda mais nos próximos dias. Com apenas uma aeronave em operação, ao menos 14 voos serão necessários, exigindo agilidade na logística. O comandante da Aeronáutica Marcelo Kanitz Damasceno afirmou que a segunda missão teria início já neste domingo.
Caso a missão seja bem-sucedida, será a maior repatriação da história do país. Em 2023, o governo brasileiro resgatou cerca de 1,5 mil pessoas da Faixa de Gaza, após o início do confronto contra o Hamas. Até então, a maior repatriação da história. Em 2022, cerca de 100 pessoas foram repatriadas da Ucrânia, momentos depois do início da invasão russa do país.
O Itamaraty estima que 21 mil brasileiros morem no Líbano – formando a maior comunidade brasileira no Oriente Médio e uma das maiores no mundo.
No caminho oposto, os dados mais recentes da embaixada do Líbano no Brasil mostram aproximadamente 10 milhões de libaneses vivendo em solo brasileiro. Isso representa mais que o dobro de pessoas que vivem no próprio país do Oriente Médio.
Passaporte libanês
Única na família com passaporte brasileiro, a dona de casa Fátima Faris, de 51 anos, não vê saída para os membros da sua família. Na última sexta-feira, sua sobrinha e os três filhos foram despertados por uma explosão próxima da casa onde vivem.
“Meu irmão pulou da cama, saiu gritando, procurando o filho, checando se estava tudo bem. Porque na hora que estoura a bomba, as casas tremem, o prédio treme, e você vai procurar seus filhos nos quartos, se estão na cama, se estão vivos”, conta a libanesa há 21 anos radicada no Brasil, que comenta aliviada. “Ninguém se machucou, não caiu o vidro…Porque, na hora, você não sabe se o prédio está caindo, o mundo está caindo, se está todo mundo vivo ou não. É um terror”.
Ela completa emocionada: “Por lá ninguém faz planos de um ou dois anos, porque não sabe se amanhã vai acordar ou morrer”.
O filho de 23 anos passa o tempo conferindo a destruição em vídeos enviados pelos primos hoje moradores do Vale do Beqaa. Pela primeira vez em anos não viajou ao país, durante as férias de julho. Na última explosão recente, a estrada que liga o Líbano à Síria foi atacada, impedindo o trânsito de veículos na principal ligação entre os vizinhos. Mais de 175 mil pessoas já cruzaram a fronteira Líbano-Síria nas últimas duas semanas.
Como jusfiticativa, Israel afirmou que a rodovia era usada por membros do Hezbollah para importação de armamentos. Hoje quem cruza a região são pedestres com malas sobre as suas cabeças, uma situação que ela lamenta. Um lamento que se torna ainda mais forte quando folheia um livro de fotos do país antes e depois da última invasão, realizada em 2006. Um trauma ainda muito vivo para ambas as Fátimas.

Dala Mahmoud estava no primeiro voo que chegou ao BrasilFoto: Gustavo Basso/DW
Em Gaza, um ano de guerra gerou traumas e ruínas
“Em 7 de outubro, acordamos com o som de foguetes. O som era terrível, a situação era terrível, aí começamos a assistir ao noticiário e ficamos sabendo o que havia acontecido”, relata Warda Younis por mensagem de texto, do norte de Gaza. “Daquele dia em diante, o medo mais profundo começou e nunca mais foi embora.”
Desde os ataques do Hamas ao sul de Israel em 2023, nada mais foi o mesmo para os residentes da Faixa de Gaza. Até então, Israel e Egito controlavam rigidamente as fronteiras do enclave. Porém na madrugada de 7 de outubro, militantes liderados pelo Hamas lançaram mísseis e romperam as cercas da fronteira, invadindo comunidades e bases militares no sul de Israel.
Cerca de 1.200 morreram no ataque, e os radicais levaram 250 reféns para Gaza. Os militares israelenses retaliaram no mesmo dia, com pesados ataques aéreos e de artilharia em todo o enclave palestino.
“Perdi minha melhor amiga no terceiro dia da guerra. A casa dela foi completamente bombardeada, e eu me lembro que fiquei tão chocada, mentalmente esgotada”, conta Younis, que morava no sétimo andar de um prédio de apartamentos do bairro de Sheikh Radwan, no norte da Cidade de Gaza.
Gaza está familiarizada com o conflito. Israel e o Hamas já travaram quatro guerras desde 2007, quando o grupo tomou o poder da Autoridade Palestina. Ainda assim, muitos não esperavam que a atual durasse tanto tempo e fosse tão devastadora.
De acordo com o Ministério da Saúde de Gaza, que não faz distinção entre civis e combatentes, mais de 41,4 mil foram mortos no enclave no último ano. Outros 96 mil ficaram feridos, e pelo menos 10 mil estão desaparecidos.
“Comemos folhas de árvores e grama”
Os suprimentos de Gaza se esgotaram rapidamente nas primeiras semanas da guerra, quando Israel impôs cerco total. Durante meses, as Nações Unidas chamaram a atenção para o alerta de agências de ajuda humanitária sobre a fome iminente no norte de Gaza, o que foi desconsiderado por Israel.
Younis que não conseguiu encontrar farinha nem pão durante esse período. “Chegamos ao ponto de comer folhas de árvores e grama. Nunca na vida imaginamos que fosse possível comer isso.”
Quando os primeiros comboios de ajuda chegaram ao norte, ela testemunhou disputas por comida e itens básicos que terminaram em violência e morte. Durante um tempo, organizações voltaram a realizar lançamentos aéreos, pois a pressão internacional não bastou para convencer Israel a abrir mais passagens para a entrega de ajuda.
“Eu costumava ir ao local onde a ajuda era lançada de balões todos os dias”, relata Younis. “Eu corria para pegar alguma coisa, e no fim não conseguia nada, porque tinha bandidos controlando tudo.” A disponibilidade de alimentos melhorou desde então, mas para ela o medo e a exposição diária à morte permanecem.
Trauma profundo
Nos últimos 12 meses, Younis e seus três filhos adolescentes foram deslocados nove vezes. Como muitos outros em Gaza, ela perdeu a noção do tempo enquanto buscava refúgio constantemente.
Em meados de outubro de 2023, as Forças Armadas israelenses ordenaram que os habitantes do norte de Gaza se deslocassem para o sul. Mas Younis decidiu permanecer, apesar de ter membros da família para acomodá-la e a seus filhos na cidade de Khan Younis, a cerca de oito quilômetros da fronteira de Gaza com o Egito.
O norte de Gaza agora está quase totalmente isolado do corredor Netzarim, uma estrada com postos de controle militares tripulados por Israel. A maioria dos 2,2 milhões de habitantes do enclave está agora desalojada, amontoada no sul de Gaza, e muitos dependem de assistência e de instituições de caridade, segundo as agências competentes.
Amjad Shawa sempre trabalhou no setor humanitário como chefe do grupo PNGO, que representa ONGs palestinas. Depois de ser evacuado, ele montou um novo escritório em Deir al-Balah, na região central de Gaza, como um centro para as agências de ajuda se reunirem, terem acesso à internet e um teto sob o qual trabalhar. Como muitos outros palestinos em Gaza, ele não queria deixar sua casa e seu escritório na Cidade de Gaza, quando chegaram as ordens de evacuação do Exército israelense, em 13 de outubro.
“Hesitei em sair, mas fomos sob a pressão da minha família. Eu disse a eles que seria apenas por algumas horas e que voltaríamos. Não levei nada de casa. Essas poucas horas, esses poucos dias se tornaram um ano agora.”
O assistente social estima que haja cerca de 1 milhão estejam alojados em Deir al-Balah, muitos vivendo em tendas ou abrigos improvisados com lonas e plásticos. Outros encontraram apartamentos ou estão hospedados na casa de parentes.
“Posso ver isso nos rostos deles. A maioria está profundamente traumatizada. Elas perderam tudo. Muita gente perdeu entes queridos. A maioria perdeu sua renda, suas casas.”
Shawa crê que muitos querem retornar para o norte de Gaza, mesmo que suas casas tenham desaparecido, mas isso depende de um acordo de cessar-fogo entre Israel e o Hamas.
Trabalho de assistência ajuda a “criar alguma esperança”
Ser um funcionário humanitário em Gaza é arriscado, afirma Shawa. Muitos morreram tentando ajudar outros necessitados ou perderam entes queridos: “Não podemos ‘lidar’ com isso. E na ausência de qualquer horizonte, às vezes é preciso criar alguma esperança para quem está ao redor.”
Para ele, a Gaza onde nasceu e cresceu não existe mais. Mais de 60% das casas do território, já danificadas por guerras anteriores, sofreram novos danos no conflito atual. Escolas, hospitais e empresas também estão em ruínas. As Nações Unidas estimam que os ataques aéreos israelenses e os combates terrestres produziram 40 milhões de toneladas de entulho no território.
O assistente social destaca que muitos perderam a fé na ajuda de outros países e de organizações globais: “O que estamos testemunhando também se deve ao fracasso da comunidade internacional em acabar com essa guerra ou, pelo menos, em proteger os civis.”
Famílias marcadas pela perda
Rita Abu Sido e sua família não tinham essa proteção. Os primeiros meses da guerra continuam sendo um borrão para a jovem de 27 anos. Agora, ela está no Egito com sua irmã, Farah, recebem tratamento médico para ferimentos complexos sofridos em Gaza. Elas são as únicas sobreviventes do núcleo de sua família.
“O bombardeio aconteceu à meia-noite de 31 de outubro. Eu estava acordada e disse à minha irmã Farah que poderíamos morrer. Ela se lembra de tudo. Eu só sonho com isso”, conta Rita por telefone, do Cairo.
A mãe de Abu Sido, suas duas irmãs mais novas, de 16 e 15 anos, e seu irmão mais novo, de 13, morreram naquela noite em Rimal, no centro da Cidade de Gaza. Ela e a irmã, uma comissária de bordo estagiária que estava visitando Gaza quando a guerra começou, foram levadas para o principal hospital de cidade, o Shifa, sem identificação.
Abu Sido sofreu convulsão pulmonar e queimaduras de terceiro grau, sua irmã teve a pélvis quebrada e ferimentos na coluna vertebral. Com a aproximação dos combates e devido à gravidade dos ferimentos, ambas foram transferidas para o Hospital Europeu em Khan Younis.
“Fiquei mal psicologicamente. depois que soube da perda de toda a minha família. Levei tempo para entender a localidade e a situação. Fiquei agressiva e nervosa.”
Com a ajuda de amigos da família, em fevereiro as irmãs conseguiram sair de Gaza pela passagem de Rafah, para tratamento médico e reabilitação no Egito. Abu Sido está recuperando a voz, que perdeu por algum tempo, e sua irmã está fazendo fisioterapia. Mas ela crê que o trauma de perder a família a perseguirá pelo resto da vida.
Embora estejam seguras no Egito, sua situação é precária. A maioria dos habitantes de Gaza que conseguiu escapar para o país vizinho não tem status legal e depende do apoio de parentes ou de instituições de caridade.
Ainda não se sabe se Abu Sido poderá retornar a Gaza: é uma decisão política sobre a qual ela não tem controle. “Voltar a Gaza parece ser um desafio. Levará tempo. A próxima geração, a nossa geração, precisa ter a vontade de reconstruir.”
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