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Mato Grosso do Sul

Tarifas dos EUA atingem exportações de MS, mas não tanto

Setores do agro no Estado são investigados por financiamento do golpismo

Publicado em 11/07/2025 11:52 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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Mato Grosso do Sul se vê no centro de uma encruzilhada que é, ao mesmo tempo, econômica, geopolítica e moral. O tarifaço de 50% imposto pelo governo de Donald Trump sobre produtos brasileiros, em especial carne bovina e celulose, influencia diretamente o setor produtivo do estado. Mas a comoção oculta um detalhe ainda mais profundo: parte do agronegócio local — o mesmo que agora se diz prejudicado — está envolvido em esquemas golpistas que tentaram desestabilizar a democracia brasileira em 8 de janeiro de 2023. A crise, portanto, transcende os limites do comércio internacional: ela expõe contradições estruturais do modelo agroexportador brasileiro e seus vínculos com projetos autoritários de poder.

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A decisão do governo norte-americano, que entra em vigor em 1º de agosto, atingiu em cheio o segundo principal destino das exportações sul-mato-grossenses. De acordo com a Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul (FIEMS), entre janeiro e junho de 2025, o estado exportou US$ 315,9 milhões para os EUA, alta de 11% em relação ao mesmo período do ano anterior. Só a carne bovina desossada e congelada, responsável por 45,2% das exportações ao país, somou mais de US$ 142 milhões.

A celulose, por sua vez, é hoje o carro-chefe das vendas externas do estado — movimentou US$ 1,7 bilhão no semestre, um crescimento expressivo de 65,2%. Mas o impacto da medida é relativo: os EUA, apesar da retórica alarmada do setor, não figuram entre os três principais compradores do produto. A China lidera com 53,5% do volume adquirido, seguida por Itália e Holanda, segundo o Sindicato das Indústrias de Papel e Celulose do Estado (SinpaceMS).

A retórica do pânico, portanto, revela-se desproporcional quando se observa que os EUA respondem por apenas 5,97% das exportações do estado, segundo relatório da Semadesc (junho/2025). A China, sozinha, abocanha 47%. Como apontam os dados, outros mercados como Argentina e Itália vêm ganhando espaço nas vendas externas, o que relativiza o impacto imediato da medida de Trump.

Ainda assim, há consequências concretas e imediatas. Como explicou Aldo Barigosse, analista de comércio exterior, “a perda de competitividade é um dos principais impactos da nova taxação”, o que pode afetar o emprego e o investimento no setor. Marcelo Bertoni, presidente da Famasul, relatou que frigoríficos já suspenderam compras, à espera de uma reabertura de mercado com preços mais baixos. Mas a reação do setor empresarial não tem sido apenas técnica — tem sido também política.

E é justamente nesse ponto que se desvela a camada mais profunda da crise.

O agro e a erosão democrática

Alguns nomes do agronegócio de MS figuram como suspeitos de financiar atos golpistas no Brasil. A delação de Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, revelou o envolvimento de representantes do setor rural sul-mato-grossense nas manifestações que culminaram na tentativa de golpe em Brasília. Um deles é Tenente Portela, suplente da senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura de Jair Bolsonaro.

Outro nome citado é Christiano da Silva Bortolotto, ex-presidente da Aprosoja-MS e alvo da 26ª fase da operação Lesa Pátria. Bortolotto é acusado de organizar comboios para os atos em Brasília e estimular bloqueios de rodovias. Setores do agronegócio sul-mato-grossense não só são suspeitos de financiar ações antidemocráticas, como tem um histórico de conflito com povos indígenas, como os Guarani Kaiowá de Tekohá Kurusu Ambá.

Protecionismo e hipocrisia

A taxação imposta por Trump não é um movimento isolado. Ela faz parte de uma nova onda de protecionismo econômico com viés político, que visa pressionar parceiros comerciais e agradar eleitores internos, especialmente em estados rurais americanos.

A ironia é amarga: os mesmos representantes do agro brasileiro que apoiaram Donald Trump e Jair Bolsonaro, e que pregaram uma retórica antiglobalista, agora protestam contra a política protecionista dos EUA — uma das marcas do trumpismo.

Como observa o cientista político Christian Lynch, da UERJ, “o bolsonarismo e o trumpismo compartilham de uma lógica antiliberal na política e liberal na economia — até que os ventos do mercado soprem contra”.

Dependência e miopia estratégica

A dependência crescente da China e a perda de espaço nos EUA revelam outro problema: a falta de diversificação estratégica. O modelo agroexportador brasileiro é extremamente vulnerável a choques externos — sejam eles comerciais, climáticos ou políticos. A insistência em priorizar commodities em vez de valor agregado condena o país à posição de fornecedor de matéria-prima, sujeito aos humores das grandes potências.

Além disso, a recusa de setores do agro em aceitar as regras da democracia, aliada à resistência a políticas ambientais e de inclusão social, cria um ambiente tóxico que afasta investimentos internacionais. Empresas globais já sinalizam que critérios ESG (ambientais, sociais e de governança) serão cada vez mais decisivos nos fluxos comerciais — e o agro brasileiro, ao resistir a essa agenda, cava sua própria instabilidade.

Um chamado à responsabilidade

O tarifaço de Trump é, antes de tudo, um alerta. Ele revela as contradições de um setor que se vê como motor da economia, mas que rejeita as bases do Estado democrático. Que clama por livre mercado, mas se recusa a respeitar as normas do jogo político. E que acusa governos estrangeiros de sabotagem, enquanto sabota as próprias instituições nacionais.

A resposta não está apenas na diplomacia comercial, mas na reconstrução de um pacto social que coloque a democracia e os direitos humanos acima do lucro imediato. Um agronegócio moderno, eficiente e ético deve se dissociar de práticas autoritárias e se alinhar com as exigências de um mundo cada vez mais atento à sustentabilidade — no campo, na política e na ética.

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