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Mato Grosso do Sul
Ação nacional revela rota de distribuição de substância tóxica ligada a mortes
Publicado em 16/10/2025 1:13 - Semana On
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Em uma ofensiva coordenada para conter a adulteração de bebidas alcoólicas com metanol — substância altamente tóxica e potencialmente letal — a Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (16) a Operação Alquimia, com foco em três cidades de Mato Grosso do Sul: Campo Grande, Dourados e Caarapó. As ações miram fábricas e usinas clandestinas suspeitas de integrar uma cadeia criminosa que envolve importadores, distribuidoras químicas e destilarias, num esquema com ramificações em pelo menos outros sete estados brasileiros.
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A operação nacional envolve ainda a Receita Federal, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) e o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O objetivo principal é rastrear a rota do metanol utilizado na falsificação de bebidas alcoólicas e verificar se o produto identificado nos alvos de hoje tem relação com amostras já periciadas em investigações anteriores.
Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil já soma 36 casos confirmados de intoxicação por metanol, com sete mortes oficialmente registradas — cinco em São Paulo e duas em Pernambuco. Outros 156 casos seguem em investigação e há 11 mortes sob análise.
“Estamos atentos. O cenário ainda é grave, e seguimos em alerta máximo”, afirmou Edenilo Baltazar Barreira Filho, diretor do Departamento de Emergências em Saúde Pública do Ministério da Saúde, durante audiência no Senado na quarta-feira (15).
De MS ao Brasil: uma rede de risco
A escolha de Mato Grosso do Sul como ponto focal da operação não é casual. O estado investiga quatro casos recentes de intoxicação por bebidas possivelmente adulteradas, segundo a Secretaria Estadual de Saúde. Os focos de fiscalização incluem fábricas clandestinas e usinas de etanol que podem estar desviando metanol para a produção ilegal de bebidas.
Ao todo, as autoridades recolhem amostras em 24 empresas localizadas em 21 municípios brasileiros, entre eles cidades estratégicas no transporte, importação e refino do metanol: terminais marítimos, distribuidoras químicas e destilarias com histórico suspeito. Em várias delas, notas fiscais indicavam rotas de entrega fictícias, com caminhões e motoristas que jamais chegaram aos destinos registrados.
A Operação Alquimia é um desdobramento das operações Boyle e Carbono Oculto, ambas centradas no uso irregular de metanol em combustíveis. A Carbono Oculto, em especial, revelou um esquema no qual empresas químicas compravam metanol importado de forma regular e o repassavam a empresas de fachada. Estas, por sua vez, faziam o desvio da substância para postos de combustível, onde o metanol era adicionado ilegalmente à gasolina vendida ao consumidor. Agora, investiga-se o uso dessa mesma substância em bebidas.
A cadeia do metanol
Na rota do produto estão importadores, que introduzem o metanol no Brasil com fins industriais; terminais marítimos, onde a substância é armazenada em grande escala; e empresas químicas, que deveriam usá-la legalmente, mas são suspeitas de desvio. Também estão na mira destilarias, que supostamente teriam comprado o produto por meio de empresas “noteiras” — aquelas que emitem notas fiscais fraudulentas para encobrir transações ilegais — e usinas de etanol, cuja estrutura pode estar sendo usada para camuflar a produção de bebidas falsificadas.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o limite aceitável de metanol em bebidas alcoólicas é de 0,1%. Acima disso, os riscos à saúde são graves. Para se ter ideia, o teor permitido em combustíveis — 0,5% — já seria suficiente para causar cegueira, falência renal ou morte, se consumido.

O impacto da clandestinidade
O mercado ilegal de bebidas alcoólicas não é novidade, mas atinge níveis preocupantes. De acordo com o Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP), as perdas econômicas com a falsificação, contrabando e produção clandestina de bebidas chegam a R$ 85,2 bilhões por ano, incluindo a sonegação de tributos.
A dimensão do prejuízo financeiro se soma ao risco à vida: o metanol, incolor e de odor suave, é facilmente confundido com o etanol, e seus efeitos tóxicos demoram a se manifestar, o que dificulta a detecção precoce após a ingestão.
Omissão e fragilidade institucional
A repetição de operações policiais com foco no metanol, agora deslocando o problema do combustível para a bebida, evidencia um ciclo vicioso de fragilidade regulatória. As irregularidades ocorrem ao longo de toda a cadeia — da importação ao varejo — e só vêm à tona quando os efeitos chegam ao sistema de saúde. A fiscalização, fragmentada entre órgãos, raramente antecipa o problema.
A atuação coordenada entre Polícia Federal, Receita, ANP e Mapa é uma reação tardia, mas necessária. Falta, porém, uma resposta estruturante: um sistema nacional de rastreabilidade de produtos químicos sensíveis, especialmente os com potencial letal, como o metanol.
Como alerta o jurista e especialista em segurança regulatória Walter Maierovitch, “a ausência de um sistema integrado de controle químico no Brasil é uma porta aberta para o crime organizado sofisticado”.
O que vem a seguir
Os materiais apreendidos hoje seguem para análise no Instituto Nacional de Criminalística, em Brasília. Os laudos serão cruzados com exames anteriores para confirmar a origem e o destino do metanol apreendido.
A expectativa é que os resultados ajudem a consolidar provas contra empresas envolvidas no desvio da substância, abrindo caminho para responsabilização penal e cível dos responsáveis. Enquanto isso, autoridades de saúde reforçam o alerta à população: evitar bebidas de procedência duvidosa e denunciar práticas suspeitas às vigilâncias sanitárias locais.
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