25/02/2024 - Edição 525

Mato Grosso do Sul

Em meio aos incêndios no Pantanal, arara-azul pode voltar à lista dos ameaçados de extinção, diz bióloga

Publicado em 06/10/2020 12:00 -

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A bióloga Neiva Guedes, maior especialista do país em araras-azuis, fez sobrevoos e visitas a campo no Pantanal de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul em setembro, para verificar os impactos das queimadas sobre a espécie. E encontrou um cenário desolador: extensas áreas queimadas, perda de habitat, animais com fome e indícios do aumento da captura das aves para venda por traficantes de animais. Para Guedes, as araras-azuis podem voltar para a lista de animais ameaçados de extinção.

"Houve um misto de emoções ao sobrevoar o Pantanal por cinco dias. De início, a sensação é de desespero, de que tudo está perdido. É desolador. Mas, andando no campo, tivemos algumas surpresas. Sensações boas e outras ruins. Talvez nem tudo esteja perdido, porém, elas [araras-azuis] poderão voltar para a lista dos animais brasileiros ameaçados de extinção", afirmou.

Segundo Neiva, que é presidente do Instituto Arara Azul, o período de pós-fogo trouxe muita fome significou perda de habitat para a espécie. No Pantanal de Mato Grosso, ela cita a região do Barão de Melgaço, onde se concentra a maior população de araras-azuis livres na natureza. Já em Mato Grosso do Sul, ela fala do município de Miranda, região oeste do estado, onde está o Refúgio Ecológico Caiman, considerado o maior centro de reprodução da espécie.

Como as araras são "especialistas" e comem somente frutos das palmeiras acuri e bocaiuva, o que restou como alternativa foram os frutos queimados. Ainda conforme Neiva, isso causou lesões, semelhante a queimaduras, na cloaca (órgão por onde aves e alguns outros animais excretam seus resíduos orgânicos: fezes e urina). Outro problema foi a perda de ninhos, por conta das árvores incendiadas.

Na questão criminal, o que preocupa os especialistas da espécie é a continuidade do tráfico deste animais. No dia 26 de setembro, por exemplo, a polícia interceptou dois paraguaios tentando atravessar a fronteira com uma arara-azul em uma sacola plástica. A intenção era vender no mercado ilegal de aves.

"A PMA [Polícia Militar Ambiental] foi acionada em seguida e foi até Bela Vista. Nós percebemos que se tratava de um animal adulto, e eles [criminosos] apontaram o local exato em que pegaram a arara, e nós a devolvemos em seu habitat", explicou o tenente-coronel da PMA, Ednilson Queiroz.

Doação para brigadistas e animais

No último dia 5, voluntários entregaram água e comida para brigadistas que trabalham no combate ao fogo no Pantanal. Animais, que sofrem com a seca, receberam alimentos. Foram arrecadados 7 mil litros de água potável e, no barco, além das garrafas, muitos voluntários também receberam cartinhas de crianças com agradecimentos.

"Como a queimada pegou praticamente em todo a vegetação, muitos animais que se alimentavam das frutas, que eram oriundas da vegetação nativa, ficaram sem ter o que comer. E é por isso que houve essa ação para tentar amenizar a situação que a gente está passando. ", afirmou o capitão Diego Ferreira.

Combate ao fogo

Uma megaoperação, com emprego de mais de 400 homens e mulheres, dezenas de viaturas e barcos e seis aeronaves, foi desencadeada nesta semana pelo Governo de Mato Grosso do Sul para o enfrentamento a reincidência dos incêndios florestais no Pantanal e no Cerrado.

A Operação Estiagem 2020, que se desmembra em várias frentes de ação, passa a contar com 47 combatentes da Força Nacional e 21 bombeiros de Santa Catarina, os quais já se encontram no Estado. A força-tarefa conta ainda com bombeiros de MS e do PR, brigadistas do Ibama e ICMbio e fuzileiros navais da Marinha.

Com o aumento dos focos de calor, a estrutura montada (combatentes, equipamentos, viaturas e aeronaves) está sendo redimensionada pelo comando central da operação, situada na Marinha, em Ladário.

As bases operacionais funcionarão a partir de Corumbá, Ivinhema, Miranda (Fazenda Bodoquena) e Coxim. Corumbá terá uma sub-base na reserva Acurizal, responsável pelas ações na região da Serra do Amolar; Bodoquena atuará no Parque Estadual do Rio Negro; Coxim, no Parque Estadual Nascentes do Taquari; e Ivinhema, no Parque Estadual de Ivinhema.

Apoio de helicóptero

A guarnição da Força Nacional direcionada pelo governo federal para auxiliar no combate aos incêndios florestais, composta por militares de 15 estados, chegou a Campo Grande no último dia 5. O emprego da corporação foi determinada por meio da Portaria nº 556, do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

A Força Nacional atuará “em caráter episódico e planejado, por 30 dias, em combate aos focos de calor, em atividades de defesa civil e defesa do meio ambiente e nos serviços imprescindíveis à preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio”.

O comando da Força Nacional se reuniu com a coordenação da Operação Estiagem 2020 e com a Defesa Civil Estadual, oportunidade em que tomou conhecimento do terreno a ser combatido, das especificidades de cada região (Pantanal e Cerrado) e as estratégias de combate aos focos de calor.

No encontro, o coordenador-geral de operações da Força Nacional, tenente-coronel Wilson Melo, do Ceará, adiantou que um helicóptero da corporação com capacidade para lançamento de água será incorporado à operação, procedente de Poconé (MT).

Somatória de esforços

Segundo o oficial, os 47 policiais militares da Força tem formação em combate a incêndios florestais, com experiências em missões especiais, como o socorro a população de Brumadinho e resgate das vítimas do ciclone em Moçambique.

O comandante da operação, coronel Marcos de Sousa Meza, informou que mais de 400 militares e civis formam a nova força-tarefa, com os combatentes da Força Nacional sendo distribuídos para atuarem na região de Sonora e Corumbá, para onde se deslocarão também os 21 bombeiros de Santa Catarina.

“Trata-se de uma integração entre todas as forças para enfrentamento de uma situação atípica de seca e fogo, onde nossos bombeiros estiveram operando em Mato Grosso, da mesma força que o vizinho Estado nos enviou aeronaves. Agora, contamos com o apoio da Força Nacional e dos bombeiros catarinenses”, explicou Meza.

A tropa da Força Nacional foi apresentada na manhã desta segunda-feira ao comando do Corpo de Bombeiros de Mato Grosso do Sul, em ato realizado no Centro de Proteção Ambiental (CPA), no Parque das Nações Indígenas.

Na oportunidade, o comandante do CB/MS, coronel Joílson Alves do Amaral agradeceu, em nome do governador Reinaldo Azambuja, o apoio do governo federal à Operação Estiagem 2020. “Enfrentamos uma situação alarmante, nunca vista há pelo menos 50 anos, e a presença da Força Nacional representa uma somatória de esforços para debelarmos estes incêndios”, disse.


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